Acaso ou destino
2 Capítulo 1 - O Renascer em meio ao luto
Nasci e cresci em Grand Forks, uma cidade da Dakota do Norte onde o inverno parecia ter vontade própria. Em determinadas épocas do ano, a temperatura caía tanto que respirar se tornava doloroso. O ar gelado queimava os pulmões, as ruas desapareciam sob a neve e o rio permanecia parcialmente congelado durante semanas.
Ainda assim, eu gostava do frio.
Havia alguma coisa reconfortante no silêncio que ele criava. Quando a neve começava a cair, as pessoas se recolhiam, os carros diminuíam a velocidade e o mundo parecia respirar mais devagar.
Da janela do meu apartamento, eu observava a cidade coberta por uma camada branca. As luzes das casas e dos edifícios se acendiam pouco a pouco, revelando pequenas parcelas da vida de pessoas que eu jamais conheceria. Algumas estariam preparando o jantar. Outras discutiam, riam, faziam planos ou simplesmente descansavam depois de um dia cansativo.
A vida continuava dentro de cada uma daquelas janelas.
A minha, porém, parecia ter parado.
Grand Forks era bonita. Fora o cenário de todas as minhas lembranças: a escola, a universidade, os primeiros plantões no hospital, as noites em que minha mãe me esperava acordada mesmo quando eu chegava depois das duas da manhã.
Ainda assim, nunca sentira que aquele lugar fosse completamente meu.
Não me entendam mal. Eu tivera uma infância feliz. Minha mãe fez tudo o que pôde para que nunca me faltassem amor, segurança ou oportunidades. Éramos apenas nós duas contra o mundo, como ela costumava dizer, e durante muitos anos isso me pareceu suficiente.
Mesmo assim, sempre existira dentro de mim uma ausência sem nome.
Uma estranha sensação de estar esperando por alguma coisa.
Ou de sentir saudade de um lugar onde nunca estivera.
Do ponto de vista de quem observava minha vida, eu não possuía motivos para me sentir incompleta. Aos vinte e quatro anos, já havia concluído a faculdade de Medicina e me especializava em cardiologia. Trabalhava em um bom hospital, tinha estabilidade financeira e morava em um apartamento confortável.
Eu tinha uma carreira.
Tinha amigos.
Tinha planos.
Mas, naquele momento, nada disso significava coisa alguma.
Não naquele dia.
Uma semana havia se passado desde o funeral de minha mãe.
Fechei os olhos e senti outra lágrima deslizar pelo meu rosto. Não tentei impedi-la. Durante os primeiros dias, eu me esforçara para permanecer forte. Recebera parentes distantes, colegas do hospital, vizinhos e conhecidos. Agradecera pelas flores, aceitara os abraços e respondera inúmeras vezes que ficaria bem.
Todos pareciam esperar que eu demonstrasse algum tipo de força.
Eu também esperava isso de mim.
Afinal, era médica. Estava acostumada a acompanhar doenças, lidar com diagnósticos difíceis e comunicar perdas. Conhecia os limites do corpo humano e sabia reconhecer quando não havia mais tratamento capaz de mudar o inevitável.
Nada disso me preparara para perder minha mãe.
A dor não respeitava conhecimento, lógica ou experiência.
Ela simplesmente existia.
Abri os olhos e contemplei meu reflexo no vidro da janela. Meus cabelos negros estavam presos em um coque desfeito, havia olheiras profundas sob meus olhos e meu rosto parecia ter envelhecido durante aquela semana.
A lembrança de nossa última conversa retornou à minha mente com a nitidez cruel das coisas que o coração se recusava a esquecer.
Minha mãe estava deitada no leito do hospital. A doença havia consumido quase toda a sua força, deixando seu corpo pequeno e frágil sob os lençóis brancos. Mesmo assim, quando entrei no quarto, ela conseguiu sorrir.
— Oi, mamãe. Como está se sentindo hoje?
Esforcei-me para parecer tranquila. Naquele quarto, eu tentava não ser médica. Queria ser apenas sua filha, mas era impossível ignorar os números nos aparelhos, a coloração de sua pele ou a dificuldade cada vez maior que tinha para respirar.
— Oi, Beija-flor — respondeu. — Hoje acordei sem dor.
Aproximei-me da cama e beijei sua testa.
— Isso é bom. Quero que descanse. Amanhã repetiremos alguns exames e conversaremos com o oncologista.
— Não haverá mais exames, Sarah.
Fingi que não compreendera.
— Precisamos acompanhar a evolução do tratamento.
— Não existe mais tratamento.
— Podemos avaliar outras possibilidades.
