Academia de Poderes Inúteis
10 O chão é lava
Notas iniciais
Dentre todas as coisas no mundo, aquilo na bandeja estava longe de se parecer com biscoitos. Pareciam mais massinhas de modelar que derreteram com a radiação de algum micro-ondas velho.
Nós quatro encaramos o resultado culinário de Ienaga, incertos do que falar ou, na verdade, sem coragem para dizer o quanto aqueles biscoitos não eram comestíveis.
— Vamos lá, não podem estar tão ruins. – a líder agitou a mão e deu uma risada nervosa.
— É verdade, não podem estar tão ruins. – comentei.
— Obrigada, Nort… – Ienaga se gabou.
— Com certeza estão horríveis. – completei fascinado.
— Para a primeira vez, está bom! – a garota se defendeu, mostrando estar realmente ofendida.
— Está bom para dar dor de barriga em alguém. – Eduardo pegou um dos biscoitos mutantes com um guardanapo e o bateu na bancada, produzindo um som oco. – Mas eu admiro sua tentativa. – afagou os cabelos da amiga com a mão livre.
Ienaga inflou as bochechas e retirou o avental que usava até então, jogando-o em um canto qualquer.
— Localização da vítima? – ela abanou a mão acima dos biscoitos, esfriando-os.
— Vítima? – indaguei temeroso.
Eduardo se locomoveu até a janela, afastou um pouco as cortinas (tomando cuidado para o sol não atingir Ienaga) e observou o exterior do prédio por um instante.
— Está desenhando no jardim. É a hora perfeita. – ele virou-se para nós, sorrindo malicioso.
— Norte, você sabe o que fazer. – a líder me encarou cheia de determinação.
— Na verdade, não sei não. – respondi confuso. Havíamos treinado apenas as patadas que eu poderia receber.
— Vá lá embaixo, ofereça alguns biscoitos e puxe conversa. – Eduardo voltou para a bancada e me entregou duas luvas térmicas de silicone azul.
Os três me fitaram, esperando que eu vestisse as luvas, pegasse a bandeja e saísse contente por estar indo interagir com alguém que não fosse eles. Foi isso que eu imaginei, pelo menos.
Meus dentes se fecharam e tive certeza de que minhas bochechas ficaram salpicadas de vermelho. Não esperava dar aquele tipo de investida tão cedo.
— Podemos tentar outro dia. – desviei o olhar repleto de insegurança. – Esses biscoitos nem são comestíveis. – pigarreei.
— Não é para comer, é para ter uma desculpa para se aproximar. – Eduardo mostrou a língua e Ienaga protestou quanto ao “não é para comer”.
Respirei fundo algumas vezes, formulando em minha cabeça cada possibilidade daquilo dar muito errado, que iam desde a garota ter intoxicação alimentar até eu esquecer como se formava uma simples frase e ficar com a língua presa.
— E se eu ficar nervoso? – mordi o lábio inferior.
— Tudo bem ficar nervoso. Só não deixe o nervosismo tomar conta de si. – ele me deu um tapinha nas costas.
— Além de que, o que de mal pode acontecer? – Ienaga deu de ombros e cruzou os braços. – O máximo que você pode receber é um “não”.
— Ou um “não quero falar contigo, vaza”. – Eduardo opinou.
— Ou um “se afaste de mim ou eu chamo a inspetora”. – Yara ingressou na conversa, quebrando o silêncio que vinha cultivando desde que soltei sua mão.
Eles continuaram nessa de “ou” por pelo menos mais um minuto, o suficiente para eu ficar de saco cheio daquela sala. Coloquei as luvas de maneira raivosa e agarrei a bandeja, bufando de descontentamento.
— Vocês não ajudam em nada mesmo! – reclamei de cenho franzido. – Se der errado, é tudo culpa de vocês! – acho que arrebitei o nariz e deixei o local a passos pesados.
Enquanto descia as escadas tendo todo o cuidado do mundo para não derrubar os biscoitos, me peguei refletindo como me meti naquilo. Balancei a cabeça, afastando esse pensamento. Se eu quisesse minha vida normal de volta, nosso grupo precisava crescer e ter voz ativa entre os outros grupos.
Avistei Ana Carolina no final dos degraus, acompanhada de Felipe. Ambos conversavam normalmente, mesmo que o garoto estivesse coberto de penas brancas e cinzentas.
