Acampamento De Férias De Verão
24 Corrida, raios e sangue
Notas iniciais
Fiz o máximo de força para sair correndo da lagoa e alcançar Percy, mas ele já estava muito na frente. Saí da água, peguei a mochila e disparei mata adentro, seguindo-o visualmente tanto quanto eu podia. Eu não enxergava Luke, mas conseguia ouvir sua risada debochada mais a frente. Que garoto estúpido, naquele momento eu trocava o meu cérebro pela chance de dar umas belas porradas nele.
Fui desviando das árvores e galhos que impediam a passagem de Percy, e em seguida, a minha. Uma hora, dei uma pequena volta que acabou cortando o caminho da rota e consegui emparelhar com Percy. Olhei seu rosto rapidamente, antes de voltar a olhar para frente e ter que desviar de algumas raízes, e notei que ele estava completamente focado em Luke, que agora não estava mais tão longe de nós.
– Eu vou bater tanto nesse moleque... – Percy rosnou, aparentemente falando sozinho, pois tive a impressão que ele mal me notou em seu lado.
Eu queria dizer: Isso! Bate nele com todas as suas forças, até quebrar aquele nariz grande!, mas o meu lado racional falou mais alto. Percy estava tão irado, que poderia realmente machucar Luke, e acabar sendo expulso do acampamento. Tudo bem que já estávamos chegando ao fim das férias (como elas passaram tão rápido?), mas mesmo assim, ainda tínhamos dois dias de descanso. E eu apostava que depois de tudo, Percy ia sair como o vilão da história, e Luke ganharia seguidores pela escola. Do jeito que Calipso manipulava todo mundo, era muito provável que ela me enfiasse no meio desse bolo.
– Percy, esquece ele – eu disse, um pouco afobada pela corrida – Já sabemos o que é a dica, não precisamos mais da medalha.
Percy não me respondeu, e de alguma maneira conseguiu correr mais rápido ainda. Senti umas gotas caindo em meus braços e no topo de minha cabeça, e então olhei rapidamente para o céu entre as árvores. Antes mesmo que eu pudesse raciocinar, um trovão rugiu forte, e a chuva começou a cair.
– Percy, para! – eu falei mais alto, apertando o passo para conseguir emparelhar com ele de novo.
– Não vou parar. – ele disse, sem me olhar – Cansei desse cara enchendo o saco e atrapalhando tudo, sem eu fazer nada.
– Para com isso, é sério – eu peguei em seu braço, mas ele ignorou – A chuva vai engrossar e precisamos arranjar um abrigo.
Luke errou um desvio e tropeçou em uma raíz. Percy foi avançar sobre o loiro, mas um clarão atingiu uma árvore perto de nós e partiu seu tronco, que começou a cair em nossa direção. Empurrei Luke, que estava caído no chão e puxei Percy, que resistiu e tirou seu braço de mim. A árvore finalmente partiu completamente e sua copa caiu. Puxei Percy novamente, mas foi tarde demais, pois um galho grosso bateu em sua cabeça e ele caiu em cima de mim. Outros galhos e folhas caíram sobre ele, e eu gritei, mas Percy não se moveu. Eu estava em baixo dele e de uma grande camada de folhas e galhos finos. Se eu não houvesse o puxado, o tronco teria nos atingido.
Mesmo ilesa, foi difícil sair de baixo de Percy. Alarmada, rastejei para frente, e quando minhas pernas finalmente ficaram livres, levantei-me e empurrei tudo o que estava por cima do moreno, até encontrá-lo com a cabeça sangrando. Tive uma ânsia de vômito pelo nervosismo, mas consegui me controlar. Olhei ao redor rapidamente, e vi Luke correndo já longe.
Outro trovão rimbombou forte e meu coração disparou. Como eu carregaria Percy para um lugar seguro? Lembrei de uma pequena caverna a qual passamos há pouco tempo antes de chegarmos ali, não devia ter mais que 50 metros de distância, mas eu não sabia se conseguiria carregar um peso morto.
