Notas iniciais
Oie! Não teve capítulo semana passada, maaaaaas essa semana terá dois para compensar! Espero que tenham uma boa leitura ♥

Mas é claro que a gente não conseguiu se salvar. Milena era surpreendentemente rápida e aparentemente fomos os primeiros a ser pegos.

Depois de ordenar que ficássemos no bate-ponto, Milena correu para procurar os outros. Nos sentamos no chão gelado abaixo do mural de avisos, aguardando sua volta. Me surpreendia que ninguém tivesse brigado conosco por estarmos correndo, já que inspetores passavam por ali de vez em quando, conferindo os arredores ou algum papel que estivesse em suas mãos.

Yara não disse nada desde que fomos pegos, apenas concentrou-se em analisar sua franja ou suas unhas, evitando contato visual comigo a todo custo.

— Naquela hora. – tomei coragem para dizer após um tempo. Torci para que minha voz não vacilasse. – A gente ia…

Ela encolheu os ombros.

— Talvez.

Senti um baque no peito.

— Quer dizer que agora a gente pode… – sugeri timidamente.

— O que aconteceu debaixo da mesa fica debaixo da mesa. – ela assentiu virando o rosto.

Mas que garota!

— Então vamos voltar para lá. – falei.

— Não podemos sair daqui, fomos pegos. – Yara argumentou.

— Okay, pode ser aqui mesmo. – dei de ombros.

Yara me fitou de sobrancelhas erguidas, parecendo pensar na proposta. Ela respirou fundo e confirmou brevemente.

Também respirei fundo, juntando ainda mais coragem. Registrei o jeito como seus olhos se fecharam suavemente, deixando os longos cílios mais destacados. Sua respiração calma bateu em meu rosto assim que encurtei a distância entre nós.

Ignorando a palpitação em meu peito, segui em frente. Achei que estava indo tudo bem, até que entrei em desespero e a primeira coisa que fiz foi bater minha testa na sua. Abrimos os olhos no mesmo instante e gritamos de dor, cada um afastando-se rapidamente e massageando a própria testa.

— O que foi isso?! – Yara exclamou indignada.

— D-Desculpa, eu fiquei nervoso! – me defendi, a voz saindo fina e manhosa, o que definitivamente não foi minha intenção.

Ah, que fracasso.

Yara levantou-se e começou a ir em direção aos banheiros sem dizer nada.

— Achei que não pudéssemos sair daqui. – comentei chateado.

— Isso foi antes de você me dar uma cabeçada. – ela rebateu ainda esfregando sua testa.

Ponderei um pouquinho.

— Espera. – chamei, vendo-a parar. – Isso quer dizer que você gosta de mim? – tive uma pontinha de esperança.

Yara desviou o olhar, ruborizou e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Alto lá! – alguém gritou do outro lado.

Focamos a figura ofegante que havia acabado de chegar e apoiava as mãos nos joelhos pesadamente. Ela ajeitou sua postura, jogou o cabelo para o lado e apontou para o seu celular.

— Nós estamos ferrados. – Ienaga contou entre arfadas. – Confiram o Babados da API.

Saquei meu aparelho do bolso e entrei no Instagram. Havia uma nova publicação no feed que me fez arregalar os olhos. Era uma montagem com duas fotos, de um lado eu e Yara distraídos na sala de aula em um dia qualquer e do outro Felipe repleto de pombas.

O que mais me assustou não foi ter uma foto minha no perfil de fofocas da escola e sim o que dizia a legenda.

Vocês não sabem, mas no dia do acampamento do ano passado, Felipe prendeu Norte e Yara no almoxarifado porque os dois haviam invadido seu quarto meses antes. Vocês estão do lado de quem?

Meu estômago embrulhou-se.

— Impossível. – Yara paralisou no lugar.

— Preciso de vocês. O Felipe chamou todos os líderes para uma reunião e quer vocês juntos. – Ienaga disse seriamente. – Já avisei os outros. O esconde-esconde acabou.

>>>

Chegamos apressados a sala de informática onde Felipe esbravejava, Ana Carolina tentava acalmá-lo, Bianca estava pálida e de pijama e Eduardo conversava calmamente com Kaíque.

— Eu quero saber quem postou isso! – Felipe mostrou seu celular congelado na postagem do Babados da API.

— Que eu saiba, nenhum de nós tem a senha do perfil. – Kaíque deu de ombros, despreocupado.

— Vocês podiam ter me pedido se quisessem. – Bianca argumentou ofendida.

