Academia de Poderes Inúteis
42 Fazemos algumas descobertas - Parte II
Notas iniciais
Eduardo e Ienaga se retiraram primeiro, seguidos do restante, exceto Amanda, que continuou a analisar o quadro branco com o canetão na mão. Eu e Yara a observamos curiosos.
— Você não vem? – Yara perguntou.
— Acho que vou ficar mais um tempinho aqui. – Amanda nos olhou por cima do ombro e deu um sorriso amarelo. – Preciso me redimir.
— Do quê? – indaguei confuso.
A gêmea balançou a cabeça de modo singelo e voltou sua atenção para o quadro, ignorando-nos. Eu e Yara nos entreolhamos, demos de ombros e voltamos para nosso dormitório o mais devagar que pudemos, apenas jogando conversa fora. Por mais próximos que estivéssemos, eu ainda me sentia distante dela, não tínhamos mais tanto tempo juntos.
Assim que chegamos ao nosso andar, paramos no último degrau da escada e nos preparamos para seguir nossos caminhos em direções opostas.
— Yara. – chamei. Ela arqueou uma sobrancelha. – O que você diria se eu… – engoli em seco, envergonhado.
A garota suspirou, fechou os olhos por um instante e respondeu ao abri-los:
— Não.
— Mas eu nem disse nada! – choraminguei.
— Ainda não vou namorar com você, Henrique. – ela colocou uma mão na cintura.
Isso que era levar uma facada no coração?
— Por quê? – fiz biquinho, tendo noção que minhas bochechas deviam estar completamente vermelhas.
— Porque eu quero te ver sofrer um pouco antes. – Yara deu um sorriso de canto.
Ah, essa garota.
— Eu te odeio, bobona. – bufei.
— Claro que odeia, bobão. – ela deu as costas e acenou.
Olhei para a pulseira branca em meu pulso e mexi no pingente de pata de gato. Tudo bem, eu ia esperar o quanto fosse necessário, um dia ela ainda ia ter o karma de namorar comigo.
>>>
Três dias depois, algo estranho aconteceu. Estava caminhando pelos corredores quando vi Kaíque e Amanda entrarem em uma sala vazia no horário do almoço.
Torci a boca, incomodado. O que aqueles dois faziam não me dizia respeito, mas de uma coisa eu sabia: Amanda não gostava do Kaíque. Mordi o lábio inferior e aproximei-me lentamente da sala cuja porta havia sido deixada entreaberta.
— Eu sei do seu segredo. – escutei Kaíque dizer.
Um momento de silêncio.
— O que você disse? – Amanda questionou assustada.
Engoli em seco e cheguei um pouco mais perto para espiar pela fresta.
— É, eu sei. Mais ou menos, na verdade. – ele bocejou. – E acho que tem alguém ouvindo nossa conversa. – seu semblante afiado caiu sobre mim.
Arregalei os olhos e recuei um passo. Podia até fugir se quisesse, todavia, ele já havia me visto e eu não queria deixar Amanda sozinha. Cerrei os dentes, respirei fundo e empurrei a porta. Kaíque me olhou com certo desdém e Amanda pareceu espantada.
— Uau, o incêndio humano é um bisbilhoteiro. – o garoto riu.
— Só fiquei preocupado com a Amanda. – cruzei os braços e franzi as sobrancelhas.
— Tudo bem, pode ficar. Isso vai ser interessante. – Kaíque deu de ombros. – Lavagirl, quero que entre no meu grupo e convença seus coleguinhas do Nova a entrarem também. Isso vai me render os pontos que faltam para ganhar o jogo do Informante.
Eu e Amanda soltamos um grito de surpresa ao mesmo tempo.
— Por que eu te daria a vitória?! – Amanda indagou ofendida colocando a mão no peito.
— Porque você ainda não quer que a União Rebelde saiba o que você esconde. – Kaíque sorriu malicioso.
A garota perdeu totalmente a cor. Fiquei paralisado, oscilando o olhar entre ele e ela, perguntando-me o que estava acontecendo ali. Amanda mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça enquanto Kaíque sentou-se na mesa da professora e encarou os ventiladores de teto.
— Eu acho que não devia estar aqui. – minha voz vacilou.
Amanda que estava próxima de mim agarrou minha mão e apertou-a fortemente. Seus ombros tremeram e os lábios formaram uma linha reta.
