Academia do fumo
9 Nunca se apaixone por um gay.
Notas iniciais
Na manhã seguinte. Jessica estava cansada da noite passada. Assim que acordou a garota foi direto ao banheiro, pois ela tinha quase certeza de que olheiras enormes haviam invadido seu rosto. Hoje era o seu dia de folga, o último final de semana deles na Academia.
A garota andou pelos corredores até chegar ao banheiro. Jessica olhou-se no espelho durante alguns segundos, horrorizada com o seu estado. Ela só parou de prestar atenção em sua aparência quando ouviu soluços vindos de uma das cabines que havia no banheiro. Ela andou lentamente até a cabine, e se agachou para ser se conseguia reconhecer a pessoa que estava ali. Assim que Jessica se abaixou, ela conseguiu avistar pelo buraco uma pele negra. Não havia muitas garotas com esse tom de pele na Academia. A primeira pessoa que ela pensou foi em Nicki. Na noite passada, Jess percebeu que a garota estava cabisbaixa.
–Nicki? É você? – Perguntou Jess. A garota também bateu na porta da cabine.
–Quem é? – Era Nicki. Seu tom de voz era assustado e baixo.
–É a Jessica.
Após alguns minutos Nicki abriu a porta e saiu da cabine. Sua aparência estava tão ruim quanto à de Jessica. Dava para ver de longe que a garota estava chorando.
–Você descobriu né? – Jessica a abraçou. A outra apenas assentiu, chateada e a ponto de começar a chorar novamente. – Ele não queria machuca-la...
–Qual o problema comigo, Jess?
–Para início de conversa, você não tem pau. – Jessica estava tentando ter senso de humor, mas não funcionou. Nicki continuava lagrimejando. – O problema é com ele. Se ele não jogasse para outro time, ele ia gostar de você. Nicki, você é linda.
Elas ficaram em silêncio durante alguns minutos.
–Eu gostei muito dele. Nunca nos falamos muito, mas sabe aquela atração incontrolável por alguém que você nunca falou? – Jessica assentiu.
–Todas nós já passamos por isso.
–Então você tem que entender que eu estou na merda.
Nicki chorou por alguns minutos, enquanto estava abraçada em Jessica. Assim que ela parou, Jess limpou o rosto da garota. Após isso elas voltaram para o quarto.
Assim que chegou ao dormitório Jessica colocou o seu uniforme, e foi se encontrar com os amigos no esconderijo. Enquanto ela andava pelos corredores, em direção à porta de entrada da Academia, o diretor Alan a interrompeu.
–Jessica, eu preciso falar com você. – Pediu o diretor. Jessica ficou nervosa, ela estava imaginando que fosse algo sobre a noite passada. – Venha comigo até a minha sala.
Ela acompanhou o homem sem falar uma palavra. Suas pernas estavam bambas e ela suava frio. Assim que chegou a sala do diretor ela sentou-se na cadeira a frente de sua mesa. Alan sentou-se na frente dela.
–Eu não costumo dar noticias sobre o que está acontecendo fora da Academia, mas raramente recebemos noticias como essa sobre parentes de alunos... – Alan estava enrolando para falar. Jess estava pensando em quem poderia ter morrido.
–Fale logo Alan. – Ordenou ela sem paciência. Alan entendeu o nervosismo dela, e então parou de enrolação.
–Seu pai foi preso.
Aquelas quatro palavras fizeram o corpo de Jessica relaxar, mas após alguns segundos ficar tenso. Ela não sabia o que aconteceria agora com a sua família. Seu pai estava preso, isso era de fato bom. Mas por quanto tempo ele ficaria ali? No máximo 2 anos, acreditava a garota.
–Depois eu lhe explico melhor a situação. Obrigada por me avisar. – Agradeceu ela. A garota deixou a sala do diretor, sem nem dar tempo dele falar mais alguma coisa.
Ela foi correndo até o esconderijo. Quando chegou lá, viu que seus amigos já estavam esperando-a.
–Oi... – Disse ela sentando-se no chão, eufórica.
–O que aconteceu, Jess? – Perguntou Beth. Está na hora de contar a verdade, pensou Jessica.
–Meu pai foi preso, Alan acabou de me contar isso. – Todos ficaram sem entender. Até onde Jessica havia contado para eles, seu pai estava morto. Até mesmo Adam que sabia o porquê dela estar ali ficou surpreso.
–Seu pai não estava morto? – Perguntou seu amado.
