Acaso

1 único


Ele passava correndo todas às vezes que Zoro o encontrava, de vez em quando até se esbarravam e ele mandava tomar no cu.

Mas Zoro não conseguia odiá-lo. Ficar apressado pelos corredores do colégio rendeu situações que Zoro viu que aquele loirinho da sobrancelha enrolada era diferente.

E assim como ele, o loirinho notou sua presença.

Senão não teria sorrido para provocá-lo assim que seus olhos se encontraram após Zoro trancar o seu armário de aço.

Ele mostrou todos os dentes e havia sangue neles. Estava surrado e os cabelos sedosos desgrenhados. Havia acabado de sair da pedagogia e pegou o olhar curioso de Zoro. Era perceptível quando Zoro o encarava que ele acreditava estar sempre cagado, mas naquele dia era compreensível, porque estava mesmo cagado.

"Tretas, marimo..."

Foi a primeira vez que respondeu uma pergunta de Zoro, apesar dela não ter chegado a sair de sua mente.

Outros dias passavam, outros encontros do acaso. Descobriu seu nome no meio daqueles passos acelerados e a mão inquieta indo até a boca, como se procurasse por um cigarro. Aquela pilha de ansiedade se chamava Sanji, um nome pequeno como o seu, mas que passou a ser repetido nos corredores e salas de aula.

Sanji era um fudido.

Ninguém gostava dele, mas isso não parecia ser um problema para ele.

Talvez Sanji pensasse como Holden Caulfield pensava do teatro. Todos interpretando pessoas que não existem. Ele era verdadeiro.

Uma vez chovia forte, Zoro saía do prédio escolar com um guarda-chuva e encontrou Sanji parado no pátio, olhando pra cima e todo ensopado.

Ele lhe pareceu diferente naquele dia, como se importasse sim com os rumores e que, além de verdadeiro, fosse frágil.

Zoro sabia que não eram amigos (ele nem ao menos sabia seu nome) e que só se esbarravam ao acaso, mas algo fez com que ele agisse finalmente; andou até Sanji e o cobriu com o seu guarda-chuva. Como um amigo faria.

Sanji piscou os olhos surpreendido com sua presença e quando compreendeu quem era, sorriu.

E não havia sangue.

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