Academia de Poderes Inúteis

11 Suor que vira bebidas?


Notas iniciais
Oie! Dois meses de história já, hein, pessoal? Agradeço demais a quem acompanhou e comentou até aqui, amo vocês ♥. E que julho seja bom conosco! Hoje trouxe capítulo mais leve para vocês, espero que gostem!

A entrada de Érica na União Rebelde foi oficializada ali mesmo na sala de culinária sem que ela precisasse passar por alguma missão perigosa, já que isso provavelmente aumentaria os riscos de seu poder.

Assim que suas lágrimas secaram, Ienaga apertou sua mão e a nomeou uma rebelde. Érica deu um gritinho animado e abanou o rosto, movimentando as pernas alternativamente em curtos pulinhos sem sair do lugar.

Pude ver o reflexo de um sorriso passar pelo rosto de Yara. Revirei os olhos e dei um empurrão em suas costas, obrigando-a a encurtar a distância entre ela e Érica. A garota dos coques me olhou por cima do ombro, tímida feito uma criança no primeiro dia de aula.

Somente gesticulei e dei um sorriso fechado. Yara respirou fundo, ergueu os ombros e dirigiu-se duramente à Érica.

As duas se encararam sem dizer nada, mas as palavras não foram necessárias, pois logo em seguida abraçaram-se. Confesso que me surpreendi, achando ser impossível para Yara ter aquele tipo de contato físico.

Registrei a expressão de mais pura felicidade de Érica: os olhos fechados suavemente, os lábios formando um sorriso de orelha a orelha e as maçãs do rosto marcadas. Fui preenchido por uma paz interior que nem sabia que precisava tanto.

— Ei… – Eduardo chamou minha atenção em um sussurro. Olhei para a pia que parecia quase impecável, não fossem os respingos no inox e na parede. – Não está mais entupido.

— Você consertou? – ergui as sobrancelhas, admirado.

— Não. Se resolveu sozinho, eu acho. – ele moveu a cabeça em negação, fascinado. Por fim, analisou Érica com uma expressão pensativa.

De todo modo, tendo uma onda de azar nos acompanhado dali em diante ou não, aquele grupo, ironicamente, tornava-se cada vez mais acolhedor. Inconscientemente, dei uma risada abafada.

>>>

Os próximos dias se seguiram bem na medida do possível. Érica almoçava comigo e com Yara na maioria das vezes, sempre rindo e contando histórias engraçadas, não conseguia ficar parada ou quieta muito tempo, o que me fez pensar que talvez fosse hiperativa. Às vezes nos reuniámos para fazer alguma lição e ela se embaralhava um pouco ao ler ou desviava o foco, iniciando um assunto paralelo. Mais tarde, Yara contou-me que Érica tinha TDAH.

Talvez eu não tenha prestado muita atenção, todavia, sua onda de azar não parecia tão tremenda quanto no dia em que a conheci.

Fazíamos reuniões quase todos os dias no esconderijo da União e Ienaga sempre virava o quadro branco, deixando suas anotações escondidas de nossa vista, alegando que ainda não estavam completas.

Quanto aos gêmeos Dias, eu tive sorte de não trombar com nenhum deles. Na verdade, lá no fundo, eu queria ver a Amanda de novo. Okay, talvez não tão lá no fundo. Eu realmente queria vê-la.

Depois de tomar um banho, coloquei uma jaqueta e resolvi ir ao pátio, não suportando a ideia de ficar no mesmo ambiente de Kaíque, por mais que ele sumisse de vez em quando e eu desse graças a Deus.

Sentei-me em um dos bancos e relaxei ao observar o pôr-do-sol, contemplando a cor alaranjada sumindo atrás dos muros e dando início ao azul intenso da noite. Respondi a uma mensagem de mamãe e Stefanie sem muita atenção.

— É lindo, né?

Essa voz provocou um estalo em minha cabeça. Ergui os olhos, vendo uma garota de vestido de mangas longas manchado por respingos de tinta. Ela segurava um bloco de desenho em frente ao corpo e sorria de maneira amigável, tendo os cabelos úmidos caindo nos ombros e exalando perfume.

Engoli em seco, o rosto mergulhando em calor.

