Academia de Poderes Inúteis

36 Eu nunca fiz questão de estar aqui, mas já que estou


Notas iniciais
Olá! Postando de madrugada, então se houver algum errinho, me desculpem! Resolvi postar dois capítulos na véspera de Natal como um presentinho para vocês ♥, muito obrigada por acompanharem até aqui, mas vamos deixar as palavras bonitas para dia 31, né? Uma boa leitura a todos!

Durante o resto da semana de preparação, os grupos se misturaram com a correria do evento e um até mesmo emprestava materiais para os outros, fazendo os inspetores pensarem que enfim teriam paz. Entretanto, quando não estavam sendo vigiados pelos adultos, integrantes distintos faziam ameaças uns para os outros, alegando que seriam a melhor atração.

Na sexta-feira, juntamos as carteiras de quatro em quatro e jogamos uma camada de TNT vermelho por cima para improvisar toalhas de mesa enquanto as garotas se ocupavam em colar as estrelas com fita adesiva no TNT azul que cobria as janelas.

Terminando de ajudar os garotos com as carteiras e a organização dos cardápios e livros sobre elas, notei que Eduardo havia acabado de voltar de sua pausa e se despedia de Kaíque na porta da sala.

— Tsc. – Victor jogou o cardápio na mesa que eu terminei de forrar.

— Se jogar assim, vai amassar. – resmunguei levando em consideração que nosso cardápio não passava de meia folha sulfite com poucas palavras impressas.

— Você não sente raiva desse cabeludo? – ele cruzou os braços.

Olhei para trás por cima do ombro, registrando a imagem de Kaíque acenando para Eduardo e indo embora. Dei de ombros e respondi:

— Não, por quê?

— Porque ele mexia com a Amanda quando ela era dos Deslocados. – Victor murmurou. – Achei que você gostasse dela. – falou duramente.

— Isso… Faz tempo. – respondi acanhado.

— É, mas não é só por causa da Amanda que você não gosta dele. – Breno se intrometeu, mas engoliu suas palavras assim que viu Eduardo se aproximar de nós com mais algumas toalhas de TNT e um sorriso de canto.

— Desculpem a demora, garotos. – colocou as toalhas em uma cadeira e começou a forrar as mesas que faltavam.

Victor afastou-se sem dizer nada e foi conferir o trabalho de Érica e Yara de pendurar os piscas-piscas. Naquele dia, Yara havia prendido os cabelos em uma única trança e deixado a franja solta.

— Ele sempre acorda de mau humor? – Eduardo arqueou uma sobrancelha.

— Você nem imagina. – Breno revirou os olhos.

Eduardo não era o único a fazer pausas, Milena também as fazia e desaparecia por mais tempo do que deveria. Assim que a vi passar pela porta, indaguei:

— Por onde andou?

A garota apenas soltou um grunhido e voltou-se para a tarefa de cortar pedaços de fita adesiva.

— Eu não entendo quando você não usa palavras. – bufei.

— Eu vou contar quando você se lembrar. – ela torceu o nariz.

— Me lembrar de quê? – franzi as sobrancelhas, porém, o estalo em minha cabeça e o olhar rápido que Yara me lançou me fizeram entender do que aquilo se tratava.

— Ufa, duzentas estrelas coladas! – Ienaga suspirou e bateu uma mão na outra. As estrelas brancas ganharam um contraste sobre o TNT e os dedos da líder e de Milena estavam cheios de pedaços de fita. Ienaga sentou-se em uma das cadeiras e fez um gesto para que a imitássemos.

Assim que todos nos acomodamos, ela começou:

— Café literário com tema noturno, confere. Cardápio e comidas prontas, confere. Agora vem o mais importante...

E fez-se um silêncio dramático e exagerado antes de completar:

— As roupas! O que vamos vestir?

Alguns de nós reviraram os olhos e soltamos resmungos de “era só isso?”. Breno foi o primeiro a comentar sobre:

— Excluímos mesmo a ideia de maid?

— Com certeza. – as garotas, exceto Ienaga, falaram em uníssono.

— Que tal se viermos todos com a mesma cor? – Eduardo sugeriu. – Tipo, vermelho.

— Por que vermelho? – Érica inclinou a cabeça.

— Porque foi a cor da nossa bandeira no acampamento. – o vice cruzou os braços e sorriu.

