Acertando as Contas com o Passado
20 Capítulo 20 – A Aposta
Notas iniciais
— Vamos fazer outra aposta?
— Outra, por quê? Não fiquei sabendo nem da primeira!
— Ok, Abby. Essa é simples.
— Nenhuma aposta sua é simples, Tony. – McChato começou.
— É simples porque só envolve um fato!
— Que seria? – Palmer se interessou.
— Quando Gibbs e Shepard vão finalmente escorregar e entregar o relacionamento oficialmente!
Silêncio rondou a mesa e fiquei com medo de receber aquele sonoro tapa na cabeça. Mas nada veio.
— Eles estão juntos? Ou nunca estiveram? – Ziva perguntou – Ninguém sabe se eles tiveram alguma coisa, se tiveram. Pode ser platônico!
— Do jeito que os dois brigavam? Duvido! Ali tinha algo!
— Se tinha algo, eu não sei, mas o Gibbs pareceu bem perturbado quando notou que a Jenny estava de volta. – McGee disse.
— McGee! Não fale assim!
— Mas foi verdade, Abby, você viu como ele ficou quando viu em nome de quem o celular via satélite estava registrado.
— Verdade... ele saiu mais depressa do que de costume.
— E todos nós vimos a reação dele para ela, quando ela chegou. – McGee de novo.
— E não vimos mais nada! – Ziva soltou exasperada. – Vocês estão sempre colocando chifre na cabeça de zebra!
— Cavalo! É colocando chifres na cabeça de cavalo, Ziva! – Respondemos juntos.
— Eu os vi de mãos dadas. – todos olhamos para o Jimmy. Isso era novidade.
– Desembucha quando e onde, Gremlin. Vamos, não temos tempo, eles podem chegar a qualquer momento!
— Quando estávamos saindo do prédio, pouco antes da bomba explodir. Eles deram as mãos.
— Isso é uma informação nova. – os olhos verdes de Abby brilhavam! Será gente? Eles formam um casal tão lindo!
— E pode não ser nada! – De novo Ziva!
— Ziva, você sempre foi a primeira a querer ver o chefe com alguém, por que isso agora? Você sabe de algo que não sabemos?
— Não sei de nada, Tony! Só te lembrando da regra 12! A regra 12! Lembra da Barret?
Por um momento todos concordamos com a ela. Mas tinha algo mais...
— Só uma pergunta, antes de irmos para as apostas. – Ziva revirou os olhos – Se a Jenny não tem mais casa aqui em DC ou redondezas, se ela não tem mais carro por aqui, onde foi que ela passou a noite depois da nossa conversa e jantar no porão do Gibbs?
Ninguém soube dizer e até mesmo a incrédula David ficou com a pulga atrás da orelha...
— Ela pode só ter dormido na casa dele, o Gibbs já cansou de hospedar um monte de gente!
— Jimmy, Jimmy, Jimmy... não seja infantil.... Minha prova era a cara dos dois há quatro dias atrás.... então, quem começa? – olhei ao redor
— Vai demorar, Tony... uns seis meses ou mais. – McGee iniciou.
— Nunca. Eles vão manter segredo. – Ziva, aquela que não acredita estava entrando nas apostas.
— Qualquer momento depois que a situação de Jenny for resolvida. – Abby.
— Palmer?
— Vou com a Ziva. Eles não vão falar.
— Ducky?
— Anthony, melhor trocar de assunto, pois os dois estão passando pela porta, e não estão de mãos dadas, antes que me pergunte.
— Droga! Mas estão anotados! Vamos ver quem vai ganhar!
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A noite correu sem problemas, mas tinha algo no ar. Algo que só poderia ter vindo de Tony, tendo em vista os olhares que ele lançava de tempos em tempos na minha direção e na de Jethro, que sentou do outro lado da mesa.
Como uma desculpa plausível para a equipe e para o Secretário da Marinha, meu endereço temporário era um hotel em Washington, apesar de que em hora nenhuma dormi ali. Então, na hora de ir embora, para despistar, fui de carona com Ziva. Para a tristeza de Tony.
O caminho até o hotel não era longo, e com Ziva dirigindo daquele jeito dela, levaria menos de dez minutos. Mas foi tempo suficiente para uma conversa.
— E então, Jenny, como é estar de volta?
