Academia do fumo
6 Bi ou gay?
Notas iniciais
Passou-se uma semana desde que Adam teve a sua overdose. Só após uma semana que ele pode voltar às aulas. Durante esses sete dias em que ele estava hospitalizado seus dias se resumiam em dormir, conversar com seus amigos durante meia hora, e receber visitas de Jess na madrugada.
Esse seria seu primeiro dia de aula desde o escândalo na aula de Rennie. Adam acordou-se um pouco antes do normal. Pois tinha algo que não saia de sua cabeça, algo que ele precisava ver. Assim que se levantou da cama vestiu o uniforme da Academia. Pegou suas coisas que estavam no quarto, e saiu da enfermaria. Desejou um bom dia a secretária e saiu em direção à sala do diretor.
Faltavam poucos minutos para as seis da manhã, e ele sabia que o diretor Alan só chegava a sua sala as seis e meia. Por isso, foi sorrateiramente até a sala dele.
Todos os alunos estavam dormindo. Adam estava com sorte. Assim que ele chegou à frente da sala do diretor abriu a porta. O garoto sabia que Alan nunca deixava a porta trancada. Ele entrou na sala do diretor, fechou a porta cuidadosamente, e depois fechou as cortinas. Ele acedeu às luzes. A sala era organizada, até demais. Todos os registros dos alunos ficavam em pastas por ordem alfabética. Mas dessa vez Adam não queria ver o registro de nenhum aluno, mas o registro das câmeras de segurança. Em cada sala de aula havia duas delas, em alguns lugares dos corredores, e nos elevadores dos professores também havia câmeras.
O aluno sentou-se na cadeira de Alan, e procurou em seu computador os registros de filmagens do dia em que passou mal. Assim que achou o vídeo, ele pegou um fone de ouvido que havia sobre a mesa e reproduziu a filmagem.
O vídeo começou com Rennie explicando, pela milésima vez, aos alunos o objetivo da Academia.
–Vocês estão aqui para aprenderem o lado ruim das drogas e bebidas. Se não querem prestar atenção nas minhas explicações, por favor, não se levantem de suas camas para vir as aulas. – Pediu ele. Rennie apenas não falou um palavrão, pois sabia que ali havia câmeras.
–É ridículo... – Murmurou Adam, alto o suficiente para o professor ouvir.
–O que é ridículo, Adam? – Seu tom de voz ficou mais rígido.
–As regras... Vocês acham que com trabalhos, praticamente escravos vamos deixar de ser o que éramos? – Adam antes estava rindo e parecia alegre, agora estava irritado.
–Sinto muito em lhe dizer, mas eu recebo esse tipo de reclamação todos os dias. E sabe o que eu penso sobre isso? – O professor riu. – Nada... Por que eu não me importo.
–Não estou fazendo uma reclamação para você... Sabe o quão as pessoas da equipe da Academia se importam com você? – O aluno havia dito algo que irritou o professor. – Nem um pouco.
Rennie podia até ser professor e coordenador de algumas turmas, mas ele não comandava em nada na Academia.
–Cala a boca! – Gritou ele. O aluno levantou de sua cadeira e foi até o outro homem. O resto dos alunos se entreolhou, parecendo gostar daquilo.
Rennie ficou com a postura ereta assim que Adam ficou cara a cara com ele.
–Você não é nada... – Adam achou que havia vencido a discussão com Rennie. Ele foi aos poucos voltando ao seu lugar. Mas o professor retrucou o seu comentário.
–Você também não é nada. Se importasse seus pais não o teriam abandonado aqui. – Adam virou-se, dessa vez estava um pouco mais distante do professor. – Sobrinho de viciado, viciado é...
Foi com essa frase que Adam surtou. Ele correu até o professor, mas alguns alunos que estavam sentados na frente, incluindo Jess, o impediram de bater no homem.
–Para Adam! – Gritou Jess o segurando por trás.
