Academia de Poderes Inúteis
43 A assembleia do Informante
Notas iniciais
A luz amarelada acima do palco acendeu-se, revelando a forma atrás do pedestal. Devia ter 1,67cm, curtos cabelos castanhos, olhos cor de oliva e um sorriso presunçoso.
Paralisei em minha cadeira quando as memórias do dia anterior voltaram mais uma vez, agora feito um soco no estômago. Todos os meus pensamentos embaralharam-se e eu quase me castiguei por ter sido tão idiota.
Vaias vieram de todos os cantos do auditório, alunos levantaram-se com as mãos ao lado das bocas para intensificar seus gritos e outros apenas continuaram sentados, aguardando pelo desenrolar.
— É, eu sei, fiz vocês dançarem na minha mão esse tempo todo! – Kaíque gargalhou. – Mas eu não fiz isso sozinho. Eu tive ajuda daqueles dois ali, ó. – apontou para a escada que levava ao palco.
Arregalei os olhos, não acreditando ao ver quem subia os degraus: Ienaga e Eduardo. A garota jogou a franja para o lado, mantendo uma feição séria e o garoto retirou os óculos que descansavam na cabeça e prendeu-os na gola de seu uniforme.
As vaias intensificaram-se, todavia, o som não parecia afetar nós rebeldes, era como se estivéssemos em uma bolha a parte. Yara estava paralisada e Érica não parava de oscilar o olhar entre mim e aqueles três no palco.
— Isso é uma pegadinha, né? – ela deu uma risada nervosa.
— Não. – Yara cerrou os dentes e balançou a cabeça negativamente. – Eles sempre deixaram claro que conheciam o Informante.
— E agora que eu tenho a liderança da academia… – Kaíque ergueu o tom de voz, franziu as sobrancelhas e colocou a mão no peito. – Declaro que os grupos acabaram.
Um coro de “quê?” foi ouvido, seguido de questionamentos e oposições. Kaíque cobriu os ouvidos e fechou os olhos, esperando os alunos se acalmarem.
— Chega dessa droga. – o garoto suspirou. – Porque agora precisamos nos unir, esquecer as diferenças e blá blá blá, todo esse falatório de começo de clímax.
— Nos unir para quê? – Bianca gritou apontando o celular para meu colega de quarto.
Kaíque espreguiçou-se, lançou um olhar de soslaio para Ienaga e Eduardo e respondeu:
— Para nos livrarmos desses poderes.
Então era isso. Esse era o plano. Procurei desesperadamente por Milena, mas não a encontrei. A indignação cresceu e os alunos começaram a ameaçar subir no palco. Kaíque agarrou o microfone, fechou a cara e berrou:
— Se vocês não sabem, foi por causa desses poderes que fomos sequestrados. E eu vou contar uma coisa: eles nunca vão ser úteis. Eles vão apenas nos matar, não importa se é agora ou depois.
Aquela era outra expressão que eu nunca vi em Kaíque. Seus dentes estavam cerrados, os olhos demonstravam ferocidade e a postura indicava que ele podia socar qualquer um que tentasse subir no palco.
— Então vocês podem escolher… Ou abandonamos nossos poderes e voltamos para a vida que tínhamos antes ou vivemos nossos dias nessa gaiola esperando o pior acontecer. – ele exclamou deixando todos calados.
Bianca havia franzido os lábios e dado um passo à frente, fazendo menção de ir até o pedestal.
— E como vamos nos livrar desses poderes? – ela indagou duramente.
Senti meu corpo tremer e a respiração falhar um pouco. Entre todos aqueles alunos, eu era o único sem um poder. E entre todos aqueles alunos, apenas a União Rebelde (e talvez Kaíque) sabia como fazer aquilo.
— Existe um meio. – Eduardo tomou a palavra, cessando de vez as vaias. – Mas só podemos contar se realmente aceitarem abandonar os poderes.
— Não podemos obrigar ninguém a aceitar. – Ienaga olhou para o máximo de rostos que conseguiu. – Por isso, vamos pela democracia. Aqueles que desejam sua liberdade de volta e aqueles que vão lutar por suas vidas a cada dia.
