Academia de Poderes Inúteis
6 Saiba o que quer e me responda
Notas iniciais
“E agora?”, essa era a única coisa que passava por minha mente.
— O grupo com mais membros faltosos nas aulas foi o… Deslocados também. – Felipe continuou sem muita surpresa. – O grupo com mais...
O garoto falou pelo menos dez coisas ruins sobre o grupo que me tornei líder. Minhas bochechas não pararam de queimar durante toda a mediação de tanta vergonha que eu sentia de estar ali.
— Enfim, o que pretende fazer? – Felipe parecia julgar cada movimento meu sob seus olhos semicerrados e braços duramente cruzados.
Engoli em seco e busquei por Yara. Ela continha uma expressão semelhante a espanto e o corpo mantinha-se estático na cadeira giratória.
— Em minha defesa... – balbuciei nervoso. – Eu virei o líder hoje. Não sou responsável por… Essas coisas.
— Certo, vou falar de um jeito que você entenda. – ele suspirou impaciente. – Agora a bucha é tua, morô?
— Eu não falo desse jeito. – rebati indignado.
— Então qual a dificuldade de aceitar a sua responsabilidade como líder? – Felipe questionou com uma seriedade absurda.
Do lado de fora, os pombos formavam um ninho no parapeito da janela enquanto assistiam ao desenrolar da situação. Cerrei os punhos e respirei fundo.
— Eu não pedi para ser líder, morô? – rangi os dentes e franzi as sobrancelhas.
— Meninos, vamos resolver isso de maneira civilizada, que tal? – Ana Carolina arregalou os olhos e fez menção de se levantar.
— Agora você é o líder. Assuma isso. – Felipe ergueu o tom de voz friamente.
Quando eu estava prestes a entregar minha resposta, fui cortado pelo estrondo que ecoou por toda a sala, vindo diretamente da porta que foi aberta com brutalidade.
— Eu protesto!
Empalideci ao ver Ienaga de braços esticados e uma séria feição marcada pelas mesmas manchas avermelhadas e fumegantes do dia anterior. Atrás de si, Eduardo fechava a porta calmamente.
— Isso não é um tribunal, Laura Ienaga. – Felipe retrucou.
Por um segundo me peguei surpreso por descobrir que Ienaga se tratava de um sobrenome.
— Espera, por que vocês estão sentados tão separados? Não foi assim nos outros dias… – ela olhou para a posição de cada um.
— Não importa! – Felipe a interrompeu, pigarreando. – Você está atrasada, a reunião começou há dez minutos.
— Que se dane essa reunião, eu quero que a democracia seja implantada nessa academia. – Ienaga bateu a mão em uma das bancadas, fazendo com que os computadores tremessem um pouco, assustando a todos. – Os alunos precisam ter o direito de escolher seus líderes! – apontou para mim.
— E quem foi que te escolheu? – o garoto de olhos verdes ergueu uma sobrancelha.
— Ah, seu... – Ienaga rosnou.
— O que minha querida amiga quer dizer é que… – Eduardo colocou-se na frente dela, assumindo o controle. – Esse sistema de vocês é uma idiotice. – deu um sorrisinho de canto.
Bianca deixou sua lixa de unha cair ao enfim prestar atenção no vice-líder da União Rebelde, ganhando um súbito brilho nos olhos e vermelhidão nas maçãs do rosto.
— Vocês não são nada justos, sabiam? – Eduardo cruzou os braços e fez biquinho. – Jogaram toda a responsabilidade nesse pobre coitado pai solteiro de duzentos animais. – me lançou um olhar solidário.
— Ei! – foi minha vez de bater na bancada. – Não coloque meus bichos no meio!
— Podemos resolver a parte do solteiro. – ele deu uma piscadela.
— Eduardo, foco. – Ienaga bateu a mão na testa.
— E também quem liga para essas mediações? – Eduardo caminhou pela sala. – Vocês estão perdendo tempo ao tentarem ser perfeitos quando a perfeição sequer existe. – agarrou o papel da mão de Felipe, recebendo um protesto do garoto.
