Academia Shibusen Para Fracassados

3 Cap. 88 - Uma dança assimétrica! A garota dos sonhos... ou pesadelos de Kiddo?


"When my faith is getting weak / And I seem to be giving in / You breath into me again"

(Quando minha fé está enfraquecendo / E eu pareço estar desistindo / Você me faz respirar, de novo) ~Awake And Alive — Skillet

E lá vamos nós, com mais um dia de aula.

–Oe, Kiddo, acorde — era a voz de Patty, enfiando a cabeça envolta numa massa enorme e dourada de cabelo. Era sempre assim quando ela acordava.

–Nnnnnnnnãaaaaaooooo… Essa cama é quentinha demais. Não vou sair daqui. Me recuso. — resmunguei, a cara enfiada no travesseiro.

Todos devem pensar que o quarto de um filho de Shinigami deve ser perfeitamente arrumadinho e limpo, mas nem todos são. Apenas o meu é, na verdade, mas é o quarto de um adolescente normal. Tenho pôsteres de minhas bandas prediletas — Skillet, Nickelback, Majesty, Artic Monkeys, dentre outros — claro, dois pôsteres, um de cada lado do quarto. Senão, eu mesmo perderia a simetria, e tudo estaria acabado. Sabe, eu preciso escutar música pra conseguir me compreender. Ninguém fala comigo. Minhas armas, o mínimo possível. Meu pai? Está sempre ocupado demais para me escutar. Então a música… eu finjo que tem gente falando comigo. Consigo me entender e aceitar melhor. Não sou uma eterna falha. Não sou um filhote reclamão de Shinigami. Sou uma pessoa boa, que algum dia vai salvar os amigos.

–Kiddo-kun…. — chamou Patty. Voltei meus olhos cor de âmbar para ela, ameaçador. — Você só acorda direito com um despertador, certo?

–Certo — rosnei. -, mas meu despertados está quebrado. Impossível eu acordar. Me deixe… dormir…..

–Então…. eu serei seu despertador! — Patty gritou, e saltou em cima da minha cama. Eu tentava respirar, mas ela tampava minha boca. Não dava nem pra gritar para que parasse, então o que saiu foi um:

–Mfff….Pfff-ttty!!!!

–Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah, Buuu-Nyaaah — a voz doce, porém estrondosa de minha arma assustou meu sono para longe.

–Está bem! Está bem! Já estou de pé! — me ergui da cama antes que ela dissesse mais uma palavra, e corri para me arrumar depressa. Droga. Eu estava atrasado.

"I don´t know where I belong / I don´t know where I went wrong"

(Não sei a qual lugar pertenço / Não sei aonde errei) ~Ho Hey — The Lumineers

No corredor da escola, meus passos ecoavam. Liz e Patty haviam decidido permanecer na forma de armas, e eu as colocara no meu novo coldre — presente de meu pai, na verdade. Eu o adorava. Tinha uma caveira prata na frente, que reluzia, e as armas diziam que era um lugar quentinho.

Estava frio para mim. Bem frio, na Shibusen. Nem mesmo meu paletó me protegia mais do vento que vinha das minúsculas janelas.

Foi quando olhei pelo vidro de uma das salas de treinamento. Vi meu amigo, o impetuoso Black Star…. e uma garota nova. Ele devia ser o mentor dela. Mas nunca havia visto Black com qualquer aprendiz. Diziam que ele precisava de mais treinamento. Quem era aquela garota? Eu nunca a havia visto.

Um calafrio cruzou minha espinha, e comecei a suar frio. Ela… ela era assimétrica. A franja ruiva, brilhante demais, cobria apenas um dos lados da testa. Os olhos tinham tamanhos diferentes. O nariz estava mais inclinado para a esquerda, como se houvesse tomado um soco. O cachecol marrom e azul cobria-lhe a face, enquanto ela se defendia de todos os chutes de Black Star e aparava os golpes de Tsubaki com dois machados conectados por uma corrente. Era excelente lutadora, mas… sua falta de simetria me deixava inquieto.

Irrompi na sala de treinamentos, ofegante, e ela parou de lutar, recebendo um soco por parte de Black.

–Irmã! — o meu amigo saltou sobre a garota caída, tentando levantá-la. De vez em quando Black Star parece querer estrangular você. Ou te atropelar. Ou enfiar uma faca em você. O que vier primeiro. — Rainbow Star, acorde!

–Rainbow Star? Irmã? — repeti, ainda com sono demais para entender qualquer coisa. — Black Star, como assim?

–Ahh… bem, Rainbow Star… eu a estava procurando há muito tempo! Ela é a irmã do grande Black Star! — ele disse, saltitando.

Kamisama… ele era irritante.

Agora eu podia ver melhor a irmã dele. Tinha uma massa enorme e alaranjada como cabelo, e bochechas sardentas demais. O cachecol servia para cobrir seu nariz pequeno e arredondado. Os olhos eram verdes e enormes, como bolas de pingue-pongue, arregalados. A boca era diminuta e delicada. Não é uma combinação ruim, pensei. Até que ela é bonita. Posso suportar sua falta de simetria… não posso?

