Notas iniciais
Postando bem atrasada XD, foi mal ae pessoal! Mas vamos ao capítulo! Boa leitura ♥

A líder respirou fundo, jogou a franja para o lado e colocou-se em frente a meia lua de almofadas. Dei um jeito de abraçar minha mochila e sentar-me ao lado de Érica, apesar de me sentir desconfortável por ferir a privacidade da colega de quarto da Ienaga e tendo a forte impressão de que ela ia nos dedurar.

O primeiro ponto da reunião foi rápido: Milena foi apresentada a cada membro e seu respectivo poder (mesmo que ela ainda não tivesse revelado o seu). Quanto ao segundo ponto, Eduardo encarregou-se de contar sobre o jogo do Informante, surpreendendo a todos e levantando alguns protestos sobre confiar naquele cara.

— A gente não confia. – Ienaga torceu a boca. – Mas se estamos na liderança desse jogo, não custa continuar. – cruzou os braços.

— E o que ele quer dizer com liderar os outros grupos? – Victor franziu as sobrancelhas. Podia ser impressão minha, mas jurava que Amanda não olhava diretamente para o irmão como costumava fazer sempre que ele falava.

— Lá no começo, cada um dos grupos queria liderar a API do seu jeito, mas a gente sempre soube que isso era algo imaginário. Ainda é, claro. Mas se não podemos liderar a academia, temos a possibilidade de liderar os outros alunos. – a líder explicou.

— O que quer dizer que agora sim vamos brigar de verdade com os outros grupos. – Eduardo completou.

— Nunca ouvi tanta idiotice e olha que sou amigo de vocês. – Victor rangeu os dentes. – Eu não vou ser liderado por ninguém. Esse Informante não passa de alguém brincando de superior, quando não tem coragem nem de mostrar a própria cara.

Senti um estalo na cabeça. Eu não gostava do Informante e até então não entendia por que Ienaga e Eduardo ainda apostavam algumas fichas neles. Entretanto, por um momento, acho que pude captar a intenção dos líderes.

— Se vencermos o jogo… – ponderei. – E fizermos os outros alunos nos ouvirem, nosso objetivo vai ficar cada vez mais próximo. – ergui as sobrancelhas.

— Esse é o ponto, Norte! – Eduardo sorriu e me mandou uma piscadela.

— Pff, valeu por dizer o óbvio, loiro oxigenado. – o gêmeo cruzou os braços e virou o rosto.

— Não somos idiotas como você pensa, Victor. – Ienaga suspirou. – Mas Bianca e Felipe são, então eles vão entrar na onda do jogo. E se eles querem jogar, nós vamos ganhar. – assentiu determinada.

— Olha, não é por nada não, mas… – Érica ergueu a mão, hesitante. – Devíamos mesmo falar sobre isso perto dela? – sussurrou e desviou o olhar para o lado direito do quarto, onde a única coisa que podíamos ver era a silhueta de Rebeca deitada atrás da cortina que rodeava sua cama.

Ienaga fez um biquinho, caminhou até a cômoda creme e apontou para algo pousado ali. Era pequeno e de um tom bege claro com um arco cinza, o que eu chutava ser um aparelho auditivo. Em seguida, a líder indicou seus próprios ouvidos e balançou a cabeça em negação.

— Basicamente, é sobre isso que queríamos falar. – Eduardo afirmou lentamente. – Algo a acrescentar?

Outra mão foi levantada, dessa vez a da garota de cabelos rosas.

— Será que alguém pode me ajudar? – ela perguntou receosa. – É que… Eu não entendi nada das aulas. – encolheu os ombros e mostrou o caderno em seu colo.

A líder e o vice se entreolharam, soltando uma risada abafada.

— Okay, terceiro ponto da reunião: ajudar a Milena a entender o ensino médio. – Ienaga puxou sua mochila jogada em um canto do quarto e tirou de lá um estojo.

— Confesso que eu mesma ainda não entendi. – Érica riu sem jeito.

