Acaso ou destino

7 Capítulo 6- O coração adormecido


A criatura de olhos vermelhos correu durante toda a noite.

Atravessou florestas, estradas e pequenos povoados sem diminuir a velocidade. O odor que encontrara em La Push permanecia preso em sua memória, tão forte e incomum que precisava lutar contra o desejo de retornar e procurar Sarah sozinho.

Jamais sentira um sangue como aquele.

Não era apenas atraente.

Era vivo.

A palavra parecia absurda. Todo sangue humano carregava vida, mas o de Sarah possuía algo diferente. Uma vibração que despertava, no interior de seu corpo morto, sensações que havia esquecido ao longo dos séculos.

Durante os minutos em que observara a jovem na clareira, a criatura tivera a impressão de sentir calor.

Não em sua pele.

Dentro dela.

Ao amanhecer, alcançou uma construção abandonada no interior da floresta. Outros três vampiros aguardavam no local.

Uma mulher alta, de cabelos claros, aproximou-se assim que ele entrou.

— Encontrou a descendente?

— Encontrei.

Os demais se levantaram.

— E a marca? — perguntou outro.

— Está escondida sob as roupas, mas o pingente possui o símbolo. Além disso, o cheiro não deixa dúvidas.

A mulher de cabelos claros sorriu.

— Então a visão estava correta.

— Ela está protegida pelos metamorfos.

— Quantos?

— Mais do que esperávamos.

— Isso será um problema?

A criatura se recordou do enorme lobo avermelhado ao lado de Sarah.

— Há um guardião ligado a ela.

O sorriso da mulher desapareceu.

— O vínculo já despertou?

— Sim.

— Então temos menos tempo do que imaginávamos.

Um dos vampiros se aproximou.

— Devemos informar Volterra?

A mulher olhou para a direção em que ficava La Push.

— Ainda não. Se entregarmos a informação agora, a guarda levará a mulher e receberemos apenas agradecimentos.

— Há uma recompensa.

— Haverá uma recompensa maior para quem descobrir como utilizar o poder dela.

Os olhos vermelhos brilharam na escuridão.

— Primeiro observaremos — decidiu. — Depois tomaremos a Filha da Lua para nós.

Sarah não dormiu.

Depois de deixar a clareira, Jacob a acompanhara até sua casa e verificara todas as portas e janelas pela segunda vez naquele dia. Embora Embry e Quil permanecessem de guarda na floresta, ele se recusara a ir embora.

Sarah o encontrara sentado nos degraus da varanda quando desceu para beber água pouco depois das duas da manhã.

— Você pretende passar a noite aí?

Jacob levantou o rosto.

— Pretendo.

— Está chovendo.

— Já percebi.

— Existe um sofá dentro de casa.

Ele hesitou.

— Não quero invadir seu espaço.

Sarah quase sorriu.

Naquela mesma manhã, Jacob entrara em sua casa, consertara uma porta, montara uma estante e examinara cada janela. A preocupação com limites parecia ter surgido com algumas horas de atraso.

— Você se transforma em um lobo gigantesco, enfrentou um vampiro e revelou que está sobrenaturalmente ligado a mim. Acho que dormir no sofá não será a parte mais estranha do meu dia.

— Tem certeza?

— Não. Mas entre ter você dentro da casa e saber que está sentado na chuva, prefiro a primeira opção.

Jacob entrou.

O sofá era pequeno demais para ele, mas não reclamou. Sarah lhe entregou um cobertor que provavelmente seria desnecessário devido à temperatura elevada de seu corpo.

Antes de subir novamente, permaneceu alguns segundos parada junto à escada.

— Jacob?

— Sim?

— Obrigada por ter mostrado a verdade.

Ele se sentou no sofá.

— Você merecia saber.

— Minha mãe deveria ter pensado da mesma forma.

— Ela estava tentando proteger você.

— Todos dizem isso como se o amor tornasse qualquer mentira aceitável.

Jacob não encontrou uma resposta.

Sarah desejou boa-noite e retornou ao quarto.

Passou as horas seguintes revivendo a transformação, a lenda e a conversa na clareira. Sempre que fechava os olhos, via o lobo avermelhado deitado diante dela, permitindo que o tocasse.

Perto do amanhecer, desistiu de dormir.