— Filha...
— Há estudos novos. Podemos procurar outro hospital, conversar com especialistas, tentar uma abordagem diferente...
— Sarah.
O modo como pronunciou meu nome fez com que eu me calasse.
Minha mãe estendeu a mão e esperou que eu a segurasse.
— Venha aqui, Beija-flor. Sente-se comigo.
Durante alguns segundos, permaneci imóvel. Eu sabia o que ela queria dizer, e uma parte de mim acreditava que, se não me aproximasse, aquela conversa não aconteceria.
Minha mãe não poderia se despedir se eu me recusasse a escutá-la.
Era um pensamento infantil e absurdo.
Ainda assim, naquele momento, pareceu fazer sentido.
— Por favor — pediu.
Arrastei a cadeira até a lateral da cama e me sentei. Ela levou minha mão aos lábios e depositou um beijo sobre meus dedos.
— Nossa vida juntas foi uma aventura, não foi?
As lágrimas se formaram imediatamente em meus olhos. Assenti, incapaz de responder.
— Tivemos momentos difíceis — continuou —, mas também fomos muito felizes. Você me deu mais felicidade do que eu poderia ter pedido.
— Não fale como se estivesse se despedindo.
— Nós duas sabemos que estou partindo.
— Não sabemos.
— Sabemos, sim.
— Eu não quero falar sobre isso.
— Mas eu preciso.
Retirei a mão da dela e me levantei.
— Não. Você precisa descansar.
Minha mãe me observou em silêncio. Não havia repreensão em seus olhos, apenas uma tristeza profunda.
— Passei a vida inteira tentando proteger você — disse. — Talvez, em alguns momentos, eu tenha confundido proteção com medo.
Parei ao lado da janela.
— Do que está falando?
— De seu pai. Da família dele. De La Push.
Virei-me lentamente.
Minha mãe falava sobre Benjamin com frequência. Contava como o conhecera, descrevia seu sorriso e repetia que eu herdara dele os cabelos escuros e a teimosia. Contudo, sempre que eu perguntava sobre La Push ou sobre os parentes dele, suas respostas se tornavam vagas.
Ela dizia que perdera o contato depois da morte de meu pai.
Nunca explicava por quê.
— O que isso tem a ver com sua doença?
— Nada. E, ao mesmo tempo, tudo. Quando eu partir, você ficará sozinha. Não quero que continue acreditando que não possui mais ninguém no mundo.
Voltei para perto da cama.
— Eu tenho amigos.
— Não estou falando de amigos. Você tem uma família, Sarah. Seu avô ainda pode estar vivo. Há pessoas em La Push que conheceram Benjamin e que saberão contar coisas que eu nunca consegui contar.
— Por que você nunca me levou até elas?
O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores.
Minha mãe desviou os olhos.
— Depois que seu pai morreu, eu tive medo.
— Medo de quê?
— De perder você também.
— Para a família dele?
— Não. A família de Benjamin jamais machucaria você.
— Então de quem?
Ela apertou os lábios. Por um momento, pareceu travar uma batalha interna.
— Existem acontecimentos que nunca consegui compreender completamente. Seu pai acreditava que você poderia correr perigo se permanecesse em La Push. Pediu que eu a levasse para longe e que não contasse a ninguém onde estávamos.
— Meu pai sabia que você estava grávida?
— Soube pouco antes de morrer.
Senti uma pressão dolorosa no peito.
Durante toda a minha vida, eu acreditara que Benjamin morrera sem saber que teria uma filha.
— Por que nunca me contou isso?
— Porque cada resposta traria novas perguntas. E algumas delas poderiam conduzir você exatamente ao lugar do qual eu precisava mantê-la distante.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
— Que perigo era esse?
Minha mãe fechou os olhos por alguns segundos.
— Não sei ao certo. Benjamin falava sobre histórias antigas, sobre pessoas que procuravam alguém de sua linhagem. Naquela época, pensei que o medo dele fosse consequência das lendas com as quais cresceu. Depois que ele morreu, decidi cumprir seu pedido.
— Você me afastou de minha família por causa de uma lenda?
— Eu a mantive viva por causa da possibilidade de que ela não fosse apenas uma lenda.
Afastei-me da cama.
Não sabia se sentia raiva, medo ou pena. Talvez sentisse tudo ao mesmo tempo.
— E agora quer que eu volte justamente para o lugar que evitou durante toda a minha vida?
— Porque alguma coisa mudou.
— O quê?
Ela demorou a responder.
— Eu comecei a ter sonhos.
Franzi a testa.
— Sonhos?
