Academia de Poderes Inúteis

4 O pior primeiro dia de aula


Notas iniciais
Olá! Um ótimo sábado para todos! Queria agradecer ao pessoal que comentou nos capítulos anteriores, eu fiquei muito feliz, sério ♥! Se você acompanhou até aqui, muito obrigada, então sem mais delongas, vamos para o quarto capítulo!

F-O-G-O.

Não, isso não é um campeonato de soletração ou o início de uma música pop.

O tecido roxo amarrado na cintura da professora se arrastava pelo chão com uma pequena forma alaranjada e vibrante alastrando-se por sua ponta. Meus dentes se fecharam, deixando meu maxilar imóvel e dolorido por causa da tensão.

A atenção dos alunos foi gradativamente chamada, marcada por olhos arregalados e longas puxadas de ar para conter a surpresa. Ao meu lado, Ana Carolina murmurava um mantra, estática de tanta concentração.

— P-Professora. – minha voz saiu falha. – Professora! – ergui-me de modo desajeitado.

— Quietinho, querido. A meditação não pode ser interrompida. – ela respondeu calmamente e continuou sua caminhada. – Abstenha-se do que está ao seu redor. Seja apenas você e sua mente.

— Não, você não está entendendo! – pressionei minha cabeça entre as mãos, desesperado.

— Om... Om... – Vera exclamou relaxada.

Naquela altura uma fumaça cinzenta preenchia a sala, obrigando os alunos a cobrirem seus narizes e bocas. Um grupo afastou-se do percurso da professora, grudando-se às paredes e agitando as mãos para dissipar a fumaça.

Eu já havia chamuscado golas de camisetas e o cabelo de minha irmã, mas nenhum desses casos se alastraram com tanta facilidade. Minha mente ficou em branco e as pernas paralisaram no lugar sem noção de que atitude tomar.

— Faça alguma coisa! – uma garota murmurou irritada e outros alunos a acompanharam, lançando-me pequenas ameaças.

Percorri os olhos pela sala procurando por qualquer coisa que pudesse me ajudar. Não havia nenhum extintor por perto ou detector de incêndio no teto. Parabéns, R.C.E., gostei de ver.

Sem muitas alternativas e movido pela apreensão, agarrei a almofada em que estava sentado e a usei para bater no tecido em chamas, emitindo gemidos de esforço.

— Que ventinho é esse? – Vera indagou de maneira inocente. – E que cheiro de queimado! Deve estar vindo lá de fora, vou fechar as janelas.

Eu sempre soube que morreria cedo, mas não esperava que fosse pela minha própria estupidez.

Continuei a espancar o tecido com a almofada, o que provocou um efeito contrário e fez a chama aumentar e espalhar mais fumaça.

Segui a professora enquanto ela caminhava, e, enfim, notei o porquê de suas joias tilintarem tanto. Ela movia os braços para frente e para os lados, tateando o ar.

Tive um repentino estalo na cabeça.

— Nem ferrando... – falei entredentes.

Chegamos a sua mesa onde ela revirou a bolsa que deixou no início da aula e tirou de lá uma barra cinza com detalhes pretos, esticando-a e transformando-a em uma bengala.

— Por que ninguém me avisou que ela era cega? – me virei para o resto da turma e sussurrei indignado.

— Você é idiota ou o quê?! Ela está usando óculos escuros! – uma morena puxou a gola da camiseta até o nariz.

— E do que isso importa agora? A gente vai morrer! – um garoto debruçado sobre a janela resmungou.

— Droga, a porta emperrou! – alguém anunciou do outro lado, girando a maçaneta com a ajuda de alguns colegas.

Vinte alunos em uma sala e nenhum tinha o poder de esguichar água pelo nariz ou transformar o dedo em uma chave de fenda, impressionante.

Meus ombros ficaram rígidos, contudo, eu os obriguei a continuar se movendo para apagar o fogo que já devorava praticamente todo o “cinto” da professora. Esperava que ela o tivesse comprado em uma barraquinha de feira para que fosse mais fácil de repor.