Quando retornou à sala, encontrou Jacob acordado. Ele estava sentado, inclinado para a frente, observando a floresta através da janela.

— Você dormiu? — Sarah perguntou.

— Um pouco.

— Está mentindo.

— Fechei os olhos algumas vezes.

— Isso não é dormir.

— Para mim, é suficiente.

Sarah entrou na cozinha e preparou café. Separou duas canecas, mas parou ao recordar que ainda não sabia quais hábitos humanos Jacob mantinha depois da transformação.

— Você bebe café?

— Muito.

— Finalmente alguma coisa normal.

Ele a acompanhou até a cozinha.

Apesar da noite sem descanso, o ferimento em sua lateral desaparecera completamente. Não restava sequer uma cicatriz.

Sarah ainda não conseguia aceitar aquilo.

— Posso examinar você?

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Agora?

— Sou médica. Você apareceu diante de mim com um corte profundo e, algumas horas depois, não existe mais nenhum sinal da lesão. Naturalmente, quero entender.

— E como pretende fazer isso?

— Começando pelos sinais vitais.

Ela encontrou o estetoscópio em uma das caixas e apontou para uma cadeira.

— Sente-se.

Jacob obedeceu, embora parecesse se divertir.

Sarah colocou o aparelho nos ouvidos e encostou o diafragma em seu peito.

O coração dele batia depressa.

Muito depressa.

Ela deslocou o estetoscópio para outros pontos e contou novamente.

— Cento e oito batimentos por minuto em repouso.

— É normal para nós.

— E sua temperatura?

— Entre quarenta e dois e quarenta e três graus.

Sarah pegou um termômetro digital. O aparelho registrou 42,4 graus.

— Isso continua sendo impossível.

— Você me viu transformar em lobo. Talvez precise rever o conceito de impossível.

— A ciência não deixa de existir porque descobri alguma coisa que ainda não consegue explicar.

Jacob sorriu.

— Gosto disso em você.

Sarah retirou o estetoscópio.

— Do quê?

— Você não aceita uma resposta apenas porque parece conveniente.

Ela guardou o termômetro para disfarçar o efeito do elogio.

— Meu primeiro compromisso no hospital é às dez horas. Preciso conhecer a equipe, entregar documentos e organizar os horários.

— Vou com você.

— Imaginei que diria isso.

— Não precisa parecer tão contrariada.

— Ainda não decidi se estou.

Jacob tentou esconder o sorriso.

O Hospital de Forks era muito menor do que aquele onde Sarah trabalhara em Grand Forks.

A recepcionista reconheceu seu nome e telefonou imediatamente para o diretor clínico. Enquanto aguardava, Sarah tentou convencer Jacob a permanecer na cafeteria.

Ele recusou.

— Não pode me acompanhar durante toda a reunião.

— Posso ficar no corredor.

— Isso vai parecer estranho.

— Diga que sou seu motorista.

Sarah o observou dos pés à cabeça.

— Você não se parece com um motorista.

— Segurança particular.

— Isso parece ainda pior.

— Namorado ciumento?

Ela ficou imóvel.

Jacob percebeu o que dissera e desviou os olhos.

— Foi uma brincadeira.

— Você sabe fazer isso?

— De vez em quando.

Antes que Sarah respondesse, uma voz masculina os interrompeu:

— Doutora Ateara?

Ela se virou.

O homem que se aproximava parecia ter pouco mais de trinta anos. Era alto, tinha cabelos loiros penteados para trás e um rosto de beleza quase irreal. Vestia um jaleco branco sobre roupas sociais e carregava uma pasta nas mãos.

Sua pele era extremamente pálida.

Jacob se colocou imediatamente entre os dois.

O médico parou.

Seus olhos dourados encontraram os de Jacob, e uma compreensão silenciosa passou entre eles.

— Carlisle — Jacob disse.

Não havia cordialidade em sua voz.

— Jacob.

Sarah olhou de um para o outro.

— Vocês se conhecem?

— Sim — Carlisle respondeu. — Embora raramente tenhamos a oportunidade de conversar em circunstâncias tão tranquilas.

— Tranquilas? — Jacob repetiu.

Carlisle ignorou a provocação e voltou sua atenção para Sarah.

