Academia de Poderes Inúteis
32 Perdemos um, ganhamos um
Notas iniciais
Aparentemente, o bilhete ao professor de geografia funcionou. Nas aulas que fiz com Milena, a vi receber uma atividade diferente da nossa e uma inspetora tratava de ajudá-la quando necessário, abaixando-se próxima ao caderno e respondendo baixinho as dúvidas da garota. Involuntariamente, deixei um sorriso escapar, torcendo para que aquilo a fizesse sentir melhor.
Membros de grupos diferentes continuavam a se olhar torto, exceto quando se tratava dos líderes, esses tinham passe livre para conversar com alunos de um grupo que não fosse seu para tentar convencê-lo a se juntar a eles. Na verdade, os únicos que faziam isso eram Felipe e Bianca. Kaíque não ligava e Ienaga não fazia investidas diretas desde o meu tempo e o de Yara como novatos.
Na hora do almoço, houve atualizações sobre os pontos no jogo do Informante.
Deslocados: +2. Total: 54 (pontos por membros e caça a bandeira).
Nova Era: -2. Total: 28 (pontos por membros).
União Rebelde: -1. Total: 21 (pontos por membros e aluna nova).
Super Gatinhas: +1. Total: 19 (pontos por membros).
Deslocados continuaria na liderança por causa da quantidade de membros e o que mais incomodava a União Rebelde é que Amanda havia se mudado para aquele grupo. Ela estava tão presa em seus próprios pensamentos que quando Kaíque tentou lhe passar a maldição do líder, ela bateu nele com seu caderno de desenho e saiu andando e divagando.
— Pelo menos, ainda estamos na frente do Super Gatinhas. – Eduardo suspirou e concentrou-se em seu almoço.
O aparelho de nosso vice-líder emitiu um “plim” e ele o agarrou imediatamente, empalidecendo e deixando cair um punhado de comida da boca. Eu e os outros membros nos entreolhamos assustados e ficamos esperando o garoto dizer alguma coisa.
— A Bianca conseguiu mais dois membros. Ou seja, ela está com vinte e um pontos agora. – Eduardo cerrou os dentes.
— Isso significa... – Érica ergueu as sobrancelhas.
— Empate. – assenti duramente.
Yara emitiu um muxoxo e Milena praguejou baixinho. Uma rodada de notificações se espalhou por nossa mesa, todavia, ninguém ousou ser o primeiro a pegar o celular para saber do que se tratava.
Eduardo foi corajoso o suficiente ao desbloquear a tela de seu celular novamente e avisar a todos que era apenas uma mensagem de Ienaga no grupo da União. Aliviados, olhamos nossos aparelhos.
Ienaga: AAAAAAAAAAAA [12:43]
— Nós definitivamente precisamos colocar alguém no lugar da Amanda. – o vice-líder arregalou os olhos. – Um ponto para desempatar do Super Gatinhas.
A fala do garoto foi interrompida por alguém levantando-se bruscamente da mesa. Era Victor. Ele bufou, virou o rosto e saiu marchando em direção a saída do refeitório.
— Não devia ter falado sobre colocar alguém no lugar da irmã dele. – Yara comentou analisando seu garfo.
Eduardo balbuciou alguma coisa, ergueu-se educadamente e levou o seu prato e o de Victor para o suporte de louças sujas, depois saiu pela porta principal sem sequer olhar para trás.
A tensão ainda ia nos matar.
Após as aulas, nos reunimos no esconderijo para nada em específico. Ienaga e Eduardo jogaram UNO entre si, Érica pintou as unhas de Milena e eu e Yara tratamos de terminar um desenho que não conseguimos entregar a tempo na aula de artes.
Nos sentamos extremamente próximos um ao outro para que o caderno de desenho pudesse ficar nas pernas de ambos e cada um fizesse sua parte. Nossos ombros estavam colados e eu sentia a respiração de Yara fazendo meu coração falhar uma batida ou outra a cada minuto.
— Sua parte está toda torta. – ela alfinetou.
De fato, meu lado da folha continha rabiscos totalmente irregulares.
— E a sua está com as cores todas erradas. – devolvi.
