Acampamento Russo

2 1. Três meses depois


O termômetro da rua sessenta e três com a sessenta e cinco marcava quase 40°C, contudo a sensação térmica era de 50°C. Na pequena cidade Carter Miller, onde o único lugar que os pobres habitantes tinham para se refrescar era a sorveteria Miller Ace, um estabelecimento que atendia todos, inclusive os terríveis e inteligentes fundadores da cidade. Que alguns, por obras divinas, continuavam vivos.

Em uma das mesas ao lado de fora, no sol quente, estavam duas garotas comentando sobre o calor infernal que fazia um dos motivos para elas terem colocado como apelido para a cidade de Inferno.

– Não é possível que o idiota do seu irmão fosse sair justo com aquela desmiolada!

– Tinha dúvidas de quem era o mais desmiolado, entre os dois, ontem ele provou ser mais. — a garota de cabelos castanhos claros fez um pausa para tomar um pouco do seu sorvete de tutti-frute, que estava derretendo mais rápido do que o normal, que a estava deixando-a com raiva, já que era seu momento de alegria, era apreciar o gosto sorvete bem devagar. – Ontem ele saiu de casa, perfumado demais para uma simples partida de tênis. – sim, essa foi a desculpa esfarrapada que ele deu. – Então como qualquer irmã mais velha, que está desconfiando do seu pobre irmão mais novo, o seguir. Perdi meia hora da minha vida atrás daquele traste, quando o encontrei, estava aos amasso com a desgraçada da Meredith....

A outra garota que escutava atenciosamente sua amiga contar sua trajetória de heroína, estava cansada demais com suas aventuras, já que ela mesma não vivia mais nenhuma que realmente valesse a pena compartilhar. Suas únicas aventuras era correr atrás da sua irmã casula para ir tomar banho, pois parecia que a pequena Sam, havia herdado algum tipo de espirito de gato. E de ficar responsável pela sua irmã do meio, que tinha mudado muito desde a morte do seu pai.

Ela sendo filha mais velha, teve que assumir as contas pela a educação de suas irmãs, pois sua mãe não tinha condições de tomar conta de si mesma, imagina de duas adolescentes e uma criança?

– O que me deixa mais puta, foi vê-los juntos, pois pensava que ele gostava de outra. – terminou com uma dúvida na cabeça, se sua melhor amiga havia escultado tudo o que disse, pois ela parecia está em outra dimensão. Ela mudou bastante, pensou. – Então, já recebeu a resposta?

– Que resposta? – perguntou sobressaltada, confirmando a suspeita da amiga.

– Do acampamento, Lake. E de qual mais seria? — falou com raiva, não da sua amiga, e sim porque seu sorvete tinha terminado.

– Recebi, mas está do jeito que chegou. — respondeu cabisbaixa.

A morena pensou duas vezes, o que era um pouco raro, antes de tomar qualquer atitude que pudesse acabar com sua amizade de anos. Sua amiga seria muito burra se não abrisse a carta para saber se havia passado, claro que ela já tinha passado só os candidatos que tinham passado recebe uma carta, e sua amiga recebeu e deixou do mesmo jeito, era muita burrice mesmo.

– E eu posso saber por que diabos você não abriu a carta?- disse sem paciência.

– Porque eu não vou. Tenho muitas coisas que preciso resolver aqui, não posso simplesmente jogar tudo para o alto e sumir por três meses.

– Claro que você pode e você deve. Não deixe a responsabilidade de cuidar das suas irmãs em primeiro lugar, a Camila pode muito bem tomar conta dela mesma e da Sam. Quando você vai deixar de viver a vida dos outros e começar viver a sua? Essa carta é uma oportunidade de viver coisas novas de sair dessa droga de cidade. Cadê aquela Elisabeth aventureira, inteligente que conheci?

– Você não sabe de nada, Beatriz.

– Claro que eu sei! Você está morrendo aos poucos. Vai afundar nessa cidade para resto da sua existência, e para ser bem sincera, não estarei aqui para ver isso acontecer.