Enquanto Eduardo e Ienaga se acomodavam ao lado da garota e analisavam seu caderno, refleti sobre o sistema da API. Por exemplo, existiam intérpretes para os alunos surdos, mas a direção dificilmente pensaria em montar uma grade de aulas do fundamental só para a Milena.

Tomados pela boa vontade dos líderes, os outros membros também pegaram seus cadernos e começaram a revisar o conteúdo do dia, ora ou outra comentando alguma coisa com Milena.

— Milena, o que te fez vir para a academia esse ano? – Érica puxou conversa.

— B-Bem… – a pequena abaixou a cabeça. – É segredo. – pigarreou envergonhada.

— Ei! – Victor fechou seu caderno em um baque seco. – Você sequer tem um poder? – encarou a garota seriamente.

Ienaga e Eduardo olharam instantaneamente para o gêmeo, como que para prevenir que ele não diria nenhuma besteira. Quero dizer, uma maior.

— É claro que eu tenho. – Milena murmurou. – Eu só não posso contar.

— Não pode contar seu poder. É segredo o porquê de ter vindo para cá esse ano. – Victor acusou virando-se para o grupo. – O que garante que ela não está dando uma de “a órfã” e veio aqui para nos espionar? – arqueou uma sobrancelha.

— Victor. – Amanda o repreendeu em um tom baixo.

— Qual é, a gente não vai ficar escondido do mundo para sempre. Vão tentar alguma coisa. Isso se já não estão tentando. – o garoto olhou de soslaio para Milena.

— Eu tenho um poder! – Milena exclamou ofendida e fitou o rosto de cada um em busca de apoio. – O R.C.E. sabe que eu tenho! Fizeram um teste antes de eu entrar e… – seu olhar parou em mim.

Inconscientemente, abaixei a cabeça. Não que eu desse moral para algo que o Victor dissesse, todavia, não havia provas de que Milena realmente tinha um poder.

A pequena engoliu em seco, agarrou sua mochila e correu para fora do quarto como havia feito no dia anterior. Só que dessa vez, parecia chorar.

— Você sempre tem que ser tão implicante?! – Eduardo bufou e iniciou uma discussão com Victor.

Ienaga e Amanda, cansadas, trataram de repreender os garotos, pedindo que parassem. Observei a porta que não foi fechada direito, balançando lentamente com alguma corrente de ar.

Tomado por um impulso, levantei-me e deixei o quarto, torcendo para que Milena não fosse tão rápida.

— O que vai fazer? – uma voz perguntou atrás de mim.

Arregalei os olhos ao perceber que Yara havia me seguido e tentava igualar o ritmo de seus passos ao meu.

— Não faço ideia. Viu o jeito que ela saiu? – desci as escadas em alguns pulos, paralisando assim que enxerguei o que nos aguardava no final dos degraus.

Um homem de cabelos louros escuros segurava alguns papéis e tinha uma expressão confusa por causa da garota chorando em sua frente. Ao lado deles, o estagiário de cabelos vermelhos olhava ao redor, procurando por alguma coisa. E ele encontrou ao olhar para mim e Yara.

— Norte, Yara… Passasse algo? – Miguel questionou tão perdido quanto Fábio.

— Uma discussão no nosso grupo. – respondi constrangido.

— Vocês fizeram um teste comigo, não foi? – Milena falou com a voz embargada. – Eu tenho um poder, não é? – sussurrou como se quisesse confirmar mais para si mesma do que para os presentes.

Fábio desviou sua atenção da garota para nós, franziu levemente o cenho e entreabriu a boca, porém, se conteve ao escutar mais alguns passos descendo a escada de maneira apressada. Cinco adolescentes apareceram, ofegantes e de feições contrariadas.

— Vou falar apenas uma vez para todos ouvirem. Onde está o resto do grupo? – Fábio respirou fundo.

— Somos só nós. – Ienaga respondeu prontamente.

— Ah, certo. – o homem pigarreou. – A Milena está aqui pelo mesmo motivo que vocês. Então, ao invés de brigarem, que tal tentarem… Acolhê-la? Vocês sabem como é horrível se sentirem excluídos, não sabem?

