Aceita um café?
1 Letícia
Notas iniciais
Ele tinha medo do mundo fora do seu quarto. Tinha medo das coisas horríveis que aconteciam além de seus muros. O frustrava não poder sair sem se preocupar, era terrível que não conseguisse aproveitar nenhum momento. Temia uma série de coisas, desde animais até objetos cortantes e socializar. Mas não teve medo dela. Não se aterrorizou por ela saber de todas as suas fraquezas, e não saiu correndo porque ela o entendia de uma forma que parecia impossível. Não se foi quando ela quis ficar, e ficou quando ela se foi. Não ficou porque o medo o impediu de ir, mas sim porque sentiu que, talvez, o papel dela tivesse sido aquele: trazer à sua vida algo que ele não temesse. Prendê-la teria sido um erro terrível, e quando se desse conta disso, poderia ser tarde demais para reparar.
Letícia foi pra ele o que o sol é para as flores: necessário. Lembrar-se dela causava-lhe um misto de nostalgia e carinho, e de alguma forma ele sempre soube que esquecê-la não era uma opção. Ela sempre seria sua estudante de letras preferida. Sua leitora de Edgar Alan Poe. Sua pessoa preferida no mundo.
Quando ela precisou ir, tudo o que ele sentiu foi pesar por ter de se afastar dela. Em nenhum momento sentiu raiva da garota, que havia ensinado a ele a importância de perseguir seus sonhos.
Conhecê-la foi um presente. Os encontros banhados a café preto e histórias permitiram-lhe entender Letícia, que sofreu tanto e reclamou tão pouco. Quando de repente já confiavam um no outro e ela contou sobre a morte de seu namorado, ele ficou mais triste que ela própria. Não conseguia imaginar como seria capaz de superar algo assim, de seguir em frente. De manter o brilho que ela sempre tinha nos olhos.
Ainda hoje consegue imaginar sua voz, melodiosa e firme, explicando a ele que a vida é assim mesmo, cheia de perdas, mas que tudo tem um propósito. Em alguns dias ele se esquecia disso e pensava o quão injusto era nunca mais ouvi-la dizer Aceita um café?
Ele aceitaria todos os cafés do mundo, se ela estivesse ao seu lado.
Ele não era doente, mas ela foi responsável por curá-lo. Curá-lo de suas incertezas, do seu medo absurdo de tentar. Mesmo que ela fosse insegura e certas vezes meio surtada, sempre sabia o que dizer e fazer por ele, até nos momentos em que sua neurose era tanta que a deixava meio doida. Ele amava os desenhos que ela fazia, e as palavras que ela escrevia. Ainda chora de emoção ao ler o texto que ela escreveu especialmente pra ele. Ainda tem gravada em sua mente a imagem do rosto de Letícia, com cada imperfeição que só a faz mais humana e mais dele.
Esperava que, onde quer a que a vida a tenha colocado, ela tenha sido capaz de preservar sua essência. Seu sorriso que chegava até os olhos e sua atitude que fazia todos se sentirem acolhidos. Porque Letícia o acolheu, e depois partiu. E tudo que ele mais queria agora era oferecer-lhe um café e sentir que nada mudou.
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