Acampamento Fênix
1 Lar, doce lar
Marília fechou as mãos em punhos e sentiu algo que parecia areia: uma coisa farelenta, áspera e quente. Franziu o cenho, tentou sentar, mas estava fraca demais para tanto. Seu corpo pesava, ela estava perfeitamente seca, mesmo sentindo a água bater em suas pernas. Estava na beira de um lago. Abriu os olhos e os semicerrou ao encarar a luz do sol, tomando coragem para levantar. Assim o fez. Tateou e mirou as roupas em farrapos, em expressão de desaprovação murmurou:
– Mas que droga! Era só um passeio em Ipanema, não um mergulho no Guaíba.
Um filme passou pela sua mente, fazendo-a lembrar do que acontecera. Havia saído de casa para um passeio qualquer, mas acabou lutando com uma "coisa" metade humana, metade réptil. Chacoalhou a cabeça, como se aquele gesto fosse afastar os maus pensamentos, e tomou tudo como um delírio. Aquilo era impossível. No entanto, levou a mão ao pescoço, onde tocou o pingente de seu colar. Arrancou-o. Ele se transformou numa espada de lâmina mediana, cujo punhal era de prata maciça e ornamentada com figuras marinhas diversas. Aquela joia a acompanhava desde pequena, mas a menina nunca havia tentado "empunhar" o pingente, até porque não faria sentido algum, mas, naquele momento supracitado de pavor, ela o usou como defesa e acabou tendo como ataque também. A espada tinha forma e o peso perfeitos para ela. Guardou de volta o instrumento, olhou ao seu redor e suspirou. Lá vamos nós, pensou. Caminhou sobre a areia, logo mais encontrou um bosque e não pensou duas vezes antes de atravessá-lo. Bem no final da trilha que seguiu, encontrou uma estaca de madeira com algumas plaquinhas grudadas a ela, dentre as quais havia uma em especial que chamou-lhe a atenção. Dizia "Acampamento Fênix", apontava para oeste. Intrigada e extremamente esperançosa, ela caminhou naquela direção. Um pórtico imenso dava as boas vindas para o dito acampamento. Havia uma estátua de ave também muito grande à esquerda, talhada a ouro, com as asas abertas e os olhos desafiadores. Marília cruzou o pórtico e dali teve uma visão periférica da parte interior: tudo era muito bonito. Conseguia enxergar muitas coisas, mas sabia que aquilo não era nada perto do que poderia haver em toda a extensão do terreno. Seus olhos identificaram um prédio muito parecido com o antigoOlympeion, mas reformado e mais modernizado; um lago central consideravelmente grande; uma floresta cujas árvores eram bem altas e possuidoras de copas densas; um conjunto de chalés; uma arena. Garotinhas que pareciam elfos brincavam no lago, outras corriam entre as árvores, mas algo chamou a atenção da garota: misturados com alguns jovens, haviam seres de pernas de bode. E, deuses, o que era aquele outro animal? Um centauro? Não, não. Isso só existe em mitos. Certo? Ainda que assustada, ela não podia ir embora. Queria saber do que tudo aquilo se tratava. Aproximou-se de um grupo de pessoas, sentiu suas bochechas queimarem em rubor e perguntou baixinho:
– Vocês poderiam me ajudar? Estou perdida.
Todos olharam para ela. Seus rostos eram tão bonitos e, de certa forma, diferentes... Todos pareciam carregar grandes feitos.
– Se você está aqui é porque é uma das nossas. — Respondeu um rapaz alto, forte, cuja pele era alva e os olhos bem azuis, penetrantes. — Estamos no Acampamento Fênix. Somos filhos dos deuses gregos, mas isso você já deve saber. Seja bem-vinda!
Ela deveria saber? Deuses gregos? Oi?
– Na verdade, eu não faço a mínima ideia do que você está falando. Eu acordei na beira do Guaíba e caminhei até aqui, foi o único lugar que achei. Estou fraca e com muita fome...
Foi interrompida pela expressão de felicidade estampada na face de cada um ali. Eles olhavam um ponto acima de sua cabeça, como se estivessem enxergando algo muito bom. Marília olhou para cima e lá estava: um tridente flutuava sobre ela e todo o seu corpo fora envolto numa áurea esverdeada.
– Filha de Poseidon! Não importa o que esteja pensando agora, saiba que é uma das nossas. Seja bem-vinda mais uma vez, sua linda. — Falou uma menina de estatura tão baixa quanto a de Marília, a qual levantou num pulo e a abraçou. — Veja bem, meu nome é Antonella e eu sou filha de Apolo, o deus do sol, da música e da medicina. Serei sua guia, ok? Tenho algumas coisas para você na Casa Grande. Lhe explicarei tudo.
Por que aquela garota sorria tanto? Bom, pelo menos alguém ali poderia elevar a auto-estima da filha de Poseidon.
As duas, então, foram juntas até o prédio que parecia Olympeion, enquanto Antonella tagarelava sobre deuses, monstros e uma coisa chamada ambrosia.
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