Em um piscar de olhos, o papel desapareceu.
— O que você fez?! – Felipe ficou boquiaberto de raiva.
— É por isso que eu digo. Não sejam líderes perfeitos. Sejam bons líderes. – Eduardo abriu os braços. – Era só o que tinha para falar. – bateu uma única palma.
— Decorou todo esse texto só para fugir da reunião de novo? – o baixinho bufou.
— Precisa deixar sua cola menos aparente. – Yara comentou.
Eduardo escondeu a palma da mão repleta de escritas atrás das costas e deu um sorriso amarelo.
— Mas e aí, pensaram na nossa proposta? – Ienaga colocou uma mão na cintura.
— Sobre fazer uma rebelião? – Ana Carolina juntou as sobrancelhas.
— É claro que a resposta é não! – Felipe ergueu-se furioso. – Já disse e vou dizer de novo, Laura. – andou até a garota a passos pesados, a diferença de altura entre os dois ficando clara. – Eu vou mostrar a todos que não somos aberrações e que podemos ser o futuro dessa nação. – espalmou a mão em seu próprio peito orgulhosamente.
— E eu vou exib… Mostrar o quão fantásticos somos! – Bianca ficou de pé e jogou os cabelos sobre os ombros. – Não vai demorar muito para nos tornarmos celebridades. – sorriu convencida.
— É, certo. – Ienaga torceu a boca. – Não posso obrigar todo mundo a tomar a decisão correta.
Felipe e Bianca imediatamente adquiriram expressões de insatisfação pelo comentário da líder.
— Vocês dois não são muito diferentes, sabia? Ligam mais para os holofotes do que para o que nós queremos de verdade. – Ienaga apontou para si mesma com o polegar. – E eu quero liberdade.
Ao dizer isso, deu as costas a Felipe e direcionou-se à porta pisando fundo no chão.
— Norte e Yara. – Ienaga nos lançou um olhar sério. – Saibam o que querem. Quando tiverem a resposta, me procurem.
E desapareceu no corredor. Eduardo suspirou e foi atrás dela, jogando breves acenos para mim e Yara. Um silêncio mortal preencheu o ambiente, sendo quebrado vez ou outra pelo arrulhar dos pombos.
— Acho que podemos encerrar a reunião aqui. – Ana Carolina afobou-se. – Nos vemos depois de amanhã no mesmo horário. – pegou alguns cadernos e os pressionou contra o peito, deixando a sala o mais rápido que pode.
Eu e Yara entramos em um consenso silencioso de que era nossa hora de ir. Saímos sem sequer nos despedirmos e ainda batemos a porta feito adolescentes que brigaram com a mãe.
Longe daquela atmosfera pesada, soltei todo o ar de frustração que estava prendendo no peito. Sem forças para continuar e sem ter para onde ir, sentei-me nos degraus de um dos lances de escada.
— Que situação. – uni as mãos trêmulas.
— Eu que o diga. – Yara encostou-se no corrimão.
— Aliás, belo suporte você. – ironizei.
— Fiz o meu trabalho. Eu suportei. – ela escorregou um pouco e acomodou-se em dois degraus abaixo do meu. – O que vai fazer?
— E eu que sei? – afundei o rosto nas mãos. – Preciso passar essa maldição do líder. – murmurei cansado.
— E…? – Yara incentivou.
— E o quê? – a olhei por entre as fendas dos dedos.
— E a resposta da Ienaga? – ela me fitou por cima do ombro. – Sabe, ela é insuportável, mas não é tão ruim. Esqueça meu plano de acabar com ela, eu mudei de ideia.
Respirei fundo iniciando uma reflexão. Achava a Ienaga uma pirada e o Eduardo um cafajeste em potencial, contudo, depois de estar naquela sala com aqueles outros maníacos e ter ganho a maldição do Kaíque, notei que a União Rebelde não era a pior coisa daquela academia. A Laura (parecia estranho chamá-la assim), de certo modo, tinha um bom objetivo, apenas precisava de apoio.
