Acaso ou destino
4 CAPITULO 3 - A Tempestade
Jacob correu até os músculos começarem a queimar.
Galhos atingiam seu corpo, pedras cediam sob seus pés e a vegetação fechada da floresta se transformava em uma sucessão confusa de sombras verdes. Ainda assim, ele não diminuiu a velocidade.
Precisava se afastar.
Da casa.
Das pessoas.
Dela.
Não adiantou.
Mesmo depois de atravessar uma distância que nenhum ser humano comum conseguiria percorrer em tão pouco tempo, Jacob ainda sentia a presença de Sarah. Não sabia exatamente onde ela estava dentro da casa dos Black, mas alguma parte dele parecia capaz de indicar sua direção com precisão.
Era como uma bússola que passara a apontar para um único lugar.
Jacob parou próximo ao alto de uma elevação e apoiou as mãos nos joelhos, embora não estivesse verdadeiramente cansado. A transformação eliminara quase todo o esforço da corrida. O que lhe faltava não era ar.
Era controle.
Havia uma avalanche de sentimentos dentro dele.
Raiva.
Medo.
Revolta.
E, misturada a tudo isso, uma plenitude tão intensa que chegava a ser dolorosa.
Sarah.
Jacob fechou os olhos e imediatamente tornou a vê-la.
Os cabelos negros caindo até a cintura.
A pele clara.
A expressão emocionada enquanto abraçava o avô.
E aqueles olhos.
Ele jamais vira olhos como os dela. Eram de um verde tão claro que lembravam águas rasas iluminadas pelo sol. Havia algo sereno neles, mas também profundo e misterioso, como se escondessem uma força que nem a própria Sarah conhecia.
Bastara um olhar.
Um único instante.
E tudo mudara.
Jacob sempre desprezara o imprinting.
Para ele, aquela ligação transformava homens fortes em prisioneiros de um sentimento que não haviam escolhido. Tirava-lhes a liberdade, reorganizava suas prioridades e os fazia construir toda a existência ao redor de outra pessoa.
Sam abandonara Leah por Emily.
Jared modificara seus planos por Kim.
Paul, que antes parecia incapaz de permanecer alguns minutos no mesmo lugar, tornara-se estranhamente paciente quando Rachel estava por perto.
Jacob observara cada um deles e prometera que nunca permitiria que algo semelhante lhe acontecesse.
Como se uma promessa tivesse algum poder contra aquilo.
Ele abriu os olhos e atingiu o tronco de uma árvore com o punho.
A madeira se partiu no ponto do impacto.
— Isso não vai mudar o que aconteceu.
Jacob se virou rapidamente.
Sam estava parado alguns metros atrás dele, usando apenas a bermuda que carregava presa à perna durante a transformação. Sua expressão era tranquila, o que irritou Jacob ainda mais.
— Você me seguiu.
— Alguém precisava ter certeza de que você não derrubaria metade da floresta.
— Vá embora.
Sam se aproximou.
— Não.
— Não estou com disposição para ouvir um discurso sobre como o imprinting é maravilhoso.
— Não pretendia dizer isso.
Jacob soltou uma risada amarga.
— Claro que pretendia. Você vai dizer que é a melhor coisa que já sentiu, que Emily se tornou o centro da sua vida e que eu deveria aceitar sem lutar.
— E você ouviria?
— Não.
— Então eu estaria apenas desperdiçando palavras.
Jacob virou o rosto em direção à mata.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Sam conhecia suficientemente bem o amigo para saber que pressioná-lo produziria apenas mais resistência.
— Eu não quero isso — Jacob admitiu por fim.
Sua voz saíra mais baixa.
— Eu sei.
— Não, você não sabe.
— Sei melhor do que imagina.
Jacob se voltou para ele.
— Você aceitou.
— Não imediatamente.
— Mas aceitou. Abandonou Leah e reorganizou sua vida inteira ao redor de Emily. Agora tenta convencer todo mundo de que não havia outra escolha.
A expressão de Sam se tornou mais pesada.
— Não use Leah para esconder seu medo.
— Não estou escondendo coisa alguma.
— Está, sim. Você não correu porque odeia o imprinting. Correu porque, pela primeira vez, alguma coisa é maior do que você.
Jacob avançou um passo.
— Cuidado, Sam.