Arregalei os olhos ao ver a mulher estender seus dedos ósseos com longas unhas carmesim para fechar o vidro da janela, mesmo que os alunos o segurassem a todo custo para mantê-lo aberto, ficando até mesmo vermelhos de esforço.

— Esquisito. Deve estar emperrada. – Vera deu de ombros e voltou a andar calmamente, balançando a mão para afastar o cheiro.

Repentinamente, uma ideia surgiu em meio ao turbilhão de pensamentos confusos em minha cabeça. Agindo por impulso, ordenei a um de meus pés que pisasse no tecido, pressionando-o contra o chão. A professora retornou um passo por causa do solavanco, todavia, forçou-se para frente de maneira impassível. Uma gota de suor caiu no momento em que o cinto se soltou do corpo da educadora e eu finalmente o tive sob meus domínios.

Engoli em seco, reuni o pano chamuscado e ainda flamejante como se estivesse manuseando, hã, fogo, e o atirei pela janela aberta. Uma dúzia de pares de olhos observaram o progresso do acessório desde o parapeito até o gramado lá embaixo e o apagar de suas chamas pelo vento. Meu peito subia e descia em meio a respiração descompassada, o corpo congelado de medo e os músculos retraídos.

— Mandou bem. – alguém disse. Ironicamente.

O zumbido em meus ouvidos foi substituído por um apito repetitivo e escandaloso, vindo diretamente de um cronômetro em cima da mesa. Vera o pegou com delicadeza, desligando-o.

— Veja só, nossa aula chegou ao fim. Como o tempo passou rápido! – anunciou sorridente. – Que tal abrirmos a porta agora?

E com uma facilidade impressionante, Vera bateu sua bengala na porta, desemperrando-a e abrindo-a.

— Espero que tenham conseguido relaxar, meus queridos. – ela inclinou o corpo para fora da sala e tocou o chão com a bengala. – Já volto, se comportem! – e seguiu pelo corredor.

— Uau, isso foi ótimo! – Ana Carolina espreguiçou-se e enfim abriu os olhos. – Não foi, Norte? – olhou para o lado, procurando-me.

Todos me encararam, esboçando uma súbita raiva e impaciência, fazendo parecer que cometeriam um crime de ódio ali mesmo.

— O que foi? – ousei indagar. Eu havia resolvido o problema que causei, não é?

— Podíamos ter morrido! – uma baixinha argumentou.

— Além de que você estragou a aula! – outra comentou.

— Que aula?! – foi minha vez de rebater. – Como se vocês estivessem se concentrando com aqueles tilintares!

— Seria mais fácil se concentrar se fosse apenas o tilintar e não um início de incêndio!

— Ei, o que está acontecendo? – Ana juntou-se ao grupo de alunos indignados, completamente confusa.

— Você o conhece? – alguém perguntou.

— Sim, um fofo, né? – a vice-presidente sorriu sem jeito.

— Pois saiba que se ele entrar no Nova Era, eu estou fora! – a morena de antes ameaçou.

— Eu também! – várias pessoas concordaram, a insatisfação clara em suas vozes.

— Alguém como ele não pode participar de um grupo que visa um futuro melhor para o país. – um garoto alto cruzou os braços e me olhou torto.

Enchi o peito de ar, por mais que não quisesse ligar para aquelas falas, me senti profundamente ofendido.

— Pelo amor, vocês estão agindo como se eu quase tivesse matado alguém! – me defendi incrédulo.

— Se não se controlar, vai acabar matando mesmo. – um loiro acusou.

— E nós não queremos ser responsáveis por isso. – a garota ao seu lado completou.

Ana Carolina olhava para cada um que se pronunciava, tremendo os lábios e balançando as mãos em frente ao corpo sem saber ao certo o que dizer. Ela me fitou perplexa com o rosto corado de aflição e pude perceber o lampejo de algumas lágrimas em seus olhos castanhos.

— Norte... – ela apertou seus dedos, hesitante.

Eu não queria ter de ouvir o que ela tinha para falar. Logo no primeiro dia, na primeira aula. Então eu mesmo falaria.

— Tudo bem. Eu não queria participar desse grupo mesmo. – torci a boca.