Ele tirou os braços da garota do seu corpo e começou a chutar as cadeiras vazias. Nas filmagens ficou evidente que ele só parou quando desmaiou. As pessoas correram até ele, e Rennie apenas ria. Porém quando viu que era algo sério o ajudou a ser levado para a enfermaria.
A filmagem parou assim que o corpo de Adam foi levado para fora da sala.
O garoto suspirava, e pensava no quão idiota havia sido. Ele sabia que Rennie merecia, mas isso custou a sua saúde. Ele desligou rapidamente o computador e continuou sentado na cadeira girando-a enquanto pensava na merda que havia feito. Ele deixou as coisas no lugar que estavam antes, e quando estava pensando em sair da sala, Alan apareceu.
–Adam... – Disse ele surpreso. –O que está fazendo aqui?
Adam estava pensando em inventar alguma mentira, porém o que ele poderia dizer? Não havia uma explicação convincente para isso.
–Eu sei que você deixa a sua sala aberta... – Começou o garoto a se explicar. – E eu vim ver nos registros das filmagens o dia em que passei mal... – Alan pareceu acreditar no que ele disse.
–Eu estava observando-o pela fresta da cortina. – Agora era o aluno que estava surpreso. – Sabe Adam, as coisas mudaram muito aqui na Academia... Durante os 19 anos que a Academia existe nunca um aluno teve uma overdose. – Adam se levantou da cadeira. – As épocas mudaram, os adolescentes também, e eu percebo que estamos errando em algumas coisas.
–Rennie é o problema. –Reclamou o adolescente.
–Rennie é uma parte do problema. É como política, existem os corruptos e os menos corruptos. Mas todos em certo modo já fizeram merda. – Adam riu ao ouvir o diretor falar palavrão. – Vá para a aula garoto. – Ele piscou para Adam, que ficou aliviado ao sair da sala dele e ver que nem todo mundo ali era como Rennie.
O garoto andou até o quarto de Jess e esperou por ela na porta, pois ainda era cedo demais e ela não estaria acordada. Quando se passaram quinze minutos ela saiu do quarto e deu de cara em Adam que a abraçou rapidamente.
–Você está bem? – Jessica estava preocupada com ele.
–Não, mas irei ficar. – Ela assentiu, ficando feliz por ele ter sido honesto.
Ela segurou sua mão, sentindo-se uma idiota por isso, e começou a andar com ele pelos corredores. Ninguém do grupo de amigos deles sabia sobre o romance, e eles queriam manter esse segredo.
Quando faltava um pouco mais de dez minutos para as aulas começarem Jessica e Adam se dirigiram ao auditório, pois eles teriam uma palestra com a psicóloga da Academia. Toda essa palestra foi organizada após a overdose de Adam. Assim que chegaram ao auditório as pessoas notaram a presença do garoto, alguns vieram perguntar como ele estrava, outros o parabenizavam por ter usado cocaína durante a sua estadia na Academia, e a minoria o achava ridículo.
Os cinco amigos logo se reencontraram e sentaram um do lado do outro.
–Como você está? – Perguntou Mika. Adam já havia o perdoado, já Jess ainda tinha certo rancor com o rapaz.
–Se alguém me fizer novamente essa pergunta eu vou socar a cara de todo mundo. – Respondeu Adam rindo.
–É hipocrisia pessoas que nem sabiam de sua existência agora se preocuparem. – Slash estava certo.
Eles esperaram a palestra começar. A psicóloga atrasou alguns minutos, mas quando apareceu muitos alunos a aplaudiram. Nos primeiros vinte minutos Jessica e Beth pensaram em dormir um pouco, pois discordavam de tudo o que a moça estava falando. Mas ela começou a falar de um assunto que as garotas começaram a se interessar. Morte.
–Vocês estão em uma fase de suas vidas que irá decidir os seus futuros, quando você é adolescentes vocês fazem escolhas e muitas vezes nem percebem isso. – Jacqueline Summers, era o seu nome. – Eu vou falar algo sério para vocês. Quero que vocês reflitam sobre isso... Quando você se torna um viciado e não busca tratamento, seu futuro passa a só ter dois caminhos. Você é preso ou você morre. – Jovens que conversaram ficaram quietos assim que ela acabou a frase. – A morte... – A psicóloga deu uma risadinha. – A maioria a teme, mas ela é a única certeza de nossas vidas. Um dia vamos morrer, uns com uma morte calma, outros morreram de um jeito horrível e doloroso.