Após essa fala, nenhum de nós teve coragem de olhar nos olhos uns dos outros, apenas encolhemos os ombros e viramos os rostos. Fábio suspirou pesadamente e fez um meneio de decepção.

— Se esforcem, okay? – deu um sorriso franco. – São veteranos, precisam dar um bom exemplo. – usou seus papéis para bater de leve na cabeça do mais próximo. No caso, eu.

Fechei minimamente os olhos e abaixei a cabeça, queimando de vergonha por estar levando sermão do namorado da minha mãe e por algo que nem era tão culpa minha.

— E Milena, preciso que venhas comigo. – Miguel avisou e em seguida agachou-se um pouco para cochichar algo no ouvido da garota.

— Mais testes? – seus ombros caíram. – Tudo bem. – respirou fundo e deu as costas ao nosso grupo.

Os dois homens a acompanharam para outro lugar, deixando a União Rebelde plantada ali.

— Muito bem, Victor. – Eduardo bateu palmas sarcásticas.

— Não enche, vocês pensaram a mesma coisa que eu. – Victor bufou e afundou as mãos nos bolsos.

— É, mas não falamos. – Ienaga assentiu. – Reunião encerrada. – subiu as escadas a passos pesados e punhos cerrados.

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As aulas do dia seguinte foram lentas e tortuosas e antes que todos os alunos pudessem abandonar a sala da última matéria, fomos chamados de volta aos nossos lugares para ouvirmos um recado. Eduardo jogou sua mochila em uma cadeira ao meu lado e sentou-se em cima da carteira, balançando uma das pernas. Ele fazia aquela aula comigo, apesar de não reparado muito em mim já que passou o tempo inteiro rodeado de garotas.

— Creio que se lembrem do acampamento do ano passado. – a professora terminou de apagar a lousa e bateu uma palma. – Ao que parece, o dono de lá os chamou novamente para passarem dois dias como um presente de volta às aulas. – avaliou um papel sobre sua mesa.

Rapidamente, os alunos criaram um burburinho com suas vozes altas e agitadas. A professora ajeitou seus óculos e pediu por silêncio, visivelmente impaciente.

— Se acalmem, se acalmem. Seguindo o procedimento do ano passado, vamos mandar uma autorização para seus responsáveis. – ela explicou. – Na sexta-feira serão entregues a lista de regras e do que levar.

O burburinho fez um coro de desânimo ao ouvir as palavras “autorização” e “regras”. A professora deu fim ao anúncio com uma risada inocente e liberou os alunos.

— Nos chamou? – Eduardo resmungou ao sairmos da sala. – Ele sequer estava lá no ano passado, não é? – me olhou de cenho franzido.

Vasculhei minha mente em busca das memórias do acampamento. Além do guarda e outros funcionários do local, não vi ninguém que se parecesse ou tivesse se apresentado como dono.

— Isso está ficando cada vez mais estran... – sussurrou sendo interrompido pelo toque de seu celular.

Eduardo sacou o aparelho do bolso e conferiu a tela, levantando as sobrancelhas em sinal de surpresa.

— O que f… – antes que eu terminasse a fala, o garoto colocou o celular na altura do meu rosto.

xxxx-xxxx: O acampamento vai ser um ótimo meio de conseguir pontos. Preparem-se.

—Informante. [16:13]

— Ele é rápido. – comentei incrédulo.

— Mas nós seremos mais. – Eduardo apertou minha bochecha, piscou um olho e misturou-se ao fluxo de alunos que corriam para fora das salas.

Com o anúncio do acampamento, não se falava sobre mais nada durante os intervalos. Imaginei que teríamos alguma reunião da União Rebelde para falarmos sobre nossas táticas, entretanto, não voltamos a pisar no quarto de Ienaga desde o dia da discussão.

Milena também não era vista nas aulas, apenas na hora das refeições, ora sozinha ou ora sendo mimada pelas alunas que a comparavam com uma boneca de porcelana ou uma irmã mais nova.