— Que no caso nós perdemos nas duas vezes. – Victor revirou os olhos.

— É uma boa ideia. – Ienaga assentiu satisfeita. – Então, todos de vermelho amanhã, que tal?

Ao meu lado, Yara fez um biquinho e resmungou algo sobre ter de se vestir de luvas. Concordamos quanto à vestimenta e repassamos o cronograma: o evento começaria às 12h00 e terminaria às 18h00, sendo nosso show a última atração.

>>>

Um membro de cada grupo ficaria no hall de entrada para recepcionar e entregar uma quantidade de fichas para cada visitante gastar nas atrações. O membro de nosso grupo responsável por essa parte era Eduardo.

O meio-dia chegou acompanhado do som de vozes misturadas e uma tremenda agitação no hall de entrada. Tivemos uma última conversa na sala de culinária, onde Ienaga nos explicou sobre as fichas:

— O normal seria que as fichas dos doadores valessem mais, certo? Mas o Informante provavelmente vai brincar com isso. Por isso, priorizem todas as fichas.

Nossos queixos caíram com o “priorizem todas as fichas”, porém, nem tivemos tempo para protestar.

— Agora, vamos anotar alguns pedidos! – empurrou a mim, Yara e Milena porta a fora. – Érica e Breno, boa sorte na cozinha!

Não tivemos movimento nos primeiros vinte minutos, o que nos deixou bem desanimados. Os piscas-piscas brilhavam e uma música ambiente preenchia a sala, mas nada de atrair clientes.

— Se estivéssemos vestidos de maid… – Ienaga olhou para cima.

Se passaram mais cinco minutos até que duas garotas bateram no batente da porta e indagaram colocando as cabeças para dentro da sala:

— Essa é a atração do Eduardo Oliveira?

Um brilho surgiu nos olhos de Ienaga e ela respondeu com um grande sorriso:

— Claro que é! Se vocês esperarem aqui, vão vê-lo.

As garotas se entreolharam, deram de ombros e disseram que ficariam um tempo. Ienaga recebeu suas fichas azuis e as guiou para uma das mesas, perguntando o que elas desejavam. Uma delas até mesmo brincou dizendo que desejava o Eduardo, o que fez Ienaga dar um sorriso torto.

Não demorou muito para que o café fosse preenchido por garotas que queriam ver o Eduardo. Assim que vimos um adulto passar pela porta, agradecemos aos céus, mas nos arrependemos imediatamente ao notar que se tratava de Heitor acompanhado de Alberto das Neves.

O dono do acampamento sentou-se de frente para o diretor e ambos pareceram conversar apenas por educação, já que suas expressões eram duras. Milena encolheu os ombros ao perceber que era sua vez de atender, contudo, sussurrei ao passar por ela:

— Deixa comigo.

Ao estar diante dos adultos, respirei fundo e disse minha fala decorada:

— Bom dia, o que desejam?

— Na verdade é boa tarde, meu jovem. – Alberto afastou seus óculos para poder ler o cardápio.

— Ele pode dizer até boa noite se me trouxer uma dose de rum. – Heitor apoiou o braço no encosto da cadeira.

Tive de me concentrar muito para não revirar os olhos.

— Não temos bebida alcoólica. – falei duramente.

— Ah, então me vê um café. – o diretor passou os olhos pelo cardápio, indiferente.

— E para mim um chá, por favor. – Alberto sorriu sem mostrar os dentes.

Terminei de anotar o pedido no bloquinho de notas, recolhi nossas primeiras fichas rosa e laranja e prossegui para a sala de culinária, mas não sem antes visualizar Alberto debruçando-se um pouco sobre a mesa e perguntando sobre a aluna nova. Cerrei os dentes e punhos e cheguei a passos pesados na sala de culinária, anunciando para Breno:

— Cospe no chá.

— É sério? – Breno arqueou uma sobrancelha ao pegar a chaleira.

Respirei fundo e balancei a cabeça negativamente, apesar de ter hesitado.

— Eu posso fazer aguado. – o garoto ofereceu.

É, aquilo servia. Assenti e bati a folha do bloco de notas na bancada, deixando-a ali para ser lido.