Ienaga estava finalmente sendo ouvida. E pelas expressões pensativas, viradas de cabeça para consultar os colegas e cochichos, ela estava sendo levada a sério. Mordi o lábio inferior e senti o suor frio escorrer por minha pele.
Não sabia o que sentir. Não sabia o que estava sentindo. Fomos traídos por nossos líderes? Eles fizeram aquilo pelo nosso bem ou por interesse próprio? Em quem acreditar e o que escolher? Era tudo tão confuso que meu coração começava a pulsar nos ouvidos.
— Bianca, crie uma enquete no Babados da API. – Eduardo pediu. – A votação vai durar cinco minutos. – assentiu determinado.
Um pouco a contragosto, Bianca criou a enquete e incentivou os alunos a votarem. Abri meu celular, assim como as garotas ao meu lado e observei o paralelepípedo branco nos stories dividido entre OPÇÃO A e OPÇÃO B que representavam, respectivamente, as alternativas que Ienaga ofereceu.
Eu já não possuía mais um poder, por isso votei na opção A e a porcentagem revelou-se no valor de 37%.
— Eu não quero me arrepender. – Yara sussurrou ao pressionar a opção A também.
— Liberdade. Foi por isso que entrei na União Rebelde. – Érica engoliu em seco e escolheu a A também. – E-Eu… Vou confiar na Ienaga e no Edu até o fim. – fechou os olhos e recostou-se na cadeira para repetir seu mantra de calma.
Olhei ao redor, buscando pelos outros membros, entretanto, a única coisa que vi foi um baixinho furioso indo até o palco a passos fundos e pesados.
— Fala sério, vocês vão mesmo acreditar nesses malucos? – Felipe berrou ao pular no palco. Eduardo rangeu os dentes e quis avançar no garoto, contudo, Ienaga o segurou. – O Kaíque admitiu que fez vocês dançarem na mão dele! A Laura quase nem tem membros no grupo dela e o Eduardo me ameaçou!
— Com razão, seu desgraçado! – o vice-líder rosnou e tentou desvencilhar-se.
— Viram só?! – Felipe apontou para o garoto. – Ele é completamente instável, vão deixar alguém assim dizer o que vocês têm que fazer?
— Instável, ele? – Kaíque bateu a mão no pedestal. – Quem é que está sempre arruinando a vida de alguém nessa academia por trás dessa máscara de perfeitinho só porque algo não saiu como queria?
Felipe engoliu em seco, franziu as sobrancelhas e recuou um passo.
— O seu poder é a maior droga desse lugar, por que insiste tanto em ficar com ele? – Kaíque caminhou lentamente em direção ao baixinho.
— Porque… – Felipe arfou.
— “Porque somos o futuro da nação.” O caralho que é, você vai ser dissecado, sequestrado ou acabar morrendo antes mesmo de achar utilidade em ser uma estátua ambulante. – o garoto cerrou os punhos.
Os alunos dividiam-se entre presenciar a discussão e continuar votando na enquete. Pensei que talvez deveríamos ir ajudar Eduardo e Ienaga, mas minhas pernas congelaram no lugar.
— Você só se irritou porque chamei seu namoradinho de instável! – Felipe cuspiu as palavras.
Kaíque ficou vermelho de raiva, agarrou a gola do baixinho bruscamente e prestes a partir para a briga, alguém gritou de uma fileira próxima à nossa, interrompendo-o.
— Já se passaram cinco minutos de votação! – Ana Carolina inclinou o corpo para frente.
Bianca arregalou os olhos e conferiu seu celular imediatamente, um tanto afobada. Boquiaberta, ela gaguejou um pouco ao anunciar:
— Opção A teve s-sessenta e sete por cento. Opção B teve trinta e três por cento.
O silêncio da surpresa durou menos que um segundo, sendo cortado pelos burburinhos que cresceram por todo o auditório. Os alunos passaram a ficar de pé e fazer mais perguntas do que antes.
Kaíque piscou os olhos lentamente, ergueu as sobrancelhas e largou Felipe de modo grosseiro, obrigando-o a cambalear para trás. Ienaga fechou os olhos por um instante, respirou fundo e exclamou destemida:
— Vocês escolheram. O nosso plano começa daqui duas semanas.