— De volta dos mortos, de volta à agência ou ao trabalho no campo?
— Os três. – Ela me respondeu rindo.
— Estranho, mas ao mesmo tempo bom. É bom poder fazer algo depois de ficar três anos escondida em uma maldita tocaia.
— Sua volta, literalmente, chacoalhou com as coisas por aqui.
— Era o esperado... porém não o que queriam. Posso apostar que Vance está contando os dias para poder voltar... a situação dele, assim como a minha, está totalmente indefinida.
— Falando em apostas...
— O que Tony tem aprontado?
— Ele está abrindo uma nova rodada.
— Envolvendo quando Jethro irá bater em alguém? – disse rindo. Pois essa seria certa para alguém.
— Envolve o Gibbs .... e você! — Ela me lançou um olhar de desculpas.
— Que tipo de aposta, Ziva? – Se eu li os olhares de Tony corretamente, ele teria sérios problemas.
— Quando vocês dois vão assumir que estão em um relacionamento.
— Haha! Isso? Tony tem muitas esperanças...
— Então não há nada? Pensei que Gibbs fosse o agente de quem você me falou aquela vez no Cairo. Sabe, quando pensamos que fossemos morrer.
Ela tinha um ponto. Poderia falar a verdade ou deixar rolar.
— Era ele. Mas as coisas mudam, Ziva. Foi há muito tempo. No Cairo haviam só dois anos desde que tinha acabado. Hoje são nove. E muita coisa aconteceu.
Não era de tudo mentira, mas Tony não iria levar essa fácil.
— Entendo. Ou não. Não sei. Sei que é complicado. Passei pela mesma coisa alguns anos atrás.
— Michael?
— Sim. Ele voltou e não acabou muito bem.
— Fiquei sabendo. Sinto muito.
— Esse é o problema, Jenny. Eu deveria sentir. Mas não consegui. Não consigo. O que há de errado? – Ela me suplicou uma resposta.
— Outra pessoa. Você se importa com outra pessoa agora, Ziva. Mas acho que, assim como eu, você tem medo de se machucar, de novo, por isso nunca falou nada.
— Não pode ser...
— Pode sim. E se precisar, eu abro a próxima rodada de apostas! – Brinquei com ela. Tinha visto os sinais. Mas ela acabara de me confirmar. Ziva estava apaixonada por Tony. Só não queria admitir.
Logo chegamos ao meu destino. Me despedi dela, dando um conselho que eu queria ter seguido alguns anos atrás.
— E, Ziva, não espere muito tempo. Você merece ser feliz! E, ah, obrigada pelo aviso da aposta!
— Eu quem agradeço, Jenny. E, por favor, não comente nada com Tony sobre isso.
— Não vou! Boa noite!
— Boa noite!
Vi quando ela perigosamente vez um retorno inexistente na avenida quase batendo em um outro carro. Mais cedo ou mais tarde, ela iria causar um enorme acidente.
Mas agora, eu tinha que bolar um plano. A casa de apostas de Tony iria ser fechada. Mas para isso eu precisava conversar com o outro envolvido no assunto.
— Jethro! Você pode conversar. Preciso que você entre em um plano comigo... – e contei para ele como iria fazer Tony provar do próprio remédio.
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Na segunda seguinte, quando todos chegaram, DiNozzo já estava em sua mesa, com um copo de café nas mãos. Estranho para dizer o mínimo, já que ele não é um fã de café assim.
— Bom dia, equipe. Que bom que chegaram pontualmente!
— Temos um caso, DiNozzo? – Ziva foi curta.
— Até agora, não. Só papelada para preencher e entregar até o final do dia para o Gibbs.
O dia passou contando passos. Nada aconteceu. A não ser alguns suspiros frustrados e reclamações que chegaram até à sala vindas do andar superior. Jethro estava tendo aquele famoso dia de cão.
Pude notar que, de tempos em tempos, chegava na mesa de Tony um papel. Ele sempre abria, lia e digitava algo em seu computador, tomando o cuidado de guardá-lo em se bolso. Deduzi que eram os palpites de todo prédio. Meu Deus, isso iria longe.
Por volta do fim do expediente, todos já havíamos terminado os relatórios e estávamos empurrando o relógio com os olhos para que chegasse às sete da noite. Foi quando Tony resolveu que era hora de sortear quem levaria papelada do dia para Gibbs assinar.