— Não precisa dizer isso. – Ana balbuciou chateada. – Não desse jeito. – abaixou a cabeça.

Respirei fundo, ultrapassei o grupo que me cercava, agarrei minha mochila e meus sapatos no chão e deixei a sala a passos longos e pesados. Meus dentes cerraram-se automaticamente de raiva, mesmo que eu repetisse em minha mente que não queria fazer parte da Nova Era.

Passei as próximas aulas evitando Ana Carolina, por mais que ela me lançasse discretos olhares de desculpa, eu os evitaria até ficar de cabeça fria. Fiz questão de sentar longe dos professores e de outros alunos para evitar que eu inalasse seus perfumes. O que não adiantou por muito tempo.

Primeiro carbonizei algumas partes de uma massa de bolo na aula de culinária. O professor alto e narigudo praticamente surtou e passou o resto da aula segurando um extintor e me observando de soslaio.

Eu não era a única aberração ali. Por exemplo, a garota na bancada da frente tinha mãos de cacto, o que fez com que ninguém quisesse provar seu bolo espinhento.

Em matemática eu basicamente chamusquei uma página do caderno de exercícios, sendo acusado de ter feito de propósito. Por mais que eu cobrisse o nariz ou o assoasse, o perfume de Vera parecia ter ficado impregnado no meu corpo apenas para me assombrar pelo resto do dia.

Na aula de artes não foi diferente, mas ao invés de atingir uma das folhas do bloco de desenhos, danifiquei um cavalete e fui convidado a me retirar da sala.

Aliás, sequer me deixaram entrar na sala de química. Nesse caso, agradeci aos céus.

A grade da manhã terminou, dando início ao horário de almoço quando finalmente pude ir ao meu quarto e tomar um antialérgico. Ao meio-dia e meia eu estava mais carrancudo que um idoso mal-humorado, bufando e franzindo as sobrancelhas para qualquer um que passasse por mim. A fim de me isolar fui almoçar atrás da academia, desfrutando de um pouco de paz.

Assim que desembalei meu sanduíche, uma folha sulfite dobrada caiu em minhas pernas. Confuso, a abri e analisei as palavras em caneta permanente:

“Dia ruim, né?

Sabe o que não é ruim? Ser um rebelde.”

Pisquei os olhos lentamente. Estava estressado demais para raciocinar como eles haviam enfiado aquele bilhete ali. Dei de ombros, amassei o papel e o joguei em um canto aleatório.

Dei uma mordida em meu almoço, mas nem a combinação perfeita de presunto, queijo, alface e tomate estava funcionando para me animar naquele momento. Engoli em seco, lembrando-me de abrir a tampa de minha garrafa de suco.

Que perdedor.”, pensei amargamente, sentindo saudades de minha vida comum.

Algo vibrou em meu bolso, então explorei-o em busca de meu celular, percebendo que se tratava de uma chamada de vídeo da Stefanie. Atendi a contragosto e vi através da imagem pixelada minha irmã na sala de casa. Disparei de prontidão:

— Se está me ligando para encher o saco, volte outra hora.

Eu hein, moleque chato. — Stefanie fez uma careta.— Mamãe achou que você ficaria mais animado se visse alguns rostos familiares, mas ela está no banho agora.— olhou para outra direção.

— Sua cara feia não me anima em nada. – meu nariz ardeu, contudo, não se tratava de um espirro.

Stefanie bufou e continuou:

— Eu estava me referindo a esses rostos familiares…

A garota mudou a posição da câmera fazendo o cenário se borrar e focar-se em duas formas felinas, uma completamente branca de olhos verdes e outra de pelo siamês e olhos azuis. Não pude evitar de engasgar com o sanduíche e gritar entusiasmado:

— Floquinho e Cleópatra!

Aproximei o rosto da tela do celular, admirando meus gatinhos que miaram confusos. Comecei a fazer minha famigerada voz fina e infantil reservada especialmente para meus bichinhos:

— Quem “shão” os bebezinhos do papai? “Shão” “vocheis”!

