Notas iniciais
Hey! Aproveitando que a palavra da semana foi "cringe", trouxe um capítulo bem vergonhoso para vocês XD Boa leitura!

Dentre todas as coisas no mundo, aquilo na bandeja estava longe de se parecer com biscoitos. Pareciam mais massinhas de modelar que derreteram com a radiação de algum micro-ondas velho.

Nós quatro encaramos o resultado culinário de Ienaga, incertos do que falar ou, na verdade, sem coragem para dizer o quanto aqueles biscoitos não eram comestíveis.

— Vamos lá, não podem estar tão ruins. – a líder agitou a mão e deu uma risada nervosa.

— É verdade, não podem estar tão ruins. – comentei.

— Obrigada, Nort… – Ienaga se gabou.

— Com certeza estão horríveis. – completei fascinado.

— Para a primeira vez, está bom! – a garota se defendeu, mostrando estar realmente ofendida.

— Está bom para dar dor de barriga em alguém. – Eduardo pegou um dos biscoitos mutantes com um guardanapo e o bateu na bancada, produzindo um som oco. – Mas eu admiro sua tentativa. – afagou os cabelos da amiga com a mão livre.

Ienaga inflou as bochechas e retirou o avental que usava até então, jogando-o em um canto qualquer.

— Localização da vítima? – ela abanou a mão acima dos biscoitos, esfriando-os.

— Vítima? – indaguei temeroso.

Eduardo se locomoveu até a janela, afastou um pouco as cortinas (tomando cuidado para o sol não atingir Ienaga) e observou o exterior do prédio por um instante.

— Está desenhando no jardim. É a hora perfeita. – ele virou-se para nós, sorrindo malicioso.

— Norte, você sabe o que fazer. – a líder me encarou cheia de determinação.

— Na verdade, não sei não. – respondi confuso. Havíamos treinado apenas as patadas que eu poderia receber.

— Vá lá embaixo, ofereça alguns biscoitos e puxe conversa. – Eduardo voltou para a bancada e me entregou duas luvas térmicas de silicone azul.

Os três me fitaram, esperando que eu vestisse as luvas, pegasse a bandeja e saísse contente por estar indo interagir com alguém que não fosse eles. Foi isso que eu imaginei, pelo menos.

Meus dentes se fecharam e tive certeza de que minhas bochechas ficaram salpicadas de vermelho. Não esperava dar aquele tipo de investida tão cedo.

— Podemos tentar outro dia. – desviei o olhar repleto de insegurança. – Esses biscoitos nem são comestíveis. – pigarreei.

— Não é para comer, é para ter uma desculpa para se aproximar. – Eduardo mostrou a língua e Ienaga protestou quanto ao “não é para comer”.

Respirei fundo algumas vezes, formulando em minha cabeça cada possibilidade daquilo dar muito errado, que iam desde a garota ter intoxicação alimentar até eu esquecer como se formava uma simples frase e ficar com a língua presa.

— E se eu ficar nervoso? – mordi o lábio inferior.

— Tudo bem ficar nervoso. Só não deixe o nervosismo tomar conta de si. – ele me deu um tapinha nas costas.

— Além de que, o que de mal pode acontecer? – Ienaga deu de ombros e cruzou os braços. – O máximo que você pode receber é um “não”.

— Ou um “não quero falar contigo, vaza”. – Eduardo opinou.

— Ou um “se afaste de mim ou eu chamo a inspetora”. – Yara ingressou na conversa, quebrando o silêncio que vinha cultivando desde que soltei sua mão.

Eles continuaram nessa de “ou” por pelo menos mais um minuto, o suficiente para eu ficar de saco cheio daquela sala. Coloquei as luvas de maneira raivosa e agarrei a bandeja, bufando de descontentamento.

— Vocês não ajudam em nada mesmo! – reclamei de cenho franzido. – Se der errado, é tudo culpa de vocês! – acho que arrebitei o nariz e deixei o local a passos pesados.

Enquanto descia as escadas tendo todo o cuidado do mundo para não derrubar os biscoitos, me peguei refletindo como me meti naquilo. Balancei a cabeça, afastando esse pensamento. Se eu quisesse minha vida normal de volta, nosso grupo precisava crescer e ter voz ativa entre os outros grupos.

Avistei Ana Carolina no final dos degraus, acompanhada de Felipe. Ambos conversavam normalmente, mesmo que o garoto estivesse coberto de penas brancas e cinzentas.