–Não... – Confessou ela. – Adam invadiu a sala de Alan e procurou os meus registros. – Explicou ela aos outros três amigos. – Você achava que sabia o porquê da minha vinda para a Academia, mas eu menti. Até Alan deve estar confuso com essa noticia da prisão de meu pai... – Ela estava olhando para os olhos de Adam. Todos estavam esperando que ela contasse a verdade a eles. – Quando minha mãe veio fazer a minha inscrição na Academia ela mentiu quando contou o porquê da minha vinda para cá. Ela disse a Alan que eu tinha vindo para cá, pois após a morte de meu pai eu sofri diversos problemas psicológicos. Que mesmo eu o odiando, após a sua morte eu me senti perdida e comecei a dar para todo mundo e a fumar que nem doida. – Ela suspirou. – Isso não chega nem perto da verdade... A verdade é pior.
Beth colocou seu braço sobre os ombros da amiga, tentando conforta-la.
–Meu pai desde que eu me entendo por gente bate na minha mãe. Ele é um alcoólatra de merda e provavelmente está metido com drogas também. – Ela riu baixinho pensando na desgraça de seu pai. – Quando eu fiz 10 anos e comecei a ter consciência de que aquilo era errado e a me impor a ele, eu também comecei a apanhar... – Lágrimas escorriam pelas suas bochechas rosadas. – Minha mãe sofria sexualmente também, várias vezes ela foi obrigada a cometer abortos... – Jessica começou a tremer. – E eu era proibida de fazer tudo. A única coisa que podia fazer era ir à escola. Aos poucos eu fui me revoltando com isso, e me envolvendo com pessoas erradas... Eu perdi a virgindade muito cedo, e foi com o primeiro pedofilo que me iludiu, dizendo que me amava. Ele tinha cerca de 40 anos, era um conhecido do meu pai... Provavelmente tinha esposa e talvez até filhos... A parte em que minha mãe disse que eu comecei a dar para todo mundo é verdade... – Ela limpava as lágrimas com a sua camiseta. – Logo eu estava metida com álcool e não muito tempo depois maconha... – A voz dela começou a enfraquecer. – Toda vez que eu fugia de casa não era eu quem apanhava, mas minha mãe... Eu sou uma filha de merda, durante anos eu não tinha noção do quanto ela sofria para me proteger dele...
Durante alguns minutos o único barulho que se ouvia era do choro de Jessica. Ninguém sabia o que dizer para ela.
–Ano passado minha mãe finalmente tomou coragem e começou a correr atrás de formas para ele ser preso. Ela me mandou para cá, pois sabia que durante o período que eu estivesse aqui ele seria preso e ela não queria que eu vivenciasse isso. Minha mãe sabe a vadia que eu sou, ela também me mandou para cá para ver se eu percebesse as coisas de errado que eu já fiz. – Adam segurou a sua mão. – Quando eu for sair daqui provavelmente ela vá me mandar ir para outro estado encontra-la, pois minha vida agora será assim. Fugir do meu pai maluco.
–Mas ele está preso... – Disse Mika tentando ajudar.
–Mas eu não sei por quanto tempo... A qualquer momento ele pode sair da cadeia e ir nos procurar... – Ela voltou a chorar desesperadamente. – Eu estou com medo...
–Você não precisa ter medo, nós estaremos aqui para ajuda-la. – Disse Slash.
–Eu sentirei a saudade de vocês...
Os cinco de abraçaram. Jessica continuava chorando, ela se sentia livre por ter contado aos seus amigos a verdade.
–Já que hoje é o dia de contar a verdade, eu tenho uma coisa para contar a vocês... – Disse Slash tentando amenizar o clima tenso do local. – Eu e Beth estamos nos pegando. – Todos riram. Jessica já sabia disso, porém não imaginava que eles continuavam juntos. Beth nunca mais falou deles para a amiga.
–Eu e Jess estamos juntos. – Falou Adam.
– Eu sou gay e trepei com um garoto da Academia na noite passada. – Todos estavam surpreendidos com as revelações.
–Mika você merece um prêmio de revelação mais chocante! – Disse Adam rindo.
Nenhum deles esperava que Mika fosse falar isso, na verdade, eles esperavam que o garoto ficasse quieto. Jessica piscou para ele, demonstrando que estava orgulhosa por ele ter se assumido aos amigos.
Eles continuaram conversando, até que Beth perguntou sobre como foi à noite passada com Rennie.