— Sou Carlisle Cullen. Trabalho no setor de emergência e auxilio a direção clínica. Estávamos aguardando sua chegada.

Estendeu a mão.

Jacob segurou o pulso de Sarah antes que ela aceitasse o cumprimento.

— Não.

A atitude surpreendeu os dois médicos.

— Jacob — Sarah repreendeu.

— Precisamos conversar primeiro.

Carlisle recolheu a mão sem demonstrar ofensa.

— Ele tem razão.

Sarah franziu a testa.

— Sobre o quê?

Carlisle olhou para as pessoas que circulavam pelo corredor.

— Não aqui.

— Tenho uma reunião marcada.

— Posso pedir que seja adiada por alguns minutos.

— Por quê?

Jacob aproximou os lábios do ouvido dela.

— Ele é um frio.

Sarah parou de respirar.

Voltou a olhar para Carlisle.

A pele pálida.

A beleza incomum.

Os olhos dourados.

Tudo o que ouvira na noite anterior deixou de ser apenas uma história.

Seu corpo recuou por instinto.

Carlisle percebeu o medo em sua expressão.

— Não precisa temer — disse calmamente. — Minha família não caça seres humanos.

— Um vampiro vegetariano — Jacob comentou com ironia.

— É uma simplificação, mas não está incorreta.

Sarah sentiu as paredes do corredor se aproximarem.

— Você trabalha em um hospital.

— Há muitos anos.

— Cercado por sangue.

— Foi necessária muita disciplina para chegar a este ponto. Hoje, o sangue humano não representa para mim o mesmo risco que representa para outros de minha espécie.

Ela buscou algum sinal de mentira em seu rosto.

— Seu coração não bate.

Carlisle permaneceu em silêncio.

— Não — confirmou.

Sarah observou o pescoço dele.

Não havia pulsação visível.

A pele permanecia completamente imóvel sobre a artéria carótida.

— Posso verificar?

Jacob virou-se para ela.

— Sarah.

— Preciso saber.

— Não toque nele.

— Você disse que os Cullen não atacam humanos.

— Não atacam.

— Então confie em mim.

— Confio em você. Não confio nele perto do seu sangue.

Carlisle compreendeu a preocupação.

— Não há necessidade de tocá-la, doutora Ateara. Posso explicar tudo em outro momento.

— Uma explicação não substitui evidência.

Jacob soltou o ar, reconhecendo a mesma obstinação que observara naquela manhã.

Carlisle estendeu o pulso.

Sarah aproximou dois dedos lentamente.

A pele era gelada e dura como mármore.

Não havia pulsação.

Ela pressionou com mais força, procurando a artéria radial.

Nada.

— É impossível — murmurou.

— Essa palavra se tornará menos útil quanto mais tempo permanecer em Forks — Carlisle respondeu.

Sarah retirou a mão.

— Por que seus olhos não são vermelhos?

— Porque minha família se alimenta apenas de sangue animal.

— Os outros vampiros sabem disso?

— Sim.

— E os Volturi?

A expressão de Carlisle mudou.

— Também sabem.

Jacob observou-o com atenção.

— Como soube que ela estava aqui?

— Alice teve uma visão.

— Ela contou aos Volturi?

— É claro que não.

— O vampiro que encontramos disse que uma vidente revelou a chegada de Sarah.

Carlisle ficou imóvel.

— Não foi Alice.

— Como pode ter certeza?

— Porque as visões dela sobre La Push são bloqueadas pela presença de vocês. Alice não consegue enxergar o futuro dos metamorfos.

Sarah ainda tentava assimilar a conversa.

— Existe outra vidente?

— Existem muitos dons entre nossa espécie — Carlisle explicou. — Alguns vampiros possuem habilidades que ultrapassam as características comuns.

— E você?

— Meu maior atributo continua sendo a compaixão, segundo Aro.

A menção ao nome despertou a atenção de Jacob.

— Aro Volturi?

Carlisle assentiu.

— Ele tentou me convencer a permanecer em Volterra durante muitos anos. Conhece minha história e sabe que procuro uma alternativa à nossa natureza.

— Por isso querem Sarah — Jacob concluiu. — Acreditam que ela seja essa alternativa.

Carlisle olhou para ela.

— Talvez.

Sarah sentiu um arrepio.