A morena pegou suas coisas e foi embora, sem olhar para trás. Deixando a loura sem noção do que tinha acabado de acontecer, recebeu uma lição de moral de uma pessoa que quase se matou por uma simples separação dos pais. Ela ainda conseguia ver os dois, no seu caso não dava para ver nenhum deles, um estava morto, e o outro passava mais tempo no lar de repouso do que em casa.

***

A residência dos Lake ficava ao sul, onde a maioria das casas era em condôminos fechados. Eles haviam se mudado para lá, quando a Lisa tinha apenas um ano de vida para sua segurança. Ela se lembra de pouca coisa da sua antiga casa, só se lembrava que era em algum lugar rodeado por árvores e pequenos bichos, por trazer uma pequena cicatriz na sola do pé, de um animal tão pequeno e perigoso que resultou na sua mudança, para uma cidade miserável.

Sua decoração era um pouco diferente das demais, a pintura era um tom de azul claro com uns detalhes em brancos, feitas pela a matriarca da família que era uma pintora nata. Por dentro era uma mistura de clássico com moderno que deixava leve e elegante.

A não ser pela a bagunça de brinquedos espalhados por todos os cantos, desde da sala até ao banheiro.

– Samanta! Venha já aqui.- gritou a loura assim que pisou no quarto da pequena, que estava um desastre total.

A pequena Samanta estava escondida, toda animada debaixo da cama dos seus pais, vendo sua irmã mais velha passar por corredor de um lado para outro em busca dela. Ela sabia que, sua irmã evitava ao máximo entrar no quarto de seus pais, por isso era um bom lugar para se esconder. Mas seus risos baixos chamaram atenção da Lisa, quando passava na frente do quarto dos seus pais indo na direção ao quarto da Camila.

A pequena era um demônio mesmo, pensou.

A Sam sabia que tentava evitar aquele quarto sempre que dava, para não ter aquela sensação de perda e esquecimento.

– Samanta! Eu sei que você está aqui, se não aparecer em cinco segundos vai ficar sem sobremesa pelo resto do mês. — afirmou, ainda no batente da porta.

A menina saiu de baixo da cama dos pais, com uma rapidez admirável, ficar sem sua sobremesa por um mês seria o fim do mundo. As duas ficaram se encarando por vários minutos. A pequena de cinco anos, tinha os mesmos cabelos escuros do pai, pretos com a noite mais estrelada. A fazia relembra de uma época em que sua família era unida, e reabrir velhas cicatrizes, quem nem foram fechadas direito.

– Apareceu! – uma palavra que deixou a pequena em com o coração na boca, ela nunca via sua irmã mais velha com raiva, mas o que deixou ela com medo foi a expressão dela. – Pode me explicar por que a casa está uma bagunça? E cadê sua irmã?

– A Camis saiu. E não sei de nenhuma bagunça.

– E aquilo espalhado pela sala seria o quê? Sua irmã saiu? Sabe para onde aquela imprestável foi?

– Não.

– Certo! Melhor começar a recolher todos os brinquedos espalhados pela casa, antes que você fique sem sobremesa pelo resto da semana.

– Mas você disse... — protestou com sua habitual carinha de cachorro sem dono.

– Eu sei muito bem o que eu disse, agora vai. Comece pela sala.

A loura foi ao quarto da irmã do meio, em busca de alguma coisa, que pudesse incrimina-la, mas a única coisa que foi possível encontrar foi uma barata de plástico perto da porta do armário. A Camila sempre foi a pessoa mais organizada que ela conhecia, mas depois que o Coronel Grant apareceu da porta da ridência dos Lake, naquela tarde de primavera há um ano. A filha do meio dos Lake tinha assumido uma postura bastante incomum, tomando atitudes que ninguém jamais sonhou.

***

O relógio em cima da pequena chaminé, que quase não era mais usada, marcava vinte para duas da manhã. A Samanta já estava em um sono profundo. Enquanto sua irmã mais velha estava sentada no escuro da sala de entrada, tendo uma visão privilegiada da porta.

No lado de fora, uma Mercedes preta parava na porta da garagem dos Lake, o silêncio que a casa passava do lado de fora era assustador. Principalmente, para a Camila que tinha passado o dia com seus amigos a beira da piscina do Club Carter. Despediu-se, rapidamente do seu amigo, antes que qualquer vizinho viesse e comesse mais um novo comentário nada improprio para mocinha de cabelos louros escuros.