Eduardo segurou o ombro da líder e lançou um olhar de confiança para os demais.
— E os trinta e três por cento, por mais que a opção de vocês não tenha vencido… É importante que colaborem conosco. Sei que é difícil apoiar uma opinião contrária. – mordeu o lábio inferior, selecionando as palavras cautelosamente. – Mas agora não podemos mais ser nós contra nós. Devemos ser nós contra o mundo.
Alguns gritos agudos de empolgação foram ouvidos e as meninas nas fileiras da frente agitaram-se. Eduardo esboçou um sorriso amarelo e deu um empurrãozinho em Ienaga para motivá-la a falar.
Os gritos animados acabaram na hora. Ela engoliu em seco, cerrou os punhos e empinou o queixo.
— É, eu não sou o Eduardo. Na verdade, tem muitas coisas que eu não sou. – Ienaga colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Talvez nem mesmo uma boa líder. – seu olhar encontrou o nosso em meio à multidão. – Me desculpem. Por ter escondido isso de vocês o tempo todo.
Algumas cabeças viraram-se em nossa direção na espera por uma reação. Érica tentou se esconder ao encolher-se em sua cadeira. Yara continuou a olhar para frente, indecifrável. E eu? Bem, por um impulso, me levantei subitamente, coloquei as mãos em volta da boca e berrei:
— Só continua a falar!
Se ela estava finalmente sendo ouvida, não éramos nós quem tiraríamos a atenção dos outros de cima dela. Nossos conflitos seriam resolvidos depois.
A líder corou fortemente e varreu os pés com os olhos por curtos segundos.
— Mas tem uma coisa que eu quero ser. – retomou erguendo a cabeça. – Uma heroína. Não do tipo fantasioso dos quadrinhos. Quero ser alguém que vai salvar a todos e a si mesma. – deu um passo à frente. – E quero que vocês também sejam. Com ou sem poderes.
Os alunos se entreolharam, alguns fizeram caretas enquanto outros se comoveram e o restante iniciou mais uma bateria de indagações que foi respondida durante todo o horário do almoço. Eduardo tinha o apoio da maioria das garotas, Ienaga tentava conquistar o resto do público, Kaíque havia desaparecido e Bianca fazia entrevistas.
Nesse tempo, Felipe deixou o auditório. Imaginei que ele nos deduraria para o primeiro inspetor que encontrasse, porém, Ana Carolina o seguiu e eu tive a impressão de que ela não deixaria aquilo acontecer.
A assembleia foi encerrada junto com o alerta de que os adultos não deveriam saber de nada. Pelos corredores, ouviam-se os sussurros e as opiniões dos alunos. Boa parte foi tocada pelas últimas palavras da líder e a outra comentava o quanto odiava Kaíque.
Nós da União Rebelde entramos em um consenso de matar as próximas aulas do dia e ter uma reunião no nosso esconderijo. Ficamos em pé, formando uma meia-lua e aguardando pela entrada da líder.
— Seja lá o que forem dizer… – ela surgiu atrás do batente, ainda que escondesse metade do corpo timidamente. – Eu aguento.
Victor descruzou os braços e ergueu a mão, tinha as sobrancelhas franzidas e a boca torcida.
— Se vocês estavam trabalhando com o Informante esse tempo todo e ele era o Kaíque… Significa que o lance dele e do Eduardo era fachada? – pigarreou e desviou o olhar.
— É sério isso? – Breno perguntou incrédulo.
— Um meio termo. “Namorar” com o Kaíque nos deixava mais próximos sem levantar suspeitas. – Eduardo respondeu pausadamente com certo nervosismo.
Victor abaixou a mão e fechou os olhos. Foi a vez de Breno levantar a dele.
— E quando postaram aquela fofoca no Babados da API sobre o Norte e a Yara terem invadido o quarto do Felipe? Isso foi obra de quem? – segurou seu queixo de maneira pensativa.
Quis morrer de vergonha, todavia, ao lembrar daquele dia, me veio a memória a feição assustada de Ienaga quando nossos olhares se encontraram na sala de informática.