— Do que adianta os nomes das cores estarem marcados se eu as fico mudando com meu poder? – Yara encarou um lápis dito como vermelho, porém, estava marrom.
— E se usar luvas? – sugeri começando a pintar minha parte.
— É ruim para segurar os lápis. E está quente. – ela torceu a boca.
— De qualquer jeito, a professora vai gostar. Da minha parte, pelo menos. – provoquei.
— Ah, sim, ela vai amar seus prédios que parecem estar sofrendo um terremoto. – Yara deu de ombros.
— É conceito. – franzi as sobrancelhas.
— Conceito de horror. – a garota assentiu.
— Nunca mais vou formar dupla com você. – bufei e fiz um biquinho manhoso.
Ela deu uma pequena risada, revirou os olhos e focou-se em terminar a pintura.
— Ei, algum de vocês pode pegar a acetona para mim? – Érica indicou com o queixo um pequeno frasco perto de nós.
— Claro. – eu e Yara falamos em uníssono.
Assim que pensei em agarrar o frasco, percebi que Yara já o havia pegado. Tarde demais, porque a ordem já tinha sido dada a minha mão e ela estava em cima da de Yara, sentindo a maciez e calor de sua pele.
A vermelhidão se espalhou por minhas bochechas e meu braço pareceu congelar no lugar, porque eu não conseguia tirar minha mão dali de jeito nenhum.
— É pra hoje. – Érica brincou.
— Desculpa. – nós dois resmungamos ao mesmo tempo e eu larguei o frasco, deixando Yara entregá-lo.
Não pude continuar a remoer minha vergonha, pois a porta foi aberta repentinamente e Victor adentrou a sala carregando uma expressão orgulhosa, o que era novidade para todos nós, já que achávamos que ele só sabia expressar raiva e sarcasmo.
— Eu consegui um membro novo. – ele colocou uma mão na cintura e usou a outra para apertar a alça de sua mochila.
Outra figura apareceu na porta.
— Você o quê? – Ienaga arregalou os olhos e largou suas cartas, fascinada. Na verdade, todos pararam o que estavam fazendo para observar o gêmeo.
— Pode entrar, Breno. – Victor chamou.
Possuía cabelos médios e pretos e um sorriso quase tão galanteador quanto o de Eduardo. As inúmeras pulseiras de sua mão chacoalharam quando ele girou as rodas de sua cadeira, terminando de adentrar a sala.
— E aí. – o garoto acenou adoravelmente.
— Espera, você veio por livre e espontânea vontade? – a líder levantou-se cambaleante. – Ele não te ameaçou nem nada? – fitou o garoto novo.
— Ele é meu colega de quarto. – Victor revirou os olhos. – Perguntei a ele se queria se juntar ao grupo e ele aceitou. Simples.
— É, eu estava entediado do Deslocados. Tentei ir para o Super Gatinhas, mas a rotina de lá era muito pesada. Então sobrou esse. – Breno deu de ombros.
— E o Nova Era? – Milena abanou as mãos para secar o esmalte.
— E esse grupo lá é opção para alguém? – o garoto arregalou os olhos.
— Gostei dele, está dentro. – Ienaga afirmou satisfeita.
Eduardo aproximou-se de Victor, deu-lhe uma cotovelada de leve e sussurrou um: “mandou bem”. O gêmeo desviou o olhar e torceu a boca, as bochechas ficando levemente rosadas.
Por fim, nos apresentamos um a um, explicando nossos poderes. Exceto Milena, claro.
— E qual o seu? – Ienaga indagou.
— Charme. – Breno levou os dedos ao cabelo, jogando-o para trás e piscando um olho para a garota. – Você acredita em amor à primeira vista ou preciso passar aqui outra vez?
A líder paralisou por um instante, atônita e todos a observamos em busca de uma reação. Não havia dúvidas e por isso todos ficaram sem palavras. Laura Ienaga estava definitivamente sendo paquerada na frente de todas.
Mas diferente do que pensávamos, ela não ficou vermelha, apenas torceu o nariz e semicerrou os olhos, dando-lhe um gelo.
— Esse é literalmente o poder dele. – Victor revirou os olhos outra vez. – Flertar com os outros.