— Mas ninguém pediu, então só pode ter sido você. Como descobriu sobre o dia do acampamento? – o líder do Nova Era cerrou os dentes.

— Eu não descobri nada! – a garota franziu as sobrancelhas. – Nem fui eu quem postou isso. – espalmou o próprio peito.

— Mas… Você é a única que tem a senha. – Ana torceu a boca, incerta.

— Já disse e vou dizer de novo. Não. Fui. Eu. – Bianca bateu o pé envolto por uma pantufa em formato de panda.

— Então quem foi?! – Felipe indagou.

— Eu sei lá! Já falei que esqueci meu celular na sala da última aula e só o peguei depois! – a líder bufou.

— Ah, que conveniente, né. – o baixinho revirou os olhos.

Minha cabeça virava de um para o outro como em uma partida de pingue-pongue e meus ouvidos chegavam a doer por causa dos berros, porém, o que mais me surpreendeu foi o que veio a seguir:

— Chega vocês dois!

Ana Carolina havia gritado. Ela entrou no meio de ambos, esticando seus braços para afastá-los e arfando de nervosismo.

— Agora são 18h10. A postagem foi feita às 17h55. E a Bianca disse que pegou o celular de volta às 18h00. – Ana falou pausadamente, olhando para cada um dos presentes. – Para resolvermos isso, cada um vai precisar dizer o que estava fazendo nesses horários.

A frase e o tom de Ana foram capazes de acalmar os ânimos de Felipe e Bianca, fazendo ambos se sentarem a uma distância segura, ainda que olhassem feio um para a cara do outro e tivessem os braços cruzados duramente.

— Todos sentados, por favor. – Ana lançou um olhar autoritário para o restante.

Sem pensar duas vezes, puxamos as cadeiras giratórias próximas de nós e nos acomodamos lado a lado. Se Ana Carolina parou de falar baixo, quer dizer que devíamos obedecê-la. Eduardo e Kaíque deixaram de se apoiar em uma das bancadas e se sentaram, totalmente relaxados e descontraídos. Franzi levemente as sobrancelhas com um ar de desconfiança.

— Muito bem, todos são inocentes até que se prove o contrário. – Ana pegou um canetão.

— Por que tem quatro membros da União Rebelde aqui? Isso dá a entender que temos as maiores chances de sermos os culpados. – Ienaga ergueu a mão e adquiriu um semblante feroz.

Encolhi-me no lugar e rangi os dentes. O suor frio escorria por minha testa e o coração palpitava de ansiedade.

— Porque isso envolve dois dos seus membros que você mandou invadirem meu quarto. – o baixinho rosnou. – Vocês e a Bianca são os maiores suspeitos com toda certeza.

— Vem cá, acha que somos burros? – Ienaga perguntou indignada. – Por que iríamos fazer essa postagem se isso também é ruim para nós?

— É, você mesmo pode ter feito essa postagem e está se fingindo de bravo. – Eduardo comentou. – Afinal, nessa história, você sai apenas como “quem estava se vingando”.

— Tsc. Vamos contar logo os nossos álibis, assim vocês vão ver que eu não sou culpado. – Felipe virou o rosto.

— Ótimo, quem começa? – Ana prosseguiu.

— A primeira acusada, não? – Kaíque bocejou.

— Tudo bem, eu vou. – Bianca levantou-se furiosa.

— Você disse que esqueceu o celular na sala da última aula. Isso foi às 16h00, certo? – a vice-líder perguntou.

— Isso, aula de inglês. Eu estava mal, por isso coloquei o celular debaixo da carteira e dormi a aula toda. Quando acordei, fui o mais rápido que pude para o meu quarto e dormi mais um pouco. Até umas 17h50, por aí.

Bianca respirou fundo, fazendo uma breve pausa.

— Então eu percebi que estava sem meu celular. Voltei para pegá-lo às 18h00 na sala de inglês, quando o Felipe me achou e começou a berrar comigo.

— Certo. – Ana concordou e anotou na lousa um breve resumo do que Bianca falou. – Alguém daqui fez essa aula com você?

Bianca olhou ao redor. Sua maquiagem era simples, composta apenas por base e gloss labial. Os olhos estavam fundos e os cabelos presos em um coque bagunçado.

— O Kaíque. – apontou.

— Kaíque? – Ana arqueou uma sobrancelha, esperando uma resposta do citado em questão.

— Sim, eu fiz a última aula de inglês com a Bianca. Ela estava sentada no fundo da sala e eu na frente.

— Protesto! – Felipe exclamou.