— E aí, dessa vez eu posso sentar? – Amanda arqueou uma sobrancelha.

Dei um sorriso amarelo e assenti.

Ela sentou-se na ponta do banco, mantendo uma certa distância de mim. Abriu uma caixa de giz pastel e começou a riscar uma das folhas do bloco em movimentos rápidos e precisos. Na verdade, era quase como se ela estivesse com raiva daquela folha de papel.

— Posso perguntar uma coisa? – a encarei de soslaio.

Amanda balbuciou algo que pareceu ser um “sim”, então somente prossegui:

— Por que você fica brava quando desenha?

A garota arregalou os olhos e levantou a cabeça bruscamente em minha direção.

— Você percebeu? – ela afundou o rosto nas mãos, envergonhada.

Eu a havia visto daquele jeito somente duas vezes, entretanto, fiquei curioso. Amanda suspirou pesadamente e voltou as mãos para os seus materiais enquanto colava as costas ao encosto do banco.

— Acho que é minha única forma de deixar a raiva sair. – respondeu olhando para o pôr-do-sol. – Eu sou o contrário do Victor, sabe? Ele está sempre com raiva, mas é totalmente calmo quando toca violão.

Tentei não imaginar o garoto quebrando as cordas do violão ou, na pior das hipóteses, quebrando o violão na cabeça de alguém.

Talvez eu tenha levado tempo demais tentando não imaginar aquilo, pois Amanda pigarreou e comentou baixinho:

— Desculpe pelo meu irmão.

— Tudo bem. – tossi e virei o rosto para disfarçar.

— Só temos um ao outro. Por isso ele quer me proteger. – ela balbuciou.

A olhei de soslaio mais uma vez, notando o modo como seu cabelo caía conforme voltava a inclinar a cabeça para desenhar.

— Mesmo que eu já seja grandinha o suficiente. – deu uma risada abafada. – Mas saiba que ele não vai mais te intimidar. – falou confiante.

— Ah, não? – perguntei receoso.

Eu era covarde, admito.

— Não. Liguei para nossa tia e contei tudo. Ela o fez prometer que seria mais “bonzinho” com meus amigos. – ergueu minimamente a cabeça para me mostrar seu sorriso travesso.

Tive de desviar o olhar rapidamente, a fim de fingir que não estava encarando-a.

— Que bom. – respondi envergonhado. – Espera… Amigo? – voltei-me para ela, pasmo.

— Somos amigos agora, não? – Amanda escondeu metade do rosto atrás do bloco de desenho e os olhos cor de mel brilharam.

— É c-claro que somos. – exclamei automaticamente, quase engasgando-me.

Ela abaixou o bloco e voltou a desenhar, parecia não estar mais com tanta raiva. Meu celular vibrou repentinamente, me fazendo puxá-lo do bolso e conferir a tela.

Stef: A mãe precisa te dizer algo. [18:07]

Mãe: Stef! [18:07]

Mãe: Por mensagem não dá! [18:07]

Stef: Então você pode tentar se misturar no meio dos repórteres que ficam no portão uma vez por semana e falar com ele pessoalmente. [18:08]

Era verdade, havia dias em que os inspetores precisavam jogar água por cima do muro para espantar os repórteres que tentavam conseguir informações sobre a academia e seus alunos, além de sermos instruídos a ficarmos longe do portão.

Mãe: Está de castigo, hein, mocinha. [18:08]

Eu: Okay, agora eu preciso saber. [18:09]

A tela das mensagens foi consumida pela foto de mamãe e os ícones vermelho e verde para negar ou atender a chamada. Arrastei do verde para o vermelho e levei o aparelho à orelha.

— Oi. – abaixei o tom, evitando que Amanda ouvisse.

— Oi, querido, como você está?— mamãe parecia nervosa.

— Mãe, sem enrolar!— Stefanie soou ao fundo.

— Calma, eu estou tentando.— a mulher suspirou pesadamente. — Querido, preciso contar… Uma novidade.

Pensei que novidades não podiam ser ruins, então me lembrei do que mamãe chamava de “surpresa”.

Um milhão de coisas diferentes passaram por minha cabeça e eu temi cada uma delas, principalmente as que envolviam meus animais de estimação. Stefanie disse que estava usando todo o dinheiro que ganhava na limpeza do salão para comprar a ração deles e Sabrina já havia voltado da viagem, não entendi o que podia dar errado.