— E desde quando a personalidade do Eduardo virou poder? – Ienaga cruzou os braços e olhou perplexa para o vice-líder
— Eu nunca faria uma cantada dessas. Contigo. – Eduardo defendeu-se. – Qual o porém? – voltou-se para Breno.
— Não funciona em garotas. Só em garotos. – Breno arqueou uma sobrancelha.
— Ora, ora, ora. Temos algo interessante aqui. – o vice deu uma risada maliciosa. – Vamos lá. Tente em mim. – aproximou-se do aluno novo com um jeito cafajeste.
— Esse é o problema. Eu sou hétero. – o garoto acrescentou.
Eduardo piscou os olhos lentamente e afastou-se um pouco. Seus lábios tremeram e mais uma risada escapou.
— Tudo bem, então podemos dizer que é um poder inútil. – o vice levantou as mãos inocentemente.
Afinal, todos eram.
— De qualquer forma, precisamos te dar alguma missão para você provar sua lealdade. – Ienaga comentou. – Alguma ideia? – consultou Eduardo.
Um sorriso travesso dançou nos lábios do vice e seus olhos se iluminaram.
— A mais perfeita das ideias. – ele colocou as mãos na cintura e estufou o peito. – Breno, sua missão é usar seu poder no Felipe.
Preciso confessar que ficamos levemente animados com aquela missão, mas escondemos atrás de feições minimamente sérias. Breno fez um biquinho, relaxou os ombros e antes que pudesse dizer algo, alguém exclamou:
— Espera!
Era Érica terminando de fechar os vidros de esmalte e levantando-se um pouco desajeitada. Ela franziu as sobrancelhas e tremeu os lábios.
— Sei que fui a única a não receber uma missão porque na época em que entrei minha onda ainda era um problema. – ruborizou. – Mas eu quero fazer alguma coisa como todo mundo. Pode ser algo simbólico, não me importo. – balançou a cabeça determinada.
Eduardo e Ienaga assentiram entre si e pelas suas expressões, estavam pensando em alguma coisa.
— Ela pode ir comigo. – Breno deu de ombros. – Meu poder pode ser… Hã, amenizado, digamos assim. – deu um sorriso amarelo. – Basta jogar água na cara da pessoa. – estalou os dedos.
Érica puxou o ar e levou as mãos no peito, perguntando:
— Q-Quer que eu jogue água na cara do Felipe?
— É uma boa missão. – Ienaga concordou. – Se você quiser, é sua, Érica. – ergueu o polegar.
A garota encolheu os ombros e olhou para baixo, incerta.
— Acho que eu posso fingir que estava passando com um copo de água e tropecei. – desviou o olhar e sorriu cúmplice.
— Então, vamos? – Breno adquiriu um semblante desafiador.
Naturalmente, não perderíamos a chance de ver o poder de Breno em ação. Seguimos todos para fora do esconderijo e assim que pulamos através da passagem do hidrante, notamos uma rampa improvisada cuja base era feita por livros didáticos ainda embalados e três chapas grossas de papelão para a inclinação. Breno desceu por ela e virou-se na direção contrária à das escadas.
— O elevador fica no fundo. Vejo vocês lá em cima. – ele acenou com a cabeça e seguiu pelo corredor.
Havia ouvido falar poucas vezes sobre o elevador, já que ele era exclusivo para uso de alunos/funcionários que usassem muletas, cadeiras de roda ou estivessem machucados.
Subi para o próximo andar junto das meninas, já que Eduardo e Victor ficaram para trás para desmontar a rampa e guardá-la. Naquele horário, Felipe provavelmente estaria na biblioteca revendo a matéria do dia como um exemplo perfeito de bom aluno.
Paramos em frente a biblioteca para esperar Breno. Enquanto isso, Érica foi na frente cheia de nervosismo, pegou um copo descartável e o encheu no bebedouro de galão na entrada do lugar.
Pouco depois, Breno e os outros garotos chegaram. Optamos por nos separarmos em duplas e entrarmos sem chamar a atenção, cada um de uma vez. Eu e Yara fomos primeiro, avistando Felipe sentado em uma das mesas redondas com o rosto apoiado na mão e passando as páginas do caderno lentamente.