“O que eu quero?”, busquei por isso em minha mente.
Pude ver mamãe, Stefanie e meus bichinhos. Minha casa cheia de plantas, móveis e estampas que não faziam sentido nenhum. Eu indo para a escola, conversando sobre algo que vi na TV e depois voltando para casa para jogar videogame e brigar com minha irmã. Se eu espirrasse fogo, Stefanie tiraria sarro de mim, mas mamãe me consolaria e arrumaríamos tudo juntos.
Era aquilo que eu queria. Minha vida comum de volta. Minha família.
— Eu sei o que eu quero. – desci as mãos para o degrau. – E você?
Yara esticou as pernas no degrau em que estava e apoiou as costas na parede. Ela brincou com uma das mechas de sua franja e deixou que um suspiro escapasse.
— Não tenho muito o que fazer lá fora, já que meus pais estão “brigando” pela minha guarda. – ela disse baixinho.
Deixei escapar um “ah” de surpresa e receio. Yara não percebeu e continuou:
— Porém, eu não quero ficar aqui sem uma certeza do que vai acontecer com a gente. Até agora, isso parece uma escola normal. Mas e depois? Alguma hora nossos poderes serão colocados a prova.
Eu realmente achava estranho como tudo ocorria normalmente, sendo que estávamos ali exatamente por não sermos normais.
— Eu não quero ser submetida a testes perigosos ou servir de cobaia só por ser capaz de mudar as cores. – Yara mostrou-me as palmas das mãos.
Um arrepio percorreu toda a minha espinha ao ouvir a palavra “cobaia”. Não havia chegado tão longe em meu raciocínio.
— Você… Pode ter razão. – afirmei duramente. Fiquei um pouco preso ao que ela disse em relação aos seus pais.
Ela não respondeu, somente continuou a mexer em seu cabelo. Imaginava que haviam mais palavras a serem ditas. As quais ela preferiu esconder, as quais eu talvez não estivesse tão preparado para ouvir.
Se eu queria que as coisas voltassem a sua rotina, tinha algo que eu precisava fazer antes de tudo.
— Eu tenho de pegar o Kaíque e devolver para ele essa coroa falsa. Vai me dar suporte?
Pude jurar que vi um sorriso de canto surgir nos lábios da garota, por mais que ela tentasse se conter.
— Não tenho nada para fazer depois da aula. – deu de ombros e levantou-se passando as mãos atrás do short-saia.
Perfeito, eu bolaria algo até lá.
>>>
O último sinal tocou marcando o final das aulas. Cruzei com Yara no corredor em meio a outros alunos e tratei de entregar-lhe discretamente uma folha de caderno dobrada que guardava o plano. Passei e repassei toda a estratégia em minha cabeça, chegando a conclusão de que era perfeita.
Corri para o meu dormitório para me preparar, torcendo para que Kaíque tivesse matado a última aula no terraço ou estivesse comprando alguma besteira na máquina de doces e refrigerantes.
Fechei a porta sem fazer barulho, não queria que ninguém do andar soubesse que eu já havia retornado das aulas. Vasculhei o ambiente inteiro, procurando por um bom esconderijo no meio de toda aquela bagunça.
Uma das portas do armário de madeira rangeu ao receber uma lufada de vento da janela escancarada. Conferi o relógio digital em minha cabeceira, percebendo que tinha pouco tempo. Era tudo ou nada.
Afastei as roupas no cabideiro do armário e me enfiei ali dentro, incorporando as camisetas empoeiradas de Kaíque. Puxei as portas para fechá-las, deixando apenas uma fresta para que pudesse observar o quarto. Da onde eu estava, conseguia enxergar o visor do relógio. Se Yara seguisse o plano à risca, ela estaria ali em um minuto.