Ao retornar para o café, notei que Milena se ocupava em atender uma mesa bem distante de Alberto e Heitor. Suspirei aliviado e pedi licença para os clientes que se levantavam ou se sentavam e tive de ter cuidado para não dar uma cotovelada na cabeça de ninguém.

Quase conseguindo chegar a uma mesa onde estavam me chamando, meu pé enroscou-se nas pernas de uma cadeira vazia e meu corpo foi para frente, de encontro ao chão. Ou teria sido desse jeito, caso um braço não passasse por minha cintura e me segurasse.

Bati as mãos em uma carteira e ergui-me rapidamente para encarar a quem pertencia àquele braço. Corei dos pés à cabeça ao ver Yara segurando uma bandeja cheia em uma das mãos e usando a outra para me impedir de cair.

— Valeu. – sussurrei. – Você é forte. – reparei.

— Ou você que é muito leve. – ela recolheu seu braço e desviou o olhar.

— Não é legal falar sobre o peso de um garoto, sabia? – fingi timidez.

— Ah, vai trabalhar, Henrique! – Yara revirou os olhos e seguiu para entregar seus pedidos.

Deixei um sorriso bobo escapar e depois de algumas vindas e idas, Ienaga me disse para tirar minha pausa com Érica.

Érica e eu mal tiramos nossos aventais e já apostamos corrida pelas escadas até o último andar, já que as outras atrações estavam do lado de fora.

Ofegantes e suados, a primeira coisa que vimos foi uma piscina inflável cheia de água e bolinhas de plástico sob uma cadeira que sustentava Kaíque. O garoto estava completamente seco e segurava uma das bolinhas, dizendo:

— Ser ou não ser? Eis a questão.

Ao redor da piscina, diversos alunos agarravam as bolinhas molhadas e as jogavam na direção de um alvo improvisado, praguejando e vaiando quando não conseguiam acertar. Eu e Érica nos aproximamos e pensamos em gastar uma de nossas fichas azuis ali, porém, alguém passou em nossa frente, bateu em meu ombro e entregou um punhado de fichas para uma garota dos Deslocados.

— Eu vou derrubar esse cara.

Era ninguém mais, ninguém menos que Victor. O gêmeo recolheu algumas bolinhas de dentro da piscina e com as sobrancelhas franzidas começou a girar o braço, chamando a atenção de todos.

Kaíque deu um sorriso presunçoso e continuou a recitar a cena de teatro e jogar sua bolinha para cima despreocupadamente. Então, a bolinha que Victor segurava tornou-se apenas um borrão vermelho que passou voando por nossos olhos e acertou em cheio no alvo. Houve um rangido e a cadeira caiu diretamente na piscina, espalhando água para todos os lados.

Naquele momento, todos ficaram molhados e boquiabertos. Kaíque estava sentado no centro da piscina piscando os olhos lentamente e deixando a água escorrer das pontas de seu cabelo e pingar em seus ombros.

— Eu falei que ia. – Victor sorriu vitorioso, largou as bolinhas que restavam e virou-se para ir embora.

Não fazia ideia de que tipo de reação esperar quando Kaíque tivesse contato com água, todavia, eu realmente não esperava que ele começasse a rir alto até demais. Todos os que presenciaram a cena se entreolharam confusos e foram deixando o local aos poucos, desanimados pelo garoto enfim ter sido derrubado.

— Nathalia, sua vez de ser derrubada. – Kaíque disse para a garota que recolhia as fichas. – Vou tirar minha pausa. – passou a mão por seus cabelos molhados.

Aparentemente, o bom humor de Kaíque irritou profundamente Victor, de modo que me fez pensar que ele queria enfiar aquelas bolinhas em outro lugar que não fosse o alvo.

Não via graça em derrubar Nathalia na água, mesmo assim Érica quis tentar, errando o alvo em suas três tentativas. Minha amiga inflou as bochechas e seguiu a passos pesados para a próxima atração, deixando-me para trás para presenciar o rangido da cadeira caindo na água e Nathalia tossindo escandalosamente.

— Érica! – corri para alcançar a garota que fitou-me confusa. – Sua onda de azar. – apontei para trás com o polegar.

Érica conferiu por cima de meu ombro, arregalando os olhos ao ver Nathalia tentando sair da piscina. A garota de cabelos azuis cobriu a boca com as mãos e soltou um grunhido esganiçado.

— Tem se ativado por pequenas decepções. – contou baixinho.