— Não fique bravo, ‘tá bom?— ela continuou.

— Problema é dele se ficar bravo. — Stefanie retrucou, sua voz mais próxima ao celular.

— Eu…— mamãe hesitou. — Como é que os jovens chamam isso? Bem, eu estou saindo com alguém.

Não consegui absorver uma única letra sequer dessa frase (ou não quis), então lancei um simples e indignado:

— O quê?!

— Fui entregar alguns currículos e acabei o conhecendo. Saímos na sexta passada. Foi divertido, sabe?

Amanda me fitou de canto, quase preocupada com minha súbita mudança de expressão. Tive certeza de ter perdido toda a cor do rosto e estar segurando o aparelho forte demais.

— Qual o nome dele? E como ele é? – disparei junto a uma risada nervosa.

— Ele se chama Fábio. É um homem gentil, nada com que tenha que se preocupar. — mamãe respondeu cautelosa.

— Não estou preocupado. – menti com o maxilar tenso.

— Está sim, dá para perceber daqui. — Stefanie alfinetou.

Até onde eu sabia, o único homem com quem mamãe se envolveu resultou em dois filhos e nenhuma pensão. Não conseguia imaginar minha mãe com outra pessoa.

— Fico feliz por você. – comentei na tentativa de parecer descontraído, mas soou mais como alguém que não estava feliz de jeito nenhum.

— Que ótimo, querido. Não queria te contar por telefone, mas você sabe, ainda não os deixam sair aos finais de semana. Na verdade, sabe se vocês sairão no final do ano?

Me senti um detento.

— Não sei. – respondi duramente. Estávamos no final de agosto, ainda não se falava de férias ou festas de final de ano.

— Eu vou falar com o Miguel do R.C.E., ele deve saber de algo. Rapaz bondoso aquele. — mamãe pigarreou.

— O estagiário esquisito? — Stefanie perguntou em tom de desdém ao fundo.

— Ele gostou de você, Stef.— a voz da mulher se fez mais distante e abafada.

— Mãe, ele provavelmente não curte o meu tipo.

— Seu tipo? Você é uma menina linda, meio rebelde com esse cabelo azul, mas linda.

— Então digamos que ele não joga no meu time. — pelo timbre de Stefanie, sei que ela mostrou a língua.

— O que futebol tem a ver com isso e... — mamãe interrompeu-se bruscamente. — Ah, entendi.

— Eu ainda estou aqui. – resmunguei nem um pouco interessado na sexualidade de Miguel.

— Filho, saiba que eu te amo e você sempre será meu menino. Ainda não é nada sério com o Fábio, fique tranquilo.— mamãe disse cheia de ternura.

Mordi o lábio inferior desejando que isso fosse verdade. Encerramos a ligação com uma despedida não muito melosa como de costume. Suspirei cansado e inclinei a cabeça para trás.

— Você ouviu? – arrastei a voz.

— Se te consola, não. – Amanda respondeu.

— Obrigado. – sussurrei e fechei os olhos.

Escutei o barulho característico de papel sendo destacado e senti algo sendo colocado sobre minha perna esquerda.

>>>

Ao subir para o meu andar, não deixei de admirar o papel em minhas mãos contendo um desenho do pôr-do-sol feito de giz pastel em cores quentes. No canto da folha, o nome “Amanda Dias” foi grafado em uma assinatura rabiscada, junto a um número de celular.

Quase pulei de susto ao trombar em alguém no corredor. Pisquei os olhos lentamente, registrando a imagem de Yara carregando uma toalha úmida e uma garrafa vazia.

— Saia da frente. – ordenou.

— Sua falta de educação me toca. – provoquei.

— Não é só ela que vai te tocar se você realmente não sair da frente. – ela arqueou uma sobrancelha.

Dei um passo para o lado e ergui as mãos em sinal de paz.

— Aonde vai com isso? – a segui discretamente.

— Vou molhar a toalha e encher essa garrafa. Estou usando para colocar na testa da Érica, ela parece estar com febre. – Yara agitou a toalha no ar, torcendo-a.