— Se você já não deu um jeito de estragar sua reputação até agora, tenha certeza de que ela foi evaporada caso alguém tenha ouvido essa sua demonstração de afeto. — Stefanie moveu a câmera, voltando a mostrar seu rosto. Dessa vez, ela segurava Siri no colo.

Meu peito aqueceu-se ao presenciar a cena de minha cadela mostrando a língua e arfando de excitação. Em seguida, ela experimentou lamber a tela, causando pânico em minha irmã.

— Não, não, não lamba!

Stefanie a colocou no chão cuidadosamente e caminhou até o cercadinho dos porquinhos-da-Índia em nosso quarto. Elas resmungaram um “cui cui cui” adorável ao serem gravadas. Soltei um “ownt” abafado e cheio de saudade.

Por fim, Stefanie foi para o quintal e posicionou a câmera no terrário do Bergamota. Analisei sua aparência para ter certeza de que estava sendo bem tratado.

— Ele não faz muita coisa, talvez nem esteja com saudades de você. — Stef comentou.

Funguei disfarçadamente, sem poder evitar o sorriso que surgiu em meu rosto. Uma das coisas que mais sentia falta era dos meus bichinhos, nunca havíamos ficado mais de um dia separados.

Um aperto se fez presente em meu peito e eu sabia exatamente o que ele significava. Na verdade, ele me acompanhava desde que mamãe perdeu o emprego e ficava mais forte a cada dia, criando um peso em minha consciência.

— Ei, Stef… – cocei o canto do olho. – Se as coisas ficarem muito difíceis aí em casa…

— Nem pense em completar essa frase, Norte Henrique Barbosa.

Devia ser crime pronunciar meu nome em voz alta.

— Eu sei que meus animais têm muitos gastos. – coloquei a mão na testa, deixando o peso da cabeça pender ali. – Então prometo sair dessa academia e ir vender minha arte na praia para conseguir dinheiro. – mordi o lábio inferior com a ansiedade me corroendo.

— Norte. — Stefanie adquiriu uma expressão séria. — Você não sabe fazer arte.

Soltei uma risada abafada e contida pelo nó em minha garganta. Funguei outra vez, semicerrando os olhos em uma falha tentativa de evitar as lágrimas.

— Não vou deixar seu zoológico ir para a adoção. — Stefanie disse após um tempo. — A tia Célia disse que posso fazer a limpeza no salão nos dias de semana também. Vou conseguir o dinheiro.

— Achei que estivesse estudando para o vestibular nos dias de semana. – levantei as sobrancelhas, pasmo.

— Algumas prioridades vêm antes de outras. — ela desviou o olhar. – Enfim, preciso desligar. Não fique chorando igual a um fracote.

— Ei, eu não estava… – tentei me defender, enrolando todas as palavras.

— Claro, claro. Até mais, fedelho. — Stefanie balançou a cabeça.

— Até. – enxuguei os olhos. – Ei, Stef… – a chamei antes que desligasse. Ela me encarou sem dizer nada. – Eu te amo, sua ridícula.

— É claro que ama.— suspirou convencida. — Idem, irmãozinho.— fez o sinal de “paz e amor” e encerrou a chamada.

Passei as costas da mão pelo rosto, apagando qualquer resquício de minha feição chorosa. Respirei fundo, mantendo fresca a imagem de meus bichinhos, o que incluía minha irmã. Aquilo renovou minhas forças.

Terminei meu almoço e conferi minha ficha de aulas. Faria os 25 minutos restantes de química (se a professora me deixasse entrar na sala) e depois enfrentaria 45 minutos de produção de artesanatos para cumprir as 2 horas de aulas complementares. Só então iria para a aula de história e geografia para concluir as aulas curriculares do dia. Sabia que estaria um trapo no final da tarde.

Voltei para o prédio procurando por qualquer sinal de Miguel ou até mesmo de Yara. Não que eu quisesse tanto assim encontrar aquela garota, é que ver um rosto minimamente conhecido naquele lugar não seria nada mal.

Uma silhueta de cabelos rosas passou bufando por mim sendo seguida por algumas outras garotas que usavam blusas de manga longa amarradas na cintura.