— A lenda diz que posso devolver vida ao que já não vive.

— Conheço fragmentos dessa história — Carlisle revelou. — Aro também conhece.

— Você sabia que eu existia?

— Não até ontem. Alice viu apenas imagens incompletas: uma lua, um lobo e uma mulher de olhos verdes. Quando você decidiu aceitar a vaga no hospital, seu futuro se tornou um pouco mais claro.

Jacob deu um passo em direção a Carlisle.

— E não pensou em nos avisar?

— Não sabia o que as imagens significavam. Além disso, qualquer futuro que se aproximasse de La Push desaparecia.

Sarah passou as mãos pelo rosto.

— Preciso sair daqui.

— Sarah... — Jacob tentou se aproximar.

— Preciso de ar.

Ela caminhou até uma saída lateral do hospital.

Jacob a acompanhou, mas manteve alguns passos de distância.

Carlisle permaneceu no corredor.

Sarah parou no estacionamento e respirou profundamente.

— Minha vida enlouqueceu — declarou.

Jacob se aproximou.

— Sim.

Ela se virou.

— Essa é toda a ajuda que consegue oferecer?

— Quer que eu minta?

— Quero acordar em Grand Forks e descobrir que tudo isso foi um sonho causado pelo luto.

— Eu sei.

— Ontem descobri que você se transforma em um lobo. Hoje conheci um médico sem pulsação. O que acontecerá amanhã?

— Espero que nada.

— Sua esperança não tem funcionado muito bem.

Jacob permaneceu em silêncio.

Sarah fechou os olhos.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpas.

— Não estou com raiva de você.

— Talvez devesse estar. Eu sabia sobre Carlisle e não contei.

Ela tornou a encará-lo.

— Quantos outros existem?

— Na família Cullen? Sete.

— Sete vampiros morando perto de Forks?

— Eles respeitam um tratado. Não entram nas terras quileutes e não caçam humanos.

— E vocês não os atacam.

— Desde que respeitem as regras.

Sarah olhou para o hospital.

— Carlisle salva vidas humanas todos os dias.

— Salva.

— E vocês ainda o consideram inimigo?

— Não confio facilmente em vampiros.

— Mas confia nele?

Jacob demorou a responder.

— Carlisle já demonstrou que honra a palavra. Isso não significa que eu goste de tê-lo perto de você.

— Por causa do meu sangue.

— Sim.

Sarah tocou o pingente.

— Preciso conversar com ele.

— Sarah...

— Se Carlisle conhece parte da lenda e já viveu com os Volturi, pode nos ajudar.

Jacob sabia que ela estava certa.

Isso não tornou a ideia mais agradável.

— A conversa não acontecerá dentro do hospital — decidiu. — Nem em sua casa.

— Onde, então?

— Na fronteira. Billy e seu avô estarão presentes.

— Você está me dando ordens novamente.

— Estou negociando.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Precisa melhorar nisso.

A reunião foi marcada para o final da tarde.

Carlisle aceitou comparecer sozinho à fronteira entre as terras dos Cullen e a reserva. Billy e Ateara aguardavam em uma pequena clareira do lado quileute. Jacob permanecia ao lado de Sarah.

Carlisle parou exatamente antes da linha determinada pelo tratado.

— Não atravessarei sem permissão — afirmou.

Billy assentiu.

— Agradecemos.

Sarah observava aquela fronteira invisível, surpreendida pela seriedade com que ambos os lados a respeitavam.

— Conte tudo o que sabe sobre a Filha da Lua — pediu Ateara.

Carlisle levou alguns segundos para organizar as lembranças.

— Ouvi a história pela primeira vez em Volterra, há mais de trezentos anos. Aro possuía um manuscrito muito antigo, escrito por um vampiro que viajou por estas terras antes da chegada dos colonizadores.

— O que dizia? — Sarah perguntou.

— Que nasceria uma mulher capaz de tocar a centelha que permanece escondida mesmo nos corpos transformados.

— Existe alguma centelha em vocês?

— Não sei. Durante séculos, acreditei que nossa transformação destruísse tudo o que nos tornava verdadeiramente vivos. Ainda tenho consciência, sentimentos e escolhas, mas meu corpo está morto.

— E Aro acredita que eu posso reverter isso?