— Vale protestar? – sussurrei para Yara que apenas deu de ombros.

— O que foi? – Ana ficou confusa, parando de fazer anotações na lousa.

— O Kaíque nunca se senta na frente nas aulas. – o baixinho acusou.

— De fato, anão de jardim. – Kaíque concordou sorrindo. – Mas eu cheguei atrasado na última aula, então só tinha lugares na frente. Ou seja, eu nem podia ver se a Bianca esqueceu mesmo o celular debaixo da carteira.

Tive um estalo na cabeça, lembrando-me de ter cruzado com Kaíque no horário da última aula, eu estava atrasado igual a ele.

— Acho que não preciso perguntar seu álibi. – Ana voltou a falar baixo e suas bochechas ganharam um tom rosado.

— Hã? Claro que precisa, todos têm de contar! – Felipe gesticulou exaltado. – O que você fez nesse horário, hein? – franziu o cenho.

— Eu estava com o Eduardo. – Kaíque deu de ombros.

— Fazendo o quê? – o baixinho semicerrou os olhos.

— Ah, sabe como é, coisas da juventude. – o líder deu uma risada e Eduardo o acompanhou.

— Tipo pegar o celular dos outros e postar o que não deve? – Felipe arqueou uma sobrancelha.

— Não, tipo se beijar. – Eduardo respondeu despreocupado.

Meu queixo cairia se não estivesse grudado. Eu achava que o Eduardo sequer ia com a cara do Kaíque. Quero dizer, alguém gostava do Kaíque ao ponto de beijá-lo?

Encarei Ienaga, tentando encontrar alguma resposta em sua expressão, todavia, ela somente mantinha os braços cruzados e olhava seriamente para a lousa.

— É, foi isso que aconteceu. – Ana afirmou constrangida. – Eu vi. – desviou o olhar.

— Você o quê? – Felipe deu um gritinho esganiçado e ficou vermelho feito um pimentão.

— Estava passando pelo corredor na hora e… – a vice contou timidamente.

— Quanto drama! Garotos se beijam, nada novo sob o sol. Podemos seguir com os álibis? – Ienaga bocejou entediada.

— Tudo bem. – Ana respirou fundo. – Quer ser a próxima?

— Claro. – a nossa líder deu de ombros. – Eu estava brincando de esconde-esconde com o restante do meu grupo, exceto o Eduardo, óbvio. – agitou a mão.

Ana olhou para mim e Yara em busca de confirmação. Balançamos a cabeça positivamente e comentamos sobre nossa brincadeira, quem estava procurando e até onde nos escondemos. Apenas deixamos em segredo o nosso quase beijo e a cabeçada.

— Resta o Felipe. – a vice terminou de anotar nosso relato.

Felipe que havia protestado sobre estarmos brincando (julgando que éramos velhos demais para aquilo), fez um muxoxo e contou sem muitos detalhes:

— Depois que a Érica derrubou água em mim, eu fui para o meu quarto e fiquei por lá. Então vi a postagem e fui correndo procurar a Bianca. Encontrei ela na sala de inglês com o celular na mão, o que eu achei bem suspeito.

— Até agora é o álibi mais fraco. – Eduardo provocou.

— É a verdade, o que eu posso fazer? – o baixinho cerrou os dentes.

— Quanto a mim... – Ana terminou de escrever o que o garoto disse. – Eu estava no meu quarto assistindo a uma série até que o Felipe me ligou para essa reunião de última hora. Quando saí do meu andar, vi o Eduardo e o Kaíque.

Um silêncio pairou sobre nós, dando espaço aos semblantes de desconfiança e aos pensamentos que giravam feito engrenagens em nossas cabeças. Pensando comigo mesmo, não havia sido ninguém da União Rebelde: eu e Yara estávamos juntos e Ienaga também estava brincando. Eduardo foi visto com o Kaíque.

Não podia ser a Ana Carolina, porque era suposto que Eduardo e Kaíque a viram também. Ou seja, os únicos que restavam eram Bianca e Felipe.

Ao que parece, todos os outros chegaram à mesma conclusão e nossos olhares pesados caíram sobre eles, esperando que quebrassem o silêncio para se defender.

— Se o Kaíque não viu o celular da Bianca sendo deixado, o que garante que ele realmente foi esquecido? – Felipe argumentou. – Ela nunca desgruda do celular!

— Acontece que hoje eu estou mal. – Bianca bufou.