Então, uma semana mais tarde, estávamos novamente divididos em três ônibus rumo ao acampamento com os bagageiros cheios, adolescentes reclamando do balanço do veículo, gritos de empolgação e conversas que iam e vinham. Dessa vez, sentei-me com Eduardo no segundo ônibus, já que Ienaga havia se atrasado e ficado no terceiro.

Eu estava quase pegando no sono quando ele me perguntou se Ienaga teria se lembrado de passar protetor solar e usar o sombreiro, já que ela odiava aquilo. Respondi que sim e acomodei minha cabeça de um jeito que não me desse torcicolo, o que acabou resultando na visão do banco ao lado, onde Yara e Érica dormiam uma encostada a outra, dividindo fones de ouvido.

Assim, fechei os olhos suavemente e dormi pelo resto do percurso.

>>>

Terra, árvores, mosquitos e um velho nos esperavam na frente do portão de entrada. Assim que os três ônibus estacionaram, recolhemos nossas mochilas e descemos em fila, parando diante do alambrado que rodeava a área do acampamento.

O idoso de boa postura, cabelos ralos e brancos e roupas não recomendadas para se estar na natureza cumprimentou a todos com um aceno de cabeça e mandou que o guarda abrisse a passagem.

— Quem é o velho? – Érica perguntou ao atravessarmos o portão.

— É só o dono do acampamento. – Fábio respondeu com uma sobrancelha arqueada enquanto carregava um galão de água.

— Ah, sim. – a garota deu um sorriso nervoso e encolheu os ombros.

Chegando à área determinada, permanecemos com as mochilas nas costas, pois o senhor queria conversar conosco antes de montarmos as barracas. Heitor usou seu megafone para ordenar que ficássemos em silêncio e ofereceu-o ao idoso que o negou educadamente.

— É um prazer tê-los aqui. – ele colocou os braços atrás das costas e ergueu o queixo para visualizar o grande grupo de alunos. – Sou Alberto das Neves, infelizmente não pude vê-los no ano passado, então espero compensar esse ano.

Ele fez um breve discurso sobre como aquele lugar era lindo e educativo, até chegar na parte em que realmente prestamos atenção.

— Os convidei para cá, pois os achei… Interessantes. – Alberto pigarreou.

Seu tom de voz ao dizer “interessantes” não indicava que achava aquilo legal. Estava mais para um interessante exótico, coisa que me fez franzir as sobrancelhas com certa desconfiança.

— Ficaria feliz se algum de vocês pudesse me mostrar seu poder. – ele caminhou de um lado para o outro, estudando-nos. – Que tal você, senhorita?

Todos inclinaram seus corpos e cabeças para espiar a aluna que Alberto havia escolhido. Milena arregalou os olhos e corou fortemente ao perceber que ela era a eleita e que toda a atenção estava sobre si.

— É que eu… – ela esfregou seu braço e desviou o olhar, nervosa.

— Vamos, não seja tímida. – Alberto deu um sorriso fechado e aproximou-se da garota.

Meu coração palpitou em alerta. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa ia dar errado.

— Você não deixaria um velhinho triste, não é? – o senhor indagou.

Engoli em seco, ninguém falava nada ou sequer se mexia. Foi aí que eu percebi. Todos queriam a mesma coisa que o senhor: saber o poder de Milena. O poder que ela não havia contado para ninguém.

Senti um estalo na cabeça e a imagem de Milena chorando no final das escadas voltou a minha mente na velocidade de um tapa. Minhas pernas moveram-se sozinhas enquanto uma fala presa tentou sair de minha garganta.

— Que tal pedir para outro aluno?

Mas não foi eu quem disse aquilo. Saindo da formação de linha dos funcionários do R.C.E., Fábio sorriu nervosamente e apertou as próprias mãos.

— A Milena é nova na academia, sabe? – explicou sob o olhar sério de Heitor.

— Eu posso mostrar meu poder!

E isso foi eu quem disse. Sequer percebi que minha mão estava levantada e os alunos ao meu redor me fitavam incrédulos, automaticamente afastando-se. Tudo bem, tentei não levar para o lado pessoal.