— Oi, Norte! – Ana acenou para mim. – Uau, você quem fez? – apontou para os biscoitos, impressionada.

— Na verdade, não. – respondi sem jeito. Eu poderia oferecer alguns para ela, mas me pareceu ser um crime.

— Posso pegar um? – ela sorriu adoravelmente.

— P-Pode. – afirmei receoso. Esperava que ela não nos processasse por qualquer dano ao seu estômago.

Ana pegou um dos biscoitos, deu uma pequena mordida e mastigou devagar. Seus olhos fechados de um breve prazer arregalaram-se subitamente e as bochechas encheram-se de ar.

— Ei, o que houve? – Felipe franziu as sobrancelhas, preocupado.

— N-Nada. – Ana colocou a mão em frente a boca e tossiu. – São apenas… Exóticos. – pigarreou duas vezes.

Dei um sorriso amarelo sem saber o que fazer ou falar. Deveria agradecer por Ienaga?

— Obrigada. Até amanhã. – Ana exclamou afobada e subiu a escada em pulinhos, provavelmente apressada para cuspir o que comeu.

Felipe subiu atrás dela, as mãos afundadas nos bolsos e a feição séria. Por um segundo, seus olhos esverdeados cruzaram-se com os meus de soslaio e logo voltaram-se a focar na vice-líder. Arrepiei-me dos pés a cabeça, tendo uma sensação terrível.

Ele havia descoberto sobre a invasão em seu quarto? Simplesmente não gostava de mim? Achava que eu havia envenenado Ana Carolina?

Tantas questões me deixaram atordoado e meu corpo entrou em um modo automático, fazendo com que eu chegasse ao jardim mais rápido do que eu esperava. Semicerrei os olhos ao ter contato com o sol e procurei ao redor pelo “meu alvo”.

Deitada na grama brilhante, a garota de rabo-de-cavalo segurava o caderno de desenho acima do rosto, rabiscando-o. Os fones de ouvido saíam de suas orelhas e o fio se emaranhava pelo chão, conectando-se ao celular ao lado do corpo.

Nas proximidades alguns alunos faziam piqueniques, jogavam bola ou apenas conversavam. Olhando daquela maneira parecia um fim de tarde normal em uma escola normal.

Expirei e inspirei buscando pela iniciativa que talvez existisse dentro de mim. Sabia que o resto da União Rebelde possivelmente me espiava através da janela da sala de culinária, coisa que me deixou levemente incomodado.

Eu deveria realmente chegar na garota e oferecer os biscoitos? Isso era no mínimo suspeito, vai. Porém, era ainda mais suspeito ficar parado no meio do jardim segurando uma bandeja de conteúdo mutante.

Amanda levantou o torso, ficando sentada na grama, retirou os fones, fechou o caderno e ergueu os braços em um espreguiço. Arregalei os olhos imaginando que ela sairia dali e eu não teria a menor coragem de segui-la.

Minhas pernas moveram-se sozinhas em sua direção e só consegui parar ao estar em sua frente sem ter nada para dizer.

— Precisa de algo? – ela fez uma expressão confusa.

Fiquei congelado pelo que pareceu ser uma eternidade antes de me lembrar como as palavras saíam da mente para a boca.

— E-Eu… Eu… – resmunguei envergonhado. – Eu sou o Norte. Da União Rebelde. – pareceu certo me apresentar.

Amanda piscou os olhos rapidamente.

— E eu sou a...

— Amanda, eu sei. – soltei automaticamente.

Suas pernas encolheram-se em uma menção de ficar de pé e seu rosto mudou de confuso para preocupado.

“Burro, burro, burro.”, castiguei-me amargamente arrependido.

— N-Não me leve a mal. Sei que é estranho eu chegar aqui sabendo seu nome, mas eu… – senti o rosto ferver. – Só queria te oferecer alguns biscoitos. São de chocolate. – estendi a bandeja de modo endurecido.

“Alguém me mata, por favor.”, mordi o lábio inferior.

A garota não demonstrou nenhuma nova emoção, havia se tornado cautelosa em minha presença. Ponto para ela.

— Estou… Evitando doces, desculpe. – ela respondeu educadamente.

E então eu percebi que teria de jogar baixo. Talvez fosse a pressão causada pelos três pares de olhos a metros de distância que me julgavam na sala de culinária.

— Te entendo, eu também não aceitaria nada da União Rebelde. – dei de ombros, fingindo chateação. Em parte, eu não aceitaria mesmo.