— Ah, é? Mal como? – o baixinho soltou o ar pelo nariz. – Você só deve estar fingindo. Foi para a sala de inglês naquela hora só para poder encenar melhor sua desculpinha.

Bianca mordeu o lábio inferior, franziu as sobrancelhas e enfiou a mão dentro do bolso do moletom que usava, tirando-a logo em seguida e atirando uma porção de coisas no garoto. O líder encolheu-se todo ao ser acertado e olhou assustado para os objetos que caíram no chão. Tratava-se de uma cartela de remédios, uma embalagem vazia de chocolate e um absorvente lacrado.

— Acha mesmo que em um dia normal eu deixaria todos vocês me verem assim?! – Bianca apontou para o próprio rosto, incrédula. – Experimenta só ter seu útero descamando para ver se você não dormiria a aula toda e esqueceria até o celular só para poder chegar logo no seu quarto, seu babaca!

— C-Calma, Bianca. – Ana Carolina apressou-se em recolher as coisas do chão e devolvê-las para a dona. – Felipe, precisa ter mais sensibilidade. – repreendeu o líder.

Diante do estado de Bianca, fiquei tentado a acreditar em seu álibi. Afinal, os únicos que sabiam sobre o caso pré-acampamento éramos nós da União Rebelde, Felipe e o Informante. A menos que o Informante tivesse passado essa informação a Bianca, o que eu não via sentido. Ela ganharia várias curtidas por causa da fofoca, mas por que nos atacar sem motivo?

A única pessoa que realmente tinha um motivo para estar detestando a União Rebelde era o Felipe, ele podia muito bem estar tentando se fazer de vítima enquanto nos incriminava por ter invadido seu quarto, já que colocando em uma balança, o que fizemos foi minimamente pior do que ele ter nos prendido.

— Desculpa por dizer isso, mas o Felipe é o maior suspeito. – Ana Carolina subiu seus óculos para a cabeça e torceu a boca.

Felipe se engasgou com a própria saliva e sua pele antes vermelha de vergonha passou para um carmesim de raiva.

— Como você pode dizer isso? – o líder arregalou os olhos. – Achei que fôssemos uma dupla… – engoliu em seco.

Ana Carolina suspirou, encarou a lousa e encolheu os ombros. Ela podia não dizer nada, entretanto, seus pensamentos gritavam.

— Escuta.

Automaticamente, direcionamos toda a nossa atenção para a origem da voz, encontrando Kaíque erguendo uma das mãos e lendo brevemente o conteúdo da lousa.

— E se não tiver sido ninguém daqui? – ele sugeriu casualmente. – O álibi do Felipe e da Bianca podem ser comprovados se perguntarmos aos seus colegas de quarto.

— Acha que foi outra pessoa? – Ana balbuciou com as sobrancelhas erguidas.

— O Informante, por exemplo? – Yara refletiu.

Bianca imediatamente arregalou os olhos e pareceu dedicar algum tempo para pensar no que Yara disse.

Aquela história de Informante já começava a me encher o saco. Ele havia colocado todos em sua mão e nem sequer dava as caras. Contudo, talvez o que mais me irritasse fosse o silêncio de Ienaga e Eduardo que apenas trocavam olhares discretos.

Tive um estalo na cabeça e reservei um tempo para observar nossa líder. Ela estava estranha. Um pouco hesitante. Até que encontrou meu olhar e assustou-se.

— Bianca, alguém mais sabe a senha do seu celular? – Ana afastou sua franja para trás das orelhas de modo afobado.

— Talvez. É fácil. – Bianca ponderou. – Tem bastante gente nessa academia, não é difícil eu já ter desbloqueado o celular e alguém ter visto. – bufou.

— Ou seja, alguém que já viu a Bianca desbloquear o celular, o pegou e fez essa postagem. – Eduardo resumiu. – E essa pessoa provavelmente estava na aula de inglês para vê-la deixando o celular. É isso?

— Exatamente. – a ruiva mordeu o lábio inferior. – Precisamos da lista de chamada para saber quem estava nessa aula. O culpado é provavelmente o Informante...

— Já não importa mais. – Felipe a interrompeu. – Eu não ligo. Tanto esses dois quanto eu estamos ferrados. – olhou para mim e Yara, fuzilando-nos. – Além disso, eu percebi que não posso confiar em ninguém, nem na minha vice. – disse duramente.

Ana Carolina empalideceu, paralisou por um segundo e gesticulou nervosa.

— Felipe, eu só estava sendo justa! – defendeu-se. – Não pode levar tudo ao pé da letra e…

Felipe levantou-se e caminhou pesadamente até a porta.