— Ou o quê? Vai me atacar porque não gostou de ouvir a verdade?
A temperatura do corpo de Jacob aumentou. Um tremor percorreu seus braços, anunciando a proximidade da transformação.
Sam não recuou.
— Controle-se.
— Não me dê ordens.
— Então pare de agir como um garoto assustado e pense no que acabou de fazer.
Jacob cerrou os punhos.
— Ela nem sabe quem eu sou.
— Exatamente.
— E, ainda assim, tudo dentro de mim exige que eu volte para aquela casa. Que fique perto dela. Que me certifique de que ninguém a assuste, machuque ou sequer olhe de uma forma que eu não considere segura.
— Isso não significa que precise obedecer a cada impulso.
Jacob o encarou.
— Você acabou de dizer que posso lutar contra isso?
— Estou dizendo que o imprinting não apaga quem você é. Ele não transforma Sarah em sua propriedade e não lhe concede direito algum sobre ela. Você continua responsável pelas próprias escolhas.
A raiva de Jacob diminuiu apenas o suficiente para dar lugar à confusão.
— Então ainda tenho escolha?
— Sempre.
— Você não teve quando viu Emily.
Sam respirou fundo.
— Tive escolhas, Jacob. Apenas não tive escolha sobre o que senti. Poderia ter lidado melhor com Leah. Poderia ter sido mais honesto e menos covarde. Poderia ter impedido que a matilha tratasse a dor dela como um inconveniente. O imprinting explica o sentimento, mas não absolve o modo como agimos.
Jacob desviou o olhar.
A sinceridade de Sam o desarmara mais do que qualquer discussão.
— Se eu ainda tenho escolha, posso decidir não voltar.
— Pode.
— Posso ficar longe dela.
— Pode tentar.
— Não acredita que eu consiga.
— Não por muito tempo.
Jacob soltou o ar com irritação.
— E se eu conseguir?
— Então terá de viver sabendo que deixou uma mulher cercada por um perigo que ela desconhece apenas porque estava assustado com o que sentia.
A lembrança do vampiro surgiu na mente de Jacob.
Os Volturi estavam procurando por uma mulher quileute marcada pela lua e pelo lobo.
Sarah surgira poucas horas depois.
Uma descendente de Benjamin Ateara, mantida longe da reserva durante toda a vida.
A coincidência era impossível de ignorar.
— Você acha que é ela — Jacob afirmou.
— Você também acha.
— Ainda não vimos a marca.
— Não precisamos vê-la para entender que a chegada dela está ligada ao que aconteceu hoje.
Jacob passou as mãos pelo rosto.
O desejo de retornar à casa se tornou quase insuportável. Não apenas por causa do imprinting, tentou convencer a si mesmo. Sarah poderia estar em perigo. Era responsabilidade da matilha protegê-la.
Mas ele sabia que essa era apenas parte da verdade.
— Não vou me transformar em um idiota que segue todos os passos dela — declarou.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Sam.
— Fico feliz em ouvir isso.
— Não vou mudar meus planos porque ela apareceu.
— Claro.
— E não vou permitir que ninguém comece a planejar casamento ou qualquer absurdo parecido.
— Ninguém mencionou casamento.
— Paul vai mencionar. Ele não consegue ficar calado.
— Nesse ponto, concordamos.
Jacob caminhou até a borda da elevação e observou a floresta.
— O que devo fazer?
Sam demorou alguns segundos para responder.
— Primeiro, volte a respirar normalmente. Depois, tente conhecê-la.
— E se ela não gostar de mim?
— Isso é possível.
Jacob olhou para ele, ofendido.
— Obrigado pela confiança.
— O imprinting não obriga Sarah a sentir o mesmo que você. Ela continuará tendo as próprias vontades, os próprios sentimentos e o direito de escolher a forma que essa ligação assumirá.
A possibilidade de rejeição provocou em Jacob uma dor tão repentina que ele precisou esconder a reação.
Sam percebeu.
— É disso que você está com medo — concluiu.
— Não tenho medo de ser rejeitado.
— Então volte para a casa e converse com ela.
Jacob permaneceu calado.
— Foi o que pensei — Sam comentou.
— Você está se divertindo com isso.
— Um pouco.
Jacob revirou os olhos.
— Vá embora.