Seguiu apressada — e tentando fazer nenhum barulho- a porta da frente de sua casa. Assim que trancou a porta e tirou os sapatos para não fazer nenhum barulho para acorda suas irmãs.

Levou um susto assim que a luz do abajur ligou a fazendo cair nos primeiros degraus da escada.

– Quer me matar de susto?

– Matar você certamente seria um ponto final para todos os meus problemas. Mas, nada na vida é perfeito.

– Você com suas idiotices, agora se me dê licença, preciso dormir.

– Vai ter amanhã o dia inteiro para tirar seu sono da beleza. Poderia me dizer onde a senhorita estava até uma hora dessas? E aproveita e me explica qual e a sua idade mental para deixar uma criança de apenas cinco anos sozinha em casa?

– Desde quando você virou minha mãe para me pedir explicações? E a Samanta sabe muito bem se cuidar sozinha.

– Desde o momento que você começou agir desse jeito.

– Desse jeito como? Quando comecei aproveitar a vida, enquanto você começava a aprender a cuidar de casa. — disparou se nenhum remorso, ela sabia que sua irmã tinha deixando de viver muitas coisas nesse último ano para cuidar delas, porém, ninguém nunca pedir que ela fizesse isso. Era uma idiota que tentava tomar o lugar dos seus pais. – Olha para você, tentando ser alguém que nunca vai ser. Vai tomar conta da sua vida que eu sei muito bem tomar conta da minha. – terminou virando as costas para a filha mais velha dos Lake.

Enquanto a Camila disparava aquelas palavras frias e apenas ditas da boca para fora, ela tinha deixando de viver muitas coisas, a prol de uma pessoa que estava se ferrando por isso.

Seguiu em direção ao seu quarto, que tinham paredes vermelhas, em uma delas era desenhas com tinta branca uns pássaros voando para o horizonte, um dos poucos trabalhos que ajudou sua mãe a fazer. Antes mesmo de entrar no seu quarto, seus olhos foram para a pequena estante de livros que ocupava um dos lados do quarto.

Ela sempre escutou que para ser corajoso tinha apenas vinte segundos, pegou seu celular e discou um número nada desconhecido, enquanto chamava, pensava que talvez fosse arrepender-se, mas não poderia viver no se tinha que se arrepender de alguma coisa na sua vida.

Sua vida era perfeita de mais, sempre havia vivido em uma zona de conforto, tinha deixando de viver as suas aventuras. Esse tempo de brincar de dona de casa estava a deixando maluca. E ela tinha a desculpa perfeita para salvar ela daquela dimensão. E torcia que não fosse tão ruim assim.

– Que seja realmente importante, para me ligar há uma hora dessas da manhã.

– Pode me matar depois, só queria saber se pode fazer um favor para mim.

– E qual seria princesa? Buscar algum príncipe para tirar sua preciosa virgindade?

– Achava que seu humor era melhor a luz do dia, mas estava enganada.

– Isso é o que recebe por me acordar há uma hora da manhã, então deixa de ladainha e conta logo.

– Você poderia ficar de olho ou tomar conta da Sam? Pois, não confio mais na Camila para tomar conta dela.

– Isso depende, por quanto tempo?

– Uns três meses.

– E para que inferno você vai?

– Vou seguir o seu concelho e o da minha irmã, vou começar a viver minha vida. – fez uma pausa, esperando que a Beatriz comentasse alguma coisa. Mas, não veio nada. – Vou para o Acampamento, já que tenho uma grande dívida com uma pessoa em especial.

Os minutos seguintes foram dominados por um silêncio ensurdecedor, a loura estava começando a pensar que sua amiga tinha caído no sono. Mas, ela estava enganada.

Do outro lado da linha, sua amiga estava rindo silenciosamente, minha Lisa ainda existe.

– Faz um favor para mim?

– O que? – concordou com uma pulga atrás da orelha, que nada de bom poderia vim da Beatriz há essa hora da madrugada.

– Não volte com sua virgindade intacta. É a única coisa que te peço.

Notas finais
então o que acharam ?