— Eu não concordei com isso. – a líder respirou fundo. – Foi ideia do Kaíque e do Eduardo para conseguirem separar o Nova Era.
— No final, deu certo. – o vice-líder massageou sua nuca.
Então Érica ergueu seu braço.
— Por que não nos contaram antes? – questionou amuada.
— Se contássemos, o Kaíque ia parar de nos dar as informações… – Ienaga oscilou o olhar entre seus pés e o rosto de Érica. – Vocês sabem, ele gosta de ter o controle da situação. – fez uma careta.
— E por que justo o Kaíque? – Yara indagou seriamente.
— Ienaga ficava limitada aos lugares fechados por causa da desvantagem vampírica. Eu só tinha as informações que as garotas me davam. Já o Kaíque estava sempre escutando conversas alheias, passando despercebido por ser o “otaku preguiçoso que só come e dorme”. – Eduardo cruzou os braços.
Encolhi os ombros e subi minha mão. O líder e a vice me encararam, aguardando minha pergunta.
— E qual o plano?
Os dois fizeram uma rápida troca de olhares e depois focaram-se em Milena que estava ao meu lado de cabeça erguida. Ela exalava um ar determinado que eu nunca havia visto.
— Vamos dar prioridade aos poderes que afetam os usuários. – a pequena explicou. – Mas precisamos fazer isso por baixo do nariz dos adultos.
— O que não vai ser fácil. Principalmente com essa segurança toda depois do sequestro. – Eduardo colocou as mãos na cintura e observou o teto.
— Por isso, criamos o “Plano Distração”. – Ienaga saltou detrás do batente. – Vamos sempre criar uma distração para os adultos enquanto Milena leva alguém para o corredor. Uma vez feito, não pode ser revertido, né?
Milena assentiu e colocou duas mechas de cabelo para trás das orelhas.
— O Kaíque disse que os grupos acabaram, mas imaginei que ainda somos… – Ienaga abaixou o tom de voz, envergonhada.
— Amigos. – Eduardo completou. – Não importa se quiserem nos castigar ou nos bombardear de perguntas. A gente aguenta de tudo. – afirmou.
— Bem, sabe que o que fizeram não foi legal, né? – Breno cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Sabemos. – Eduardo encolheu os ombros. – Ficamos um pouco cegos pelo nosso plano.
— Um pouco? – Victor alfinetou.
— Desculpem, de verdade. – Ienaga suspirou pesadamente e fitou seus tênis sujos.
— E então… Estão conosco nessa? – o vice-líder deu um sorriso amarelo.
Eu e os outros membros nos entreolhamos em silêncio, ponderando. Victor foi o primeiro a fazer alguma coisa: aproximou-se dos dois e deu um soquinho no ombro de cada um, arrancando-lhes alguns resmungos.
— Certo. – balançou a cabeça. – Tô dentro.
— Se o Victor está, eu estou com ele. – Breno bocejou.
A próxima foi Érica, que correu ao encontro dos líderes e passou seus braços pelos pescoços deles em um abraço.
— Se nos tirarem daqui, desculpo vocês. – murmurou.
Faltavam três pessoas. Eu, Yara e Milena. Ienaga e Eduardo nos olharam apreensivos.
— Aceito com uma condição. – Yara expirou. – Vocês dois não vão mais guardar segredos de nós.
A garota e o garoto fitaram um ao outro e sorriram tímidos.
— Podemos cumprir isso. – a líder concordou. – Nunca mais esconderemos nada.
Conferi a figura de Milena, vendo que ela aguardava por minha resposta. Respirei fundo, segurei em seu pulso delicadamente e exclamei:
— Vamos terminar o que começamos.
Com o fim dos grupos, chegava o fim de nosso segundo esconderijo. Nada mais de reuniões da União Rebelde. Éramos somente um grupo de 8 amigos e em breve 9 quando trouxéssemos Amanda de volta. Talvez 11 se Yuri e Martin quisessem se juntar também.
Deixamos o lugar como o encontramos, nos despedimos com o peito cheio e fechamos a passagem secreta de uma vez por todas, transformando-a de volta no hidrante de parede que sempre foi.