Lembrei-me do que Victor disse sobre o meu poder e o de Érica não caminharem lado a lado da tolerância de nossos corpos.

— Você se sente sozinha às vezes por causa da intensidade do seu poder? – chutei uma pedrinha ou outra que achei pelo pátio.

— Quase sempre. – ela suspirou pesadamente. – Vamos nos livrar disso, né?

Mordi o lábio inferior e balbuciei:

— Sim. Só não sei como.

Nossos passos nos levaram ao stand do grupo Nova, onde Ana Carolina e outras garotas faziam uma coreografia de dança contemporânea. Sentada próxima a caixa de som, uma garota conhecida cruzou seu olhar com os nossos.

Ela levantou-se imediatamente e ajeitou seu vestido de tule para nos receber. Eu e Érica sorrimos entre nós e nos aproximamos empolgados da garota, apesar de não sabermos o que falar.

— Achei que estivesse no Deslocados. – comentei e coloquei as mãos nos bolsos.

— Até estava, mas eu vi como a Ana está se esforçando para o Nova dar certo… É um bom grupo. – Amanda afirmou.

— Você precisa ir ao nosso café, sabia? – Érica entregou uma ficha azul para a garota. – O que tem para fazer aqui?

— Dançar. – a gêmea conteve um riso.

Érica cerrou os dentes e pediu automaticamente:

— Pode devolver minha ficha, por favor?

— Sem devoluções. – ela negou com a cabeça. – Basta seguir a coreografia. – apontou para Ana Carolina e empurrou Érica para o meio das dançarinas.

A de cabelos azuis me fitou feito uma criança que foi obrigada pela mãe a fazer alguma coisa, somente dei de ombros e gesticulei para que se enturmasse na dança.

— E então, como vai a União Rebelde? – Amanda colocou-se ao meu lado.

— Estranha como sempre. – soltei uma risada abafada. Por algum motivo, não existia a barreira invisível que eu pensava existir entre mim e Amanda depois que ela saiu do grupo.

— Soube que colocaram alguém no meu lugar. – me deu uma cotovelada de leve.

— O colega de quarto do seu irmão. – devolvi-lhe a cotovelada.

— Ah, meu irmão… – a gêmea balançou a cabeça. – Ele está bem?

— Mais chato do que nunca. – bufei. – Vocês têm se falado, né?

— É, mais ou menos. – ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Observei Érica fazer de tudo, menos seguir a coreografia. No momento, ela fazia mais o passinho do robô do que os movimentos leves de Ana Carolina.

Cruzei os braços e aproximei-me um pouco mais de Amanda para que ela ouvisse meu sussurro:

— A história com seus pais… É verdade? Você vai para a Espanha?

Amanda encolheu os ombros e abaixou a cabeça. Me arrependi por ter dito o que não devia.

— Eu não quero ir. – ela balbuciou tremendo.

— Mas você não precisa, não é? Isso resolveria sua briga com o Victor e… – fiz menção de tocar seu ombro, entretanto, Amanda afastou-se bruscamente e negou com a cabeça.

— Você é legal demais comigo. E não devia.

Ao dizer isso, Amanda deu as costas e correu para longe do stand, desaparecendo de minha vista ao misturar-se à multidão. Fiquei atônito, incapaz de entender o que aconteceu.

Pensei em correr atrás dela, porém, Érica retornou para perto de mim toda ofegante, anunciando:

— Isso não é para mim.

Ela respirou fundo, ajeitou a postura e virou a cabeça da esquerda para direita.

— Ué, cadê a Amanda? – limpou o suor da testa.

Cerrei os dentes e agarrei a mão de Érica, levando-a para o próximo stand, no caso, a lojinha de acessórios do Super Gatinhas (a barraca do beijo estava do outro lado), para que eu pudesse me distrair da conversa que havia acabado de ter. O jeito como Amanda recuou me deixou receoso.

Passeamos os olhos pelas embalagens transparentes que guardavam presilhas, pulseiras e colares, todos com um verso de poema grampeado. A atendente loira do outro lado do stand bocejou de tédio e cruzou os braços.

— Você devia comprar duas. – Érica aconselhou.

— Por quê? – franzi as sobrancelhas.

— Para dar a Yara e a Milena. – analisou os acessórios plastificados.

