Academia de Poderes Inúteis

29 Ela tem um segredo, mas eu não lembro


Notas iniciais
Postando sábado, que maravilha! Espero que gostem!

A única coisa que escutávamos eram os ruídos da floresta. Devia ter se passado dez minutos desde que paramos ali e nos sentamos nas rochas para esperarmos até que alguém sentisse nossa falta. Vez ou outra, tentei forçar a vista para enxergar um caminho ou uma bandeira escondida, mas não havia nada.

— Acha que eles vão demorar? –‌ Milena quebrou o silêncio entre nós. Ela abraçava suas pernas e seu olhar parecia distante.

— Pelo menos até acabarem o jogo. Ou até alguém resolver passar por aqui. –‌ apontei a lanterna para cima e a desliguei e liguei repetidas vezes, mandando um sinal.

Milena apertou sua lanterna com certo receio, respirou fundo e a desligou. A encarei de maneira curiosa, me perguntando em que momento ela voltaria a acender a luz. O que não aconteceu, então resolvi desligar a minha também e sondá-la.

— Qual o problema agora? –‌ inclinei a cabeça para cima, olhando para as copas das árvores.

— Agora? –‌ ela sussurrou um tanto indignada.

— É, você parece ter bastante problemas. –‌ comentei.

De repente, alguma coisa vinda do céu acertou minha bochecha. Em seguida, minha testa. Depois, meu nariz. Era frio e cortante.

O som familiar de chuva ecoou por toda a floresta, juntamente a uma queda de pingos pesados que fizeram nossas peles pinicarem. Aparentemente, chover no dia do acampamento virou uma tradição.

Milena encolheu-se ainda mais e afundou o rosto na gola de sua jaqueta, o cenho franzido e o nariz torcido. Cruzei os braços, sentindo o tecido úmido grudar-se no corpo enquanto eu pedia mentalmente para que aquilo não resultasse em uma gripe.

— Ei, Norte. –‌ Milena ergueu a cabeça e virou-se para mim. –‌ Você quer saber qual o meu poder?

Esperei um minuto para responder, analisando a expressão séria da garota. Uma gota de água escorreu desde meu cabelo até a ponta gelada de meu nariz e caiu na terra, sendo imediatamente absorvida.

— O poder que você não conta para ninguém? –‌ arqueei uma sobrancelha.

— Sim. –‌ ela afirmou e estendeu-me a mão aberta. –‌ Basta darmos um aperto de mão. Por favor, eu quero sair logo dessa chuva.

Motivado e intrigado pela sua última frase, apertei sua pequena e fria mão, abandonando minha desconfiança.

A primeira coisa que percebi foi que o barulho da chuva sumiu. Na verdade, não havia som nenhum, o silêncio reinava completamente. Já a segunda coisa que percebi foi que não estávamos mais na floresta e sim em um cenário branco, sem começo e nem fim, marcado por diversas portas de variados tamanhos e modelos.

Demorou um pouco para que meus olhos se acostumassem com a claridade daquele lugar e assim que o fiz, pude enxergar algumas coisas além das portas. Coisas pequenas, grandes e médias que flutuavam lentamente, ora aproximando-se de nós e ora afastando-se.

— O-Onde nós estamos? –‌ perguntei boquiaberto quando enfim me lembrei de falar.

— Dentro do meu poder. –‌ Milena assentiu orgulhosa.

— Isso… –‌ engoli em seco. –‌ É gigante. –‌ olhei ao redor, pasmo. –‌ Como pode ter um poder assim? –‌ fitei a garota, impressionado.

— É por isso que eu estava escondendo. –‌ ela disse duramente e seu aperto de mão intensificou-se.

Por instinto, tentei soltar a mão da garota, todavia, ela me segurou firmemente.

— Não pode soltar agora. –‌ alertou de olhos arregalados. –‌ Se soltar, vamos voltar para a floresta. E… Eu ainda preciso te dizer algumas coisas.