Dito e feito, a porta do quarto foi aberta pouco depois e duas vozes se espalharam pelo lugar. Percebi a silhueta de Yara atrás da de Kaíque que carregava uma latinha de Sprite e um pacote de bolachas.
— Então, o que você quer mesmo? – Kaíque perguntou.
— O Norte estava meio estressado com você. – Yara falou secamente e percorreu os olhos pelo local. – Como ele não queria te ver, me pediu para vir aqui buscar algo para ele. Mas eu não queria entrar sem ter ninguém aqui.
— Ele não te tocou, certo? – o garoto distanciou-se abruptamente.
— Como se ele pudesse. – ela respondeu solene.
Revirei os olhos dentro de meu esconderijo.
— E onde ele está agora? – Kaíque olhou ao redor, desconfiado.
— No pátio, combinamos de nos vermos lá. – Yara respondeu com uma normalidade absurda.
— No pátio, é? – ele arqueou uma sobrancelha.
Mordi o lábio inferior. Kaíque não era tão burro quanto eu pensava, ele estava suspeitando de Yara.
— Bom, o que você precisa pegar? – o garoto largou suas besteiras na cabeceira de sua cama e colocou as mãos na cintura.
Suspirei aliviado. Você pode até ser esperto, mas será facilmente manipulado por uma garota que julga atraente.
— Os mangás dele. Ele disse que guarda debaixo da cama. – Yara colocou as mãos atrás das costas inocentemente.
— Debaixo da cama… – Kaíque agachou-se na altura do colchão. – Vejamos…
Meu suspiro de antes resolveu desencadear em algumas consequências. Devo ter aspirado poeira demais, o que deixou meu nariz coçando. Comecei a arfar, sabendo o que viria em seguida.
— Ouviu alguma coisa? – ele virou a cabeça na direção do armário.
Levei as mãos até a boca e nariz, cobrindo-os o máximo que pude. Mamãe havia me ensinado o truque de olhar para a luz quando eu sentisse vontade de espirrar, como não havia nenhuma lâmpada, ergui a cabeça para o teto do armário. Meus olhos quase se fecharam em meio ao lacrimejar e a queimação ficou presa em minhas narinas.
— Não ouvi nada. – Yara moveu-se para o lado, barrando o campo de visão de Kaíque. – Pode pegar logo? Tenho mais o que fazer.
— Tem? Você podia ficar mais e…
— Quer saber? Vou dizer para o Norte pegar os mangás ele mesmo. Valeu. – ameaçou dar meia volta.
— Não, não! Eu pego! – Kaíque deitou-se de bruço no tapete e tateou o chão abaixo de minha cama. – Ahá, aqui está.
Rapidamente, a garota colocou uma perna de cada lado do corpo do garoto e sentou-se em suas costas. Em um movimento brusco, agarrou seus dois braços e os dobrou para imobilizá-lo.
— O que está fazendo?! – Kaíque gritou indignado em uma tentativa falha de se desvencilhar.
Aquele era o meu momento. Bati as mãos nas portas do armário, abrindo-as em um estrondo. Cruzei o quarto em passos precisos e agachei-me ao lado do corpo estático do meu colega de quarto.
— Ah, eu sabia que havia algo de errado. – ele franziu as sobrancelhas e deu um sorriso forçado. – Olha, tenho que confessar, vocês formam uma dupla e tanto. Me pegaram direitinho. – suspirou derrotado.
Eu e Yara nos encaramos depois do que o garoto disse. De fato, trabalhamos bem.
— Tudo bem. Pode me tocar, você venceu. – seu sorriso transformou-se em algo sincero. – Mas saiba que não por muito tempo.
Sua frase meio que feriu meu orgulho, então me senti obrigado a revelar algo.
— Na verdade, é por muito tempo, sim. – contei. – Você só pode passar a liderança para um deslocado, certo?
Kaíque assentiu com uma expressão presunçosa.
— Não somos mais deslocados. – dei de ombros. – Somos rebeldes. – toquei sua testa. – Você é o líder agora. Tem reunião depois de amanhã no mesmo horário.