Pisquei os olhos brevemente, surpreso.

— Você acha? – peguei um par de presilhas tic-tac rosa.

— Sim, a franja da Milena cresceu e Yara tem feito penteados novos. – Érica gesticulou. – Acho que a Yara ia gostar de um prateado. Lembra a lua. – me passou uma das embalagens e começou a avaliar as outras.

Fitei o par de tic-tac prateado, era bonito e simples.

— Eu prefiro faixas de cabelo. – Érica ajustou sua faixa branca. – Não gosto de tic-tacs, prefiro bicos de pato. Ou grampos e…

Por um segundo, parei de escutar a voz de Érica, pois algo chamou minha atenção: uma embalagem solitária no final da mesa. Tratava-se de um pacote com outro par de tic-tac, sendo um preto e outro vermelho.

O peguei juntamente a outro apenas vermelho e entreguei o dinheiro e ficha para a loira que sequer nos deu bola, estava ocupada demais lixando suas unhas.

>>>

Com o entardecer começaram os preparativos para o show. Apoiei-me em uma das paredes com os braços cruzados, completamente exausto, dolorido e precisando de um banho.

Eduardo e Victor ocupavam-se em arrumar a caixa de som e o suporte do microfone que pegamos emprestados na sala de música. Adultos e alunos voltaram a frequentar o café e acomodaram-se nas cadeiras para prestigiar o show que iria começar.

Estava quase tudo pronto quando alguém se aproximou de mim e colou suas costas na parede. Era Yara, igualmente cansada.

— O que foi, bobão? – ela perguntou ao perceber que eu a encarava.

Naquele instante, notei como ficamos distantes o dia inteiro. Afundei a mão no bolso e retirei algo de lá cuidadosamente.

— Eu queria te dar isso, bobona. – entreguei a embalagem com o par de tic-tac preto e vermelho. – Desculpe, comprei na lojinha do Super Gatinhas. – pigarreei.

— Obrigada. – Yara arregalou os olhos, surpresa. – Elas até que tinham coisas legais. – comentou.

Ela segurou o pacote entre os polegares e o observou por um longo tempo, mais do que necessário, julguei. Fiquei com medo de que ela não tivesse gostado, poxa, eu segui a sugestão da colega de quarto dela.

— Não vai abrir? – perguntei disfarçando meu constrangimento.

— Não. – negou com a cabeça.

Ah, ela odiou. Eu nunca mais vou escutar a Érica.

— Não quero mudar a cor do vermelho. – completou.

Tudo bem, talvez ela não tenha odiado. Vou escutar a Érica mais uma vez.

— Não tem problema. – dei uma risada abafada, um pouco aliviado.

— Tem. – Yara disse seriamente. – Você escolheu preto e vermelho por causa da história que te contei sobre os coques no acampamento. – me fitou. – Por causa da Pucca.

Ruborizei, baixei o olhar e massageei a nuca. Ela era mesmo inteligente.

— É, talvez. – falei baixinho dando um sorriso sem jeito.

— Vou abrir quando esse poder for embora. – Yara guardou a embalagem em seu bolso. – Eu… Queria te dar algo também. – estendeu um pacote de plástico para mim.

Sorri ao ver do que se tratava: uma pulseira de elástico branco com um pingente preto de patinha de cachorro. Ergui o acessório na altura de meus olhos, admirando-o.

— Também comprei na lojinha do Super Gatinhas. Talvez seja a pata de um gato. – Yara deu de ombros.

— Obrigado, eu adorei. – coloquei-a no pulso.

Yara podia ter me dado literalmente qualquer coisa que eu ficaria feliz. Desde uma xícara de café até um tapa na cara.

De repente, as luzes se apagaram, deixando os piscas-piscas fazerem seu trabalho. Uma luz azulada focou as figuras de Victor e Eduardo, o primeiro sentado em uma banqueta segurando o violão e o outro de pé ao seu lado, cada um com um microfone.

As mãos de Victor moveram-se pelas cordas e sua voz grave e confiante ecoou por toda a sala:

— “Eu nunca fiz questão de estar aqui, muito menos participar e ainda acho que o meu cotidiano vai me largar. Um dia eu vou morrer, um dia eu chego lá e eu sei que o piloto automático vai me levar.”