Avaliei Milena de cima a baixo e depois voltei a minha atenção para o espaço em que estávamos, desacreditado de que alguém daquele tamanho pudesse ter um poder tão grande.

Aquela habilidade destoava completamente da minha e dos outros. Não parecia ser inútil à primeira vista ou sequer irrelevante. Havia muito significado ali.

Respirei fundo e voltei-me para a garota que exalava ansiedade.

— Primeiro, me diga exatamente… Que lugar é esse? –‌ sibilei.

— Eu chamo de corredor, já que tem várias portas. –‌ Milena encolheu os ombros. –‌ Não entendia esse lugar até ver o poder do Eduardo. Percebi que é algo maior do que eu pensava.

— O poder do Eduardo? –‌ questionei confuso.

— Está vendo essas coisas flutuando? –‌ ela girou a cabeça, ficou nas pontas dos pés e esticou o braço livre para pegar algo.

Acompanhei com o olhar, vendo-a virar o pequeno objeto quadrado para mim, revelando ser uma foto polaroid. Na imagem havia apenas um amontoado de roupas, como se quem estivesse as vestindo fosse invisível. Ao lado, Eduardo fazia um biquinho para beijar alguém.

— Espera, essa é… –‌ senti um estalo na cabeça.

— A foto que o Eduardo fez desaparecer, ela veio parar aqui. Ienaga não aparece nela por causa da desvantagem vampírica. – Milena balançou a cabeça e‌ soltou-a para que voltasse a flutuar. –‌ O poder dele não deixa que as coisas retornem, não é?

Afirmei incrédulo.

— O que me faz pensar que… Os poderes não são inúteis, são incompletos. –‌ Milena exclamou.

Um zumbido tomou conta de meus ouvidos e eu recuei alguns passos.

— Incompletos? –‌ balbuciei perplexo.

— Sim, como se vocês tivessem apenas metade de seus poderes. E a outra metade está aqui no corredor dentro de cada uma dessas portas. –‌ seus olhos brilharam. –‌ Você só faz fogo quando espirra, né?

— Exatamente. –‌ segurei meu queixo com a mão livre, refletindo.

— Provavelmente, você pode fazer fogo quando quiser. Só precisa encontrar a outra metade do seu poder. –‌ ela gesticulou.

— E isso é possível? –‌ franzi levemente as sobrancelhas.

— Hã… –‌ a pequena ruborizou. –‌ Eu tentei levar aquela foto para fora, mas não consegui. Acho que apenas se pode colocar coisas no corredor e não tirar. –‌ esfregou seus cabelos.

— Imaginei. –‌ expirei derrotado e inclinei a cabeça para trás.

Eram informações importantes que eu precisava registrar bem. A aluna nova tinha a metade dos poderes de todos guardada dentro do seu, inacreditável.

Respirei fundo, concluindo que havia armazenado coisa o suficiente, então observei Milena.

— Por que decidiu mostrar seu poder para mim? –‌ indaguei sério.

— Porque eu confio em você, ué.

— Mas por que justo em mim? –‌ fiquei indignado, jurava que ela não ia com a minha cara.

— Ah, droga! –‌ Milena grunhiu. –‌ É porque você é meu irmão! –‌ falou irritada.

— Quê?! –‌ soltei um gritinho esganiçado. –‌ V-Você tá maluca? Eu só tenho uma irmã e ela é uma anta de cabelo azul! –‌ mexi em meus próprios cabelos.

Milena abaixou a cabeça, expirou e inspirou antes de dizer aquela frase certeira:

— Você não conhece o seu pai, não é?

Eu não queria que aquilo tivesse me incomodado tanto, porém, suas palavras perfuraram meu peito e o receio tomou conta de mim. As únicas pessoas que sabiam sobre aquilo eram minha família, alguns amigos da antiga escola e Yara.

— Como é que você sabe? –‌ torci a boca.

— Sabe o nome dele?

— Sei, é…

— Rodrigo Alves. –‌ falamos em uníssono.