Beth estava fascinada, pois a sua tentativa de suicídio a fez ver que a morte tem que ser de forma natural. A garota gostava do assunto. Já Jess por ser ateia acreditava que aquilo era tudo uma piada, que o deus-superior que comandava tudo os manipulava todo esse tempo, fazendo-os sofrer vivendo.
–Alguns acreditam que existe vida após a morte, e que protegemos aqueles que amamos. Outros acreditam no inferno, ou no céu. Eu quero saber no que vocês acreditam. – Jessica foi uma das primeiras a levantar, ela nunca falava nada durante as aulas. Porém esse assunto realmente a interessava. Jacqueline apontou para a garota, permitindo que ela falasse.
–Eu sou ateia, mas eu acredito em coisas que talvez algum católico acredite. – Algumas pessoas parecem não entender. – Eu acredito que exista um todo-poderoso, e que ele não é tão bom quanto pensamos... Sabe quando você se pergunta por que as pessoas boas morrem antes das más? Simples! – Jacqueline pareceu estar gostando do que Jess estava falando. – Esse deus-superior deixa as pessoas ruins, para mostrar que as pessoas nunca conseguiriam viver em uma sociedade. E faz as boas descansar, pois elas não merecem estar nesse mundo terrível.
Alguns aplaudiram, outros discordavam, porém a garota estava satisfeita com o seu discurso. Ela voltou a se sentar, e outros alunos falaram. Uma hora após isso a palestra acabou, e eles voltaram para as salas de aula. Um pouco antes de saírem do auditório os cinco alunos combinaram de se encontrar a noite no esconderijo.
A manhã e a tarde passou-se lentamente. Porém assim que as aulas acabaram eles correram para o esconderijo. O último a chegar foi Slash, que para variar foi o último a sair da sala de aula, por mau comportamento.
–Oi... – Ele cumprimentou os amigos.
Em respeito a Adam eles não iam fumar nada perto dele. A única coisa ilegal que iriam fazer era beber um vinho que Beth havia conseguido com um colega.
–Eu o deixei apertar a minha bunda. – Explicou ela a razão pelo qual o garoto havia dado o vinho a ela de forma tão fácil.
Adam foi o único que não bebeu. Os outros tentaram se contentar em dividir uma garrafa de vinho com quatro pessoas. Para passar o tempo eles decidiram jogar pôquer. Os cinco estavam sentados no chão formando um circulo, enquanto o baralho estava no meio. Porém para ter graça eles inventaram uma nova regra, quem ganha à partida pode mandar dois jogadores fazerem algo. Aquilo estava parecendo os desafios do jogo verdade ou desafio. Na verdade, eram desafios um pouco mais ousados.
–Full House... – Disse Adam largando as suas cartas no chão. – E u sou foda, eu sei. – O garoto aplaudiu a si mesmo. Beth estava bufando, pois não havia ainda ganhado nenhuma partida.
Eles começaram a embaralhar as cartas novamente, enquanto o ganhador pensava no desafio que ia pedir para seus amigos fazerem.
–Mika e Slash. – Ele chamou os dois outros garotos. – Eu quero que vocês se beijem. – Slash estava boquiaberto, e Mika um pouco desconfortável com aquele desafio. A primeira coisa que o ruivo pensou foi que havia uma, grande, possibilidade do amigo o qual foi desafiado a beijar ser gay.
Slash, constrangido, andou até Mika, sentando-se ao seu lado. O garoto de cabelos negros ficou olhando para o ruivo. Quando seus rostos estavam próximos o suficiente o ruivo pensava em desistir, mas Mika o impediu agarrando-o pela nuca e beijando-o. Porém o mesmo que começou o beijo, o terminou rapidamente. O que era para ser um beijo de língua acabou sendo um selinho.