— Oi, Norte! – Ana acenou para mim. – Uau, você quem fez? – apontou para os biscoitos, impressionada.
— Na verdade, não. – respondi sem jeito. Eu poderia oferecer alguns para ela, mas me pareceu ser um crime.
— Posso pegar um? – ela sorriu adoravelmente.
— P-Pode. – afirmei receoso. Esperava que ela não nos processasse por qualquer dano ao seu estômago.
Ana pegou um dos biscoitos, deu uma pequena mordida e mastigou devagar. Seus olhos fechados de um breve prazer arregalaram-se subitamente e as bochechas encheram-se de ar.
— Ei, o que houve? – Felipe franziu as sobrancelhas, preocupado.
— N-Nada. – Ana colocou a mão em frente a boca e tossiu. – São apenas… Exóticos. – pigarreou duas vezes.
Dei um sorriso amarelo sem saber o que fazer ou falar. Deveria agradecer por Ienaga?
— Obrigada. Até amanhã. – Ana exclamou afobada e subiu a escada em pulinhos, provavelmente apressada para cuspir o que comeu.
Felipe subiu atrás dela, as mãos afundadas nos bolsos e a feição séria. Por um segundo, seus olhos esverdeados cruzaram-se com os meus de soslaio e logo voltaram-se a focar na vice-líder. Arrepiei-me dos pés a cabeça, tendo uma sensação terrível.
Ele havia descoberto sobre a invasão em seu quarto? Simplesmente não gostava de mim? Achava que eu havia envenenado Ana Carolina?
Tantas questões me deixaram atordoado e meu corpo entrou em um modo automático, fazendo com que eu chegasse ao jardim mais rápido do que eu esperava. Semicerrei os olhos ao ter contato com o sol e procurei ao redor pelo “meu alvo”.
Deitada na grama brilhante, a garota de rabo-de-cavalo segurava o caderno de desenho acima do rosto, rabiscando-o. Os fones de ouvido saíam de suas orelhas e o fio se emaranhava pelo chão, conectando-se ao celular ao lado do corpo.
Nas proximidades alguns alunos faziam piqueniques, jogavam bola ou apenas conversavam. Olhando daquela maneira parecia um fim de tarde normal em uma escola normal.
Expirei e inspirei buscando pela iniciativa que talvez existisse dentro de mim. Sabia que o resto da União Rebelde possivelmente me espiava através da janela da sala de culinária, coisa que me deixou levemente incomodado.
Eu deveria realmente chegar na garota e oferecer os biscoitos? Isso era no mínimo suspeito, vai. Porém, era ainda mais suspeito ficar parado no meio do jardim segurando uma bandeja de conteúdo mutante.
Amanda levantou o torso, ficando sentada na grama, retirou os fones, fechou o caderno e ergueu os braços em um espreguiço. Arregalei os olhos imaginando que ela sairia dali e eu não teria a menor coragem de segui-la.
Minhas pernas moveram-se sozinhas em sua direção e só consegui parar ao estar em sua frente sem ter nada para dizer.
— Precisa de algo? – ela fez uma expressão confusa.
Fiquei congelado pelo que pareceu ser uma eternidade antes de me lembrar como as palavras saíam da mente para a boca.
— E-Eu… Eu… – resmunguei envergonhado. – Eu sou o Norte. Da União Rebelde. – pareceu certo me apresentar.
Amanda piscou os olhos rapidamente.
— E eu sou a...
— Amanda, eu sei. – soltei automaticamente.
Suas pernas encolheram-se em uma menção de ficar de pé e seu rosto mudou de confuso para preocupado.
“Burro, burro, burro.”, castiguei-me amargamente arrependido.
— N-Não me leve a mal. Sei que é estranho eu chegar aqui sabendo seu nome, mas eu… – senti o rosto ferver. – Só queria te oferecer alguns biscoitos. São de chocolate. – estendi a bandeja de modo endurecido.
“Alguém me mata, por favor.”, mordi o lábio inferior.
A garota não demonstrou nenhuma nova emoção, havia se tornado cautelosa em minha presença. Ponto para ela.
— Estou… Evitando doces, desculpe. – ela respondeu educadamente.
E então eu percebi que teria de jogar baixo. Talvez fosse a pressão causada pelos três pares de olhos a metros de distância que me julgavam na sala de culinária.
