Acampamento De Férias De Verão
28 A última festa
Notas iniciais
Estávamos chocados demais com tudo o que acontecera, com tudo o que descobrimos sobre nós e nossos pais. Como meus pais nunca me falaram nada? Débora então era apenas minha meia-irmã? Por que não sabíamos até agora sobre nada disso, e por que os deuses não estavam mais se mostrando para seus filhos? Tudo isso girou na minha cabeça, enquanto Piper tagarelava sobre a competição. Olhei no fundo de seus olhos, sem escutar uma palavra do que dizia. Ela também era uma semi-deusa, mas de acordo com Quíron, ainda não estava pronta. O que aquilo queria dizer? Por que eu estava pronta? Eu absolutamente não estava pronta, e talvez nunca estaria.
Eu nem mesmo conseguia passar mais que um minuto sem me questionar se tudo aquilo foi verdade, ou apenas um surto mental coletivo, ou uma alucinação, ou... Sei lá o quê. Meu cérebro dizia NÃO. Meus sentimentos diziam SIM.
– Ei, você está ouvindo o que eu estou dizendo? – Piper ergueu uma sobrancelha.
– Estou, claro – menti e balancei a cabeça, tentando livrar-me daqueles pensamentos – Mas precisamos falar com o diretor. Luke e Calipso trapacearam.
– Como trapacearam? – Jason, que eu nem havia reparado que estava ali, disse ao lado de Piper.
– Longa história – Percy disse e pegou em minha mão – Vamos falar com o diretor.
Leo e Thalia quiseram vir conosco, mas não deixamos, pois eles estavam famintos e tão atordoados quanto nós, e não poderiam ajudar muito, já que não presenciaram o roubo de Luke.
Segundo Piper, a pista “arco-íris” os levou até um baú colorido, perto do ponto de partida, onde a vitória os esperava. Deduzi rapidamente que eles descobriram o local graças à junção das outras pistas, que deviam fazer um percurso regular, que os levava de volta ao ponto inicial. Luke era um idiota, mas não era burro.
Mas ele estava muito, muito encrencado.
Ou não.
– O que vocês estão dizendo não pode ser levado em conta – o diretor disse, sentado em sua poltrona – Vocês filmaram?
– Não, senhor, mas isso aqui foi culpa dele. – Percy apontou para a tira de tecido que eu havia enrolado em sua cabeça.
– Tiraram fotos? Gravaram áudio? – ele nos olhou por cima dos óculos.
– Não, senhor... – eu tentei.
– Então, eu sinto muito, mas eles são os vencedores. Não posso afirmar nada contra ninguém sem provas.
– Isso não é justo – Percy elevou a voz, cansado – Nós conseguimos todas as pistas, nós achamos a medalha, nós tínhamos o jogo ganho!
– Senhor Jackson, sem provas, sem discussões. Caso insista, terei de tomar alguma providência.
– Que seja – Percy deu de ombros, pegou minha mão e virou de costas – Isso aqui já acabou mesmo.
Saímos da cabana e andamos alguns metros até desabarmos no chão, ao lado de uma grande árvore. A noite já havia caído há algum tempo, só agora eu havia me dado conta. O pessoal deve ter ficado preocupado, nos procurando pois o sinal que a prova foi concluída soou por toda a floresta, mas não ouvimos.
Estávamos ocupados no acampamento... Meio-sangue. Um enjoo se formou em meu estômago.
– Você está bem? – Percy tirou-me de meu transe.
Mesmo irritado, ele conseguia ser suave e se preocupar comigo. Minha aparência não devia estar nada agradável.
– Estou. – eu dei de ombros e olhei para sua cabeça – E você, como está? Está sentindo algum sintoma estranho?
– Estou muito bem. Me deram algo doce lá no acampamento, e disseram que era ambrosia e que curaria meu ferimento. – ele disse, desamarrando o pano.
Sua testa ficou exposta, e para o meu espanto, o ferimento há algumas horas aberto já havia cicatrizado e a casquinha já estava saindo. Parecia um mero arranhão.
– A ambrosia... – eu disse perplexa – Te curou.
– Você me curou antes – ele lembro, passando os dedos em meu rosto – Obrigado.
– Amigos são para isso – eu dei de ombros, mas fechei os olhos em seu toque – Você faria o mesmo por mim.
– Sim. – ele confirmou a minha afirmação – Eu faria.
Abri os olhos e Percy me olhava bem de perto. Mas não passou disso. Hazel veio correndo até nós, com um vestido branco de alcinha e salto alto, gritando: Festa!
– O que foi, Hazel? – levantei-me junto com Percy.
– Vocês ainda não foram se arrumar? – ela perguntou impaciente e puxou meu braço – Vamos, moça, temos a última festa do acampamento começando em dez minutos. Você, claramente, precisa de um bom banho, e eu, como sua amiga, lhe farei companhia.
– Mas...
– Mas nada. – ela me cortou – Vamos logo, que eu não quero me atrasar muito. Quanto a você, Percy, vá tomar um banho também. Até parece que vocês foram para a guerra. Vamos!
Não pude falar nada, pois Hazel me puxou e fomos praticamente correndo até o chalé. Desliguei o aquecedor do chuveiro, pois só um banho frio espantaria o cansaço e me daria alguma energia para aguentar uma festa.
Curioso. Geralmente a última festa do acampamento era a que eu mais ficava ansiosa, mas nessa situação, tudo o que eu queria era me jogar na cama e dormir por uns três dias.