— Qual o seu nome, rapaz? – Alberto focou-se em mim.

— Norte. – respondi e respirei fundo. – O meu poder é espirrar fogo.

— Oh, isso parece interessante. – o senhor assentiu fascinado.

O modo como ele dizia “interessante” realmente me incomodava.

— Certo, só um segundo. – concentrei-me, enfim notando a enrascada em que me meti.

Eu não conseguia espirrar quando bem entendesse.

— Já vai vir. – ergui o indicador, pedindo por paciência.

Uma gota de suor escorreu por minha testa e eu comecei a ficar com medo de deixar o velho esperando demais e ele voltar a incomodar a Milena.

— Espera… – expirei profundamente tentando sentir o perfume de alguém, todavia, não conseguia captar nenhum cheiro forte além de o de terra e repelente.

O senhor arqueou uma das finas sobrancelhas e torceu a boca murcha, um tanto impaciente. Quase perdendo as esperanças, vi uma mecha de cabelo preto surgir em meu campo de visão e praticamente ser enfiada em meu nariz.

O cheiro doce me invadiu por completo e a ardência se espalhou por todo o interior de meu rosto, resultando em um espirro flamejante. Diferente do que eu estava acostumado, a chama pareceu bem maior e calorosa, assustando não apenas os alunos ao meu redor, mas também a mim mesmo.

Ainda de olhos arregalados e boquiaberto, escutei algumas palmas. Seguindo a direção do som, Alberto sorria impressionado.

— Maravilhoso! É realmente interessante! – ele afirmou satisfeito. – Espero que não se incomodem de eu ficar aqui para apreciar mais de seus poderes.

A equipe do R.C.E. não parecia muito à vontade e Heitor tinha uma feição muito dura para quem estava apenas trocando as pilhas de seu megafone.

— Muito bem, é hora de montar as barracas. – o diretor anunciou de mau humor.

Os alunos dispersaram-se indo em busca de seus colegas de quarto ou um bom lugar para colocar sua barraca. Pensei em procurar por Kaíque, contudo, tinha algo mais importante para fazer antes.

— De uma escala de zero a dez, o quanto eu estraguei essa mecha? – me virei para Yara, encarando a parte solta e chamuscada de seu cabelo.

— Talvez cinco. – ela verificou dando batidinhas. – É impressão minha ou o seu fogo está maior?

— Ah, droga. – mordi o lábio inferior. – Olha, você não tinha que sacrificar seu cabelo… – balbuciei envergonhado.

— Era isso ou você dar uma de idiota na frente do dono do acampamento. – ela enrolou a parte solta, transformando-a em um coque novamente. – Apesar de que você não estava tentando impressioná-lo. Só estava ajudando a Milena. – colocou as mãos na cintura.

Suspirei pesadamente e procurei pela garota de cabelos rosas. Ela havia se juntado com outras duas garotas que começavam a montar a barraca próximo de uma árvore.

— Ela é só uma criança. – sussurrei.

Imaginava que pessoas na idade dela achariam poderes uma coisa super legal (eu provavelmente acharia), porém, o jeito como ela ficava reclusa quando tocava no assunto era de partir o coração.

Desviei o olhar para outro lugar, enxergando Vitória, a assistente na equipe do R.C.E. de cabelo bem amarrado e macacão engomado, berrando para um garoto descer da árvore.

O garoto era o Kaíque.

— Por que, meu Deus? – revirei os olhos.

— Quer ajuda para montar sua barraca? – Yara indagou em um tom de desdém.

— Por favor. – inclinei a cabeça para cima, visualizando o céu azul por entre as copas das árvores.

>>>

Tivemos atividades parecidas com o acampamento anterior, como acender as fogueiras, preparar as refeições de modo rústico, fazer uma trilha e enfim a caça à bandeira ao anoitecer.

Quando a União Rebelde se reuniu em um canto para decidir as duplas, entramos em um impasse por estarmos em número ímpar, já que Victor estava apto para participar. Antes que Ienaga tomasse alguma decisão, uma pequena figura aproximou-se de nós.