Arregalei os olhos e recuei minimamente mais um passo. Toda aquela situação estava formando um nó gigantesco em meu estômago.

— Eu sou filha do Rodrigo Alves. –‌ Milena anunciou firmemente. –‌ E… Bem, eu estive te procurando, já que você é meu irmão.

— E como tem certeza de que sou eu? Existem vários Rodrigos Alves por aí. –‌ argumentei, estranhamente na defensiva.

— Minha tia paterna, a Neusa, foi amiga da sua mãe, Juliana. Esse é o nome dela, certo?

A convicção de suas respostas começava a me assustar.

— Tia Neusa ficou sabendo quando sua mãe foi para o norte. E meses depois descobriu que esse era o seu nome. Ela e meu pai discutiram para que ele te assumisse, só que… –‌ ela interrompeu-se ao entender sobre o que estava falando.

Se passou um minuto de um silêncio constrangedor comigo remoendo aquela história de irmã e com Milena pigarreando para disfarçar.

— O que eu quero dizer é que quando eu manifestei meu poder, mamãe tentou me manter em casa para que ninguém me fizesse mal, mais do que já mantinha, mas tia Neusa me contou toda essa história, dizendo que eu tinha um irmão na Academia de Progresso Ideal. E com um nome desses, seria fácil te achar.

— Quer dizer que você se matriculou na API apenas para me achar? –‌ pisquei os olhos lentamente, atônito.

— Eu fui criada sozinha por todos esses anos, nunca tive amigos próximos ou primos. Saber que eu tinha um irmão na API foi a melhor coisa do mundo, porque finalmente eu teria com quem brincar e conversar. –‌ Milena desabafou, as bochechas vermelhas e os olhos marejados.

— Espera… E o que o Rodrigo acha disso? –‌ perguntei incerto.

— Eu acabei não contando para os meus pais sobre saber da sua existência. Só disse que eu queria estar onde todos eram iguais a mim. E a tia Neusa me ajudou a convencê-los, claro. –‌ a garota deu um sorriso fraco.

Minhas pernas fraquejaram e meu corpo foi ao chão, caindo sentado. Milena foi puxada pelo impulso, agachando-se ao meu lado e olhando-me preocupada.

Minha boca estava seca e parecia haver um martelo batendo sem parar dentro da minha cabeça. A vista embaçou-se por alguns segundos e eu fechei os olhos para me recuperar.

— Quer dizer que somos realmente irmãos? Tipo, meios-irmãos? –‌ indaguei baixinho.

— Você achou isso ruim, não é? –‌ a pequena soou magoada. –‌ É por que eu sou filha do Rodrigo?

Abri os olhos, ignorando o embrulho em meu estômago e a dor de cabeça. Olhando para aquele rosto a ponto de chorar, soltei uma risada abafada e exclamei sincero:

— Você é você. E o Rodrigo é o Rodrigo. Só é novidade para mim saber que tenho outra irmã.

Ao falar isso em voz alta, foi que a ficha caiu totalmente. Arregalei os olhos e fiquei paralisado com a mesma expressão por pelo menos cinco minutos, engolindo aquela cachoeira de informações através de um funil. Eu tinha uma meia-irmã por parte de pai que tinha um poder diferente de tudo o que eu já havia visto.

— Eu não tô bem não. –‌ fechei os olhos outra vez, sentindo a pressão cair.

— Eu sabia, ainda não era hora de ter contado. –‌ Milena choramingou. –‌ Escuta, nós vamos sair do corredor e você vai esquecer tudo, okay?

— Olha, não tem como eu esquecer isso não. –‌ murmurei.

— Tem. Toda pessoa que entra aqui esquece o que viu ou ouviu quando saem. Por isso tantos testes do R.C.E. –‌ ela apertou minha mão, o suor acumulando-se em nossas palmas. –‌ Foi bem difícil de provar que eu tinha um poder por causa disso. –‌ resmungou.

Minha reação foi quase automática.