O garoto fechou os olhos e expirou, deitando no chão a cabeça que antes mantinha levantada em forma de protesto.
— Pelo menos a Yara me tocou. – ele disse satisfeito.
— Eca. – Yara o soltou e afastou-se como se o garoto fosse a coisa mais nojenta do mundo. – Se acabamos aqui, preciso ir tomar banho.
— Obrigado. – estendi a mão em busca de um toca aqui.
— “Obrigado” nada, são dez reais. – Yara passou reto por mim, deixando-me no vácuo. – Cinco por ter ido na reunião e cinco por ter ajudado no plano. Na verdade, eu devia cobrar um acréscimo por ter tocado no Kaíque.
— Que tipo de mercenária você é? – questionei incrédulo.
— E vou apreender isso como prova do crime. – Yara agarrou o pacote de bolachas e a latinha de refrigerante na cabeceira de Kaíque, deixando o quarto em seguida.
— Uau. – Kaíque riu.
— Calado. – cerrei os dentes e franzi o cenho.
Nós enfim éramos rebeldes. Havíamos decidido isso um pouco depois, ainda na escada. Se quiséssemos alcançar nossos objetivos, deveríamos nos unir a Ienaga e Eduardo. O dia seguinte seria uma novidade, tanto para mim quanto para Yara.
>>>
Tudo ocorreu bem na quarta-feira, as pessoas pararam de me tratar como se eu tivesse alguma doença (a maldição do líder era como um vírus, de certa forma), contudo, ainda tinham cuidado ao se aproximarem de mim por causa do meu poder. O antialérgico que eu tomava me deixava sonolento, afinal, você não vai espirrar se estiver em coma.
Tive a última aula de Língua Portuguesa com Yara. Falando em português, soube que Miguel havia voltado para o escritório do R.C.E., o que achei quase uma pena, já que ele era o único responsável dali que eu conhecia. Existiam outros adultos como inspetores e inspetoras que caminhavam pelo corredor e de vez em quando aplicavam advertências sobre o tamanho do short-saia das garotas ou sobre os garotos terem roubado os short-saias e estarem desfilando por aí com a peça.
— O que vai fazer agora? – perguntei para Yara.
Ela ponderou um pouco enquanto passávamos pela porta, todavia, sua resposta nunca veio. Minha visão escureceu e minha boca foi coberta repentinamente. Tive uma espécie de déjà vu ao notar que estava sendo arrastado para algum lugar.
Ao recuperar a vista, estávamos naquela sala azul com várias cadeiras espalhadas. O (nada) famoso esconderijo da União Rebelde.
— É sério isso? – falei incrédulo. – Vocês podiam simplesmente nos chamar para vir aqui!
— Vocês não podem saber a localização do esconderijo ainda. – Ienaga retirou sua camisa xadrez de manga longa e a jogou em um canto.
— Tem literalmente uma placa na porta dizendo que aqui é o esconderijo. – Yara argumentou sem ânimo. – Além de que já fizemos o caminho de volta. – acrescentou em um murmúrio.
— Mas isso, meus caros, é para desviar a atenção! Ninguém seria burro o suficiente para revelar sua posição, ou seja, as pessoas veem a placa e passam reto. – a líder sorriu vitoriosa.
Minha avó sempre dizia que era melhor ouvir besteira do que ser surdo. Aquilo foi a prova disso.
— Ienaga, foco. – Eduardo mexia em seu celular.
— Bom, nós os trouxemos aqui hoje para oficializar a entrada de vocês na União Rebelde. – Ienaga colocou as mãos na cintura, orgulhosa.
— Contou para ela que nós…? – sussurrei para Yara que somente negou com a cabeça.
— Não nos subestimem, pequenos gafanhotos, as paredes têm ouvidos. – Ienaga andou pela sala.
— Elas são bem finas, na verdade. – Eduardo bateu na parede atrás de si, produzindo um som oco.
— Eu podia simplesmente parabenizá-los por terem escolhido nosso lado, soltar confetes e cortar um bolo! – a líder gesticulou.