— Aquela garota, ela vai ver só! – Bianca esbravejou.

Percebi que as outras garotas seguiam um padrão, tendo suas blusas de cor vermelha, todavia a de Bianca destacava-se, sendo a única de cor marrom do grupo.

— Eu não posso gravar o vídeo sendo a única diferente! – a líder choramingou. – Se ela quiser entrar no nosso grupo, eu não vou deixar! Ela não é bem-vinda nas Super Gatinhas!

Uma garota de longos cabelos cacheados e maquiagem leve tentava a todo custo avisar a garota de cabelo rosa de que ela estava chamando atenção. Bom, não acho que isso era um problema se tratando da Bianca.

— Ei, o que você está olhando? – outra integrante do grupo me encarou, franzindo as sobrancelhas.

— N-Nada. – movi a cabeça negativamente.

Pensei ser a hora certa para sair de perto, mas Bianca enfim notou minha presença. Sua face se iluminou por um instante e ela correu em minha direção.

— Nathan, só você para me animar! – fez uma expressão manhosa.

— É Norte. – revirei os olhos.

— É, isso. – ela torceu o nariz. – Norte, só você para me animar! – repetiu.

— O que houve? – forcei um tom simpático. Tive medo de dar a entender que queria fugir, já que todas as garotas do grupo me encaravam cheias de raiva, rodeando a mim e sua líder.

Um cheiro extremamente doce invadiu minhas narinas, possivelmente uma mistura do perfume e condicionador de todas aquelas meninas. Cobri meu nariz antes que eu inalasse mais do que o recomendado. Pequenas lágrimas se formaram em meus olhos conforme a vontade de espirrar se tornava maior.

— Por favor, se afasta. – tentei murmurar, esforçando-me para manter a boca e o nariz cobertos.

Bianca franziu o cenho como se eu tivesse xingado sua mãe ou algo parecido. Ela empinou o queixo e me deu as costas em um gesto mimado, batendo os cabelos em meu rosto.

Meu corpo agiu de maneira automática, os braços foram para trás e o torso para frente, lançando uma curta rajada de fogo na líder à minha frente. Não tive muito tempo de raciocinar, pois Bianca gritava exageradamente segurando suas madeixas chamuscadas.

— O que você fez?! – ela e as outras gritaram de modo esganiçado.

Ah, droga.

— D-Desculpe, não foi de propósito! – paralisei no lugar. – Sério, eu juro que...

— CHEGA! As Super Gatinhas não vão gravar nenhum vídeo hoje! – Bianca berrou histérica. – Ah, e você e sua amiguinha NEM PENSEM em entrar no meu grupo! – apontou para mim de maneira acusadora.

— Minha amiguinha? Quê? – arregalei os olhos e recuei alguns passos, apavorado por seus gritos exagerados.

— E não se faz de sonso não! – Bianca saiu pisando fundo e balançando o indicador acima da cabeça.

As outras garotas praticamente rosnaram para mim, exceto uma que usava um rabo-de-cavalo na lateral da cabeça. Ela pareceu receosa em repetir as ações das outras e apenas deixou o local de cabeça baixa.

Fiz uma nota mental de que eu estava definitivamente expulso de dois grupos sem ao menos ter cogitado a ideia de entrar neles.

Faltando poucos minutos para o término do intervalo, fui ao banheiro e tive a certeza de quase arrancar meu nariz fora para limpar qualquer vestígio de perfume. Puxei algumas toalhas de papel no dispenser acima da pia, notando que havia algo escrito em uma delas com caneta permanente.

“Quando todas as opções acabarem, você ainda pode ser um rebelde.”

Sem cerimônias, amassei aquilo e joguei na lixeira. A maneira da União Rebelde recrutar novos membros era igual político em época de reeleição passando na sua rua com carreata. Eu não vou apoiar a sua causa só porque você me encheu o saco.

Respirei fundo e me preparei para as próximas aulas. As quais, obviamente, foram um fracasso.

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Fui o último a restar na sala de geografia, pois fiquei arrumando vagamente minha mochila. Bocejei exageradamente, estava mais cansado do que nunca. Já tive muitos primeiros dias de aula, mas nenhum se comparava ao ringue de luta que foi o da API.