— Não, não é isso, eu realmente não posso comer esses biscoitos. – Amanda moveu a cabeça de um lado para o outro. – Eu sou alérgica a chocolate.

Minha cara foi ao chão. Tive de ter muita força de vontade para não derrubar tudo e sair correndo para me enfiar no quarto e não sair pelos próximos quatro meses.

— Desculpa. – foi o que consegui balbuciar, ainda corroído pelo constrangimento.

— Não tem problema. – ela esboçou um pequeno sorriso. – Eu reparei, você é o garoto que estava no banco naquele dia, né?

Confirmei envergonhado.

— Não queria ter ouvido nada do seu celular. – Amanda ficou de pé. – Desculpa se te deixei sem jeito. – colocou uma mão na cintura.

Neguei como se aquilo já nem importasse, afinal, havia me distraído ao concluir que ela era realmente linda estando frente a frente comigo.

— Bem… – encolhi os ombros. – Pensei em te conhecer melhor e achei bacana perguntar seu poder. Afinal, é o motivo de estarmos aqui. – tentei ser sútil.

Amanda arregalou os olhos e ficou pálida de surpresa, plantando em mim o receio de ter dito algo errado. Quis consertar minha fala, contudo, ela olhou para a esquerda e direita, em guarda.

— Tem alguém em específico querendo saber meu poder. – ela balbuciou. – E se essa pessoa souber, estou ferrada.

Foi então que entendi o que Ienaga quis dizer sobre chantagem e fiquei incomodado por alguém estar no pé de Amanda para saber seu poder. Apesar de que eu não era muito diferente dessa pessoa naquele momento.

— Eu entendo. – isso foi quase mentira. – Caso te console, eu posso espirrar fogo. – dei de ombros.

Sua expressão aliviou-se, formando um pequeno sorriso ao responder:

— Eu sei. A maioria sabe. Você deu trabalho no primeiro dia.

E riu graciosamente, mesmo tirando sarro de mim. Ri junto, não ligando para a vergonha. Eu nem queria saber como as pessoas se referiam a mim, os apelidos e comentários deviam ser horríveis.

— Se eu te contar meu poder, promete guardar segredo? – ela perguntou baixinho.

Juntei o polegar e o indicador e passei pelos lábios como um zíper, desejando mostrar como eu era confiável. A garota respirou fundo, observou os arredores mais uma vez e sussurrou próxima do meu rosto:

— Toda vez que alguém disser “o chão é lava”, isso se torna verdade para mim.

Pisquei os olhos lentamente, refletindo se havia ouvido direito. Sequer pude comentar algo, pois uma figura surgiu atrás da garota, exibindo o mais ladino dos sorrisos.

— Ora, ora, ora… – ele estalou a língua e jogou seus cabelos medianos para trás.

Ao escutar essa voz, Amanda perdeu toda a cor, os olhos faltaram sair do rosto de tão arregalados e o queixo cairia se não estivesse grudado. Ela virou-se de maneira rígida na direção do garoto, completamente incrédula.

— Não, Kaíque, não! – a garota implorou.

— Você achou mesmo que podia esconder seu poder de mim, pingue-pongue? – Kaíque gargalhou vitorioso e colocou as mãos na cintura.

— Por favor, não diga! – Amanda gesticulou desesperada.

Kaíque ergueu as sobrancelhas em um ato presunçoso, aumentou o sorriso e exclamou pausadamente, deliciando-se a cada palavra:

— O chão é lava.

Amanda soltou um grito esganiçado e começou a pular, passando o peso do corpo de uma perna para a outra.

— Cinco… Quatro… – ele contou pausadamente.

Ela olhou de cima para baixo e da esquerda para a direita, provavelmente procurando um local alto e seguro. Nesse desafio, você tinha cinco segundos para deixar o chão e subir em qualquer outra coisa.

— Três…

A garota focou o olhar em mim e praticamente berrou:

— Me segura!

— Não posso! – ergui a bandeja de biscoitos que ocupavam minhas mãos. Confesso que seu desespero estava me afetando.

Ouvi seu grunhido de frustração e observei a aflição com que pulava e verificava todos os cantos possíveis.

— Vem pro papai. – Kaíque abriu os braços.

— Nem morta! – Amanda bradou raivosa.