— Fica. – sussurrou hesitante.
Engoli em seco outra vez e concordei devagar com a cabeça.
— Você… – Kaíque colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Está sendo chantageada, não é? – questionou baixinho.
Ergui as sobrancelhas perplexo e a gêmea levantou a cabeça instantaneamente, mostrando sua face chorosa. Ela sussurrou um quase inaudível: “como você sabe?” e intensificou o aperto de nossas mãos como se fosse quebrar a minha.
— Eu comecei a desconfiar quando você se aproximou do Norte ano passado. – Kaíque me fitou. – Garoto bonito, mas nada sociável, geralmente azedo e tinha uma péssima reputação por causa do seu poder, o que uma perfeitinha como você iria querer com ele? Então um dia eu ouvi você conversando com alguém no celular.
Entreabri a boca, entretanto, nenhuma palavra teve a capacidade de sair. Observei Amanda, porém, ela não teve coragem de devolver o meu olhar, permaneceu completamente estática.
— Não me leve a mal, Amanda, você nunca me caiu bem, ninguém sabia muita coisa sobre você e sua personalidade resumia-se a ser desenhista e gêmea do brutamontes.
A garota estremeceu ao ser chamada pelo nome, já que Kaíque não fazia isso com ninguém.
— Ei! – rangi os dentes. – Não acha que está pegando pesado? – me exaltei.
— Eu posso ter me aproximado por interesse no começo, mas… – Amanda me cortou.
— Acabou se apaixonando por ele. – o garoto deu uma risada abafada.
Era como se eu não estivesse ali.
Queria que aquilo fosse mentira, contudo, ela encolheu-se no lugar e as bochechas ruborizaram. Não estava gostando daquela conversa. Queria sair daquela sala. Queria que aquilo não estivesse acontecendo.
Queria soltar a mão de Amanda.
— Você não saiu da União Rebelde apenas pela briga com seu irmão. Foi porque também não aguentaria conviver com o garoto que gostava e seus outros amigos enquanto tivesse esse segredo. – Kaíque ficou de pé.
Amanda piscou os olhos lentamente e lágrimas pesadas rolaram por seu rosto, obrigando-a a soltar minha mão para enxugá-las. Ouvi seus resmungos que dividiam-se entre lamentações e xingamentos.
Afastei-me um pouco, totalmente perdido, o que deu espaço para que Kaíque se aproximasse e abraçasse a garota. Ela afundou sua cabeça no peito do líder e suas mãos apertaram o tecido de sua camiseta entre um soluço e outro.
Pensei em interferir, todavia, reparei que Kaíque fez uma expressão que eu nunca imaginei ver. Uma expressão de compaixão.
— Ah, eu odeio você. E odeio a droga dos seus desenhos. Mas por favor, não chora. – ele engoliu em seco.
— O que está acontecendo? – balbuciei incrédulo.
Eu devia estar almoçando com Yara e Érica, por que de repente fiquei preso naquela situação tortuosa? Amanda fungou e afastou-se de Kaíque, deixando a marca de suas lágrimas e catarro no uniforme do garoto.
— Q-Quando… – sua voz saiu embargada e ela limpou o nariz. – Quando eu entrei na API, minha mãe passou a me ligar mais, dizendo que me amava e que eu deveria fazer vários amigos aqui. Além de contar para ela todos os detalhes das pessoas com quem me envolvi, inclusive seus poderes.
Escutei tudo de sobrancelhas franzidas, julgando aquilo muito suspeito. Kaíque também adquiriu um olhar sério e cruzou os braços.
— Eu fiquei feliz por ela enfim me dar atenção. – Amanda sentou-se em uma cadeira.
O líder e eu repetimos sua ação, apesar de nos sentarmos um distante do outro.
— Não sou do tipo introvertida, mas eu gostava mais de passar o tempo desenhando do que fazendo amigos. – ela esfregou os olhos vermelhos e inchados. – Então quando o Norte se aproximou, eu vi ali uma oportunidade. – um soluço escapou. – D-Desculpa.
Torci a boca e me senti extremamente desconfortável.
— Até que o ano virou e em janeiro meus pais se ofereceram para pagar a multa da API e assim eu e Victor podíamos ir morar com eles na Espanha. –a gêmea apoiou o peso da cabeça na mão. – Acho que porque agora parecemos especiais o suficiente para eles.