— Com seu pai. Com uma praia que não vejo há muitos anos. E sempre acordo com a sensação de que mantê-la longe deixou de ser a maneira de protegê-la.
— Mamãe, sonhos não são avisos.
— Talvez não sejam. Mas a morte nos obriga a olhar para aquilo que passamos a vida evitando.
Aproximei-me novamente e me ajoelhei ao lado da cama.
— Tudo o que eu quero está aqui, com você.
Minha mãe tocou meu rosto.
— Agora está. Mas, quando eu partir, esta cidade se transformará no lugar onde você tentou sobreviver à minha ausência. Não quero isso para você.
— Não vou conseguir viver sem você.
— Vai, sim.
— Não quero.
— Eu também não queria viver sem seu pai. Durante muito tempo, pensei que morreria junto com ele. Então descobri que carregava você.
A voz de minha mãe se desfez. Pela primeira vez, percebi que ela também estava com medo.
Não da morte.
De me deixar.
— Você me salvou, Sarah — continuou. — Antes mesmo de nascer. Agora preciso que encontre algo que a faça querer continuar quando eu não estiver mais aqui.
Abaixei a cabeça e chorei junto à sua mão.
— O que espera que eu faça?
— Vá para La Push. Procure o velho Ateara. Diga que é filha de Benjamin e de Sophia Mitena.
— E se ele não quiser me conhecer?
— Ele vai querer.
— Como pode ter certeza?
— Porque Benjamin era o filho dele. E você é tudo o que restou do homem que ele perdeu.
Respirei fundo.
— Não posso abandonar minha vida e viajar para o outro lado do país atrás de pessoas que nem sabem que existo.
— Não estou pedindo que abandone sua vida. Estou pedindo que descubra se ela realmente pertence a este lugar.
— E o hospital?
— Existem hospitais em Washington.
Mesmo debilitada, ela sorriu. Soltei uma risada chorosa.
— Você já planejou tudo, não foi?
— Sou sua mãe. Planejar sua vida sempre foi meu passatempo preferido.
— Controlar minha vida, você quer dizer.
— Também.
Por alguns segundos, o quarto pareceu mais leve. Foi um breve intervalo em meio à tristeza, uma lembrança de como éramos antes da doença.
Então ela tornou a ficar séria.
— Prometa que irá.
— Mamãe...
— Não precisa ficar. Não precisa acreditar nas histórias. Apenas vá até lá. Conheça seu avô, ouça o que ele tem a dizer e depois decida o que deseja fazer.
Os olhos dela carregavam tanta urgência que não consegui recusar.
— Eu prometo.
Minha mãe relaxou contra o travesseiro.
— Obrigada.
— Agora descanse. Voltarei à noite e jantaremos juntas.
Inclinei-me e depositei um beijo demorado em sua testa.
— Eu te amo, mamãe.
— Também amo você, Beija-flor.
Foi a última vez que ouvi sua voz.
Minha mãe morreu poucas horas depois, enquanto eu estava em casa tomando banho e trocando de roupa para voltar ao hospital.
Durante os dias que se seguiram, mal tive tempo para compreender o que acontecera. Havia documentos para assinar, pessoas para avisar, roupas para escolher e um funeral para organizar.
Sempre existia alguma providência que me impedia de parar.
Talvez por isso o dia mais difícil não tivesse sido o da morte.
Nem o do funeral.
O dia mais difícil estava sendo aquele.
Uma semana depois, o telefone já não tocava com tanta frequência. As flores começavam a murchar e o apartamento permanecia mergulhado em um silêncio que parecia ocupar todos os cômodos.
Foi naquela tarde que uma das enfermeiras do hospital apareceu em minha porta.
Ela me entregou um envelope e disse que minha mãe pedira que fosse enviado apenas depois do funeral.
Esperei que ela fosse embora antes de abri-lo.
Reconheci imediatamente a letra de minha mãe.
“Beija-flor,
“Quando você receber esta carta, eu já terei partido para encontrar Benjamin, o amor da minha vida.
“Sinto muito por deixar você. Se pudesse escolher, permaneceria ao seu lado por mais cem anos. Assistiria a cada uma de suas conquistas, continuaria esperando você voltar dos plantões e fingiria não perceber quando roubasse os doces que escondo no armário.
“Mas há coisas que nem mesmo o amor consegue impedir.
“Não quero que transforme a força em uma obrigação de não sofrer. Chore. Sinta raiva. Admita que dói. A coragem não está em ignorar a ferida, mas em aprender a caminhar sem fingir que ela não existe.
“Durante toda a sua vida, tentei protegê-la. Algumas vezes acertei. Em outras, permiti que meu medo decidisse por nós duas.