Nos escondemos na sessão de clássicos, aliviados por ele não ter reparado em nós. Pelas frestas das prateleiras, encaramos Milena e Ienaga entrarem logo em seguida e irem discretamente para o espaço dos computadores.
Por fim, Eduardo e Victor caminharam para a sessão de mistério e Breno adentrou, exalando confiança e tranquilidade. Ele aproximou-se da mesa de Felipe, roubando seu foco.
— Você é o Felipe, né? – Breno sorriu de canto.
— Sim, precisa de alguma coisa? – Felipe ergueu as sobrancelhas.
— Queria sua ajuda para encontrar um livro. – o garoto apontou para as prateleiras.
— Qual? – o líder fechou seu caderno e levantou-se.
— O livro da nossa história de amor. – Breno piscou um olho.
O normal seria que Felipe ficasse vermelho de raiva, bufasse indignado e berrasse que aquilo não tinha cabimento. Entretanto, o que aconteceu foi totalmente diferente. O líder ruborizou, seus olhos verdes brilharam e ele colocou uma mecha do cabelo preto atrás da orelha.
— A-Acho que ainda precisamos escrever esse livro. – Felipe respondeu sem jeito e desviou o olhar timidamente.
Meu queixo caiu e Yara teve de levantá-lo para mim. O baixinho que tratava os outros feito lixo havia sido pego pelo poder do Breno e estava vermelho de vergonha. De vergonha! E todo tímido, dá para acreditar?
Breno sorriu forçadamente e lançou um olhar de socorro para Érica. A garota engoliu em seco, encolheu os ombros e andou duramente em direção aos garotos. Faltando pouco menos de um metro para chegar, Felipe a percebeu e a encarou confuso.
E então aconteceu. Érica fingiu o pior dos tropeços e estendeu seu braço, jogando a água toda do copo no rosto de Felipe. Todos os membros da União tiveram de se esforçar para prender a risada, já que a expressão de incredulidade do garoto foi impagável.
O garoto piscou os olhos, surpreso, e então os esfregou com um pouco de raiva.
— Droga, olha o que você fez. – resmungou.
— D-Desculpa! – Érica exclamou. – Foi sem querer, eu tropecei e…
— Shhh! – a bibliotecária falou atrás de seu computador.
Felipe enxugou seu rosto com a gola da camiseta e voltou o olhar para Breno, levemente perturbado. Então balançou a cabeça sem dizer nada, pegou seu caderno e deixou a biblioteca rapidamente.
Também saímos do lugar e esperamos Érica enxugar a água que caiu no piso com alguns papéis toalha. Ela se juntou ao grupinho com um sorriso contido e as bochechas um pouco coradas.
— Eu nem acredito que fiz isso! – contou animada. – Finalmente fiz minha missão!
Eu, Yara e Milena a parabenizamos com alguns afagos na cabeça e palavras de motivação.
— Então bem-vinda novamente a União Rebelde! – Ienaga passou o braço por seus ombros e a puxou para um meio abraço, sorrindo.
— E você, bem-vindo a União Rebelde! – Eduardo estendeu o punho cerrado para Breno.
— Dar em cima de garotos não tem graça. – Breno suspirou e tocou o punho do líder. – Mas até que foi legal ver ele responder minha cantada. – sorriu de canto.
— E agora, o que fazemos? – Milena perguntou.
— Acho que é o fim da reunião de hoje. – Ienaga olhou para cima.
— É, acho que sim. – Eduardo conferiu seu celular.
— Ah, poxa. – a pequena murchou.
— O que foi? – Érica perguntou.
— Eu queria ficar mais um pouco com vocês. É chato voltar para o dormitório tão cedo. – ela fez um biquinho.
Movido pela forma como ela falou aquilo e o jeito que ela estava infeliz no dia da saída de Amanda, me escutei dizer:
— E se a gente brincar de algo?
— Brincar? – os outros membros questionaram.
Sei lá, o que crianças de 12 anos faziam?
— Ai, meu Deus, podemos brincar de esconde-esconde? – Milena abriu um grande sorriso e seus olhos viraram estrelas. – Como eu não tinha muitos amigos no bairro ou na escola, nunca brinquei direito.