Kaíque curvou-se e assentiu, prestando atenção em cada palavra sua.
— Victor foi curto e grosso dizendo que nem morto aceitaria essa proposta. Por isso, mamãe recorreu a mim… Dizendo que se eu não fosse, ela espalharia os dados dos outros alunos. Os dados que eu mesma dei. – encolheu os ombros e as lágrimas voltaram a escorrer. – Desde nomes, poderes até bairros.
Cerrei os dentes e uma de minhas pernas começou a balançar em sinal de ansiedade. O sangue ferveu dentro de mim e eu quis gritar. Como uma mãe podia fazer uma chantagem daquelas com a filha?
— Eu não estava acreditando nisso, afinal, minha mãe não seria capaz disso, seria? – Amanda resmungou. – Mas depois do sequestro de vocês, eu vi que as pessoas são sim capazes de nos fazer mal.
Meu estômago embrulhou-se ao lembrar do dia do sequestro, o cheiro daquela sala empoeirada continuava impregnado em meu nariz. Minha cabeça latejou e eu quis vomitar, tendo quase certeza de que Kaíque sentia o mesmo pela expressão que fez.
— Os sequestradores eram filhos ou pais de alguém. – a garota inclinou-se sobre suas pernas. – Minha mãe me deu até metade do ano para pensar na proposta. E a cada dia que passa, eu me vejo sem saída.
Fiquei em transe ao absorver aquela enxurrada de informações, já Kaíque pulou da cadeira com os dentes cerrados e o cenho franzido.
— Chega. Eu posso arranjar outra pessoa para me dar os pontos, você já sofreu chantagem demais. – o garoto andou a passos pesados até a porta, tremendo de ódio. – E quanto a sua mãe...
— E-Espera. – Amanda ergueu-se bruscamente. – Por que você quer ganhar esse jogo? Do que importa?
O líder não olhou para ela, somente fitou a maçaneta e sussurrou:
— Porque eu acabaria com a API.
— Acabaria? – ela ficou boquiaberta.
— Não com o prédio. – revirou os olhos. – Com o motivo de estarmos aqui. Acabaria com os poderes.
Amanda ficou em silêncio, já eu não conseguia me mover ou dizer qualquer coisa, estava inteiramente fora da conversa. Respirei de maneira trêmula e após um tempo tomei coragem para perguntar:
— Como vai acabar com os poderes?
E temi por sua resposta.
— Eu ainda preciso da confirmação de outra pessoa. – murmurou inquieto e abriu a porta.
Saltei da cadeira e segurei seu pulso, impedindo-o de sair.
— Que pessoa? – questionei seriamente.
— A curiosidade matou o gato, sabia? – Kaíque deu um sorriso torto.
Nunca senti tanta vontade de bater em alguém como senti naquela hora. Até quando ele seria aquele cara presunçoso que brincava com os sentimentos dos outros?
— Se for para acabar com esse pesadelo, eu aceito te ajudar. – Amanda exclamou.
Observei a garota com certa perplexidade e Kaíque sorriu satisfeito.
— Obrigado. – ele gesticulou com a cabeça e desvencilhou-se de mim, seguindo seu caminho pelo corredor e deixando a nós dois ali com assuntos inacabados.
Havia um nó em minha garganta. Eu iria me engasgar de indignação a qualquer segundo ou desmaiar de tensão. Suspirei pesadamente e voltei-me para Amanda, encarando-a no fundo dos olhos.
— Foi por isso que me disse que eu não devia ser tão legal com você? – indaguei chateado.
— Foi. – ela esfregou seu braço. – Eu sinto muito mesmo. De verdade. E vou entender se você não quiser mais olhar na minha cara porque eu sei que fui horrível. Mas eu gosto muito de você, do tipo que dói no peito e eu sei que você e a Yara…
Não a deixei terminar de falar. Abracei-a fortemente e senti sua respiração ser cortada por um instante. Tinha algo doendo dentro de mim e eu quase tinha vontade de chorar junto com ela.
— Tá tudo bem. – falei baixinho.
Ninguém escolhe seus pais ou a família que vai nascer. Ninguém escolhe ser chantageada. Eu não podia ser cruel com Amanda, porque ela não era uma pessoa horrível, era a garota doce a quem ofereci biscoitos mutantes certo dia no jardim. Era minha amiga. Era uma rebelde.