— Isso é uma ótima ideia. – o vice-líder sorriu.
— E a faríamos se o Eduardo não tivesse desaparecido com o bolo usando seu poder. – Ienaga bufou.
— Sabe que não fiz de propósito, Laura. – ele fez um biquinho emburrado. – Não consigo controlar meu poder a todo momento, às vezes tenho deslizes.
— De todo modo, pensamos em algo que os faça provar sua lealdade ao grupo. – ela apertou uma das bochechas de Eduardo. – Quer fazer as honras?
Lá vinha problema. Eu não tinha mesmo um segundo de sossego.
— Não é nada demais. Vocês só precisam abrir a janela do quarto do Felipe essa noite. – Eduardo guardou seu celular.
Foram eles que encheram nosso saco pra gente entrar na droga do grupo e ainda tinha de rolar uma prova de lealdade daquelas? Ah, faça-me o favor.
— E por que exatamente devemos fazer isso? – Yara arqueou uma sobrancelha.
— O Felipe sempre mantém a janela fechada por causa dos pombos. O poder dele ativa simplesmente quando ele fala, por isso é um saco. – o garoto explicou. – E o melhor de tudo é que ele fala enquanto dorme. – sorriu malvado. – Queremos deixar isso como um aviso. Um aviso de guerra. Fria, por enquanto.
Eu não era tão bom em história, mas tinha quase certeza de que a Guerra Fria não foi daquele jeito.
Me virei para um canto vazio e puxei Yara para que se virasse também, a fim de conversarmos a sós.
— O que você acha? – consultei em um sussurro.
— O Felipe é aquele baixinho que te tratou feito lixo na reunião, não? – ela quis confirmar.
Eu preferia não me lembrar daquele garoto de 1,55cm que achava que era alguém muito melhor que eu quando tinha seu próprio exército de pombos.
— Beleza, eu topo. – virei-me de volta para Ienaga.
— Ótimo! Ele costuma ir deitar às nove e quinze. Coloquem o plano em prática dez horas, quando tiverem certeza de que ele dormiu. – a líder instruiu. – O quarto do Felipe é o de número vinte e dois, mas ainda precisamos confirmar, então nos passem o Whatsapp de vocês para irmos nos falando.
Enquanto digitava o número de meu celular na agenda de contatos de Ienaga, ponderei sobre a estrutura do prédio: haviam quatro andares de dormitórios, cada um com doze quartos, o que significava que Felipe ficava no segundo desses andares.
— Espera, como sabem de tanta coisa? – levantei uma sobrancelha, um tanto receoso.
Ienaga cruzou os braços e olhou diretamente para Eduardo, os dois pareceram ter uma breve conversa através do contato visual.
— Temos um informante. – ela confessou após o garoto dar de ombros. – Apresentaremos vocês a ele caso realmente entrem para o grupo.
Mastiguei a própria língua, tentando absorver aquela história de informante.
— Ah, e mais uma coisa… – Eduardo acenou, chamando a atenção para si. – Tem uma escada nos fundos da academia, peguem-a sem fazer barulho.
— E para que precisamos de uma escada? – inclinei a cabeça para o lado.
— Para alcançar a janela, eu suponho. – ele sorriu malicioso.
Ao meu lado, Yara arregalou os olhos e eu fiquei boquiaberto.
— Imaginei que pudéssemos entrar no quarto dele de fininho… – Yara murmurou cobrindo sua boca. Ela não tinha o costume de errar, deve ter sido um choque e tanto.
— Se vocês souberem como abrir uma fechadura usando grampos, vão fundo. – Eduardo zombou.
Yara deu as costas para nós e girou a maçaneta sem dar explicações, pisquei os olhos, ainda um pouco atônito e a encarei por cima do ombro.
— Aonde vai? – indaguei bobamente.
— Aprender a abrir portas com grampos. Nos vemos de noite. – Yara respondeu em seu tom sério.
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