–Foda-se Adam! – Gritou Mika levantando-se do chão e chutando o baralho. – Isso foi ridículo!
Slash ficou quieto, pois sabia o porquê o amigo estava tão bravo. O ruivo nunca havia beijado um garoto. O garoto que sempre se considerou alguém muito machista, sentiu-se “menos homem” por ter beijado outro rapaz.
Mika correu para fora do esconderijo, ele correu até o muro que separava a Academia da estrada que levava os viajantes até o estado da Flórida.
Ele pegou em seu bolso uma carteira de cigarros e um isqueiro. Mika pegou um dos cigarros e começou a fumar, enquanto sentia-se mais relaxado. A noite estava fria, mas o rapaz não se importava. Tudo que precisava para desabafar a sua raiva ele já tinha. Cigarros.
O garoto estava tão relaxado que não percebeu que havia alguém atrás dele. Só quando a garota o cutucou que percebeu. Era Jessica.
–Como me achou? – Ele estava um pouco distante do esconderijo.
–Por causa do cigarro... Você não pode fumar aqui... – Alertou a garota.
–Quer um? É mentolado.
–Quero! – Exclamou Jessica, ignorando o que havia dito há alguns segundos atrás. Mika acendeu o cigarro para ela, e eles ficaram fumando em silêncio durante algum tempo. – O que houve?
–Eu esperava que qualquer um viesse me perguntar isso, menos você. – O comentou, ignorando a pergunta da garota. Mika sabia do rancor que a moça tinha dele.
–Ainda somos amigos... Eu ainda me preocupo com você. – Retrucou. – Agora desembucha. –Ela riu, curiosa.
Mika pensou duas vezes antes de falar a razão por ter saído correndo do esconderijo em voz alta. Para ele era muito humilhante, e ele sabia que quando falasse em voz alta aquilo se tornaria algo real.
–Eu sou bi, gay, eu não sei... – Mal se escutava a sua voz de tão baixa e rouca que estava. Mika pensou em chorar, sair correndo novamente, mas não tinha mais razão para isso. Ele tinha que se aceitar. – Beijar Slash foi algo estranho... Eu já beijei garotos, mas nunca algum que fosse próximo, que eu visse todo o dia... – Ele sentia-se culpado.
–Mika... – Jessica estava com pena do amigo, porém não podia perder seu senso de humor. Então ela disse. — Vamos descobrir agora se você é bi ou não... – Adam não vai se importar, eu não quero Mika, pensou ela.
Jess pegou o cigarro da mão do garoto e o jogou longe, fazendo-o ficar com as duas mãos livres. Ela agarrou as mãos dele e começou a passa-las por dentro de sua blusa. A ponta de seus dedos passava pela barriga nua da garota, até que os dedos começaram a subir até os seios dela. Ele os apertava, até que ambos olharam para sua calça. Tudo continuava do mesmo jeito que antes.
–Nada Jess. Meu pau não está duro. – Ele se referiu ao ter se sentido excitação, ou não. Cabisbaixo, e a ponto de chorar o garoto tirou as mãos de dentro da blusa da garota.
–Sinto em lhe dizer, mas você é gay... – Disse ela como se estivesse diagnosticando ele com alguma doença. – Você precisa assumir. – Aconselhou a garota.
–Eu já tento isso há tempos. – Retrucou.
–Não... Você precisa assumir para si mesmo. Como você quer que te aceitem se você não se aceita? – Ela o abraçou que chorava no ombro da amiga.
Jessica era a primeira pessoa a qual Mika contava sobre a sua sexualidade. Ele estava desolado, pois ainda havia um pingo de esperança dentro dele que dizia que ele era bissexual. Porém hoje foi a prova de que ele não era.
É uma nova etapa de sua vida, você precisa se aceitar, pensava Mika. Aqueles poucos minutos com Jess mudaram sua vida de diversas maneiras. E com poucas palavras a garota o ajudou mais do que qualquer outra pessoa já o ajudara.
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