— A União Rebelde se encerra aqui. – Ienaga disse ao bater no adesivo falso de vidro. – Porém, ela sempre estará em nossos corações.
Mas aquele não era nosso verdadeiro final. Nosso objetivo ainda precisava ser alcançado.
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Os outros garotos do dormitório olhavam-me de soslaio, franziam as sobrancelhas e emitiam muxoxos. Engoli em seco e respirei fundo ao tocar a maçaneta da minha porta, abrindo-a e fechando-a rapidamente assim que entrei.
— Eu vou te arrebentar. – fixei o olhar no garoto sentado em sua cama de braços e pernas cruzadas.
— Ah, vamos lá, estava escrito na minha testa esse tempo todo que eu era filho da puta. Vocês só não viram por causa do cabelo. – Kaíque afastou as duas mechas que emolduravam seu rosto.
— Agora todos te odeiam. – caminhei até o garoto, parando a um passo de distância. – Quero dizer, mais do que odiavam.
Kaíque deu um sorriso torto e olhou para o teto.
— Preocupado comigo, incêndio humano?
— Foi você quem dedurou nossa fuga, não foi? E foi você que contou para o Felipe sobre a invasão naquele dia do acampamento! – cerrei os dentes e punhos.
— Só dedurei a fuga de vocês porque ia dar muito errado e Ienaga não ia me ouvir quanto a isso, então apenas os impedi de fazer besteira. E eu só disse ao Felipe de quem era a lanterninha que ele achou no quarto. – Kaíque deu tapinhas no espaço ao seu lado, chamando-me.
Torci o nariz, incerto e hesitante. Soltei o ar que segurava e sentei-me ao seu lado.
— Por que fez isso? – franzi as sobrancelhas.
— Ah, eu queria saber qual era a sensação de passar informações para outra pessoa. Mas quando vi o que aquele psicopata fez, percebi que errei.
— Não isso. – agitei a cabeça em negação. – Por que quis ser um informante?
Kaíque jogou seu corpo para trás, deitando-se e abrindo os braços. Ele deu um longo suspiro e balbuciou:
— Teve uma época em que notei que não estava ligado às coisas ao meu redor. E isso começou a me preocupar, como se eu fosse a única peça que não se encaixava em um cenário.
Seus lábios tremeram e transformaram-se em uma linha reta. Observei-o fechar os olhos e colocar uma das mãos sobre sua testa, parando como quem pensava nas palavras que usaria.
— Mas se eu fizesse o cenário girar à minha volta, eu não seria mais essa peça. Além de que… Isso me rendeu bastante diversão. – riu baixinho. – Acha que deu certo? – encarou-me de soslaio.
— O que é isso? Algum tipo de carência?
— Pode ser. – Kaíque deu de ombros.
Suas palavras me fizeram inflar as bochechas e virar o rosto, já estava cansado de ver a cara dele. Ele era realmente o pior garoto da cidade e aquilo estava escrito em sua testa. Talvez eu nunca o entendesse de verdade e para ser sincero, nem queria.
— Kaíque. – chamei.
— Norte. – ele acenou com a cabeça.
Ergui as sobrancelhas por um momento, surpreso por ele ter me chamado pelo nome. Pigarreei e analisei meus tênis. Não adiantava xingá-lo, pois ele tinha total noção do desgraçado que era.
— É bom que esse seu plano com a Uni… Bem, com a Ienaga e o Eduardo funcione. – fiquei de pé.
— E você acha que eu colocaria minha cabeça em perigo sem ter a mais plena certeza de que vai funcionar? – Kaíque exclamou convencido.
Era o que veríamos.
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Cada um tinha um papel importante no “Plano Distração” que basicamente consistia em distrair os adultos no tempo em que Milena levava alguém para o corredor. As duas semanas que se seguiram foram do mais puro planejamento desde quais poderes tinham prioridade até quais seriam as distrações e os responsáveis.
Dada a extinção dos grupos, todos voltaram a se sentar juntos no refeitório e conversar uns com os outros. Ainda havia aqueles que ficaram insatisfeitos com o resultado da votação e a identidade do Informante, mas ao ver que a maioria estava empenhada no plano, deixavam-se levar.
