Achados & Perdidos
1 Jovens Adultos?
Notas iniciais
Respirei fundo.
Meses de tortura em aulas machistas para chegar aqui, neste volante.
Desde pequeno, um dos meus maiores sonhos havia sido dirigir, e num mundo perfeito, assim que completasse dezoito anos, lá estaria eu, brincando de Regina George, ordenando meus amigos a entrarem no carro para fazermos compras. Mas é claro que não aconteceu dessa maneira, e, naquele momento, com vinte anos, eu me utilizava de todas minhas energias vitais para não vomitar no colo da instrutora ao meu lado.
O exame prático, a última prova, era a única coisa entre mim e a carteira de motorista, mas nunca imaginei que este obstáculo viria com uma carrasca de bônus.
— Quando quiser — ela disse, com uma prancheta cor de reprovação.
Apenas uma outra maneira de dizer que eu estava demorando muito, e respirei fundo novamente. Era um percurso simples. Não havia com o que me preocupar, pois todas as aulas práticas foram focadas para culminar aqui.
Ligar seta. Entrar na rua. Dar voltinhas. Estacionar em subida. Baliza. Ok.
Confiança eu tinha no meu aprendizado, pois estava indo bem nas aulas, mas outra coisa que eu também tinha era ansiedade, e uma meio que eliminava a outra, na ordem natural das coisas.
Depois de batucar os dedos imóveis no volante algumas vezes, pude notar a carrasca erguer uma das sobrancelhas por trás dos óculos. Coloquei a mão na chave de ignição, para dar a partida, mas parei no mesmo instante.
Os retrovisores.
A primeira coisa era ajustar os retrovisores.
Sorri de leve e soltei um suspiro mais calmo. Ia dar tudo certo.
Arrumei os espelhos, dei a partida, puxei o freio de mão e liguei a seta. Até então, tudo bem. Tirei o carro da calçada, entrando na rua, prestando atenção se um carro, ou o ceifador sinistro apareciam atrás de mim, e tudo estava tranquilo, rua deserta.
Com o canto dos olhos pude perceber a moça fazendo umas anotações em sua prancheta, mas ela não parecia estar brava ou enojada de estar no mesmo carro que eu, então encarei a falta de expressão como um sinal positivo.
Fomos andando por algumas ruas enquanto ela olhava para frente sem dizer nada. Haviam placas indicando qual caminho seguir, então eu tinha certeza que não havia saído do percurso oficial da prova. Nunca ultrapassei os vinte e cinco quilômetros por hora, como me foi instruído.
— Dia bonito, né? — eu disse.
— Estacione depois daquela lombada — ela apontou com sua caneta, quando entramos em uma subida.
Ignorei o balde de gelo para prestar atenção no fato de que já sabia sobre a estacionada em subida, e que havia treinado para isso, para não entrar em pânico. Foi tudo certo, assim como a baliza, alguns momentos depois, que pela graça do Universo, eu não havia passado demais em nenhuma das referências e o carro estava estacionado da maneira mais bonita que eu já havia conseguido fazer.
Eu estava contando a quantidade de setas que dava, para garantir que nenhuma passasse esquecida, e, quando finalmente estacionei o carro no local de partida, finalizando a prova, olhei sorridente para a carrasca que fazia umas últimas anotações na prancheta.
Ela tirou um carimbo do bolso e o afundou no papel com a força de mil demônios.
Meu sorriso falhou por um segundo.
Ela me entregou o papel e saiu do carro, sem dizer uma palavra.
Reprovado.
Um grande X vermelho acompanhado por uma anotação de caneta vermelha, onde pude ler “Não botou o cinto de segurança”.
— Olha… — disse Pan, com a boca cheia de sorvete, apontando a colher para mim, no sofá — Se nem esses filmes bosta de terror estão te animando, eu sei que foi péssimo mesmo.
— Não são bosta.
— Então sorri — ela me empurrou com o ombro. — não deve ter sido tão ruim assim…
— Foi.
Agradeci por ela parar por ali, e me deixar em paz um pouco.
Pan era minha colega de apartamento. Fazíamos a mesma faculdade, cursos diferentes, e nos conhecemos através de um amigo em comum, que ligou os pontos e percebeu que ambos procuravamos alguém para dividir um apartamento. Até que convivíamos bem. É claro que, vez ou outra, nos irritavamos demais, mas nunca faltamos com respeito, como naquele lindo momento em que ela me deixou em paz.