— Te entendo, eu também não aceitaria nada da União Rebelde. – dei de ombros, fingindo chateação. Em parte, eu não aceitaria mesmo.
— Não, não é isso, eu realmente não posso comer esses biscoitos. – Amanda moveu a cabeça de um lado para o outro. – Eu sou alérgica a chocolate.
Minha cara foi ao chão. Tive de ter muita força de vontade para não derrubar tudo e sair correndo para me enfiar no quarto e não sair pelos próximos quatro meses.
— Desculpa. – foi o que consegui balbuciar, ainda corroído pelo constrangimento.
— Não tem problema. – ela esboçou um pequeno sorriso. – Eu reparei, você é o garoto que estava no banco naquele dia, né?
Confirmei envergonhado.
— Não queria ter ouvido nada do seu celular. – Amanda ficou de pé. – Desculpa se te deixei sem jeito. – colocou uma mão na cintura.
Neguei como se aquilo já nem importasse, afinal, havia me distraído ao concluir que ela era realmente linda estando frente a frente comigo.
— Bem… – encolhi os ombros. – Pensei em te conhecer melhor e achei bacana perguntar seu poder. Afinal, é o motivo de estarmos aqui. – tentei ser sútil.
Amanda arregalou os olhos e ficou pálida de surpresa, plantando em mim o receio de ter dito algo errado. Quis consertar minha fala, contudo, ela olhou para a esquerda e direita, em guarda.
— Tem alguém em específico querendo saber meu poder. – ela balbuciou. – E se essa pessoa souber, estou ferrada.
Foi então que entendi o que Ienaga quis dizer sobre chantagem e fiquei incomodado por alguém estar no pé de Amanda para saber seu poder. Apesar de que eu não era muito diferente dessa pessoa naquele momento.
— Eu entendo. – isso foi quase mentira. – Caso te console, eu posso espirrar fogo. – dei de ombros.
Sua expressão aliviou-se, formando um pequeno sorriso ao responder:
— Eu sei. A maioria sabe. Você deu trabalho no primeiro dia.
E riu graciosamente, mesmo tirando sarro de mim. Ri junto, não ligando para a vergonha. Eu nem queria saber como as pessoas se referiam a mim, os apelidos e comentários deviam ser horríveis.
— Se eu te contar meu poder, promete guardar segredo? – ela perguntou baixinho.
Juntei o polegar e o indicador e passei pelos lábios como um zíper, desejando mostrar como eu era confiável. A garota respirou fundo, observou os arredores mais uma vez e sussurrou próxima do meu rosto:
— Toda vez que alguém disser “o chão é lava”, isso se torna verdade para mim.
Pisquei os olhos lentamente, refletindo se havia ouvido direito. Sequer pude comentar algo, pois uma figura surgiu atrás da garota, exibindo o mais ladino dos sorrisos.
— Ora, ora, ora… – ele estalou a língua e jogou seus cabelos medianos para trás.
Ao escutar essa voz, Amanda perdeu toda a cor, os olhos faltaram sair do rosto de tão arregalados e o queixo cairia se não estivesse grudado. Ela virou-se de maneira rígida na direção do garoto, completamente incrédula.
— Não, Kaíque, não! – a garota implorou.
— Você achou mesmo que podia esconder seu poder de mim, pingue-pongue? – Kaíque gargalhou vitorioso e colocou as mãos na cintura.
— Por favor, não diga! – Amanda gesticulou desesperada.
Kaíque ergueu as sobrancelhas em um ato presunçoso, aumentou o sorriso e exclamou pausadamente, deliciando-se a cada palavra:
— O chão é lava.
Amanda soltou um grito esganiçado e começou a pular, passando o peso do corpo de uma perna para a outra.
— Cinco… Quatro… – ele contou pausadamente.
Ela olhou de cima para baixo e da esquerda para a direita, provavelmente procurando um local alto e seguro. Nesse desafio, você tinha cinco segundos para deixar o chão e subir em qualquer outra coisa.
— Três…
A garota focou o olhar em mim e praticamente berrou:
— Me segura!
— Não posso! – ergui a bandeja de biscoitos que ocupavam minhas mãos. Confesso que seu desespero estava me afetando.
Ouvi seu grunhido de frustração e observei a aflição com que pulava e verificava todos os cantos possíveis.
— Vem pro papai. – Kaíque abriu os braços.