— Não! Eu não quero esquecer isso! Você me disse coisas muito importantes e… –‌ falei rapidamente, embolando as palavras.

— Desculpa, eu apressei as coisas. Quem sabe outro dia, irmãozinho? –‌ Milena forçou um sorriso e soltou minha mão.

Estava chuviscando quando eu abri meus olhos e deparei-me com a escuridão da noite e o barulho das gotas chocando-se contra as folhas das árvores. Meu peito subia e descia por causa da respiração ofegante e minha mão vazia e estendida me preencheu de dúvidas.

— Aconteceu alguma coisa? –‌ virei-me para Milena, confuso.

— Você cochilou. –‌ ela falou de queixo erguido, pegou sua lanterna e começou a ligá-la e desligá-la várias vezes. –‌ Francamente, debaixo dessa chuva. –‌ balançou a cabeça com um ar de desaprovação.

— Tsc. –‌ cerrei os dentes e repeti sua ação com a lanterna.

Um som se sobrepôs ao da chuva, assemelhando-se ao farfalhar das folhas ao serem afastadas e pisadas. Assim que o ruido aumentou, duas figuras surgiram em nossa frente, igualmente molhadas e ofegantes.

— Eu falei para vermos o que eram aquelas luzes piscando! –‌ Ienaga passou o antebraço pela testa, enxugando-a.

— Bem na hora. –‌ Milena balbuciou e soltou um suspiro de alívio.

— Que medo desse lugar, ainda bem que marcamos o caminho ou nunca saberíamos voltar. –‌ Érica segurava um novelo de lã azul escuro pela metade cujo fio estendia-se pela rota de onde elas vieram.

— Totalmente fora de mão. Mas se corrermos, acho que conseguimos achar as outras bandeiras. –‌ a líder guardou duas bandeiras vermelhas dentro da jaqueta. –‌ Vamos?

Outro farfalhar interrompeu o barulho da chuva, vindo da direção oposta à de Ienaga e Érica. À nossa esquerda, mais duas meninas encharcadas e repletas de cipós nos alcançaram.

— Ufa, graças a Deus são vocês. –‌ Amanda arfou e apoiou as mãos nos joelhos.

— Você tem um péssimo senso de direção. –‌ Yara arrancou os cipós e os jogou para longe. –‌ Pelo menos achamos uma bandeira.

— Você era mais gentil quando estávamos perdidas. –‌ a gêmea choramingou agitando um pedaço de pano vermelho.

— Muito bem, quem mais falta? –‌ Ienaga colocou as mãos na cintura.

Não se passou nem um segundo desde a fala da líder, dois garotos cobertos de lama surgiram do meio de alguns arbustos, berrando um com o outro.

— Ah, o timing perfeito. –‌ Ienaga falou satisfeita.

— Me lembre de nunca mais confiar em você. –‌ Eduardo reclamou retirando o excesso de sujeira de sua roupa. –‌ Ah, espera, eu já não confiava.

— Foi culpa sua por ter se agarrado naquele galho podre. –‌ Victor rebateu estressado e usou a bandeira para limpar o rosto. –‌ Eu tentei te segurar, tá?!

— Duas, três, quatro… –‌ Ienaga contou ao apontar para cada bandeira. –‌ Ei, galera, deixem as brigas para depois que vencermos, okay? –‌ virou Érica para o caminho de onde vieram, incentivando-a a seguir o fio de lã.

Quando enfim nos lembramos que estávamos no meio de uma caça à bandeira, ajeitamos nossas posturas e rapidamente fomos atrás de Érica que afobadamente voltava o fio para o novelo. Mesmo debaixo do chuvisco, fomos tocados pela agitação da líder (o que era raro), até mesmo ousando correr naquela lama toda. Acho que todo o estresse que passamos merecia ser recompensado com um pouco de diversão.