“No fundo do meu armário existe uma caixa de madeira. Nela você encontrará as cartas de seu pai, uma fotografia e o pingente que ele me deu. Leve tudo quando for a La Push.
“Procure o velho Ateara.
“Diga que eu sinto muito. Diga que nunca deixei de amar a família que encontrei naquele lugar. E diga que, apesar de todos os anos de silêncio, jamais esqueci quem eu fui ao lado deles.
“Talvez você descubra coisas que eu não tive coragem de revelar. Talvez fique com raiva de mim. Se isso acontecer, lembre-se de que todas as decisões que tomei nasceram do amor, mesmo aquelas que se mostraram erradas.
“Seu caminho não será fácil, mas você não estará sozinha.
“Vá para La Push.
“Conheça sua história.
“E permita-se ser feliz.
“Eu a amo eternamente.
“Mamãe.”
Li a carta três vezes.
Depois caminhei até o quarto dela e abri o armário.
A caixa estava escondida atrás de uma pilha de cobertores. Era feita de madeira escura e possuía uma lua crescente entalhada na tampa.
Sentei-me no chão antes de abri-la.
A primeira coisa que encontrei foi uma fotografia. Minha mãe parecia ter pouco mais de vinte anos. Estava em uma praia, abraçada a um jovem alto, de pele morena e cabelos negros. Ele sorria para a câmera, mas Sophia não olhava para quem tirara a fotografia.
Olhava para ele.
Virei a imagem e encontrei uma frase escrita no verso:
“Sophia e Benjamin. La Push. O dia em que prometemos que nenhuma distância seria maior do que nosso amor.”
Abaixo da fotografia havia diversas cartas amarradas por uma fita. Não tive coragem de abri-las naquele momento.
O último objeto era um pingente de prata.
Uma lua crescente envolvia a figura de um lobo.
Levei instintivamente a mão até o alto de minhas costas, exatamente onde estava minha marca de nascença.
O desenho era igual.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Durante toda a minha vida, minha mãe dissera que aquela marca não significava coisa alguma. Agora eu segurava uma joia que reproduzia cada detalhe dela.
Virei o pingente e encontrei uma pequena inscrição:
“A lua sempre encontra o caminho de volta para casa.”
Permaneci sentada no chão durante muito tempo, com a fotografia em uma mão e o pingente na outra.
Minha mãe escondera alguma coisa.
Talvez tivesse feito isso para me proteger. Talvez estivesse apenas assustada. Mas, pela primeira vez, percebi que eu jamais conhecera completamente a mulher que me criara.
Nem a mim mesma.
Voltei para a sala quando já estava escuro. As luzes dos edifícios continuavam acesas, revelando centenas de vidas em movimento.
Dessa vez, porém, não senti que a minha estivesse parada.
Ainda doía.
A ausência de minha mãe continuava abrindo um vazio impossível dentro de mim. Porém, em meio à dor, surgira outra coisa.
Uma pergunta.
E eu precisava encontrar a resposta.
Peguei o telefone e procurei o contato do hospital em Forks que me oferecera uma vaga alguns meses antes. Naquela época, eu recusara a proposta sem sequer considerar a mudança.
O diretor atendeu depois do terceiro toque.
— Doutora Ateara? É uma surpresa.
Olhei para a fotografia de meus pais.
— A vaga em cardiologia ainda está disponível?
Na manhã seguinte, comecei a organizar minha mudança.
Levaria apenas o necessário. Venderia os móveis, colocaria o apartamento à disposição e dirigiria até Washington. Não sabia quanto tempo permaneceria em La Push. Talvez algumas semanas fossem suficientes para cumprir a promessa.
Talvez eu conhecesse meu avô, ouvisse algumas histórias e voltasse para a vida que construíra.
Era nisso que tentava acreditar.
Na última noite em Grand Forks, fiquei diante da janela e contemplei a lua cheia. O pingente de minha mãe repousava contra meu peito e parecia mais quente do que deveria.
— Estou indo, mamãe — sussurrei. — Espero que você estivesse certa.
Por um breve instante, tive a impressão de que a lua brilhava com mais intensidade.
Minha decisão estava tomada.
Eu cumpriria a promessa.
Iria para La Push conhecer a família de meu pai, descobrir o significado do pingente e encontrar a parte de minha história que permanecera escondida durante vinte e quatro anos.
Naquele momento, ainda acreditava que estava apenas procurando respostas.
Não sabia que, ao deixar Grand Forks, eu também estava permitindo que algo antigo finalmente me encontrasse.
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