O certo era que ninguém queria. Ele havia acabado de gritar com um senador e tinha passado o dia indo e vindo do MTAC, o que por si só já o irritaria normalmente. Até a pobre secretária de Vance tinha saído apavorada da sala quando ele chegou batendo as portas. Somando-se a isso, tínhamos nossos relatórios, ou seja, mais serviço burocrático para ele. E ninguém queria ser o portador das más notícias...
— Ok, quem quer ter o privilégio de levar todos esses relatórios para o Gibbs? – ele disse apontado para uma pilha que estava em sua mesa.
Nenhuma manifestação.
— Vou ser obrigado a sortear?
— Claro que não, Tony. Você é o líder da equipe. Você leva! – McGee estava sendo lógico.
— Você sabe quantas vezes eu subi essa escada hoje, McLógico?
— Não, Tony, não contei. Estava ocupado com o meu trabalho!
— Pois bem, foram várias. Estou cansado. Então alguém vai lá em cima.
— Você não está cansado, Tony. Está com medo da reação do Gibbs. – Ziva provocou.
— Não tenho medo dele.
— Ah, não. Então leve os papéis! – Disse olhando para ele.
— Por que você não leva, no-va-ta?
— Como você acabou de dizer, sou a novata. Novatos não conversam com os superiores. Só os agentes sêniores.
— Muito bem, usa o título de novata quando lhe é conveniente. Esperto. Muito esperto a saída pela tangente de vocês três. Vai ter sorteio.
Suspiramos conjuntamente. Alguém ia pagar para ver a fúria no segundo andar.
Para dar melhor credibilidade ao sorteio, cada um escreveu seu nome em um pedaço de papel, colocou dentro de um copo descartável e pedimos para o primeiro agente que passou tirar um nome e entregá-lo a Tony.
Ele tinha um sorriso de vitória quando leu meu nome. E eu subi as escadas pensando que quem iria rir por último era eu.
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Não bati na porta, a secretária tinha me informado que ele estava sozinho. E como já era quase hora de ir embora, ela já tinha sua bolsa no ombro e olhava ansiosa a tela do celular.
Entrei e olhei ao redor. Fui encontrá-lo sentado na cabeceira da mesa de reuniões. E pela sua expressão, ele também queria que o dia acabasse logo.
— Não me diga que são mais relatórios para conferência?! — ele me olhou cansado.
— Bem vindo à burocracia – brinquei quando depositei os papéis em uma pilha mais afastada. – A boa notícia é que não tem nada urgente.
— Boa notícia, Jen? Sério?
— Ora, Jethro, quer um conselho? Isso – apontei para as pilhas de relatórios. – Não vai acabar. Não adianta se matar. Digo por experiência própria. Se tiver algo que eu possa fazer para te ajudar, é só falar.
— Na verdade, tem. — Ele parecia ter lembrado de algo engraçado
— E seria?
— Como vão as apostas do Dinozzo?
— Ele recebeu papeizinhos o dia todo. Creio que eram os palpites com seus respectivos valores de toda a Agência.
— O que acha de acabar com a farra deles?
— Você quer fazer outra cena, hoje, Jethro?
— Por que outra, Jen?
— O Senador! O homem saiu daqui correndo mais que criança assustada. Fora que ele estava mais branco que uma folha de papel!
— Ah, isso! Ele mereceu ouvir cada palavras. E sim, vamos acabar com a festa das apostas do Tony.
— E como vamos começar?
— Sempre fomos bons em brigar, você começa!
— Não posso discutir com o diretor da NCIS! Nem mesmo que ele seja o interino!
— MAS O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SHEPARD? – por essa eu não esperava. Ele ria por baixo da máscara.
— O que eu estou fazendo? Só estou te entregando a papelada do dia! – bradei de volta. Mas queria estar lá embaixo para ver as reações...
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Ela estava demorando. Aposto que o Gibbs deu a ela um chá de cadeira. Tadinha...
Tudo estava calmo, minhas coisas estavam guardadas e estava esperando as dezenove horas quando os gritos começaram.
— MAS O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SHEPARD?
— O que eu estou fazendo? Só estou te entregando a papelada do dia!