Nesse ponto da música, independentemente de serem alunos de grupos diferentes, professores ou membros do R.C.E., todos começaram a bater palmas conforme o ritmo e acompanhar a letra em um coro perfeito:

— “Eu devia sorrir mais, abraçar meus pais, viajar o mundo e socializar. Nunca reclamar, só agradecer, tudo o que vier eu fiz por merecer.”

Senti minhas narinas arderem ao presenciar a cena. Um sentimento percorreu a boca do estômago e o peito, deixando-me ser levado pela música e por aquela atmosfera que nós mesmos criamos. Todos nós criamos.

— “Quase toda vez que eu vou dormir, não consigo relaxar, até parece que meus travesseiros pesam uma tonelada.” – Eduardo cantou com uma voz mansa e aveludada.

Minha mão que estava grudada à parede gélida recebeu um peso caloroso sobre ela. Automaticamente, virei a cabeça para o lado, registrando a mão de Yara sobre a minha.

— “Eu devia sorrir mais, abraçar meus pais, viajar o mundo e socializar. Nunca reclamar, só agradecer, fácil de falar, difícil fazer.”

Nossos olhos se encontraram na semi luz do café, castanho claro no castanho escuro. Meu coração batia tão alto que tomava o lugar da música, tornando-a somente um som de fundo. O calor espalhou-se pelo meu rosto, contudo, eu não hesitei ao aproximá-lo do de Yara.

E sem pensar duas vezes, uni meus lábios aos seus e senti sua mão apertar a minha mais forte contra a parede. Ali, atrás de toda a multidão que batia palmas para a música, nossos corações batiam em sintonia.

Nossas línguas se tocaram, apesar da timidez dos dois. Levei minha mão livre ao seu cabelo, colocando uma mecha de sua franja atrás de sua orelha.

— “Eu nunca fiz questão de existir, não queria incomodar, um dia eu acho um jeito de aparecer e você notar.”

Nos separamos lentamente, encarando um ao outro profundamente. O coro ainda se estendia pelo café, adentrando nossos ouvidos e plantando um sentimento de euforia em nossos corações já agitados.

— Yara… – falei em meio ao barulho, meu peito doía tanto que eu achava que ia morrer.

— Norte? – ela inclinou a cabeça e sorriu.

— Ai, meu Deus, eu sou apaixonado por você. – confessei fechando os olhos.

A palavra “piloto automático” rodopiava em minha cabeça na companhia da lembrança do beijo que havia acabado de dar. Meu coração estava a ponto de explodir de tanta felicidade.

— Diga isso de olhos abertos. – Yara exclamou.

Abri os olhos, visualizando sua silhueta pouco iluminada, mas não precisava de luz nenhuma para dizer que ela era linda. Respirei fundo, franzi as sobrancelhas e repeti:

— Eu sou apaixonado por você. Lide com isso.

— Tudo bem, eu aceito essa tarefa. – assentiu determinada.

Uma salva de palmas espalhou-se pelo local e Victor e Eduardo fizeram breves reverências em agradecimento. As vozes em uníssono pediram por “bis”, os garotos se entreolharam e resolveram atender o pedido da plateia.

— Bis? – arqueei uma sobrancelha.

Yara revirou os olhos e me deu um selinho no canto da boca.

— As pessoas prestam mais atenção na primeira música. – voltou seu olhar para o palco.

Fiz o mesmo, todavia, nossas mãos continuaram unidas. Ao fitar Eduardo e Victor em perfeita sincronia, indaguei sem olhar para a garota:

— Desde quando?

— Desde quando o quê? – ela também não me olhava.

— Gosta de mim. – falei baixinho.

— Hum… – Yara encolheu os ombros. – Talvez desde a festa de reconciliação da União Rebelde.

“Eu gosto da sua idiotice.”, a frase da garota voltou à minha cabeça. Entrelacei meus dedos aos seus de maneira tímida.

— Então foi uma declaração de verdade. – sorri.

— É, foi. – ela deu uma risada abafada.

Notas finais
Espero que tenham gostado! A música cantada pelos meninos foi "Piloto automático" do Supercombo. E finalmente saiu o beijo do Norte e da Yara, hein? Agora que terminou o Sarau, a gente volta a ter foco, principalmente depois da revelação da Milena. Quer saber qual é? Clica em próximo capítulo! Beijos. —Creeper.