Em meio a um grito de animação, alguém que estava ao meu lado escorregou. Automaticamente, agarrei o braço de quem quer que fosse, puxando-o de volta para cima. Para minha surpresa, tratava-se de Amanda. Imaginei que ela fosse desviar o olhar e continuar a trilha, todavia, ela sorriu e agradeceu.

— Desculpa ter te evitado sendo que a culpa foi minha desde o início. Sabe, sobre aquilo que aconteceu aqui no ano passado. –‌ ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. –‌ Um certo alguém me ajudou a perceber que eu estava sendo idiota. –‌ riu envergonhada.

Confesso que isso me pegou desprevenido. Inconscientemente, abri um sorriso e dei de ombros, feliz pela Amanda voltar a ser ela mesma. Ou quase, porque eu ainda sentia que havia algo de errado e não era apenas sobre mim.

— Então… Amigos? –‌ lhe estendi o punho cerrado.

— Amigos. –‌ Amanda assentiu e tocou meu punho.

Pelo que minha lanterna pode iluminar, a garota estava ruborizada. Ela escondeu um sorriso de canto e voltou a correr atrás de Érica, abandonando-me. Por um momento, me peguei pensando em quem seria o certo alguém que a ajudou.

— Vai se perder de novo se ficar parado. – essa frase veio acompanhada de um tapa em minha nuca.

Então, enxerguei a garota de coques me ultrapassando. Como se eu fosse deixar ela ir na frente!

>>>

Perdemos.

Mesmo com as quatro bandeiras, chegamos tarde demais. O Deslocados havia vencido por ter chegado dez minutos antes de nós. Na verdade, fomos os últimos a voltarmos para o acampamento.

Os vencedores ganharam bombons especiais como cortesia do Alberto, que sequer estava lá para entregá-los, terceirizando a tarefa para Miguel. Acho que velhos ricos não gostavam de chuva.

— O que aconteceu com vocês? Foram atacados? –‌ Heitor nos olhou de cima a baixo e jogou nossas bandeiras em um cesto.

Digamos que haviam muitos cipós, teias de aranhas e poças de lama pelo caminho.

— Acho que como eles foram o último grupo a chegar, mereciam uma punição. –‌ Bianca analisava suas unhas de maneira convencida.

— Nem foi você quem venceu para estar falando isso! –‌ Ienaga rangeu os dentes.

O que foi em vão, já que os outros líderes concordaram com a existência de uma punição e os adultos poucos se importaram contanto que estivéssemos em nossas barracas no horário combinado.

Depois que tomamos uma ducha e trocamos de roupa, fomos para uma cabana de madeira localizada a metros da área das barracas, onde todos estavam reunidos em mesas retangulares tomando chocolate quente. O clima ali dentro era abafado e aconchegante.

— Yara, Amanda, Eduardo e Victor. –‌ Kaíque cantarolou ao se aproximar da nossa mesa. –‌ Vocês eram o que estavam mais sujos, não é? –‌ sorriu travesso.

Todos bufaram e concordaram a contragosto.

— Então, já que meu grupo venceu, eu dou a punição. Vocês não vão usar as mãos até a hora do almoço de amanhã. –‌ o líder colocou as suas nos bolsos.

— O quê?! –‌ os quatro gritaram em coro, incrédulos.

— É, vai ser engraçado ver vocês tendo que se virarem nos trinta. –‌ Kaíque fingiu uma expressão angelical.

Os quatro desafiados se entreolharam, aparentemente entrando em um consenso silencioso quanto ao que fazer.

— E se não aceitarmos a punição? –‌ Victor ergueu-se de maneira intimidadora e inclinou-se sobre a mesa, ficando cara a cara com Kaíque.

— Ah, poxa, não gosto de ameaças. –‌ o líder fez um biquinho, porém, nada que demonstrasse medo do gêmeo.

Um grito ecoou pela cabana, histérico e feminino, vindo diretamente da mesa do Super Gatinhas. Todos olhamos incrédulos para a fonte do som, nos perguntando se havia acontecido algo de ruim.