— Deveria levá-la a enfermaria. – lembrei que fui parar lá outro dia por causa de uma crise de espirros que levou a minha expulsão de todas as aulas.

— Ela disse que está cansada demais para caminhar. E… A onda de azar dela explodiu. Acha melhor quebrar só nosso quarto, de preferência. – Yara descia um degrau por vez, os ombros caídos.

Fiquei preocupado com o estado de Érica e seu poder, por isso decidi continuar seguindo Yara.

— Percebeu que a onda dela vem e vai? – andei ao seu lado.

Fazia algum tempo desde que a onda de Érica havia nos acertado diretamente, coisa que me deixou intrigado, já que passávamos cada vez mais tempo juntos e nada acontecia.

Yara assentiu e deu um pequeno pulo do último degrau para o chão. Avistamos o bebedouro de inox com quatro torneiras cobertas por gotículas geladas e andamos em sua direção.

— Anotei isso e juntei as informações. – ela comentou quando nos aproximamos da primeira torneira. – Acho que depende do humor dela. Sentimentos negativos aumentam a onda, como a rejeição. Talvez até agitação, daquela do tipo ansioso. – entregou-me a toalha. – E sentimentos positivos a fazem desaparecer.

Coloquei a toalha no ombro, não ligando para a umidade e concordei com o que a garota disse. Os poderes, por mais que fossem inúteis, possuíam uma certa complexidade, bastava ter paciência e observá-los para entendê-los.

— Ela disse que queria beber Fanta Maracujá para se sentir melhor. – Yara franziu as sobrancelhas de leve e encheu a garrafa de água. – Não vende isso na máquina, vende?

Neguei reflexivo, repassando a imagem da vitrine iluminada em minha cabeça. Quem é que bebia Fanta Maracujá?

Burburinhos se formaram no corredor e logo tornaram-se mais altos, sendo trazidos por um garoto de cabelos castanhos e sardas que era seguido por alguns estudantes segurando copos e garrafas.

— Por favor, Thiago!

— Já disse, sem pagamento, sem bebida.

— Faz fiado, vai?

— Não, não, não.

Eu e Yara nos entreolhamos confusos e curiosos. O grupinho nos ultrapassou, entretanto, um garoto parou no bebedouro para encher sua garrafinha.

— Ei, o que está acontecendo ali? – perguntei casualmente.

— O Thiago pode transformar o suor dele em qualquer bebida, exceto alcoólica. E ele cobra por isso. – respondeu sem nos olhar.

— Nojento. – eu e Yara dissemos ao mesmo tempo.

Subiram 20 arrepios diferentes por minha espinha só de pensar na cena.

— Bom, ele não nos mostra, é claro. – o garoto deu de ombros. – Pagamos adiantado e de noite ele nos entrega em um local combinado.

Por que isso me lembrou a venda de drogas?

— E é bom? – questionei mais por curiosidade do que por interesse.

— Outro dia eu pedi um caldo de cana e me surpreendi. Estava muito bom para algo que veio do suor de um cara. – ele rosqueou a tampa de sua garrafa.

— Você disse caldo de cana?! – Yara arregalou os olhos, o tom de voz erguendo absurdamente e a postura se arrumando.

— Sim. – o garoto confirmou. – Preciso ir, tchauzinho. – e seguiu pelo corredor.

— Cada coisa, né? – dei uma risada abafada e me virei para Yara.

— Já sei onde conseguir a Fanta Maracujá da Érica. – a garota se mostrou determinada. – E meu caldo de cana que não consegui tomar no dia que vim para cá já que alguém esbarrou em mim.

— Alguém? – indaguei de modo idiota e a lembrança de nosso encontro em frente a academia veio feito um tapa. – Não foi culpa minha. – fiz biquinho. Foi, mas dava vergonha admitir. Principalmente pelo vaso que quebrei e ainda não tinha coragem de me desculpar.

— Claro que foi. – Yara revirou os olhos. – Eu estou livre se você quiser ir comigo fazer o pedido.

— Isso foi um convite? – sorri de canto.

Yara puxou a toalha de meu ombro (mudando a cor de laranja para rosa) com zero de delicadeza, deu as costas e prosseguiu pelo caminho que Thiago fez. Ri de sua atitude e a acompanhei, mantendo o cuidado para não amassar o desenho que ganhei de Amanda.