O único problema é que, mesmo com a gente aguentando a barra por dois anos de estudos, o aluguel estava começando a pesar, e precisavamos de mais alguém pra entrar na brincadeira.
— A vida adulta é uma bosta. — murmurei.
— É sim, xuxu. — ela respondeu — por que você acha que não fazem filmes de terror com criança?
— Pra evitar traumas?
— Também. Mas porque criança nenhuma quer morrer.
— Elas ouvem Lana del Rey hoje em dia. Todo mundo tá querendo morrer.
— O que eu quero dizer é — ela me interrompeu — filmes de terror só tem adulto, porque ser adulto é uma bosta. — seu tom era bem didático — Daí a gente vê outros adultos se ferrarem porque não conseguem segurar os impulsos sexuais em uma floresta, e morrendo por motivos bestas, e a gente se sente mais incentivado. Mais inteligente.
Ela ficou esperando uma resposta minha, enquanto um cara era dilacerado na televisão por um assassino mascarado.
— Se bem que a gente não é adulto ainda.
— É…
— Quer dizer — me corrigi — nas responsabilidades, sim. A gente tá sofrendo como qualquer adulto, mas… Lembra do The Sims?
— Lembro — ela assentiu, um pouco confusa, com um tom hesitante..
— Se a gente fosse jogar The Sims hoje, nosso bichinho seria jovem adulto, em vez de adolescente. Não… Adulto.
— Toma — ela me entregou o pote de sorvete, com um tom preocupado na voz — você tá precisando mais do que eu.
— Idiota — eu ri — vou te chamar de Pantéia por uma semana.
— Não — ela me olhou, incrédula, apertando seu cobertor contra o corpo — Não faria isso.
Pantéia era seu nome completo, mas ela sempre se apresentava como Pan. Eu fazia parte do pequeno grupo seleto de pessoas que conhecia seu nome verdadeiro, e grande parte do motivo era porque recebia suas correspondências no apartamento, senão, duvido muito que ela teria me contado. Ela odiava o nome. Seus pais defendiam que “De todos os deuses” era um significado maravilhoso, e que ela devia ser orgulhar, mas é claro que ela não prestava atenção.
Eu até que gostava.
— Foi o cinto — eu disse, com uma colher exageradamente grande de sorvete na boca.
Ela olhou pra mim, sem entender.
— Eu esqueci de colocar o cinto — repeti.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— Oh…
Quando Pan absorveu a informação, eu pude ver seu rosto transformar-se na expressão de dó mais odiável do mundo.
— Sem dó, por favor. — eu fechei os olhos, prevendo.
— Tadinho.
— Nãaaaao. — tampei os ouvidos — Eu sou alérgico a dó.
— Você é alérgico a simpatia humana, sua pedra.
Ela derrubou o cobertor no chão em seu caminho para o meu lado do sofá e me deu um abraço apertado.
— Saaaai — eu disse, mas não a impedi de me abraçar.
— Você precisa de um desses — ela murmurou, com a voz abafada por meu cabelo — pra ver se conserta seu coração partido. Porque abraço não cura burrice.
Eu a empurrei pra longe.
— Sua bruxa — comecei a rir.
Ela recolheu o cobertor, com um sorriso divertido.
— Quando for sua vez de fazer a prova, espero que esqueça uma coisa idiota dessas também — provoquei.
— Você é mau — ela riu comigo, sentando-se de volta no sofá.
— Pantéia.
Ela jogou um travesseiro em meu rosto. Desviei o sorvete de sua mira no último segundo, evitando de derrubar nos móveis, rindo.
— Achou alguem pra dividir o apê com a gente? — ela perguntou.
Uma moça deu um grito agudo na televisão.
— Calma — eu disse — gosto dessa parte. Achei bem original o martelo acertando o olho dela.
— Sério, Arthur. Precisamos achar alguém, rápido.
— Não soube de ninguém. — suspirei — anunciei nas redes sociais, mas ninguém se pronunciou.
— Uma amiga minha, a Sandra, lembra?
— Lembro — menti, com mais uma colherada.
— Ela comentou sobre um conhecido dela estar se mudando pra cá, e procurando um lugar pra ficar… talvez ele seja uma pessoa legal.
— Mais um cara dividindo a casa com você? — perguntei — um só já não é perigoso demais?
Ela dispensou minha brincadeira com as mãos.
— Pelo que ela disse, o cara é mais gay que você.