— Eu consegui! Eu consegui sinal para usar o 4G! –‌ Bianca anunciou eufórica, balançando o celular no ar. –‌ Esperem, eu preciso contar tudo para vocês! –‌ subiu na mesa de modo apressado.

Foi questão de tempo até que toda a atenção estivesse de fato presa na garota vestida de escoteira que lia em voz alta o que aparecia na tela de seu aparelho.

— Oh, my god. –‌ ela agitou uma das mãos, empolgada. –‌ Eu recebi uma mensagem do Informante sobre o jogo!

E esse foi o ponto chave para realmente a ouvirmos. Não houve uma cabeça sequer que não se virou para encarar Bianca, atentos a cada palavra e suspiro seu.

— Okay, quinze pontos para o Deslocados por ter vencido a caça à bandeira. –‌ Bianca exclamou. –‌ Mas menos cinco por terem roubado uma bandeira do Super Gatinhas… Ei! –‌ franziu as sobrancelhas e procurou por Kaíque.

Kaíque deu uma risada abafada e convencida.

— Eu não estava ligando para esse jogo, porém, dez pontos não são ruins. –‌ ele deu de ombros.

— E… –‌ a garota semicerrou os olhos para ler o resto. –‌ Menos cinco pontos para o grupo que não cumprir sua punição. –‌ estendeu o braço para mostrar a tela do celular.

— Fala sério. –‌ Victor bateu o punho na mesa e rangeu os dentes.

— Se perdermos cinco pontos, vamos ficar na mesma posição que o Deslocados. –‌ Eduardo ponderou.

— Então o que nos resta é… –‌ Amanda mordeu o lábio inferior.

— Não usar as mãos até a hora do almoço. –‌ Yara completou.

— Boa sorte, nenéns. –‌ Kaíque riu convencido e voltou para a sua mesa.

— Quando pudermos voltar a usar as mãos, juro que vou socar a cara dele. –‌ Victor ameaçou.

>>>

O dia seguinte chegou cedo. Literalmente cedo. Às cinco da manhã, a assistente Vitória usava uma buzina, a secretária Letícia batia em uma panela e a vice-chefe Bárbara cantarolava desafinada. Tudo isso para nos acordar.

Me mexi e remexi no saco de dormir dentro da barraca com o corpo dolorido e sem vontade de levantar. Kaíque sequer parecia escutar a barulheira do lado de fora, um fio de saliva escorria por sua boca aberta e seu ronco ressoava.

Ergui meu torso, percebendo que meus olhos ardiam e meu nariz estava entupido, provavelmente por causa da chuva de ontem. Esfreguei o rosto e bocejei, preparando-me para mais um dia.

Sabendo que teria de enfrentar uma fila enorme para ir ao banheiro, agarrei minha toalha, calcei meus tênis e deixei a barraca. Dei alguns passos antes de parar ao ver uma garota de cabelos azuis escuros passar correndo por mim, agitada.

— O que foi que deu nela? –‌ procurei por sua barraca.

Outra garota fez menção de fechar o zíper, entretanto, se conteve e recuou as mãos. Ela respirou fundo, parecendo frustrada.

Não demorou muito para que ela olhasse para mim com uma expressão de questionamento. Meu coração palpitou, minhas bochechas ferveram e eu quis desviar o olhar, mas foi impossível. Eu estava impressionado com o modo como o longo cabelo escuro caia majestosamente pelas costas de Yara.

— Se vai ficar olhando, é melhor me ajudar. –‌ ela ditou.

Engoli em seco ao ser pego no flagra. Um tanto constrangido, aproximei-me dela, sem saber para onde olhar ou o que fazer.

— Eu ia pedir para a Érica, mas ela tem problema de bexiga quando acorda. –‌ Yara suspirou. –‌ No meu bolso deve ter dois elásticos. Pegue eles. –‌ falou calmamente.

Tudo bem, vocês sabem para qual bolso eu olhei primeiro.