— Voltarei para a casa. O conselho precisa decidir o que fará sobre os Volturi, e sua ausência já está chamando atenção demais.
— Preciso de algum tempo.
— Tenha esta noite.
Jacob o encarou.
— Só esta noite?
— Amanhã haverá uma reunião na fogueira. Os anciãos contarão a lenda, e Sarah precisará estar presente.
— Ela ainda não sabe sobre nós.
— Não. E não contaremos nada até termos certeza de que a lenda fala dela. Mas você estará lá.
— Isso foi uma ordem?
— Considere um conselho dado por alguém que não pretende procurá-lo novamente na floresta.
Sam começou a se afastar, mas parou depois de alguns passos.
— Jacob.
— O quê?
— Não desconte nela a raiva que sente do imprinting. Sarah não pediu por isso.
A advertência atingiu Jacob com força.
Ele olhou novamente para a direção da casa.
— Eu sei.
Sam se transformou e desapareceu entre as árvores.
Jacob permaneceu sozinho, embora já não pudesse dizer que se sentia verdadeiramente só.
Uma parte dele continuava junto de Sarah.
Talvez permanecesse para sempre.
Na casa dos Black, Sarah tentava acompanhar a quantidade de nomes e rostos que lhe eram apresentados.
Sue Clearwater fora a primeira a abraçá-la. Havia nela uma serenidade acolhedora, capaz de diminuir o desconforto de Sarah diante de tantas pessoas desconhecidas.
Rachel, filha de Billy e irmã mais velha de Jacob, recebeu-a com um sorriso caloroso. Ao seu lado estava Paul, o jovem que fora repreendido mais de uma vez por fazer comentários em momentos inadequados.
Sam havia saído logo depois de Jacob, dizendo apenas que precisava verificar se o amigo estava bem.
Os outros jovens foram apresentados rapidamente: Jared, Embry, Quil e Seth. Este último, com seu entusiasmo quase infantil, parecia particularmente curioso a respeito da recém-chegada.
No entanto, Sarah não conseguia afastar completamente o pensamento do homem que fugira.
Jacob.
Ela ainda via os olhos negros presos aos seus. Ainda se lembrava da expressão de pavor que atravessara o rosto dele antes que corresse para a floresta.
O encontro durara apenas alguns segundos.
Mesmo assim, deixara uma sensação estranha em seu peito.
— Sarah?
A voz de Ateara trouxe sua atenção de volta à sala.
— Desculpe. O que o senhor disse?
O avô sorriu.
— Perguntei por sua mãe. Como Sophia está?
A alegria no rosto dele tornou a resposta ainda mais difícil.
Sarah sentiu um nó se formar na garganta. Apertou as mãos sobre o colo e respirou fundo.
— Ela se juntou ao meu pai, vovô.
O sorriso de Ateara desapareceu.
— O quê?
— Mamãe morreu há pouco mais de uma semana.
O silêncio caiu sobre a sala.
Ateara pareceu envelhecer vários anos em poucos segundos. A esperança do reencontro, que acabara de nascer, foi substituída pela dor de uma perda tardia.
— Sophia também se foi — murmurou.
Sarah assentiu.
— Ela estava doente havia algum tempo. Lutou até onde conseguiu.
Ateara abaixou a cabeça. Durante anos, alimentara sentimentos contraditórios em relação à mulher que desaparecera depois da morte de seu filho. Sentira mágoa, revolta e, em alguns momentos, raiva.
Agora descobria que Sophia não apenas morrera, mas deixara para trás uma filha que ele desconhecera durante vinte e quatro anos.
— Eu deveria tê-la procurado — lamentou. — Depois que Benjamin morreu, tentei entrar em contato, mas ela já havia partido. Com o tempo, aceitei que não queria ser encontrada.
Sarah segurou a mão do avô.
— Ela estava com medo.
— De nós?
— Não. Mamãe deixou uma carta. Disse que meu pai pediu que ela me levasse para longe de La Push caso eu nascesse com uma determinada marca.
Os mais velhos trocaram olhares.
Billy se inclinou ligeiramente para a frente.
— Que tipo de marca?
Sarah levou a mão ao pingente. Uma inquietação instintiva fez com que hesitasse.
Aquela ainda não parecia ser a hora de contar tudo.