— Desde quando é sua função, fazer isso? Onde está o DiNozzo?
Epa, dê logo as dezenove!
— Olha aqui, somos uma equipe, e cada um faz um pouco, será que você não pode entender...
— Eu estou atolado em coisas importantes. Não tenho tempo para assinar relatórios diários.
— Não é minha culpa se você não consegue lidar com a burocracia. talvez...
— Talvez o que?
— Se você não fosse tão autoritário e ouvisse o que os outros têm a dizer, você poderia ter ajuda....
A briga estava ficando feia. E cada grito se tornava mais uma troca de xingamentos do que uma discussão sobre o trabalho...
— Falou aquela que fingiu a própria morte para tirar umas férias.
—FÉRIAS?! VOCÊ ACHA QUE EU ESTAVA DE FÉRIAS?! Eu estava salvando a pele desta Agência, e, inclusive A SUA PELE!!
Nessa hora algo foi arremessado ao chão. Eles vão passar dos limites. Era uma vez minha grana fácil!
Ouvi Ziva sibilar do meu lado. De repente eram dezenove horas e toda sala do esquadrão não sabia se saia correndo ou se ficava para ouvir o barraco.
McGee foi o primeiro a ir, e ao passar por mim simplesmente disse:
— Sinto muito, Tony, mas a sua última aposta acabou de naufragar...
O maior problema era que era verdade. Não tinha como aqueles dois terem alguma coisa quando gritavam desse jeito.
Quando olhei para trás vários agentes concordavam com McNerd, e clamavam o dinheiro de volta.
Ziva só olhou para mim e disse:
— Eu te falei Tony, era platônico. Eles não combinam! – E rumou para o elevador.
Droga eu achei que essa era certeira! Iria embolsar uma grana boa com eles.
Depois de entregar todo o dinheiro arrecadado, fechei minha mochila, e ainda podia ouvir os gritos dos dois quando entrei no elevador.
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Foi difícil continuar a briga quando começamos a ver todos os agentes irem até Tony pedindo o dinheiro de volta. A cara de decepção de Dinozzo era hilária.
Mas, mais engraçado do que isso eram os pulos que alguns agentes mais novos davam a cada novo grito, e suas caras de assustados quando rumavam para o elevador.
Enquanto Tony via naufragar a sua mais nova aposta, nós dois estávamos sentados na mesa de reuniões, com um copo de café cada, revisando os arquivos e gritando coisas aleatórias de tempos em tempos.
Nosso problema foi quando, durante um acesso de riso, Jethro deixou uma pilha de arquivos cair.
Olhamos assustados de um para o outro e depois para a TV que mostrava o circuito interno da agência, mais precisamente, a sala do esquadrão. Ao som da pilha caindo, todos olharam para cima, e então entre eles, e, depois, saíram correndo, rumo ao elevador ou escadas. Nunca vi agentes mais covardes que estes.
Quando a sala ficou vazia, sendo que Tony foi o último a sair, caímos na gargalhada.
— Você viu a cara do Tony? Era decepção pura. – Eu disse entre risadas.
— Nunca mais ele faz outra aposta.
— Ele estava contando certo com o dinheiro. Achou que iria tirar proveito de poder circular entre nós dois livremente. – Eu chorava de rir.
— Donerget? Você reparou? – Jethro mal conseguia falar.
— Quando a pilha de arquivos caiu?
— Sim! Ele saiu correndo como se tivesse tudo pegando fogo!
— Mas pelo que notei, ele morre de medo de você, Gibbs. A reação instintiva dele é manter distância....
— Mas precisava daquilo?
— McGee foi embora primeiro. – Eu disse.
— Mas não estava com medo.
— Não... parecia chateado.
— Assim como a Ziva.
— Ossos do ofício. Agora perdi a minha carona. Ziva já foi e eu, temporariamente, não estou conversando com você! Vou ter que ir de táxi.
— Não vai a lugar nenhum. Pode ir pegando uma pilha aí e revisar os casos. Depois eu assino!
— Sério? Eu tô morta de ficar fazendo relatório, não vou lê-los.
— Bem vinda ao mundo de agente de campo, Shepard.
-Você não existe. Só uma última pergunta...
— Que foi?
-Tá com fome? Porque isso aqui vai demorar...
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