Notas iniciais
—Muito prazer, sou Lana! — Ela estendeu a mão sorrindo.
Minha boca por algum motivo começou a salivar, cada parte de mim se excitando em ver aquele rosto angelical em contraste com aquele corpo escultural. Seus cachos ruivos caiam perfeitamente sob seus ombros, misturando-se ao brilho das pedrarias do vestido. As poucas sardas em volta de seu nariz e bochecha a deixavam com um ar de inocência e sensualidade ao mesmo tempo.
—Me desculpe por isso, sou tão atrapalhada! — Ela riu batendo a palma da mão na testa.
—Tudo bem –sorri ─Sou Adrian, muito prazer!
Ela apertou minha mão em cumprimento e eu pude perceber como seus longos cílios balançavam freneticamente enquanto ela semicerrava os olhos tentando se adequar as luzes.
Um sorriso amplo e envergonhado cruzou seu rosto quando ela começou a limpar as gotas que escorriam por sua perna. Acompanhei o movimento de sua mão em câmera lenta, absorvendo toda cena.
Sexy!
—Todos vivem me dizendo que um dia ainda vou cair e me machucar feio por ser avoada. Não duvido que isso vá demorar a acontecer!- Lana ri e o som rouco de sua risada me faz sorrir. Ela termina de ajeitar o vestido, o que novamente me deixa vidrado.
—Você não fala muito não é?!
—Desculpe, é que estou prestando atenção em você!- suas bochechas coram e eu sorrio diante disso.
— Digo, a musica está alta demais e quase não a ouço, por isso estou prestando atenção.
—Ah sim, claro. Quer ir pra um lugar mais calmo então?- aceno confirmando e seu sorriso aumenta todo singelo, mas repleto de significado.
Sigo ela entre a multidão de corpos que se debatem ao som da batida forte e envolvente que preenche o ar. Suas mãos pegajosas se agarram as minhas para que não nos percamos e eu sigo desviando de todos. Levamos mais tempo do que imaginava ser necessário para atravessar a pista e chegar à área vip, onde grandes sofás de couro vermelho e preto estavam.
Ali o som era o mais abafado possível do restante da boate e podia ouvi-la mais nitidamente.
Era suave, um tanto quanto aguda e alta, porém gostosa de se escutar.
—O que?- perguntei me sentando.
—Perguntei se é americano!- ela sorriu cruzando as grossas pernas revelando boa parte da tatuagem, mas que ainda era indecifrável, me aguçando mais o desejo de tentar descobrir o que era.
—Sou! Cheguei a pouco na verdade.
—Seu sotaque te entregou. E posso deduzir que você vive em alguma parte alta e de pouco sol né?! Sua pele é tão branca!- seu sorriso fraco me encantou. —Eu já viajei pra América uma vez. Tinha 17 anos quando o fiz e foi uma viagem entre amigas. Queríamos conhecer Nova York, a Broadway, o museu da Madame Tussauds e toda a cidade em si. Foi incrível!
—Morei um tempo por lá. Foi uma experiência diferente para mim também! — Falei enquanto me recostava no encosto do sofá sorrindo, o barulho do couro sintético sendo amassado sobressaindo á musica alta do fundo.
Morar lá foi uma experiência tão diferente e definitivamente muito boa pra mim. Meus pais que insistiram em me levar até o loft alugado, piraram quando descobriram que dei um sumiço neles logo no primeiro dia e saí sem rumo.
Naquela época eles ainda se importavam comigo, ou pelo menos fingiam bem.
Foi lá a 1° vez que o espirito se manifestou de forma tão real. Pouca coisa perto do que hoje posso fazer, mas o suficiente pra me surpreender e assustar.
—Eu e minhas amigas- Lana interrompeu meus devaneios— ficamos 15 dias por lá. Arrecadamos dinheiro durante todo o tempo de colegial, prontas pra maior aventura de nossas vidas. Nossos planos eram ir até o Canadá e voltar, mas nossa viagem foi interrompida brutalmente- sua voz soou triste e fraca e um suspiro profundo encheu o lugar.
Ela brincava com seus dedos quando voltou a falar e eu me ajeitei melhor pra ouvi-la.
—Brigeta, uma das minhas melhores amigas, acabou falecendo. —ela negava indignada. — Estávamos em uma festa, na cabana de uns caras que tínhamos acabado de conhecer. Nós estávamos nos divertindo sabe, todos tinham bebido um pouco e ríamos á toa. Só que ela era a mais alterada. Brigeta parecia estar em uma espécie de frenesi toda vez que a víamos, não falava coisa com coisa e tinha o olhar longe.