— Ora, tu estás aqui! – escutei um sotaque português.

Miguel apoiava-se no batente da porta, arfando levemente e segurando alguns papéis. Ele tinha uma péssima expressão de exaustão, não que eu estivesse na posição de julgá-lo.

— Tu não me entregastes sua grade de aulas, Norte. – ele ajeitou sua postura e caminhou ao meu encontro.

— Eu… Esqueci. – cerrei os dentes e desviei o olhar.

— Terás de fazer uma aula extra agora para conseguires a presença de hoje. – Miguel me entregou um dos papéis que segurava.

Li brevemente o conteúdo, registrando que deveria ir para a sala de recuperação no final do corredor. Puxei o envelope pardo de minha mochila e o entreguei para o rapaz.

— Tu estás bem? – ele perguntou afinal. O fitei sem reação. – P-Perdoe a intromissão! – arregalou os olhos. – É que, vejamos, tu pareces chateado.

— Experimente chamuscar tudo quando espirra. – fechei o zíper e joguei uma das alças da mochila no ombro. – Não é tão legal quanto parece.

— Eu soube do que aconteceu nas aulas. – Miguel pigarreou constrangido. – Não é culpa tua. Quero dizer, não completamente. Q-Quero dizer… Céus, perdão. – desviou o olhar. – É de nossa r-responsabilidade. – encolheu os ombros.

Eu entendi o que o estagiário quis dizer. Apesar dos olhares tortos dos professores, não era como se pudessem me punir por ser eu. Mesmo assim, não era legal sentir o peso das reprovações em meus ombros.

— É algo inédito. – ele esfregou seu braço. – Vais se acostumar. Tente ingressar em algum grupo, creio que tu se sentirás melhor.

Reconheci que Miguel estava tentando ser legal. Dei um pequeno sorriso e agradeci, ainda que eu soubesse que não seguiria seu conselho. Saímos da sala e nos despedimos ao ir para direções opostas.

Bati levemente na porta entreaberta da recuperação, a madeira de cor azul claro moveu-se para frente em um rangido, revelando seu interior parcialmente vazio. Sentada em uma das carteiras, a garota de coques laterais escrevia calmamente em um caderno e mantinha uma feição despreocupada enquanto a brisa batia em sua franja.

Sua mão parou de se mexer e seu rosto mobilizou-se ao notar minha presença, ela fez uma pequena expressão de surpresa, mas o ambiente continuou mudo. Abaixei a cabeça e me sentei na primeira carteira que vi, permanecendo distante de Yara. Havia apenas nós na sala de recuperação onde as anotações na lousa nos mandavam fazer um resumo das aulas que participamos durante o dia.

Relutante, retirei um dos cadernos que havia acabado de guardar e bati a caneta nas linhas, pensando em como começar a relatar meu fatídico dia.

— Não entregou sua grade de aulas, bobão? – Yara quebrou o silêncio em um tom de tédio.

— Você não pode falar muito de mim, bobona. – não me dei o trabalho de encará-la, optei por focar em minha tarefa. – Fomos os únicos irresponsáveis que precisaram vir para a recuperação?

— É o que parece. A menos que alguém tenha o poder de ficar invisível. – ela respondeu sarcástica.

— Não, isso seria útil demais. – bati a ponta da tampa da caneta no queixo, reflexivo.

— Tem razão, me esqueci que essa é a API, abreviação de... – Yara comentou.

— ...Academia de Poderes Inúteis. – falamos ao mesmo tempo.

Nos entreolhamos automaticamente, as sobrancelhas franzidas e os dentes cerrados. Todavia, daquela vez, diferente das outras, suavizamos nossas expressões, transformando nossas carrancas em risos contidos.

Eu não sabia que precisava tanto de uma risada até aquele momento.

Notas finais
Quase que a Yara não aparece nesse capítulo, hein? E o título da história não podia ter saído da boca de outras pessoas, senão esses dois, né? Próximo capítulo (22/05): A maldição do líder Nos vemos lá, beijos. —Creeper.