— Talvez não completamente. Ele acredita que seu poder possa devolver aos vampiros características humanas sem retirar nossa força ou imortalidade.

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Um exército indestrutível que poderia caminhar entre humanos sem levantar suspeitas.

— Essa possibilidade certamente atrairia Aro — Carlisle concordou.

Sarah deu um passo para mais perto da fronteira.

— E você? O que deseja?

Carlisle não desviou o olhar.

— Passei séculos procurando uma forma de preservar vidas. Se houver em você um poder de cura, minha curiosidade será inevitável. Mas jamais permitirei que seja forçada a usá-lo.

— Mesmo que possa transformar você novamente em humano?

Uma tristeza antiga atravessou os olhos dourados.

— Não sei se ainda existe um homem para o qual eu possa retornar.

A resposta tocou Sarah.

Pela primeira vez, ela não viu Carlisle como uma criatura perigosa. Viu alguém preso havia séculos em um corpo que não mudava.

— Podemos descobrir — disse.

Jacob se virou para ela.

— Não.

— Não estou dizendo que faremos alguma coisa agora.

— Não sabemos o que esse poder pode causar em você.

— Também não sabemos se ele existe.

— Os Volturi sabem o suficiente para enviar caçadores.

Sarah deu outro passo.

Seu sapato atingiu uma pedra escondida entre as folhas. Ela perdeu o equilíbrio e estendeu a mão para se apoiar no tronco de uma árvore.

Um galho quebrado cortou sua palma.

A dor foi pequena.

O cheiro de sangue, porém, preencheu a clareira no mesmo instante.

Carlisle ficou completamente imóvel.

Jacob segurou Sarah pela cintura e a afastou da fronteira.

Um rosnado surgiu em seu peito.

— Carlisle.

O vampiro ergueu as mãos e recuou.

— Estou no controle.

Seus olhos, contudo, escureceram.

Ateara retirou um lenço do bolso.

— Deixe-me ver, minha querida.

— É apenas um corte.

Sarah pressionou o tecido contra a palma. Antes que o fizesse, uma gota de sangue caiu sobre o chão.

Carlisle acompanhou o movimento.

Sua expressão mudou.

— O que foi? — Billy perguntou.

— O cheiro.

Jacob colocou-se entre Carlisle e Sarah.

— Ele está atraindo você?

— Sim, mas não como deveria.

— Explique.

Carlisle parecia confuso.

— Não sinto apenas sede. Sinto... calor.

Sarah observou a própria mão.

O corte continuava sangrando levemente.

— Talvez seja isso que os outros vampiros perceberam — disse. — O homem que vocês enfrentaram afirmou que meu sangue despertou quando retornei.

Carlisle se aproximou novamente da fronteira, mas não a atravessou.

— Preciso fazer uma pergunta.

Jacob rosnou.

— Cuidado.

— Sarah, você permite que eu examine uma única gota?

— Não — Jacob respondeu.

— A pergunta foi para ela.

— E a resposta continua sendo não.

Sarah tocou o braço de Jacob.

— Espere.

— Não.

— Carlisle está no controle.

— O sangue humano sempre foi algo que ele aprendeu a resistir. O seu é diferente.

Carlisle não tentou contradizê-lo.

— Jacob tem motivos para se preocupar.

Sarah olhou para o corte.

Durante toda a vida, fora ensinada a procurar respostas. O medo não eliminava essa parte dela.

— Uma gota — decidiu. — E você não atravessará a fronteira.

Jacob fechou os olhos, lutando contra todos os instintos.

— Sarah...

— Você prometeu não organizar minha vida sem perguntar o que eu queria.

— Estou começando a me arrepender dessa promessa.

Apesar da tensão, ela quase sorriu.

Carlisle retirou um pequeno frasco estéril da bolsa médica que carregava. Colocou-o aberto sobre uma pedra no lado Cullen da fronteira.

Sarah se aproximou.

Jacob permaneceu ao seu lado, pronto para se transformar ao menor sinal de perigo.

Ela estendeu a mão ferida sobre o recipiente.

Uma gota caiu.

Carlisle fechou o frasco imediatamente.

Nada aconteceu.

Jacob soltou parte do ar que prendia.

Então Sarah percebeu que ainda havia sangue em seus dedos. Antes que pudesse limpá-los, Carlisle lhe entregou uma gaze, mantendo o braço estendido sem atravessar a linha.