— Impossível.
Finalizei o pote de sorvete com uma colherada épica. Eu começava a me sentir menos miserável.
— Você foi reprovado por causa do cinto. Mais impossível que isso não existe.
— Vai se foder.
— Vou mandar mensagem pra Sandra amanhã, pedindo o contato do cara — Pan levantou — a gente combina de conhecer o cara, e descobre se ele é um psicopata ou algo do tipo. Pode ser?
— Ok — respondi, com uma risadinha. Achei engraçado ela chamando o menino de “o cara” repetidas vezes.
Ela deu um beijo na minha cabeça.
— Boa noite, xuxu.
— Boa noite, Pantéia.
Ela me bateu sem olhar pra trás, e foi para seu quarto. Fiquei rindo sozinho.
Mal sabia eu.
Quando eu era menor, um pouco antes da formatura inútil entre os fundamentais, eu tive um melhor amigo.
Durante a infância uma das coisas que não faltou para mim foi dificuldade em fazer amizade com meninos, pois sempre reparei que suas piadas não eram algo que eu queria fazer parte, por não concordar, e simplesmente, parece que fui expulso deste clube secreto da qual nunca quis realmente ser membro.
Sempre pude notar os comentários abafados e as risadinhas disfarçadas, isto vindo daqueles que me excluiam silenciosamente, pois haviam comentários em voz alta também.
Até que um dia esse menino apareceu, e ele não via nada de diferente em mim.
Eramos crianças, e ninguém pensava em sexualidade, especialmente eu, mas isso não impedia nenhum dos outros garotos de me chamar de “viadinho”.
No entanto, este menino em especial parecia enxergar através de todas as coisas ridículas, e agia como criança mesmo. Ele brincava com os meninos, o que me deixou hesitante em relação a sua existência no começo, mas logo ele começou a brincar com as meninas também, e, antes que eu pudesse perceber, em um dos intervalos da escola, ele veio e estendeu a mão pra mim.
— Vem!
Lembro de ficar o encarando, com um lanche pela metade nas mãos.
— É Arthur, né? — ele insistiu, e eu assenti com a cabeça.
Ele tinha um curativo no ombro, provavelmente por brincar demais. Nenhuma criança na escola, até então, possuía olhos verdes como os dele.
— A gente tá brincando de mãe da rua.
— A tia não brigou? — achei que era mentira.
— O Carlos torceu o pé e ela foi com ele até a enfermaria, então a gente tá livre por enquanto.
Carlos era o menino mais odiável que havia. Um dos que debochavam de mim em voz alta. O fato de que este garoto novo estava se aproveitando de um acidente de Carlos para brincar de mãe da rua sem a tia brigar me fez sorrir pra ele. E, se me lembro bem, foi basicamente assim que tudo começou.
— Qual seu nome? — eu perguntei, largando meu lanche inacabado.
— Eduardo.
O negócio com colegas de apartamento é que não se pode desejar muito de uma pessoa. Em uma escala boa higiene, humor estável e personalidade interessante não se pode ter todos. Em mim, faltava a personalidade interessante, e em Pan, o humor estável, mas ainda éramos capazes de habitar uma escala humana, diferente das pessoas que chegamos a entrevistar em tentativas passadas de achar um terceiro colega. Foram todos um desastre. Ou mastigavam com a boca aberta e faziam barulho demais, eram arrogantes, não demonstravam interesse na vida, ou, quando eram perfeitos por fora, não batiam com nossos ideais políticos.
Fora Temer.
— Quer mesmo tentar de novo? — perguntei, me aproximando de Pan, na bancada da cozinha.
A parte legal de todo esse processo de seleção é que podíamos brincar de ser bonitos, vestindo nossas roupas legais para encontrar pessoas que raramente víamos mais de uma vez, e comer em um lugar decente. Eu já estava todo pronto, com carteira no bolso da calça escura e celular nas mãos. Notei que ela usava uma saia acordeão preta — e isso foi uma das coisas que aprendi com Pan, que saias possuem tipos, igual a Pokemóns — e os cabelos castanhos cascateando nos ombros.
— Poxa. — ela terminava de responder algumas mensagens — do que a Sandra disse, o cara parece realmente ser uma pessoa decente. A gente devia, pelo menos, tentar.
— Defina o que é uma pessoa decente.