— Uma marca de nascença — respondeu. — Ela nunca explicou por que seria perigosa.
Sue percebeu sua insegurança e interferiu com delicadeza.
— Sarah acabou de chegar e ainda está tentando compreender tudo. Podemos conversar sobre isso depois.
Billy assentiu, embora sua preocupação permanecesse evidente.
— Sue tem razão. Hoje deveria ser um dia de reencontro.
Ateara apertou a mão da neta.
— Sophia foi uma mulher extraordinária. Corajosa, inteligente e teimosa como poucas pessoas que conheci.
Um sorriso triste surgiu nos lábios de Sarah.
— Ela dizia que minha teimosia vinha do meu pai.
— Nesse ponto, ela estava tentando se livrar da responsabilidade — Billy comentou. — Sua mãe nunca aceitava perder uma discussão.
As pessoas ao redor riram, e a tensão diminuiu.
— Conte-me sobre ele — Sarah pediu ao avô. — Mamãe falava muito sobre meu pai, mas eu gostaria de conhecê-lo por meio de suas lembranças.
Ateara recostou-se na cadeira. Seus olhos se perderam em algum ponto distante, onde as recordações pareciam permanecer guardadas.
— Benjamin era um guerreiro, mesmo antes de ter qualquer batalha para enfrentar. Era corajoso, protetor e completamente incapaz de ignorar alguém que precisasse de ajuda. Também era impulsivo. Tomava decisões com o coração e só depois se lembrava de que deveria ter pensado.
— Isso explica muita coisa — Billy comentou.
Ateara sorriu.
— Quando viu Sophia pela primeira vez, ficou tão atordoado que tropeçou nos próprios pés.
Sarah riu.
— Meu pai?
— Ele mesmo. Benjamin conseguia enfrentar qualquer perigo, mas não foi capaz de dizer uma frase completa para sua mãe. Saiu da praia quase correndo.
— Parece familiar — Paul comentou.
Rachel atingiu o braço dele.
— Fique quieto.
— O quê? Só disse que parece familiar.
Ateara lançou um olhar de advertência para Paul antes de continuar:
— Seu pai passou dois dias criando coragem para procurar Sophia. Quando finalmente a encontrou, levou flores.
— Isso parece romântico.
— Seria, se não fossem flores arrancadas do jardim de Sue.
Todos olharam para ela.
Sue cruzou os braços.
— Eu sabia que havia sido Benjamin.
— Ele disse que eram flores silvestres — Ateara contou.
— Meu jardim não era silvestre.
Sarah riu novamente.
O som surpreendeu a ela própria.
Desde a morte da mãe, acreditara que rir seria uma espécie de traição. Como se a felicidade, mesmo por alguns segundos, diminuísse a importância de sua perda.
Naquela sala, cercada por pessoas que contavam histórias sobre seus pais, Sarah compreendeu que as duas coisas poderiam existir ao mesmo tempo.
Poderia sentir saudade e ainda sorrir.
Poderia estar de luto e, mesmo assim, encontrar alguma alegria.
Ateara contou outros episódios. Falou sobre a infância de Benjamin, sobre as travessuras que cometera com os amigos e sobre o orgulho que sentira quando o filho decidira estudar fora da reserva.
Sarah ouviu cada palavra com atenção.
Pela primeira vez, Benjamin deixou de ser apenas o homem da fotografia ou o grande amor descrito por Sophia.
Tornou-se real.
Tornou-se seu pai.
— E você? — Rachel perguntou depois de algum tempo. — Pretende permanecer em Forks?
— Pelo menos por enquanto. Aluguei uma casa perto da estrada para La Push e começarei a trabalhar no hospital da cidade.
— O que você faz? — Seth perguntou.
— Sou médica cardiologista.
Paul começou a rir.
Todos olharam para ele.
— Desculpe — disse, embora não parecesse arrependido. — É que isso é perfeito.
— O que é perfeito? — Sarah perguntou.
— Jake vai precisar de uma cardiologista quando...
Rachel deu um tapa na nuca dele antes que terminasse.
— Ai!
— Você prometeu ficar calado.
— Não prometi nada.
— Paul — Billy advertiu.
Ele ergueu as mãos em rendição.
— Tudo bem. Não vou falar mais nada.
Sarah olhou de Rachel para Billy.