Os dedos de Sarah tocaram acidentalmente seu pulso.

O mundo pareceu parar.

Carlisle arqueou o corpo.

O frasco escapou de sua mão e caiu sobre as folhas.

Um som profundo surgiu dentro de seu peito.

Tum.

Todos permaneceram imóveis.

Tum.

Sarah segurou o pulso dele por instinto.

Sob seus dedos, uma pulsação fraca atingiu a pele de mármore.

Tum.

Carlisle abriu os olhos, tomado por uma expressão de assombro.

— Meu coração.

Tum.

O som era lento, irregular e pesado, mas inconfundível.

O coração de Carlisle Cullen estava batendo.

Jacob puxou Sarah para trás.

O contato entre ela e o vampiro se rompeu.

Ainda assim, o coração continuou.

Carlisle levou a mão ao próprio peito.

Seus olhos dourados se encheram de algo que ele não sentia havia séculos.

Lágrimas.

Uma única gota desceu por seu rosto.

— Está quente — murmurou, tocando a lágrima.

Sarah não conseguia falar.

Como médica, conhecia aquele som melhor do que qualquer outro.

O ritmo irregular começou a diminuir.

Tum.

Uma pausa longa.

Tum.

Depois, silêncio.

Carlisle permaneceu com a mão sobre o peito.

A pele voltou a assumir a imobilidade absoluta.

Billy foi o primeiro a recuperar a voz.

— Quanto tempo?

Jacob ainda segurava Sarah contra o corpo.

— Menos de um minuto.

— Quarenta e sete segundos — ela corrigiu automaticamente.

Carlisle ergueu os olhos.

— Durante quarenta e sete segundos, meu coração voltou a bater.

A marca no ombro de Sarah começou a arder.

Ela levou a mão ao local e perdeu o equilíbrio.

Jacob a segurou.

— Sarah?

— Estou tonta.

Suas pernas cederam.

Ele a tomou nos braços antes que atingisse o chão.

— O que aconteceu com ela? — Ateara perguntou.

Carlisle se aproximou da fronteira.

Jacob mostrou os dentes.

— Não chegue mais perto.

— O poder exigiu alguma coisa do corpo dela. Verifique a pulsação.

Jacob pressionou os dedos no pescoço de Sarah.

— Está rápida.

— Leve-a para casa. Ela precisa de repouso, líquidos e observação.

— Você não vai examiná-la.

— Jacob — Sarah murmurou, abrindo os olhos. — Pare de rosnar para o médico.

O alívio atravessou o rosto dele.

— Como se sente?

— Como se tivesse corrido uma maratona.

— Você desmaiou.

— Percebi.

Ateara acariciou os cabelos da neta.

— Vamos levá-la para casa.

Sarah olhou para Carlisle.

Ele continuava parado do outro lado da fronteira, com a mão sobre o coração imóvel.

— Você sentiu dor? — perguntou.

— Não.

— O que sentiu?

Carlisle procurou palavras capazes de descrever o impossível.

— Vida.

A resposta provocou um novo arrepio em Sarah.

Jacob ajustou-a nos braços.

— Chega por hoje.

Dessa vez, ela não discutiu.

Enquanto eram levados para longe da fronteira, Carlisle permaneceu observando.

Havia passado séculos estudando o corpo humano. Conhecia cada estrutura, cada doença e cada limite do coração.

Nada explicava o que acabara de acontecer.

A lenda era verdadeira.

Sarah não havia apenas provocado uma contração muscular.

Durante quarenta e sete segundos, seu sangue e seu toque fizeram um corpo morto recordar como era estar vivo.

E, muito longe dali, em uma sala de pedra iluminada por velas, uma mulher de olhos vermelhos teve uma nova visão.

Viu Carlisle com a mão sobre o peito.

Viu uma lágrima percorrer seu rosto.

E ouviu o som impossível de um coração batendo.

Quando a visão terminou, ela se voltou para o homem sentado no trono.

— Aro — chamou.

Ele ergueu os olhos.

— Encontrou nossa lua?

A mulher sorriu.

— Ela despertou.

O sorriso de Aro se abriu lentamente.

— Então chegou a hora de trazê-la para casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.