— Dois…

A expressão arrogante de Kaíque me irritou profundamente. Bufei e em uma dose de adrenalina, arremessei a bandeja no chão e rapidamente posicionei uma das mãos atrás das pernas e a outra nas costas de Amanda, puxando-a do chão e levantando-a no colo.

— Um. – Kaíque terminou assim que os pés da garota encontravam-se longe da grama. – Ha, sortuda. – deu um sorriso torto.

— Qual é a sua?! – gritei furioso. – Queria que ela se machucasse?!

— Eu apenas queria que ela aceitasse virar líder. – ele cruzou os braços e virou o rosto.

— Bastava tocar nela como tocou em mim! – rosnei.

— Certo fator me impede de tocá-la diretamente. Mas sabendo do poder dela, eu tinha alguma vantagem. – Kaíque suspirou decepcionado e deu de ombros.

— Eu não quero mais ficar no seu grupo. – Amanda havia passado os braços por meu pescoço.

— E vai continuar migrando do Super Gatinhas para o Nova Era? – o garoto desdenhou. – Boa sorte então, bolinha de pingue-pongue. – deu as costas e caminhou em direção ao prédio. – Ou eu deveria te chamar de Lavagirl de agora em diante? – nos olhou por cima do ombro, sorrindo cinicamente.

— Argh, que irritante. – Amanda murmurou, apertando-me ainda mais.

Tive receio de colocar em palavras o que estava em minha mente, todavia, foi mais forte do que eu:

— Quanto tempo dura isso?

Eu era fraco, meus braços doíam facilmente.

— Só mais alguns segundos. – ela olhou para o chão. Me perguntei se ela realmente via a lava.

O rubor espalhou-se das bochechas para as orelhas, me fazendo dar respiradas fundas enquanto o tempo parecia não passar. Amanda tinha um cheiro doce que eu temia ficar enjoativo quanto mais a segurasse.

— Estou atrapalhando? – uma voz masculina soou na dianteira.

Girei a cabeça em um movimento temeroso, vendo surgir em meu campo de visão um garoto alto de cabelos e olhos no mesmo tom que os da garota em meus braços.

— Victor! – ela gritou pasma.

— Qual é, tá gostando de segurar minha irmã? – ele encarou-me, a feição ameaçadora.

— Sua irmã?! – fiquei boquiaberto. Tudo bem, eles eram a cópia idêntica um do outro, mas eu merecia um momento de dramatização.

— Sim, tire as mãozinhas dela. Agora. – Victor aproximou-se, envolvendo-nos em uma nuvem de tensão.

Nem pensei, apenas fiz.

— Você quem manda. – afastei as mãos do corpo de Amanda, soltando-a na grama de uma vez só.

A garota gemeu de dor ao atingir o chão e esfregou sua cintura enquanto murmurava algo sobre “ainda bem que o efeito passou”. Cerrei os dentes, percebendo minha burrada.

— Você tá brincando, né, moleque?! – Victor avançou em mim e eu automaticamente engoli em seco.

— Victor, você quem pediu. – Amanda levantou-se incomodada e se colocou entre o irmão e eu. – Ele estava só me ajudando. Kaíque descobriu meu poder.

Victor parou onde estava, a expressão em seu rosto tornou-se mais dura do que eu achei ser possível e após um longo suspiro de raiva, concluiu:

— Agora eu vou ter que te proteger mais ainda.

As bochechas de Amanda inflaram-se avermelhadas, as mãos delicadas se fecharam e ela retrucou em disparada:

— Não preciso de proteção.

— A tia Vivi me mandou cuidar de você e é isso que eu vou fazer! – ele espalmou a mão no próprio peito, imponente.

— Sei me cuidar sozinha, caramba! – a garota rangeu os dentes, não se deixando abalar.

— Não é o que parece. – Victor apontou para mim, o desprezo notável.

Meu corpo ficou estático. Se brigas familiares já são ruins, imagine quando a família nem é sua.

— Você sabe que eu teria subido em alguma árvore se tivesse uma por perto. – Amanda defendeu-se.

— É, mas preferiu subir em um garoto. – o maior cruzou os braços.

Torci a boca desejando ter o poder de me camuflar e fazer parte do jardim. A árvore que deitei embaixo na hora do almoço estava longe demais para que eu pudesse me esconder atrás dela.

— Você é um idiota! – Amanda berrou e os olhos marejados se semicerraram.

— E você é uma idiota ao quadrado! – Victor gritou de volta.