— Nem morta! – Amanda bradou raivosa.
— Dois…
A expressão arrogante de Kaíque me irritou profundamente. Bufei e em uma dose de adrenalina, arremessei a bandeja no chão e rapidamente posicionei uma das mãos atrás das pernas e a outra nas costas de Amanda, puxando-a do chão e levantando-a no colo.
— Um. – Kaíque terminou assim que os pés da garota encontravam-se longe da grama. – Ha, sortuda. – deu um sorriso torto.
— Qual é a sua?! – gritei furioso. – Queria que ela se machucasse?!
— Eu apenas queria que ela aceitasse virar líder. – ele cruzou os braços e virou o rosto.
— Bastava tocar nela como tocou em mim! – rosnei.
— Certo fator me impede de tocá-la diretamente. Mas sabendo do poder dela, eu tinha alguma vantagem. – Kaíque suspirou decepcionado e deu de ombros.
— Eu não quero mais ficar no seu grupo. – Amanda havia passado os braços por meu pescoço.
— E vai continuar migrando do Super Gatinhas para o Nova Era? – o garoto desdenhou. – Boa sorte então, bolinha de pingue-pongue. – deu as costas e caminhou em direção ao prédio. – Ou eu deveria te chamar de Lavagirl de agora em diante? – nos olhou por cima do ombro, sorrindo cinicamente.
— Argh, que irritante. – Amanda murmurou, apertando-me ainda mais.
Tive receio de colocar em palavras o que estava em minha mente, todavia, foi mais forte do que eu:
— Quanto tempo dura isso?
Eu era fraco, meus braços doíam facilmente.
— Só mais alguns segundos. – ela olhou para o chão. Me perguntei se ela realmente via a lava.
O rubor espalhou-se das bochechas para as orelhas, me fazendo dar respiradas fundas enquanto o tempo parecia não passar. Amanda tinha um cheiro doce que eu temia ficar enjoativo quanto mais a segurasse.
— Estou atrapalhando? – uma voz masculina soou na dianteira.
Girei a cabeça em um movimento temeroso, vendo surgir em meu campo de visão um garoto alto de cabelos e olhos no mesmo tom que os da garota em meus braços.
— Victor! – ela gritou pasma.
— Qual é, tá gostando de segurar minha irmã? – ele encarou-me, a feição ameaçadora.
— Sua irmã?! – fiquei boquiaberto. Tudo bem, eles eram a cópia idêntica um do outro, mas eu merecia um momento de dramatização.
— Sim, tire as mãozinhas dela. Agora. – Victor aproximou-se, envolvendo-nos em uma nuvem de tensão.
Nem pensei, apenas fiz.
— Você quem manda. – afastei as mãos do corpo de Amanda, soltando-a na grama de uma vez só.
A garota gemeu de dor ao atingir o chão e esfregou sua cintura enquanto murmurava algo sobre “ainda bem que o efeito passou”. Cerrei os dentes, percebendo minha burrada.
— Você tá brincando, né, moleque?! – Victor avançou em mim e eu automaticamente engoli em seco.
— Victor, você quem pediu. – Amanda levantou-se incomodada e se colocou entre o irmão e eu. – Ele estava só me ajudando. Kaíque descobriu meu poder.
Victor parou onde estava, a expressão em seu rosto tornou-se mais dura do que eu achei ser possível e após um longo suspiro de raiva, concluiu:
— Agora eu vou ter que te proteger mais ainda.
As bochechas de Amanda inflaram-se avermelhadas, as mãos delicadas se fecharam e ela retrucou em disparada:
— Não preciso de proteção.
— A tia Vivi me mandou cuidar de você e é isso que eu vou fazer! – ele espalmou a mão no próprio peito, imponente.
— Sei me cuidar sozinha, caramba! – a garota rangeu os dentes, não se deixando abalar.
— Não é o que parece. – Victor apontou para mim, o desprezo notável.
Meu corpo ficou estático. Se brigas familiares já são ruins, imagine quando a família nem é sua.
— Você sabe que eu teria subido em alguma árvore se tivesse uma por perto. – Amanda defendeu-se.
— É, mas preferiu subir em um garoto. – o maior cruzou os braços.
Torci a boca desejando ter o poder de me camuflar e fazer parte do jardim. A árvore que deitei embaixo na hora do almoço estava longe demais para que eu pudesse me esconder atrás dela.