O garoto de sardas dispensou todo o grupinho que o acompanhava, resultando em gemidos de frustração ou frases de confirmação sobre algum horário de encontro. Thiago lambeu o polegar e contou as notas do bolo de dinheiro que tinha em mãos, sorrindo satisfeito e por fim entrou em seu quarto no final do corredor.

— Chegamos e pedimos? – sussurrei.

Não sabia o porquê, mas estávamos escondidos atrás do compartimento vermelho que guardava a mangueira de incêndio, espreitando o corredor igual a ninjas. Me lembrou um pouco o dia em que invadimos o quarto do Felipe, coisa que eu queria esquecer.

— É o jeito. Apesar de eu não querer ser vista pedindo algo para um cara com um poder desses. – Yara resmungou.

Notei que estávamos próximos, de modo que eu descansava uma das mãos em seu ombro. A recolhi imediatamente, guardando-a no bolso da bermuda. Saímos do esconderijo improvisado, sempre conferindo ao redor para termos certeza de que não havia ninguém no mínimo conhecido.

— Você bate. – a garota ditou ao chegarmos na porta.

— Por que eu? – fiz uma careta de indignação.

— Porque aqui é parte do dormitório masculino. – ela cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado.

Dei de ombros e fechei a mão para bater, todavia, a voz de Thiago ultrapassou a madeira e eu não me contive ao ouvir. Falava, falava e falava sem que ninguém respondesse. Não podia estar conversando com um colega de quarto, devia estar no celular.

— Melhor não atrapalharmos. – balbuciei.

— Enfim, tia, vamos aos negócios. – foi o que entendi de sua fala. – Vai trazer as bebidas hoje a noite, certo? Tenho uma nova lista de pedidos.

Minhas sobrancelhas desceram automaticamente e eu observei Yara, confirmando se ela ouvira o mesmo que eu. Não éramos tão burros a ponto de não entender o que estava se passando ali.

— Vou te dar sua parte, não se preocupe. Não, eu não sou seu fofucho, pare com isso. – Thiago continuou. – Tchau, tia.

Escutamos um bipe e por fim o silêncio tomou conta do lugar.

— Que babaca. – Yara soltou o ar pelo nariz.

— Demais. – parei a mão na maçaneta. – O que fazemos?

— Não sei, vamos ver no que dá. – ela colocou a mão sobre a minha, abaixando a maçaneta.

A porta foi para dentro em um rangido quase inaudível. Meus olhos registraram a perfeita arrumação e claridade em que aquele quarto se encontrava, provocando-me inveja. Ao lado de uma das camas, havia um frigobar aberto cheio de garrafas e latinhas de bebida diante de Thiago que nos olhava boquiaberto e de olhos arregalados.

— Não podem entrar aqui! – ele berrou e chutou a porta do frigobar para que se fechasse. – E quem são vocês, afinal?! – prendeu o ar, incrédulo.

— Um garoto que espirra fogo. – respondi dando de ombros.

— E uma garota que muda as cores. – Yara revirou os olhos.

— Ah, que se dane, saíam daqui! – Thiago veio em nossa direção, batendo o pé e bufando. Então por que ele perguntou?

— Não pode enganar os alunos. – a garota não se abalou nem um pouco com a aproximação.

— Não estou enganando ninguém. – ele cerrou os dentes. Pude perceber que por baixo de toda aquela raiva, o garoto se mostrava amedrontado.

— Ouvimos a ligação. – argumentei.

— Isso não prova nada. – o rosto de Thiago ficou completamente vermelho.

— Então, por que não nos mostra como transforma seu suor em bebida? – Yara estendeu-lhe a garrafa. – Pode jogar a água que tem aqui dentro pela janela e usar isso.

— Sem pagamento, sem bebida. – ele cruzou os braços, impaciente.

Yara tateou a calça preta e retirou uma nota dobrada de 10 reais de dentro do bolso.

— Faça qualquer bebida. – ela balançou a nota.

A esse ponto, Thiago realmente suava, indo de sua testa brilhosa até a ponta do queixo e pingando na gola da camiseta.