Prometemos que aquele seria nosso segredo e conversamos sobre perder os poderes. Se ninguém mais tivesse um, os dados que a mãe de Amanda possuía se tornariam inúteis. Sabíamos que Milena podia sumir com os poderes, mas não sabíamos como Kaíque pretendia fazer aquilo.
Apenas podíamos esperar.
>>>
— Notícias em tempo real com Bianca Sarri aqui no Babados da API!
A líder de cabelos rosas estava no jardim e ao fundo era possível ver Amanda com os outros alunos do Nova, exceto Ana Carolina.
— Hoje venho anunciar que infelizmente o grupo Deslocados acaba de vencer o jogo do Informante. Viva, palmas para ele.— Bianca revirou os olhos.
Não consegui engolir a garfada de comida que havia colocado na boca, pois o acontecimento do dia anterior voltou feito um tapa, juntamente com o susto da vitória de Kaíque. Yara que almoçava comigo tossiu seu sanduíche e Érica engasgou-se com seu refrigerante.
— Amanda puxou seus amigos do Nova para o Deslocados, dando assim pontos por membros para o Kaíque.— Bianca colocou-se do lado de Amanda, a qual corou e desviou o olhar. — Diga alguma coisa para os seguidores, ex-gatinha, ex-rebelde, ex-nova eraiana, ex-novaiana e agora deslocada.
— Espera… – Érica bateu em seu peito com o punho cerrado. – A Amanda não odiava o Kaíque?
Apertei o celular com força e cerrei os dentes. Havia parado de ouvir o que Bianca dizia, só era capaz de me concentrar na feição conturbada de Amanda através do vídeo.
— Odiava. – eu e Yara dissemos ao mesmo tempo. Nós nos entreolhamos de soslaio, surpresos.
— Oh, vocês voltaram a falar juntos. – Érica recuperou o ar.
— Deve ter algum motivo por trás disso. Estamos há vários pontos atrás, por que ela daria a vitória para o Deslocados e não para a União Rebelde? – Yara franziu as sobrancelhas e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Olhei para baixo e batuquei os dedos na mesa em uma mistura de apreensão e constrangimento.
— Você sabe de alguma coisa? – Yara indagou desconfiada.
— Não. – resmunguei. Odiava ter que mentir para elas.
— Então eu vou descobrir. – ela levantou-se determinada.
— Não será necessário! – uma mão pousou em seu ombro.
Ali estava Eduardo com um sorriso no rosto e com seus óculos redondos descansando na cabeça.
— As respostas estão no auditório. – fez um sinal de positivo. – Vai ter um anúncio em breve. E cabeças vão rolar se vocês não forem ver.
Eu e as garotas trocamos olhares interrogativos, porém, se o Eduardo fazia uma ameaça, era melhor você cumprir o que ele pedia. O vice-líder esboçou um último sorriso antes de adquirir uma expressão séria e dar as costas para nós, andando a passos apressados até a saída do refeitório.
Levamos nossos pratos para o suporte de louças sujas e fomos para o auditório, percebendo que a maioria dos alunos estava indo para lá também.
Saquei meu celular e enviei rapidamente uma mensagem para Milena, querendo saber onde ela estava, todavia, não recebi uma resposta. Segurei nos braços da cadeira e me remexi de aflição, fazendo Yara duvidar se tinham formigas na minha cueca.
Bianca chegou poucos minutos depois, mantendo seu celular no alto e rodopiando pelo corredor do auditório, anunciando que transmitiria em primeira mão o que quer que fosse acontecer ali. As portas do auditório foram fechadas depois de sua chegada, apesar de nem todos os alunos estarem ali. Também não havia sinal de inspetores ou professores.
As luzes acima das fileiras de cadeiras foram apagadas sequencialmente e o microfone do pedestal chiou, preenchendo o lugar com seu som. Flashes de celulares foram ligados por toda parte e iluminaram parcialmente uma figura em cima do palco.
— O jogo do Informante chegou ao fim. – uma voz ecoou pelo microfone. – Ou eu deveria dizer… O meu jogo chegou ao fim? – deu uma risada abafada. – Afinal, vocês estão diante do Informante.
Fale com o autor