— Você é um idiota! – Amanda berrou e os olhos marejados se semicerraram.
— E você é uma idiota ao quadrado! – Victor gritou de volta.
Ela tentou dizer algo, porém, contentou-se em soltar um grunhido de raiva, dar as costas para nós dois e sair marchando com o rabo-de-cavalo balançando a cada passo que afundava na grama.
— Viu o que você fez? – Victor encarou-me furioso.
— Eu?! – arregalei os olhos, indignado. – Foi você quem gritou com ela e a chamou de idiota. – acusei franzindo as sobrancelhas.
— Eu vou te dar um pequeno aviso. – ele pousou a mão em meu ombro, apertando-o fortemente. – Fica. Longe. Da. Minha. Irmã. – e sorriu como se tivesse me dito “bom dia”.
Meu ombro foi liberto em um grosseiro empurrão, Victor enfiou as mãos nos bolsos, fez um muxoxo e retirou-se na direção oposta à de Amanda. Devo ter ficado com cara de idiota, parado no meio do jardim enquanto os outros estudantes passavam, me olhavam de soslaio e depois reparavam na bandeja e nos restos de biscoito na grama.
Balancei a cabeça sentindo-a zumbir e doer. Quando eu tentava acertar em algo, acabava metido em mais problemas. Recolhi a bandeja e os biscoitos, retornando derrotado para a sala de culinária.
Ao pisar no local, vi a rapidez com que os membros da União Rebelde afastaram-se da janela e fingiram estar fazendo outras coisas, tipo olhar o chão ou falar sobre a cor das cortinas. Ienaga escondeu um binóculo atrás de si e me recebeu:
— Nosso soldado voltou!
Adquiri uma expressão fechada de pura frustração e desgosto.
— Podem parar de fingir que não estavam bisbilhotando. – joguei a bandeja na pia, ouvindo-a tilintar.
— Aquilo foi péssimo. – Yara afirmou.
— E olha que nos contentamos apenas com a leitura labial. – Eduardo sorriu sem jeito.
— Eu não esperava que ela tivesse um irmão maluco. – bufei e deixei meu peso cair em uma banqueta.
— É, nem a gente. – o vice checou seu celular. – O Informante acabou de me responder. Disse que não se sabe muito sobre os gêmeos Dias. A única coisa relevante é que o Kaíque não pode tocar na Amanda para passar a liderança, já que o Victor o jurou de morte se ele fizer isso.
Kaíque era esperto, contudo, acho que não existia muita esperteza quando alguém de 15 anos com quase 1,75cm te ameaçava de morte.
— Se bem que isso pode ser vantajoso para nós. Caso consigamos trazer Amanda para o nosso lado, Victor virá junto. É tipo uma promoção, pague um, leve dois. – Ienaga ergueu o dedo indicador e o médio.
Gemi de cansaço e resmunguei:
— Chega deles por hoje.
Por algum motivo (e eu sabia qual), não queria Victor no mesmo grupo, ambiente e causa que eu. Os cinco minutos que passei com ele no jardim foram mais que o suficiente.
— Mudando de pato para ganso. – Yara ergueu a mão, o rosto neutro como de costume. – Quem é mesmo esse Informante?
Ienaga e Eduardo sempre se olhavam antes de compartilharem algo conosco. E daquela vez não foi diferente.
— Como o nome sugere, é quem nos fornece informações. – a líder descartou os biscoitos no lixo, tendo uma careta no rosto. – Perguntamos a ele se poderíamos apresentá-lo a vocês e…
— Ele não quis. – Eduardo vestiu o avental e começou a lavar a bandeja. – Disse que sua identidade precisa ser mantida em segredo.
— E vocês não vão nos contar quem é? – a garota indagou.
— Não podemos perder o benefício das informações. – Ienaga argumentou. – Então, vocês terão de ficar na dúvida até que ele decida se revelar. – bateu uma única palma.
Yara assentiu lentamente, esboçando não estar completamente satisfeita ou convencida. Minha cabeça doía tanto que eu sequer liguei para isso, aquilo era assunto da Ienaga e do Eduardo.
— Acho que podemos encerrar o dia. – Eduardo chacoalhou as mãos molhadas para secá-las.
Coloquei os pés no chão preguiçosamente, parando no lugar ao escutar uma voz feminina em algum ponto atrás de mim:
— Ainda não!