— O quanto ouviram? – ele passou o braço pelo espaço entre mim e Yara, fechando a porta em um movimento curto e grosso.

Era esse o tipo de pergunta que te incriminava. Não a faça.

— O suficiente. – afirmei duramente.

E era esse o tipo de resposta que assustava.

— Quanto querem para guardar segredo? – Thiago puxou o bolo de notas que estava contando, o desespero estampado em seu rosto suado.

Eu e Yara trocamos um olhar cúmplice e nos viramos para a porta, a fim de conversarmos em particular.

— O que você acha? – indaguei baixinho.

— Não quero dinheiro desse cara. – Yara rebateu quase ríspida.

— Nem eu. – olhei para o chão perfeitamente limpo, me sentindo incomodado.

— Podemos pedir algum favor no futuro. – ela sugeriu.

— Boa ideia. – concordei e nos voltamos para o garoto que nos aguardava ansioso. – Não precisa nos pagar. Mas vai ficar nos devendo de qualquer forma. – coloquei a mão livre na cintura.

Thiago suspirou pesadamente, guardou o dinheiro e usou o antebraço para limpar a testa. Confesso que tive dó do coitado, mas continuava curioso e perplexo.

— Então, quem te traz as bebidas é… Sua tia? – analisei.

— É, ela é a professora Luana, de química. – passou as mãos pela calça como se as secasse. – Por favor, não contem para ninguém. Faço o que quiserem! – implorou.

— Não vamos contar. – Yara negou com a cabeça. – Mas por que diz que é esse o seu poder? Sério, é muito esquisito.

Thiago revirou os olhos, caminhou um pouco pelo quarto e jogou-se na cama da direita, amassando o lençol branquinho.

— Eu tenho hiperidrose. Sabe, suo demais. Eu não queria que o pessoal daqui me achasse nojento igual o da outra escola, então usei isso ao meu favor. – fechou os olhos e expirou frustrado.

Senti uma pontada de pena e quase falei para mim mesmo esquecer o que ouvi da ligação e deixar o pobre rapaz continuar sustentando a mentira, já que isso o deixava melhor. Muito errado?

— E qual o seu poder de verdade? – mais uma vez, a curiosidade falou mais alto.

— Dessaturação. –Thiago abriu os olhos e ergueu o tronco, sentando-se. Acho que eu e Yara fizemos claras expressões de dúvida, pois ele soltou outro suspiro e ficou de pé.

O garoto uniu as mãos em frente ao rosto e algo mudou no topo de sua cabeça. O castanho de seus cabelos foi gradativamente substituído por uma cor cinzenta, que logo preencheu todo o seu corpo até os pés, ficando completamente dessaturado.

Tive medo do meu pensamento estar tão gritante que Thiago ouvisse eu dizer “isso sim é inútil”. Me contentei em dar um sorriso forçado e utilizar a cabeça para acenar.

— Isso sim é inútil. – Yara, por outro lado, não foi tão sensível. A repreendi em um sussurro entredentes.

— Agora vocês entendem? – ele abaixou as mãos, retornando a suas cores originais. – Se sim, podem sair daqui, por favor? – pediu acanhado.

— Antes. – ela deu alguns passos e entregou-lhe a nota de 10 reais. – Peça para sua tia trazer uma Fanta Maracujá e um caldo de cana.

Os olhos caídos de Thiago refletiram por um segundo e ele pegou o dinheiro de maneira abobada.

— Não vamos te dedurar. – a garota consolou. – Quando e onde vai entregar?

— H-Hoje, nove da noite. No bebedouro do primeiro andar. – ele balbuciou.

— Certo. – Yara afirmou e dirigiu-se à porta, abrindo-a e deixando o quarto.

Dei uma última olhada em Thiago, fiz o sinal de positivo com o polegar e fechei a porta assim que saí.



Notas finais
A União Rebelde tem oficialmente 5 membros! Será que podemos contar com um sexto? Poxa vida, devemos esperar por um padrasto para o Norte? E quanto ao Thiago, vai continuar no negócio clandestino das bebidas? Me contem o que acharam pelos comentários ♥ Nos vemos no próximo capítulo (10/07): Os novos rebeldes Até mais, beijos. —Creeper.