— Prometemos que protegeríamos um ao outro sempre! – ele lançou um olhar frio por cima do ombro. – Chega. – abriu a porta e saiu, batendo-a atrás de si.

Minha ansiedade quanto a descobrir o culpado foi cortada subitamente. Fitei a porta por alguns segundos, sem acreditar no que havia acontecido ali. Estávamos enfim chegando a algum lugar na resolução do caso e ele simplesmente sai só porque teve o ego ferido?

— Essa academia está cheia disso. Gente errada achando que está certa. – Kaíque deu um sorriso torto. – Bom, ele é assim desde criança.

Ana havia afundado o rosto nas mãos e dado um longo suspiro de cansaço. Achamos melhor não dizer nada para não piorar o clima e apenas a observámos em silêncio enquanto esfregava os olhos e recolocava os óculos.

— Está tudo bem. – ergueu a cabeça. – É só que… – soltou o ar. – Será que podemos acabar aqui? Eu tenho que pensar.

— Como quiser. – Ienaga saltou de sua cadeira.

Eduardo e Kaíque concordaram e levantaram-se, seguidos por Bianca, eu e Yara. Passamos pela porta em silêncio e antes que Ienaga a fechasse para deixar Ana Carolina sozinha, a líder voltou a cabeça para dentro e exclamou alto o suficiente:

— Alguém como você não precisa viver na sombra de alguém como ele. Aliás, pouca sombra.

E fechou a porta, prendendo o clima pesado da reunião ali dentro. Do lado de fora, o corredor foi banhado pela cor arroxeada do anoitecer, as cortinas das janelas começaram a ser fechadas e as portas das salas trancadas.

— Que dia cheio. – Ienaga retirou seu moletom e o amarrou na cintura. – Ah, garotos, preciso passar uma missão a vocês. É simples, na verdade. Quero que arrumem o esconderijo amanhã depois da aula.

— Arrumar? – arqueei uma sobrancelha, estranhando o pedido.

— Sim, teremos convidados. – ela sorriu travessa.

>>>

Convidados. Passei a noite inteira pensando nisso. Ninguém podia descobrir a localização do nosso novo esconderijo, principalmente por ele ser mega secreto, não é? Por que Ienaga levaria alguém lá?

Será que com toda aquela história ela enfim havia decidido apresentar o Informante?

Não. Seria bom demais para ser verdade.

A postagem foi apagada depois do que aconteceu na sala de informática, o que me deixou aliviado. Ainda assim, vieram os olhares tortos e os cochichos dos alunos que a viram e a espalharam. Alguns disseram que aquilo era impossível. Outros sentiram pena do Felipe ao mesmo passo que sentiram pena de mim e da Yara. E uma pequena parte gostou da atitude ousada dos rebeldes.

Saí de meus devaneios ao escutar um apito, lembrando-me de que estava na aula de educação física. Os alunos ao meu redor alongavam-se ou corriam em volta da quadra enquanto uma fila se formava no canto e diminuía conforme o professor apitava e anotava algo em sua prancheta.

A seguinte pessoa da fila pegou a bola de basquete, posicionou as mãos e jogou-a na cesta. Ela comemorou por ter acertado e afastou-se, dando espaço para a próxima participante: uma baixinha de cabelos rosas.

— Não se preocupe, ela vai se sair bem. – Yara comentou.

— Não estou preocupado. – dei uma risada nervosa, talvez alta demais. Levei uma das mãos a boca e comecei a roer a unha do indicador, observando a ação de Milena.

Ela ajeitou seus braços e arremessou a bola.

— Às vezes você age como irmão dela. – Yara provocou.

— Não ajo não. – me defendi.

O impulso do arremesso fez o corpo de Milena ir para frente e tropeçar nos próprios cadarços. Ela caiu de barriga no chão áspero da quadra, soltando um resmungo de dor.

— Milena! – arregalei os olhos e fui correndo ao encontro da pequena. Sabia que Yara estava rindo de mim.

— Eu tô bem, eu tô bem. – ela apoiou as mãos no chão e levantou o corpo.

A bola sequer alcançou a cesta. A garota cerrou os dentes ao ouvir as risadas dos outros alunos e sentou-se derrotada, revelando os arranhões em seu queixo e joelhos.

— Vem, vamos cuidar disso. – lhe estendi a mão e sorri.

Notas finais
No próximo capítulo, voltamos ao mistério dos poderes! Quem são esses convidados? Até mais. Beijos. —Creeper.