Movi a cabeça sobre o ombro, reparando na garota ofegante que usava o batente da porta para se apoiar. Os cabelos azuis escuros estavam um pouco bagunçados e seu uniforme havia sido trocado por uma blusa verde limão e uma jardineira jeans desbotada.
— Érica? – Yara foi a primeira a se pronunciar, surpresa.
— Me dê um tempo para recuperar o ar, okay? – Érica disse entre as arfadas. – Foi difícil achar vocês. – desceu as mãos para os joelhos cheios de curativos e eu me perguntei se os machucados seriam consequências de seu poder.
De repente, nossa atenção voltou-se para o borbulhar que ecoou da pia e os respingos esverdeados que espalharam-se pela superfície de inox, assustando a líder e o vice.
— O que houve? – Ienaga aproximou-se da torneira.
— Acho que entupiu. – Eduardo foi verificar o ralo.
Assim que o garoto moveu o braço para retirar a tampa, uma rajada de água suja foi ejetada pelo ralo diretamente no rosto dos dois, além de estar acompanhada de um barulho entrecortado. Tive de cobrir minha própria boca para conter a vontade de vomitar.
A líder tossiu escandalosamente e passou a mão pela face, empurrando o excesso de água para o chão. Já Eduardo permaneceu imóvel, piscando gradativamente e deixando que os pingos escorressem e se acumulassem na ponta de seu queixo.
— Vão nos matar se entupirmos o cano. – Ienaga comentou com o maxilar tenso.
— Ah, vão. – ele concordou estático.
— Então… Conserte. – ela mandou.
— Sinto em te dizer que uma das minhas qualidades não é ser encanador. – Eduardo respondeu calmamente.
Alguém puxou o ar em um tom assustado. Era Érica, que tampava a boca com as mãos e semicerrava os olhos parecendo arrependida.
— É minha culpa! É a onda de azar, coisas ruins acontecem onde eu chego. – murmurou chorosa.
— Então, minha cara. – Ienaga puxou a gola da camiseta para enxugar o rosto. Ao terminar, caminhou até a garota que encolheu-se toda. – Você tem um baita de um poder! – deu um sorriso de canto.
Érica arregalou os olhos e as mãos deslizaram para os lados do corpo. Seus lábios abriram-se e fecharam-se sem emitir nenhum som.
— N-Nunca me disseram isso. – confessou abobada, as íris verdes ganhando um brilho diferente.
— Saiba que ficaremos muito felizes em te receber na União Rebelde. – Ienaga estendeu a mão. – Nós vamos cuidar de você e dessa onda.
A pia soltou outro som engasgado e mais alguns respingos espalharam-se pelas paredes.
— E do ralo. – a líder torceu o nariz.
Érica ergueu a mão em uma menção de apertar a da líder, todavia, hesitou e recolheu-a contida. Olhou para além do ombro da garota em sua frente, enxergando Yara.
— Vocês têm certeza de que me querem no grupo? Mesmo que eu cause problemas? – perguntou envergonhada, os olhos tornando-se marejados.
Suspirei cansado e coloquei-me ao lado de Yara, dando-lhe uma cotovelada discreta.
— Acho que a União Rebelde consegue se meter em problemas por si só. – cocei a nuca.
Olhei de soslaio para a garota de coques, vendo-a abaixar a cabeça e apertar as mãos atrás das costas. Foi uma das poucas vezes em que pude perceber o que ela sentia.
— Meu pai diz que… – Yara resmungou hesitante. – Não há nada que não se arrume com fita adesiva e cuspe. – disse baixinho, porém, em um tom de incentivo que eu nunca ouvira antes.
Esbocei um pequeno sorriso de orgulho por Yara estar sendo sincera.
— Você é completamente bem-vinda no nosso grupo. – Eduardo mandou-lhe uma piscadela, tentando a todo custo conter os borbulhos da pia com um pano de prato pressionado no ralo.
Érica olhou para o rosto de cada um, os lábios tremeram e transformaram-se em um sorriso singelo. Inesperadamente, lágrimas pesadas rolaram por suas bochechas rosadas.
— Érica… – Yara deu um passo à frente, a mão aberta pronta para tocar a garota, mesmo que distante.
— Não, está tudo bem. – ela enxugou os olhos com as pontas dos dedos envolvidos por mais curativos. – Eu só estou feliz por finalmente ser aceita.
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