A primeira distração aconteceu em uma quarta-feira no laboratório de química. Os escalados para aquela missão eram eu e Érica.
— Tem certeza disso? – ela perguntou entredentes na frente da sala.
A professora havia ido pegar alguns materiais e todos os alunos esconderam-se atrás das bancadas, ora ou outra erguendo as cabeças para reclamar sobre a demora de Érica ou incentivá-la.
— Sim, é sua hora de brilhar. – também levantei a cabeça.
— Mas só consigo ativar a onda quando estou mal. – Érica choramingou.
— Então pense em coisas ruins. – Milena ergueu-se prestativa.
— É pedir demais para ela. – um garoto ao nosso lado suspirou. – Ela não consegue.
Franzi as sobrancelhas e fuzilei o garoto com o olhar. Quando eu estava prestes a xingar a mãe daquele sujeito, o som característico de vidro se estilhaçando ecoou pela sala. Olhamos assustados para uma das bancadas, avistando algumas garotas encolhidas e um becker vazio quebrado sobre a superfície.
— Ai, desculpa! – Érica arregalou os olhos e encolheu-se.
— Tudo bem, continua! – uma das garotas fez sinal de positivo com o polegar. – Quero dizer… Você não é boa nisso.
Outro becker explodiu, dessa vez em nossa bancada, nos obrigando a fechar os olhos e cobrir as cabeças com os braços. O líquido que ele guardava escorreu e pingou no chão. Era álcool.
— Ah, a gente vai morrer. – o garoto resmungou.
— Argh… – Érica murmurou. – Se querem azar, é o que terão. – falou determinada. – Hoje eu acordei com o pé esquerdo, bati o dedinho na cômoda, coloquei o uniforme do avesso e riram de mim no café da manhã por causa disso…
A cada fala sua, um novo becker se quebrava ou os suportes de ferro balançavam. As janelas bateram, nos fazendo temer que seus vidros também se rendessem à onda.
— Ei, não acha que isso está indo longe demais? – Thiago engatinhou pelo chão, tomando cuidado com os cacos de vidro espalhados.
— Ela tem que continuar até a professora voltar. – respondi preocupado.
— Ah, também teve aquela vez que… – Érica continuou andando de um lado para o outro, estressada.
— Desculpem a demora. – a professora Luana chegou ofegante carregando uma caixa de papelão. Sua expressão mudou de cansada para pasma ao avistar toda a bagunça que a garota fez. – Érica de Souza!
Érica deu um sobressalto e paralisou no lugar com os dentes cerrados e os olhos arregalados.
— Ei, professora, eu posso acender isso? – uma garota balançou uma caixinha de fósforo.
A professora fungou e empalideceu.
— Céus, não! Largue isso agora! – ela agarrou a caixinha. – Não está sentindo o cheiro de álcool? Você quer nos matar?
Ainda escondidos atrás de nossa bancada, eu e Milena nos entreolhamos confiantes.
— Agora. – permiti.
Ela balançou a cabeça e estendeu a mão para o garoto ao nosso lado, o qual a apertou e ambos sumiram de meu campo de visão em um piscar de olhos. Aquele era Luís, cujo poder o fazia chorar lágrimas ácidas.
— Todo mundo saindo, vamos para outra sala. – escutei Luana dizer.
Discretamente coloquei a cabeça para fora da bancada e levantei meu polegar para Érica. Ela e os outros entenderam o recado e deixaram a sala juntamente com a professora que dava broncas sem parar. Rezei para que Milena e Luís voltassem antes que o faxineiro chegasse para limpar a bagunça que o laboratório ficou.
De repente, duas figuras se fizeram presentes ao meu lado.
— O que aconteceu? – Luís ofegou assustado.
— Você só tem que saber que deu certo. Está livre do seu poder. – Milena sorriu de canto.
Luís conferiu seu próprio rosto, ficou de pé e socou o ar em sinal de animação.
— Agora só faltam mais noventa e quatro alunos. – conferi a lista em meu celular. – A próxima distração é na última aula.
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“Academia de Poderes Inúteis” volta em 12/03/2022.
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