Academia de Alquimistas
4 Capítulo 4 - Senhor Escroto
Notas iniciais
— Aii! – reclamei levantando – Mas que merda...
Nós caímos no pátio lateral do hospital, agora a saída estava um pouco mais distante, eu não me machuquei, apesar de ter sido arremessada do segundo andar. Eu olhei para os lados tentando me situar, e encontrei Kevin se remexendo em um arbusto próximo a mim.
— Isso doeu! – exclamou Kevin se soltando e me olhando – Você tá inteira? Quebrou alguma coisa? Bateu com a cabeça? Morreu de novo?
— Kevin eu estou legal, não morri, não bati a cabeça e não quebrei nada... – Falei o ajudando a se levantar – E você?
— Machuquei a perna... – Ele parou por um instante – Espera! Nós fomos atirados do segundo andar de um prédio, eu um anjo, machuquei a perna, e você tá intacta?!?
— Realmente, eu caí na grama, e estou normal, só me cortei com o vidro da janela – falei mostrando um corte em minha bochecha e outro no meu braço – Mas são superficiais.
— Você é estranha demais!
— Ela não é humana afinal. – Exclamou o demônio garçom, ele estava parado de frente pra porta que levava ao corredor principal, droga, eu tinha quase esquecido dele! – Agora sem mais delongas...
Kevin pegou sua arma, ele movimentou o braço me colocando atrás dele, o clima estava ficando tenso, o demônio movimentou-se também, mas ele não segurava uma arma, não... ele segurava uma pessoa, ele a puxou e colocou em sua frente. Eu reconheci no mesmo momento, era meu pai, estava inconsciente, mas não parecia machucado.
— Atire anjo. – Falou o demônio garçom — Atire e vamos ver como a garota reage ao vê-lo matar seu pai.
Eu fiquei calada, Kevin me olhou com ternura, eu não conseguia me mover, eu estava com raiva, o sangue subia a minha cabeça assim como eu sentia uma gota escorrer pelo meu machucado. Meu pai estava em perigo, e por minha culpa, eu estava preocupada, nervosa, não sabia o que fazer, então Kevin abaixou a arma, ele não iria atirar em meu pai.
— Bom Menino, agora criança, venha até mim. – Disse em tom de superioridade, o que só fez minha raiva aumentar, eu comecei a me movimentar, os olhos de Kevin me seguiam como que suplicassem para que eu parasse.
Se ao menos, de alguma forma, qualquer coisa acertasse aquele cara pelas costas, meu pai poderia ser salvo. Enquanto eu pensava isso, uma voz veio a minha mente, ninguém estava falando, mas eu ouvia, “Apenas ordene, você se ofereceu a mim uma vez, agora é meu dever retribuir.” ... Essa voz soava familiar, soava confiante, e como um instinto natural, eu ordenei.
— Liberte–o – Falei secamente, e no instante em que terminei de falar um cipó da árvore puxou meu pai rapidamente, enquanto um galho acertou bruscamente o demônio para o outro lado.
Um estrondo forte foi ouvido acima de nós, próximo à janela quebrada por onde saímos, e conseguimos ver alguém voando, ou melhor, caindo.
Era Michael, seguido pelo príncipe demônio, eles ainda lutavam, os dois estavam cansados, mas o príncipe estava mais acabado. Kevin atirou com sua pistola várias vezes contra o principezinho, enquanto Michael se erguia para lutar novamente.
“Eles são duros na queda não acha?”
Eu olhei para o meu lado, e lá estava o dono daquela voz familiar, era um garoto de cabelo castanho e curto, com mais ou menos 18 anos, isso se fosse humano, mas eu sabia que não era, ele vestia uma roupa formal e estava meio transparente. Não gente, não a roupa, o cara, dava pra ver atrás dele.
“Sentiu saudades?”
Então me lembrei onde o vira antes, ele era o cara bonzinho que brincava comigo quando era criança, apesar de meus pais o chamarem de amigo imaginário.
— Então era você... – falei
“Ah, achei que me receberia com uma recepção mais calorosa, já fazem anos que não nos vemos!”
— Achei que era parte de minha imaginação
“De certo ponto, sou encarregado de controlar o que você não controla, seus poderes”
— Então não sou mesmo humana, não é...
“Você era mais rápida antigamente”
Kevin e Michael ainda lutavam contra o príncipe, e o garçom entrara na luta usando facas, o que me fazia pensar mais ainda nele servindo salgadinhos, será que foi ele que fez aqueles?
“Que bom que seu estomago é resistente né!”
— Você pode ler minha mente?
“Eu moro nela”
— E vai ficar aí parado vendo eles brigarem?
“Tem certeza que é isso que quer?”
Realmente, se eu ajudasse eles, meus pais ainda estariam em perigo se fugíssemos sem mais nem menos, eu preciso de algo que os proteja para que os demônios não se voltem contra eles de novo.
— O que eu realmente sou? – Essa era a chave, se eu soubesse, poderia agir, e sei lá.
“Idiota”
— Vai tomar no cu, seu escroto!
“Haha! Uma bruxa, tá feliz agora?”
— Então coloca neles um feitiço, sei lá, uma mandinga pra que não sejam atingidos, e depois ajuda os meninos!
“Sabe que enquanto eu faço uma coisa você pode fazer outra né?”
— Como? Seja específico, entrei nesse barco agora meu bem!
“Apenas Sinta.”
Dito isso, ele desapareceu, eu olhei para os meninos e, sinceramente eles não iriam durar muito tempo. O príncipe e o garçom estavam quase caindo, mas haviam mais demônios vindo em nossa direção, pelo menos eu acho que eram demônios, pois eram um bando de criaturas estranhas, raquíticas e com asas bugadas voando pra cá.
Fedeu, pensei comigo mesma, era agora ou nunca pra sair daqui, e era o momento exato pra acordar meus “poderes” ou qualquer outra coisa. Eu parei, respirei fundo tentando me concentrar, senti meu estomago esvaziar, Lá se vai minha reserva de energia, pensei novamente.
Eu olhei diretamente para o príncipe demônio, ele estava se movendo perto de uns arbustos, e se meus poderes antes moveram a árvore, por que não?
Eu movimentei meus braços com força, segurando o nada, e os arbustos repetiram meu movimento instantaneamente, porem segurando o idiota. Eu peguei a manha, ou acho, e o puxei para baixo com força, e com o cipó que antes salvara meu pai, puxei o garçom e o arremessei dentro do hospital novamente.
Michael e Kevin olharam para mim surpresos, e com um sorriso sem jeito, ouvi o senhor escroto me avisar, “ótimo trabalho, já podemos ir!”.
— Então... Vamos? – Falei cortando o silêncio.
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