— O que ele ia dizer?
— Nada importante — Rachel respondeu rapidamente. — Meu namorado tem uma relação complicada com o bom senso.
— Ainda não entendi quem é exatamente Jacob — Sarah insistiu, tentando fazer a pergunta parecer casual. — Além de ser seu irmão e aparentemente fugir de visitas.
Rachel sorriu.
— Jacob é o filho mais novo de Billy. Trabalha na oficina, conserta qualquer coisa que tenha um motor e acredita que consegue resolver todos os problemas sozinho.
— Ele também é nosso líder — Seth acrescentou.
A sala ficou em silêncio por uma fração de segundo.
Sue olhou para o filho.
— Líder da turma — corrigiu. — Os rapazes cresceram juntos.
Sarah percebeu a estranheza, mas não insistiu.
Havia segredos naquela casa.
Sua mãe já lhe mostrara que algumas pessoas escondiam a verdade por acreditarem estar protegendo quem amavam. Sarah não sabia se os moradores de La Push faziam o mesmo, mas reconhecia os silêncios, as frases interrompidas e as trocas de olhares.
— Jacob não costuma agir daquela maneira — Billy explicou. — O dia foi difícil, e ele recebeu algumas notícias preocupantes pouco antes de você chegar.
— Notícias sobre o quê?
Billy demorou um pouco para responder.
— Pessoas desconhecidas foram vistas perto de nossas terras.
— Isso acontece com frequência?
— Não dessa forma.
Ateara olhou para Billy. Ambos compreendiam que não poderiam esconder o perigo de Sarah por muito tempo.
— Haverá uma reunião amanhã à noite — disse o avô. — Uma fogueira. Os anciãos contarão algumas histórias de nosso povo.
— Lendas? — Sarah perguntou.
— Algumas pessoas chamam assim.
Ela tocou novamente o pingente.
— Minha mãe dizia que certas histórias dormiam durante muitos anos antes de despertar.
Ateara ficou imóvel.
— Sophia dizia isso?
— Desde que eu era criança.
— Então talvez já soubesse que este momento chegaria.
Sarah não respondeu.
A ideia de que a mãe pudesse ter previsto seu retorno tornava a ausência ainda mais dolorosa. Desejou que Sophia estivesse ali para explicar o que nunca tivera coragem de revelar.
Sue se levantou e começou a organizar as xícaras sobre a mesa.
— Sarah deve estar cansada. Dirigiu durante vários dias e ainda nem conseguiu organizar a casa.
— Ela pode ficar comigo — Ateara ofereceu imediatamente.
Sarah sorriu.
— Eu aluguei uma casa, vovô. Preciso pelo menos dormir nela uma noite antes de abandoná-la.
— Então irei com você.
— Não precisa.
— Acabei de descobrir que tenho uma neta. Não espere que eu permita que desapareça sozinha pela estrada.
— Ela não vai desaparecer — Billy disse. — Rachel e Paul podem acompanhá-la.
Paul abriu a boca, mas Rachel apontou um dedo para ele.
— Sem comentários.
— Eu não ia dizer nada.
— Sua expressão estava dizendo por você.
Sarah voltou a rir.
A sensação de estar cercada por aquelas pessoas era estranhamente familiar. Conhecera todos havia poucas horas, mas não se sentia como uma visitante.
Sentia-se acolhida.
Durante toda a vida, Grand Forks fora sua casa. Lá estavam suas memórias, sua formação e cada momento vivido ao lado da mãe. Mesmo assim, uma parte de Sarah sempre experimentara uma ausência que não sabia explicar.
Em La Push, aquela ausência parecia começar a ser preenchida.
Talvez Sophia estivesse certa.
Talvez o pedaço que faltava de sua vida realmente estivesse ali.
Do lado de fora, oculto entre as árvores, Jacob observava a luz que escapava pelas janelas da casa.
Retornara pouco depois de Sam, mas ainda não encontrara coragem para entrar.
Sua audição captava as vozes no interior da residência.
Ouviu quando Sarah contou sobre a morte da mãe.
Ouviu o avô falar sobre Benjamin.
Ouviu Paul fazer comentários imprudentes.
E ouviu Sarah rir.
O som atravessou Jacob com uma força inesperada.