–Ele é um merda! – Reclamou a garota. – O inferno tem um lugar guardado especialmente para ele. – Eles riram.
–Eu andei pensando há um tempo... Na minha escola todos os formando faziam trotes, por que não fazemos um trote com Rennie. Algo que ele lembrara pelo resto de sua vida de merda? – Perguntou Slash com um sorriso diabólico.
Todos concordaram com aquilo. Os cinco começaram a pensar no que poderiam fazer com o professor. Faltava menos de uma semana para eles irem embora, eles precisavam ter ideias rapidamente. Eles continuaram no esconderijo até o inicio da tarde, depois eles foram embora para almoçar. Mika e Jessica foram os últimos a saírem do local.
–Você precisa conversar com Nicki... Ela já sabe de tudo.
–Diga aos outros que eu vou me atrasar para o almoço... – Pediu o rapaz.
Assim que Mika retornou para o prédio da Academia ele foi em direção ao quarto de Jessica, a procura de Nicki. O garoto bateu na porta do quarto. Uma garota de cabelos loiros atendeu a porta, Mika nunca tinha visto essa garota no local.
–A Nicki está? – Perguntou. A loira assentiu, dando passagem para Mika entrar no quarto.
Nicki estava jogada em sua cama, com todos os cobertos possíveis tapando-a. Assim que ela viu Mika seu rosto corou de vergonha. Ele pediu a sua colega de quarto que os deixasse sozinhos. Ele sentou na cama da garota, ao lado de seus pés.
–Oi... – Disse ele tão sem graça quanto ela. – Desculpa... Eu não sei como você descobriu que sou gay, mas eu deveria ter contado a você antes.
–Eu vi você com o Danny saindo de um quarto após treparem. – O rancor na voz da negra era evidente. Mika não sabia o que falar. Quando ele foi falar a moça o interrompeu. – Poupe as suas palavras. – Agora ele era quem estava bravo, ela o culpava por ser gay. Mika se levantou da cama e ficou em pé ao lado da garota, deitada.
–Mas que merda Nicki! – Gritou ele. – Desculpa se eu sou gay, mas você acha que eu escolhi ser assim? – Ele estava deixando-a sem palavras. – Seria muito mais fácil eu ser hetero e pegar logo você! Você é incrível, e se você espera que eu fique com você só por pena está enganada!
A negra levantou da cama, ficando cara a cara com Mika.
– A única coisa pela qual eu me culpo, é não ter te contado sobre a minha sexualidade antes. – Mika ficou quieto, esperando que ela falasse algo.
–Desculpa... – Murmurou ela. Ele a abraçou.
Eles ficaram durante algum tempo abraçados, refletindo sobre os últimos minutos.
O dia se passou rapidamente. À noite, Beth foi para o esconderijo com o objetivo de ficar sozinha por um tempo. Ela deitou-se no sofá e enquanto fumava pensava no que aconteceria quando eles fossem embora da Academia. Slash logo apareceu ali. Ele se surpreendeu ao encontrar a loira no local.
–Parece que tivemos a mesma ideia. – Disse ela dando uma tragada.
–Você está nervosa? – Ela olhou para o seu amado como se dissesse “Como você sabe?”- Você só fumo cigarro que não é mentolado quando está nervosa. – Beth abriu um sorriso, um tanto idiota.
–O que vai acontecer daqui uma semana? Slash daqui uma semana a gente vai estar em estados diferentes... – Beth o amava, e se odiava por isso. Ela não queria se apegar a ninguém ali, mas além de se apegar a Slash se apegou a Mika, Adam, e Jessica também.
–Não pense nisso agora... – Murmurou o ruivo enquanto se agachava para ficar ao lado dela, que estava no sofá.
–Impossível. – Beth jogou o resto do cigarro pela janelinha que havia no esconderijo.
Ele beijou sua testa e depois começou a acariciar seu rosto.
–Já disse que você fica linda quando fica preocupada? – Ela o olhou como se o garoto fosse louco, mas depois o beijou.
Já virou clichê ouvir a frase “Nada é para sempre”, mas para esses cinco jovens nesse momento de suas vidas essa frase valia para qualquer situação. A pressão sobre eles era algo inevitável. As coisas que conquistaram na Academia eles poderiam perder em pouco tempo, ou trazer as suas conquistas para fora daqueles muros. Tudo dependia de uma escolha que mudaria tudo. Que os faria sofrer ou sorrir.
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