— Ele já morou aqui antes, mas se mudou para outra cidade com os pais, e agora quer voltar pra fazer faculdade. Então já sabemos que ele vai conseguir se orientar sozinho por aqui. Tem nossa idade, é engraçado, gosta de cozinhar… — ela foi contando as qualidades nos dedos.
Bocejei.
— E, incrivelmente, ela diz que é bonito.
— Posso ver?
— Ela não mandou foto.
Ergui as sobrancelhas, questionando a informação.
— Mandou confiar no senso estético dela. — ela riu.
Por um momento, duvidei do senso estético dessa amiga Sandra.
— Fascista? Neonazista?
— Já disse que ele é gay. — ela desviou os olhos do celular para me encarar com desdém.
— Qual o nome?
— Eduardo.
Eu parei por um momento, encarando-a de volta.
— Essa sua amiga — perguntei — falou o sobrenome dele?
— Não. Por quê, Sherlock?
— Deixa pra lá — chacoalhei a cabeça, finalizando o interrogatório. Era um nome comum — Vamos?
— Você dirige? — ela me ofereceu as chaves de seu carro.
— Vai se foder.
Nós rimos.
Acho que uma das poucas coisas mais tristes do que amizades que se acabam por escolha das próprias pessoas, como brigas orgulhosas e outros tipos de desentendimentos mal-resolvidos, são aquelas amizades que definham contra a vontade dos indivíduos, à mercê do tempo, distância, e no meu caso, tecnologia.
Após a formatura inútil entre os fundamentais, Eduardo havia me dito que teria que ir embora, por conta desta proposta de emprego que seus pais receberam em uma cidade vizinha, mais para o interior, e que passaria a morar lá.
Nós choramos no dia em que ele me contou, mas isso não impediu seus pais de levá-lo para longe.
Trocamos telefone na época, mas não tínhamos celular, então, nosso contato foi diminuindo cada vez mais. Cheguei a visitá-lo em uma das férias da escola, mas ele já havia feito novas amizades, e levou uma amiga na nossa tarde juntos. Fiquei levemente chateado, mas não era algo que merecia ser debatido.
Quando percebi, havíamos parado de nos falar.
Anos se passaram, eu descobri a existência das redes sociais, e em um dia, quando nem lembrava mais de Eduardo, encontrei seu perfil no Facebook. Ele havia acabado de fazer aniversário, 16 anos, na época, e havia sido uma festa enorme, e eu não tinha recebido convite.
Nada demais.
Nós não fazíamos mais parte do ciclo social um do outro, por mais que eu quisesse. Simplesmente não havia mais onde segurar.
Amizades vem e vão, mas Eduardo se foi contra a minha vontade.
Naquele dia, Pan escolheu um lugar mais barato do que de costume para encontrarmos o cara, pois estávamos ficando sem grana. Era uma doceria sem muita fama, no shopping, mas ainda assim era um ambiente agradável, e tinha cadeiras bonitas.
Fazia jus a nossas roupas de gente arrumada.
Eu estava com a cabeça apoiada na mão, enquanto Pan olhava ao redor, para ver se alguém se aproximava, checando o horário a cada minuto.
— Já era pra ele estar aqui — ela disse.
— Eu digo partimos pro próximo.
— Não — ela me olhou feio — ele pode ser a pior pessoa do mundo, mas não vamos desistir dessa luta sem antes ver a cara dele.
— Só porque sua amiga disse que ele é bonito?
— Sim… — ela parou de repente, se arrumando na cadeira, como se tivesse visto alguém, e quando notei ela se ergueu um pouco para acenar.
Arrumei minha postura também, alisando a camisa xadrez, e brevemente, pude ver uma figura masculina se aproximando da gente.
— Olá! — Pan o cumprimentou animadamente, com ele ainda um pouco longe.
Apertei os olhos.
Ele era alto, e tinha um andar confiante. A jaqueta preta e calça jeans rasgada faziam parecer que ele era um encrenqueiro, mas o sorriso dizia outra coisa. Seu cabelo era um mar de ondas escuras que casavam perfeitamente com um par de olhos verdes.
Era ele.
Eduardo saiu do mar de gente e finalmente nos alcançou. Ele ia cumprimentar Pan, com um sorriso, até que desviou o olhar para mim, surpreso.
— Arthur?
— Oi. — acenei.
E eu estava certo; de todas as coisas que se passaram pela minha cabeça, e de todas as coisas que eu gostaria de dizer, “oi” foi uma péssima escolha.
Notas finais
tem toda uma metáfora na vida do Arthur.
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