Por alguns segundos, toda a raiva que sentia desapareceu. Um sorriso quase involuntário surgiu em seu rosto antes que ele se lembrasse de que estava tentando resistir.
A porta da casa se abriu.
Jacob recuou para a escuridão.
Sarah surgiu na varanda ao lado de Rachel e Paul. Ateara permaneceu na entrada, repetindo recomendações e exigindo que ela voltasse na manhã seguinte.
— Eu voltarei, vovô — Sarah prometeu.
— Cedo.
— Cedo.
— E telefone quando chegar em casa.
— Sim, senhor.
Ela se despediu com outro abraço.
Antes de caminhar até a picape, Sarah parou.
Seu olhar percorreu a linha das árvores.
Jacob sabia que ela não poderia vê-lo. A escuridão e a distância o mantinham perfeitamente escondido.
Ainda assim, teve a impressão de que os olhos verde-água se fixaram exatamente no ponto onde estava.
Sarah levou a mão ao pingente.
A joia refletiu a luz da varanda por um breve instante.
Uma sensação quente atravessou o peito de Jacob.
Ela permaneceu observando a floresta durante alguns segundos, como se esperasse que alguém saísse de trás das árvores.
— Está tudo bem? — Rachel perguntou.
Sarah desviou o olhar.
— Sim. Pensei ter visto alguma coisa.
— Há muitos animais por aqui.
— Deve ter sido isso.
Ela entrou na picape. Paul e Rachel seguiram em outro carro, prontos para acompanhá-la até a nova casa.
Jacob observou os veículos desaparecerem pela estrada.
Somente então saiu de trás das árvores.
— Você poderia ter entrado.
A voz de Billy veio da varanda.
Jacob fechou os olhos por um instante.
— Sabia que eu estava aqui?
— Sou seu pai.
— Isso não explica nada.
— Explica o suficiente.
Jacob se aproximou lentamente da casa.
— Ela perguntou sobre mim?
Billy sorriu.
— Pensei que não estivesse interessado.
— Só quero saber o que ela ouviu.
— Claro.
— Pai.
— Sim. Ela perguntou quem você era.
O coração de Jacob reagiu antes que pudesse impedir.
— E o que disseram?
— A verdade.
— Que verdade?
— Que você é impulsivo, teimoso e acredita que pode resolver tudo sozinho.
Jacob encarou o pai.
— Isso foi Rachel.
— Com algumas contribuições minhas.
— Ótimo.
Billy permaneceu observando o filho. A diversão desapareceu de sua expressão, dando lugar à seriedade.
— Foi imprinting?
Jacob não respondeu.
Não precisava.
Billy fechou os olhos por um instante.
— Com a neta de Ateara.
— Parece que sim.
— Não parece, Jacob. Ou aconteceu ou não aconteceu.
— Aconteceu.
Dizer a palavra em voz alta tornou tudo mais real.
Billy olhou para a estrada por onde a picape desaparecera.
— Então as lendas estão despertando ao mesmo tempo.
— Ainda não sabemos se Sarah é a mulher que os Volturi procuram.
— Você acredita em coincidências?
— Não muitas.
— Nem eu.
Jacob se sentou no degrau da varanda.
— Ela não pode saber.
— Sobre o imprinting?
— Sobre nada. Não ainda.
— Sarah merece conhecer o perigo.
— Primeiro precisamos entender o que está acontecendo.
Billy concordou.
— Amanhã, durante a fogueira, os anciãos contarão tudo o que sabem. Depois decidiremos o que pode ser revelado.
Jacob assentiu.
— Estarei lá.
Um sorriso discreto apareceu no rosto de Billy.
— Sam conseguiu convencê-lo a voltar?
— Não.
— Então foi ela.
Jacob não respondeu.
Não havia necessidade.
Na estrada, muito além das árvores, as luzes traseiras da picape de Sarah já não podiam ser vistas. Mesmo assim, Jacob sabia exatamente a direção que ela seguira.
A ligação continuava ali.
Firme.
Inescapável.
Pela primeira vez, porém, a sensação não lhe trouxe apenas revolta.
Trouxe medo.
Os Volturi estavam procurando por Sarah.
E, antes mesmo de conhecê-la, Jacob sabia que permitiria que o mundo inteiro se voltasse contra ele antes de deixar que alguém a levasse.
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