– Vamos, Annabeth! – Hazel bateu na porta.
Sequei meu cabelo rapidamente, coloquei um vestido azul escuro curtinho com a saia esvoaçante, e uma sapatilha preta no pé. Tive que agentar Hazel dizendo: cadê o salto? Mas meus pés estavam completamente destruídos. Ela me ajudou com uma super maquiagem, e o resultado final foi impressionante. Minhas olheiras e marcas no rosto estavam completamente encobertas e eu até me achei bonita.
Alguém bateu na porta. Abri e era Débora.
– Vamos, pirralha! – ela puxou eu e Hazel pelos braços e fechou a porta do meu chalé.
– Ficou com saudades de mim? – perguntei, cutucando-lhe o braço.
– Ah, deixa eu pensar – ela olhou para cima – Só um pouco. Depois você vai me contar sobre a prova.
– Eu mal saberia por onde começar – comentei, murmurando.
– Ih, mas isso é para depois. – fomos chegando perto do chalé principal, onde aos arredores já estava lotado de gente e uma música ao fundo soava forte – Agora é hora de curtir!
Débora me largou com Hazel e foi para o seu grupinho. Caminhamos até o salão e entramos na muvuca que se formava logo na porta. Me enfiei por entre algumas pessoas, segurando a mão de Hazel que vinha logo atrás de mim. O salão estava escuro, apenas com luzes de boate e uma música eletrônica tocando ao fundo. As pessoas estavam sorrindo e dançando muito. De longe, era a festa mais animada do acampamento. Andei mais um pouco, olhando aos arredores, procurando alguém do grupo, até que me bati com alguém e quase caí no chão, mas esse alguém me segurou.
– Calma, senhorita – Percy estava com uma calça jeans preta e uma camisa verde que combinava perfeitamente com seus olhos.
– Estava te procurando – eu disse, sem pensar.
– Onde estão os outros? – Hazel perguntou atrás de mim.
– Ali, perto da mesa de drinks – Percy apontou para a esquerda.
– Vou deixá-los sozinhos, um pouco – Hazel piscou para mim e saiu andando.
A música mudou para uma balada dos anos 80, bem lenta e romântica. Não fazia muito o meu gosto, mas quando Percy pegou-me pela cintura e começou a me conduzir em uma dança lenta, comecei a apreciar o som.
Encostei a cabeça em seu peito e abracei seu pescoço, fazendo-lhe carinho nos cabelos. Estávamos juntos, fisicamente, mas meu coração ainda estava distante.
– Você está linda – ele sussurrou ao meu ouvido, o que fez-me arrepiar dos pés à cabeça.
– Obrigada – sussurrei de volta, mas tirei minha cabeça de seu peito e me afastei um pouco – Percy, eu não quero...
– Ei. – ele sussurrou, impedindo-me que continuasse – Eu sei o que você está pensando. Mas antes, eu quero te mostrar uma coisa. Olhe para trás, ali perto do DJ.
Virei-me e subi na ponta dos pés para enxergar o que Percy me mostrava, até que vi cabelos vermelhos emaranhados com um rosto masculino familiar.
– A Rachel está com Octavian? – perguntei, querendo confirmar minha visão.
– Sim. – ele disse, e virou-me de volta para ele – E nós nunca, nunca tivemos nada. Talvez ela quisesse, eu não sei ao certo, mas eu não queria. Aquele dia na piscina, ela fingiu estar se afogando enquanto eu passava por perto, então eu pulei e fui ajudá-la. E ela parou de se debater e me beijou na mesma hora. Eu devia ter a empurrado logo, mas estava completamente sem reação, e foi aí que você chegou. Eu tentei te explicar, mas você não quis de jeito nenhum.
– Percy... – eu disse, com os olhos marejando.
Que droga, por que meus olhos estavam marejando?
– Quando saímos para a prova na floresta, você estava me ignorando ou falando mal comigo. Eu fiquei irritado, por você não confiar em mim. Depois nos divertimos, mas aí encontramos com Calipso e Luke, e você brigou com ela por causa dele...
– Não – eu disse – Eu tentei explicar, mas você também não quis me ouvir. Calipso armou tudo isso, desde Rachel até essa briga fingida. Eu estava brigando com ela pois ela queria destruir os papéis restantes das dicas da prova, e eu estava tentando salvá-los. Essa garota sempre teve raiva de mim.
Percy ergueu as sobrancelhas, e assentiu com a cabeça.
– Bem, depois que eu me machuquei, que você me salvou e que encontramos aquele lugar fantástico, eu... Eu decidi que queria estar sempre ao seu lado, independentemente de onde seja, ou como seja. Mesmo que para isso eu precise de me machucar às vezes.
Uma lágrima escorreu de meus olhos, e eu sorri. Um sorriso tão grande, que eu nunca imagianria que coubesse em mim. Percy me amava tanto quanto eu o amava, e agora tudo estava claro.
Meu coração batia com tanta força no peito, que eu achava que ia explodir.
– Eu também quero ficar ao seu lado. – eu tentei reunir as palavras, mas estava difícil – Sempre. Eu te amo, Percy.
– Eu também te amo, Annabeth – ele sussurrou e selou nossas bocas em um beijo de juramento.
Nos beijamos longamente e eu até me esqueci que estávamos em público, até ouvir uma voz irritante no microfone.
– Boa noite... – Luke disse, ao lado de Calipso, em cima do palco.
E assim, começou seu discurso de agradecimento e de vitória.
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