— Será que eu posso me juntar a vocês? – perguntou sem graça.

— Sem dúvidas, afinal, você é uma rebelde, né? – a líder sorriu, arrancou a tampa do canetão com os dentes e começou a escrever em seus dedos.

Milena retribuiu o sorriso minimamente e subiu o zíper de sua jaqueta, chegando mais perto de nossa rodinha.

— Ótimo, aqui tem as iniciais do Norte, da Amanda, do Eduardo e as minhas. – Ienaga indicou seus dedos virados para baixo. – Escolham um para decidir sua dupla. – escondeu seu polegar.

Fiquei um pouco ansioso quanto a quem seria minha dupla. Amanda estava fora de jogo já que as iniciais dela foram escritas, o que foi um alívio. Os quatro restantes decidiram entre si quem escolheria primeiro e a vencedora foi Yara, tocando o anelar de Ienaga.

Assim que a garota voltou para o seu lugar na rodinha, me peguei pensando como seria se eu fosse sua dupla. E talvez eu estivesse reparando demais nela, já que ela me olhou de soslaio com um ar interrogativo. Abaixei a cabeça, fitando meus tênis sujos de terra.

Os outros três terminaram de escolher e Ienaga virou a palma de sua mão para cima, revelando as iniciais.

— Yara e Amanda. Victor e Eduardo. Milena e Norte. E Érica e eu como no ano passado. – a líder anunciou as duplas.

— Fala sério. – Victor foi o primeiro a protestar.

— Sorteio é sorteio. – Ienaga entrelaçou seu braço ao de Érica. – Provavelmente essa caça a bandeira está valendo pontos no jogo do Informante, mas as mensagens não chegam aqui por falta de sinal. – assentiu. – Por isso, vamos vencer a qualquer custo!

Yara foi para perto de Amanda e Victor aproximou-se de Eduardo a contragosto. Por minha vez, também me coloquei ao lado de minha dupla, um pouco frustrado.

Heitor ditou as regras (que não eram muitas) e as cores das bandeiras de cada grupo, dando início a brincadeira. A União Rebelde separou-se, cada dupla indo para um lado com a promessa de que voltaria carregando uma bandeira.

Procurei evitar o caminho que fiz com Amanda já que nos perdemos e provavelmente não colocariam uma bandeira no mesmo lugar de antes. Ao invés disso, usando minha lanterna, guiei a mim e a Milena para uma parte mais inclinada da floresta, repleta de rochas e árvores altas.

— A gente tá perdido, né? – Milena questionou apontando sua lanterna para pontos aleatórios.

— É. – franzi as sobrancelhas ao concluir que sim.

— E o que fazemos? – ela apoiou a mão em uma rocha que era quase da sua altura.

Olhei para a direção de onde viemos, ponderando se conseguiríamos voltar, todavia, o caminho não parecia mais fazer sentido e eu já não ouvia mais as vozes dos outros alunos.

— Ah… – suspirei pesadamente. – Esperamos. Vão perceber que sumimos. – desamarrei a jaqueta de minha cintura e a vesti ao sentir o frio da noite.

— Vão, é? – Milena sentou-se na rocha e fitou-me.

Escutei o coaxar dos sapos e o cricrilar dos grilos sob o céu sem estrelas. Aquela parte da floresta me dava certo medo, porém, aquilo devia ser mais assustador para Milena do que para mim, então procurei mostrar um pouco de coragem.

— Com certeza vão. – afirmei determinado e sentei-me na rocha ao seu lado, sentindo alguma coisa tocar minha coxa instantaneamente.

Foi impossível prender o grito de pavor e controlar o impulso com que me afastei da pedra. Assim que me levantei, algo caiu em meus pés.

Era um graveto. E lá se foi a minha coragem.

Notas finais
O que vai acontecer com esses dois perdidos? Qual o poder dessa garota afinal? Eles vão ganhar a caça a bandeira dessa vez? Essas perguntas serão respondidas no próximo capítulo: "Ela tem um segredo, mas eu não me lembro" Beijos. —Creeper.