Ela tentou dizer algo, porém, contentou-se em soltar um grunhido de raiva, dar as costas para nós dois e sair marchando com o rabo-de-cavalo balançando a cada passo que afundava na grama.

— Viu o que você fez? – Victor encarou-me furioso.

— Eu?! – arregalei os olhos, indignado. – Foi você quem gritou com ela e a chamou de idiota. – acusei franzindo as sobrancelhas.

— Eu vou te dar um pequeno aviso. – ele pousou a mão em meu ombro, apertando-o fortemente. – Fica. Longe. Da. Minha. Irmã. – e sorriu como se tivesse me dito “bom dia”.

Meu ombro foi liberto em um grosseiro empurrão, Victor enfiou as mãos nos bolsos, fez um muxoxo e retirou-se na direção oposta à de Amanda. Devo ter ficado com cara de idiota, parado no meio do jardim enquanto os outros estudantes passavam, me olhavam de soslaio e depois reparavam na bandeja e nos restos de biscoito na grama.

Balancei a cabeça sentindo-a zumbir e doer. Quando eu tentava acertar em algo, acabava metido em mais problemas. Recolhi a bandeja e os biscoitos, retornando derrotado para a sala de culinária.

Ao pisar no local, vi a rapidez com que os membros da União Rebelde afastaram-se da janela e fingiram estar fazendo outras coisas, tipo olhar o chão ou falar sobre a cor das cortinas. Ienaga escondeu um binóculo atrás de si e me recebeu:

— Nosso soldado voltou!

Adquiri uma expressão fechada de pura frustração e desgosto.

— Podem parar de fingir que não estavam bisbilhotando. – joguei a bandeja na pia, ouvindo-a tilintar.

— Aquilo foi péssimo. – Yara afirmou.

— E olha que nos contentamos apenas com a leitura labial. – Eduardo sorriu sem jeito.

— Eu não esperava que ela tivesse um irmão maluco. – bufei e deixei meu peso cair em uma banqueta.

— É, nem a gente. – o vice checou seu celular. – O Informante acabou de me responder. Disse que não se sabe muito sobre os gêmeos Dias. A única coisa relevante é que o Kaíque não pode tocar na Amanda para passar a liderança, já que o Victor o jurou de morte se ele fizer isso.

Kaíque era esperto, contudo, acho que não existia muita esperteza quando alguém de 15 anos com quase 1,75cm te ameaçava de morte.

— Se bem que isso pode ser vantajoso para nós. Caso consigamos trazer Amanda para o nosso lado, Victor virá junto. É tipo uma promoção, pague um, leve dois. – Ienaga ergueu o dedo indicador e o médio.

Gemi de cansaço e resmunguei:

— Chega deles por hoje.

Por algum motivo (e eu sabia qual), não queria Victor no mesmo grupo, ambiente e causa que eu. Os cinco minutos que passei com ele no jardim foram mais que o suficiente.

— Mudando de pato para ganso. – Yara ergueu a mão, o rosto neutro como de costume. – Quem é mesmo esse Informante?

Ienaga e Eduardo sempre se olhavam antes de compartilharem algo conosco. E daquela vez não foi diferente.

— Como o nome sugere, é quem nos fornece informações. – a líder descartou os biscoitos no lixo, tendo uma careta no rosto. – Perguntamos a ele se poderíamos apresentá-lo a vocês e…

— Ele não quis. – Eduardo vestiu o avental e começou a lavar a bandeja. – Disse que sua identidade precisa ser mantida em segredo.

— E vocês não vão nos contar quem é? – a garota indagou.

— Não podemos perder o benefício das informações. – Ienaga argumentou. – Então, vocês terão de ficar na dúvida até que ele decida se revelar. – bateu uma única palma.

Yara assentiu lentamente, esboçando não estar completamente satisfeita ou convencida. Minha cabeça doía tanto que eu sequer liguei para isso, aquilo era assunto da Ienaga e do Eduardo.

— Acho que podemos encerrar o dia. – Eduardo chacoalhou as mãos molhadas para secá-las.

Coloquei os pés no chão preguiçosamente, parando no lugar ao escutar uma voz feminina em algum ponto atrás de mim:

— Ainda não!

Movi a cabeça sobre o ombro, reparando na garota ofegante que usava o batente da porta para se apoiar. Os cabelos azuis escuros estavam um pouco bagunçados e seu uniforme havia sido trocado por uma blusa verde limão e uma jardineira jeans desbotada.