Semicerrei os olhos e coloquei o punho fechado sob o queixo analisando. Podia estar enganado, entretanto esses eram sinais claros pra mim.
—Teve uma hora em que fomos pra sauna e só faltava ela. Então saímos todos pra procurá-la, mas não estava em lugar nenhum. Quando a achamos, vimos que seu corpo estava caído na mata atrás da cabana, coberto de sangue- sua voz vacilou um pouco e seus olhos estavam marejados e vidrados com a lembrança. Apoiei minha mão sobre a sua em conforto.
— A perícia disse que foi um animal selvagem que a atacou, talvez um lobo. Mas é difícil de acreditar sabe- Lana começou a gesticular sem nexo- por que tipo, um lobo? Sério? Como um lobo atacaria uma pessoa inocente? E em Nova York?
Strigoi!
Desde que ela começou a contar a historia eu sabia que eram eles. São criaturas cruéis, frias e sem alma.
Uma vitima indefesa como aquela? Presa fácil.
—Pois é, pode acontecer, quem é que sabe- tento dar de ombros enquanto falo com um sorriso fraco aparecendo em meus lábios. — há mais coisas escondidas por debaixo dos panos do que podemos imaginar.
Ela limpou as lágrimas rapidamente, enquanto falava:
—Nem sei por que estou te contando isso, estamos em uma festa. Deveríamos estar alegres e rindo como idiotas!
—Tem razão, chega disso. Vem, vou te pagar uma bebida!- levanto esticando a mão pra ela que prontamente a pega.
Dois copos de bebida depois e muita conversa jogada fora estávamos na pista de dança, alienados a tudo que nos rodeava.
Fazia tempo que não me distraia assim, rindo e me sentindo leve. Lana era engraçada, gentil, bonita e muito sexy. Era bom ver gente nova, ter alguém pra me distrair, assim não pensava mais em Rose e Dimitri, minha mãe e Ambrose, não estar conseguindo controlar o espirito e todas as coisas que me atormentavam nos últimos meses.
As falhas tentativas de ela me fazer dançar divertiam a noite, me fazendo rir descontroladamente. Por vezes Baruel ou Isaac se deixavam ser avistados por perto, me lançando olhares cautelosos. Menos Serena.
Onde ela estava?
—... o que acha?- seu toque em meu braço me fez voltar à atenção á ela.
—O que disse?- me inclinei pra perto, tentando escutar o que dizia.
—Eu perguntei se quer sair daqui!
Olhei em volta vendo Isaac parado á cerca de 50 metros, braços cruzados em uma postura dominante, olhar cauteloso na multidão.
“Belo trabalho amigão, você está parecendo uma pessoa normal e não um guardião!” ironizo em meus pensamentos. Baruel está mais despojado, uma garrafa de agua em mãos e um sorriso distraído, porém ainda assim seus olhos procuram por algo suspeito. Olho mais um pouco ao redor, procurando por ela.
O vestido rendado rosa claro de mangas longas havia lhe caído muito bem, demonstrando curvas que por debaixo daquele uniforme preto e branco não eram perceptíveis no dia a dia. Serena dançava a uns 20 metros de onde eu e Lana estávamos.
Na verdade ela mais parecia flutuar, com passos precisos e leves do que simplesmente seguir a batida. Seus cabelos negros percorriam o contorno de seu rosto, brilhando conforme as luzes lhe batiam. Um cara loiro e alto a surpreendeu por trás, investindo em uma dança desengonçada e pousando as mãos em seus quadris. Ela mais que depressa o repreendeu, torcendo seu pulso o fazendo se curvar com uma careta.
Isso me fez sorrir satisfeito.
—Devo entender esse seu sorriso como um sim?- Lana pergunta me fazendo olhar pra ela.
—Sim, isso é um sim! Mas temos um probleminha. — mordo o lábio a olhando.
—Que foi? Está acompanhado?
—Mais ou menos. — digo rindo de leve, o sarcasmo em meus lábios. Se ela soubesse... — Conhece uma forma de sair daqui sem que sejamos vistos?
Seus lábios formam um perfeito sorriso malicioso e ela concorda, pegando minha mão.
—É só me seguir meninão!
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