Tirei o cabelo molhado de meu rosto. Agachei-me ao lado de Percy, que estava de barriga para baixo e ergui seu tronco, até ele “sentar”. Depois, virei cuidadosamente de costas e prendi seus braços em cima dos meus ombros. Ele estava com metade do corpo em cima do meu, só faltava eu levantar e erguê-lo nas costas, e essa era a parte difícil. Ajeitei-me de cócoras e segurei firme seus braços, para ele não escorregar. Tomei impulso e levantei-me, mas rapidamente tombei para o lado e caí no chão com Percy em cima do meu tornozelo. A dor foi insuportável, mas foi interrompida logo por outro trovão, dessa vez mais perto de nós. Uma carga de adrenalina percorreu meu corpo e eu refiz o ritual para levantá-lo. Na segunda tentativa, levantei-me mais certeira, e me equilibrei bem, segurando suas coxas fortes uma de cada lado do meu corpo. Andei até onde achava que estava a caverna e felizmente acertei.
Tive que colocar Percy no chão para depois empurrá-lo caverna adentro, pois sua altura dava apenas para ficar sentada sem bater a cabeça no teto. Quando consegui sentar colada na parede e colocar a cabeça de Percy em meu colo, comecei a chorar. Enquanto as lágrimas caíam, abri a mochila e peguei uma camiseta minha limpa. Rasguei-a sem dó em uma tira comprida. O resto da camisa, usei para limpar o sangue que escorria do topo de sua cabeça até sua nuca. Depois de limpo, amarrei a tira com um pouco de pressão para tentar estancar o sangue mais rapidamente.
Quando terminei o serviço e chequei a pulsação de Percy, que estava normal, percebi o quanto o meu tornozelo doía. Eu devia ter torcido-o na primeira tentativa de colocar o moreno nas minhas costas, mas só agora que a adrenalina estava passando, que eu senti o quanto estava machucado. Além de tudo isso, eu e Percy estávamos completamente encharcados e a caverna não era o lugar mais quentinho que eu já havia conhecido.
Toquei na pele de Percy, e percebi que ele estava tão frio quanto eu. Abri a mochila e tirei uma camiseta sua. Ergui seu corpo e com cuidado tirei sua camisa molhada e coloquei a outra, o que deu um pouco de trabalho. Senti meu rosto esquentar de pensar que eu teria de tirar sua bermuda, mas quando fui olhar na mochila, não achei nenhuma troca. Que tipo de Cabeça de Alga só leva uma bermuda para acampar? Sem tirar sua roupa, torci os pedaços de bermuda que consegui e no fim das contas até que adiantou um pouco. Voltei Percy ao meu colo e tirei minha camiseta, que estava grudada em meu corpo. A única troca que havia sobrado estava rasgada e cheia de sangue, então fiquei de top e estendi a camiseta ao meu lado, para deixá-la secando.
A chuva lá fora aumentou e eu me encolhi um pouco. Chequei a cabeça de Percy, mas a tira estava com pouco sangue, sinal de que estava estancando como eu imaginei. Acomodei-o de novo em meu colo, mas ele se mexeu.
– Percy? — eu sussurrei perto dele.
Percy moveu as pernas lentamente, mas não mudou-as muito de posição. Depois de respirar fundo ele abriu ligeiramente os olhos e murmurou meu nome.
– Preciso saber o que você está sentindo. — eu disse, ansiosa — Qualquer coisa, eu vou correndo chamar o diretor, e...
– Fique. — ele sussurrou — Estou com a cabeça doendo... Um pouco tonto... Coração disparado.
– Coração disparado? — eu fiquei alarmada e peguei seu pulso para checar novamente.
– Sim. — ele esboçou um sorriso com um pouco de dificuldade- Afinal não é todo dia que te vejo assim.
– De top? — arrisquei, com o coração acelerando.
– Linda, e cuidando de mim.
– Eu estava te devendo uma por aquela vez que tive cãibra no lago. — eu disse, sem jeito — E estou horrível, meu cabelo deve estar...
Percy tocou meus lábios com sua mão esquerda, e eu me calei. Ele tentou se levantar, mas não conseguiu, então se ajeitou um pouco mais para cima, e continuou em meu colo. Seus olhos estavam miudos.
– É melhor descansar. — eu disse, afagando seus cabelos.
Percy instantaneamente fechou os olhos e em poucos minutos adormeceu. Fiz o mesmo, vencida pelo cansaço.
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