— Érica? – Yara foi a primeira a se pronunciar, surpresa.

— Me dê um tempo para recuperar o ar, okay? – Érica disse entre as arfadas. – Foi difícil achar vocês. – desceu as mãos para os joelhos cheios de curativos e eu me perguntei se os machucados seriam consequências de seu poder.

De repente, nossa atenção voltou-se para o borbulhar que ecoou da pia e os respingos esverdeados que espalharam-se pela superfície de inox, assustando a líder e o vice.

— O que houve? – Ienaga aproximou-se da torneira.

— Acho que entupiu. – Eduardo foi verificar o ralo.

Assim que o garoto moveu o braço para retirar a tampa, uma rajada de água suja foi ejetada pelo ralo diretamente no rosto dos dois, além de estar acompanhada de um barulho entrecortado. Tive de cobrir minha própria boca para conter a vontade de vomitar.

A líder tossiu escandalosamente e passou a mão pela face, empurrando o excesso de água para o chão. Já Eduardo permaneceu imóvel, piscando gradativamente e deixando que os pingos escorressem e se acumulassem na ponta de seu queixo.

— Vão nos matar se entupirmos o cano. – Ienaga comentou com o maxilar tenso.

— Ah, vão. – ele concordou estático.

— Então… Conserte. – ela mandou.

— Sinto em te dizer que uma das minhas qualidades não é ser encanador. – Eduardo respondeu calmamente.

Alguém puxou o ar em um tom assustado. Era Érica, que tampava a boca com as mãos e semicerrava os olhos parecendo arrependida.

— É minha culpa! É a onda de azar, coisas ruins acontecem onde eu chego. – murmurou chorosa.

— Então, minha cara. – Ienaga puxou a gola da camiseta para enxugar o rosto. Ao terminar, caminhou até a garota que encolheu-se toda. – Você tem um baita de um poder! – deu um sorriso de canto.

Érica arregalou os olhos e as mãos deslizaram para os lados do corpo. Seus lábios abriram-se e fecharam-se sem emitir nenhum som.

— N-Nunca me disseram isso. – confessou abobada, as íris verdes ganhando um brilho diferente.

— Saiba que ficaremos muito felizes em te receber na União Rebelde. – Ienaga estendeu a mão. – Nós vamos cuidar de você e dessa onda.

A pia soltou outro som engasgado e mais alguns respingos espalharam-se pelas paredes.

— E do ralo. – a líder torceu o nariz.

Érica ergueu a mão em uma menção de apertar a da líder, todavia, hesitou e recolheu-a contida. Olhou para além do ombro da garota em sua frente, enxergando Yara.

— Vocês têm certeza de que me querem no grupo? Mesmo que eu cause problemas? – perguntou envergonhada, os olhos tornando-se marejados.

Suspirei cansado e coloquei-me ao lado de Yara, dando-lhe uma cotovelada discreta.

— Acho que a União Rebelde consegue se meter em problemas por si só. – cocei a nuca.

Olhei de soslaio para a garota de coques, vendo-a abaixar a cabeça e apertar as mãos atrás das costas. Foi uma das poucas vezes em que pude perceber o que ela sentia.

— Meu pai diz que… – Yara resmungou hesitante. – Não há nada que não se arrume com fita adesiva e cuspe. – disse baixinho, porém, em um tom de incentivo que eu nunca ouvira antes.

Esbocei um pequeno sorriso de orgulho por Yara estar sendo sincera.

— Você é completamente bem-vinda no nosso grupo. – Eduardo mandou-lhe uma piscadela, tentando a todo custo conter os borbulhos da pia com um pano de prato pressionado no ralo.

Érica olhou para o rosto de cada um, os lábios tremeram e transformaram-se em um sorriso singelo. Inesperadamente, lágrimas pesadas rolaram por suas bochechas rosadas.

— Érica… – Yara deu um passo à frente, a mão aberta pronta para tocar a garota, mesmo que distante.

— Não, está tudo bem. – ela enxugou os olhos com as pontas dos dedos envolvidos por mais curativos. – Eu só estou feliz por finalmente ser aceita.

Notas finais
Quem se lembra do challenge do The Floor Is Lava? Vimos que a Amanda tem um irmão gêmeo, pague um leve dois. Érica oficialmente rebelde ou ainda não? E esse Informante, quem será? Espero que tenham gostado! Nos vemos no próximo capítulo (03/07): Suor que vira bebidas? Beijos. —Creeper.