— Okay, a gente definitivamente precisa brincar de esconde-esconde. – Ienaga afirmou determinada.
— Eu adoraria, mas hoje vou ter que passar. – Eduardo guardou seu celular e bagunçou os cabelos de Milena. – Vejo vocês depois. – deu um beijo rápido na bochecha de Ienaga, acenou para o resto do grupo e correu em direção às escadas.
— Poxa, seremos só nós sete então. – a líder fez um biquinho.
— Seis. – Victor corrigiu de mau humor. – Eu tô fora. – fez menção de ir embora.
— Nada disso! – Breno puxou a barra do uniforme do colega. – Você não vai se trancar no nosso quarto e ficar tocando “Eduardo e Mônica” na droga daquele violão outra vez. – cerrou os dentes.
Victor ficou ainda mais carrancudo, cruzou os braços e ergueu o queixo, indagando:
— Tá, tá. Quem vai procurar?
— Eu! – Milena respondeu decidida.
Foi resolvido que podíamos nos esconder em toda a área do primeiro andar e o bate-ponto seria no mural de avisos do hall de entrada, onde Milena e iniciou uma contagem até 60 de olhos fechados. Eu e os membros restantes nos dissipamos, cada um indo para um lado e procurando o melhor esconderijo que poderia ser encontrado em um minuto.
Achei uma carteira coberta por um pano branco com algumas pinturas coloridas. A contagem já devia ter terminado, era aquilo ou nada.
Ergui o pano brevemente e me escondi debaixo da carteira, percebendo que foi uma má ideia, já que aquele lugar estava apertado para caramba. Não apenas apertado como quente.
Foi aí que resolvi olhar para o lado, avistando uma figura de olhos arregalados e boca fechada, encarando-me horrorizada.
— Vaza. – Yara ordenou.
— Agora não dá. – abracei os joelhos. – Achei que você fosse mais inteligente, não pensei que fosse se esconder em um lugar como esse.
— E você? – ela moveu o ombro, empurrando-me.
— Não sou tão inteligente. – ajeitei-me. – Sou um homem simples, vejo algo coberto e me escondo debaixo.
Yara revirou os olhos e encolheu-se para liberar um pouquinho de espaço. Fiz o mesmo para aquele lugar ser minimamente aceitável durante o tempo necessário para termos a segurança de correr até o bate-ponto.
Gotículas de suor surgiram em minha testa por causa do calor infernal. Yara também suava e evitava contato visual comigo. Meu coração falhou uma batida ao perceber a situação em que eu me meti.
Preso em um lugar apertado com Yara, isso era terrível. Porque eu estava perdidamente apaixonado por aquela garota.
Sim, apaixonado. É, eu confesso. E daí?
— Acha que já podemos correr? – Yara sussurrou.
Virei o rosto para encará-la, assustando-me ao ver que ela também estava virada em minha direção, deixando nossas faces a centímetros de distância. Engoli em seco ao olhar no fundo de seus olhos escuros, brilhantes e confiantes. Nossas respirações misturaram-se e o suor triplicou em minha testa, agitando meu coração dentro do peito.
Agindo no modo automático, aproximei meu rosto do dela, quebrando aos poucos a única distância que existia entre nós.
“E se ela não gosta de mim como eu gosto dela?”, paralisei no lugar. Conferi a expressão de Yara, surpreendendo-me ao vê-la de olhos fechados.
— Ei… – chamei baixinho.
— Que foi? – ela torceu a boca. Estava ruborizada.
— Hã, bem… – fiquei sem jeito.
Simplesmente esqueci como formar uma simples frase. Isso mesmo, a funcionalidade do meu corpo me abandonou completamente.
Ela suspirou e começou a me observar, esperando eu dizer alguma coisa. Eu realmente preferia não abrir a boca a falar algo embaralhado e tosco.
Repentinamente, nosso corpo recebeu uma lufada de vento e a luz iluminou nossas pernas. Em nossa frente, Milena segurava o pano e sorria de maneira travessa.
Yara empurrou meu rosto com zero de delicadeza e disparou para fora de nosso esconderijo, iniciando uma corrida contra a procuradora.
— O que tá esperando, Norte? – Yara me olhou por cima do ombro. – Temos que nos salvar!
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