— Não é esse! –‌ Yara também sabia. –‌ O da jaqueta, o da jaqueta. –‌ sua voz ficou aguda de repente. Acho que ela notou e tentou disfarçar com um pigarro.

Subi o olhar, desviando de sua calça para sua jaqueta e enxergando os elásticos pretos quase escapando do bolso.

— Okay, e agora? –‌ os coloquei em meu pulso.

— Divida meu cabelo em dois. –‌ pediu.

Suas madeixas eram macias, brilhantes e pesadas. Aquele era o cabelo mais lindo que eu já vi na vida. Separei-o em duas partes, jogando-as sobre seus ombros e esperei pela próxima instrução.

“E pensar que eu já o chamusquei duas vezes.”, o observei deslumbrado.

— Agora você enrola uma das partes e prende com o elástico em duas voltas. –‌ ela prosseguiu.

— Já me perdi. –‌ peguei uma das mechas e tentei fazer um rolinho.

Stefanie tinha cabelo curto desde que eu a conhecia por gente (e demorou, já que sempre a vi como animal), então eu nunca brinquei de salão de cabeleireiro com ela.

— Ai, ai. –‌ a garota grunhiu. Aparentemente, eu havia enroscado alguns de seus fios em minha mão.

— Foi mal. –‌ cerrei os dentes e terminei de dar as duas voltas.

Dependendo do ponto de vista de uma pessoa otimista, tinha ficado bonito. Mas como não dependia, ficou horrível.

— Não deu certo, né? –‌ Yara perguntou.

— É. –‌ confirmei receoso.

— Melhor fazer um rabo-de-cavalo. –‌ ela refletiu.

— Melhor. –‌ soltei o “coque” que havia feito e reuni as duas partes de seu cabelo. –‌ Por que você sempre usa o mesmo penteado?

Estranhamente, minhas bochechas ainda ferviam e eu tinha medo de que Yara conseguisse ouvir as batidas altas de meu coração. Até mesmo minha respiração estava diferente e nem era pelo nariz entupido.

— Você vai achar bobo se eu contar. –‌ falou baixinho.

— Não vou. –‌ penteei suavemente suas madeixas com os dedos.

— Quando eu era pequena, gostava muito da Pucca. –‌ Yara encolheu seus ombros, sem jeito. –‌ Meu pai aprendeu a fazer os coques dela em mim e todos os dias eu ia para a escola assim. Eu gosto de fazer isso até hoje, porque me lembra uma parte feliz da… Ah, esquece. –‌ engoliu em seco.

— Você estava indo bem. –‌ falei sinceramente, soltando uma risada abafada.

— Indo bem em quê? –‌ ela estranhou.

— Em se abrir mais. Você raramente fala sobre você. –‌ puxei seu cabelo no alto e o amarrei. Alguns fios não passaram direito pelo elástico, ficando curvados e embaraçados, todavia, dava para o gasto.

Yara não respondeu minha última frase, apenas ficou em silêncio e cabisbaixa, parecendo estar com vergonha. Suspirei, sabendo que aquele passo era melhor do que nada e bati uma mão na outra, anunciando que estava pronto.

— Ei, Norte, você amarra o meu também ou eu preciso estar sob alguma punição?

A pouco menos de três metros, Kaíque passava por nós com os cabelos desgrenhados, uma toalha no ombro e sua melhor cara amassada, além do sorrisinho presunçoso de sempre.

— Se importa? – perguntei para Yara, pegando o elástico que restou.

Coloquei metade dele em meu indicador esquerdo e a outra metade no direito de modo que a nuca de Kaíque estivesse em minha mira imaginária. Puxei para trás com o indicador direito e soltei, acertando o garoto.

— Há, ganhei um elástico. – ele pegou-o e mostrou-me a língua.

Nem preciso dizer que eu e Yara reviramos os olhos ao mesmo tempo, já acostumados.

Notas finais
Algum dia Norte vai se lembrar do poder da Milena? Quem vai liderar esse jogo? Até o próximo capítulo. Beijos. —Creeper.