Rainbow Star ergueu o pé, e me deu um chute que me enviou voando até o outro lado da sala de treinamento. Bati as costelas contra a parede, fazendo uma rachadura imensa.

–Quem é você? — ela gritou, erguendo-se de um só salto. — O que quer comigo?

–Ahn… Rainbow Star… calma….

Eu nunca vira Black Star recusando uma briga. O tom de voz que ele usava com a garota era diferente do que o que usava conosco. Parecia que… ela era perigosa demais.

–Meu nome é Death the Kid, filho do Shinigami… mas pode me chamar de Kiddo.

–Um Shinigami. — Rainbow Star, que antes estava frágil e caída, agora assumia uma posição presunçosa. — Você sabe, não vou me curvar. Não sou como os outros idiotas daqui. Sou maior do que um Shinigamizinho idiota que quer me dar ordens a torto e a direito. Eu… eu não obedeço ordens.

–S..sabe, Rainbow Star…. não é assim — procurei explicar. Não precisava de mais uma briga, logo de manhã, que era quando eu não tinha disposição alguma. — Não é assim. Eu não gosto de dar ordens para os outros. Não sou igual ao meu pai….

–Chega! Isso são apenas desculpas! — Rainbow Star voltou-se para Black Star, analisando-o com o olhar feroz do irmão. — Sabe, Black Star…. eu vou mostrar para você como se supera um deus. Derrotarei o Shinigami… e você, algum dia, superará Kamisama. — ela ergueu os machados acima da cabeça, fazendo um “x” afiado. — Death the Kid, você aceita meu desafio?

De repente, sua presença de alma era outra. Sacudi a cabeça e pisquei. — Se você faz tanta questão assim… — tirei Liz e Patty dos bolsos e ergui-as acima da cabeça. — Vamos lá!

Eu tentei mais do que tudo atirar nela, mas era praticamente impossível. Eu não conseguia mirar direito nela. Era veloz demais. Os cabelos ruivos se sacudiam perto dos olhos, e ela ia ziguezagueando de um lado para o outro, evitando meus disparos. E também…. eu não conseguiria atirar em uma pessoa que, apesar de assimétrica, trazia sua própria simetria à tona. Ela se apoiava com perfeição nos dois pés, deixando-se completamente simétrica. Se estivesse escuro, eu a teria achado um exemplo perfeito de simetria.

–SPEED STAR! — eu conhecia aquele ataque. Ela ficava ainda mais veloz. Agora, meus disparos erravam feio. Eu não me importava. Tentei acertá-la ao menos uma vez, mas era impossível sequer tocá-la.

Fechei os olhos e os abri de novo. E, então, fui capaz de ver sua alma.

Era alaranjada, e enorme, verdadeiramente. Quase era capaz de tocar meus pés. Afastei-me, temeroso de que pudesse ser engolido por aquela força tremenda. Haviam faixas ao redor da alma, que diziam: “mantenha-se afastado”, como um caso do FBI. Achei que eram ilusões, mas não eram. Brilhavam como um aviso reluzente, como se ela tivesse seus próprios segredos, e não quisesse que ninguém além de Black Star se aproximasse dela.

Rainbow Star fechou os olhos, e investiu contra mim, os pés se movendo na velocidade de uma supernova. Procurou me atingir com os machados, apertando os olhos, mas eu desviei-os, com Liz e Patty, cruzando as armas.

Pelo visto, a batalha também estava cansativa para ela. Nós dois suávamos frio, pingando, pálidos como se estívessemos com anemia.

A garota recuou, levantando poeira do assoalho. — Você tem que ter algum ponto fraco — ela ofegou. Percebi que estava respirando com pesar.

–Ahn… você… você está bem? — indaguei, me aproximando. Achava que a batalha tinha acabado, sendo que Rainbow Star estava tão cansada. — Posso te ajudar…

–Kiddo! — era a voz de Liz. Dei um passo para trás. Meu coração retumbava nas costelas, assustado como um rato encurralado. Nunca sentira aquilo antes. Fiquei quieto, observando ela se recompor.

–Agora, aqui vai meu golpe final, pequeno Shinigami… — a alma dela assustadoramente tremeluziu em vermelho vivo. As faixas ficaram mais intensas e físicas do que antes. — TAMASHII NO KYOUMEI! KI CHERE KA-CHEREI!

“Ki chere Ka-cherei”.

“Perfeitamente simétrico”.

Atirei-me para longe, mas Rainbow Star não errou a mira quando lançou as armas, e os machados pareciam me perseguir como perseguiriam a um ímã gigante. Um 8 se formou acima de mim, e as correntes se alongaram, enquanto toda a aura da garota se tingia de vermelho.

Observei as correntes girando ao meu redor, o poder irradiando de Rainbow Star, surpreso. Não conseguia pensar em nada a não ser a simetria perfeita daquele 8. T.O.C. idiota.

Logo, eu me debatia, preso no centro dos nós, enquanto os dois lados do 8 giravam numa velocidade assustadora. Parecia que eu desenvolvera hélices de um helicóptero particular. Tentava me soltar, mas não conseguia. Estava muito apertado, demais.

–Kiddo-kun! — Patty havia se soltado das amarras de Rainbow Star, mas não trazia arma. — Calma!

Ela caminhou calmamente até Rainbow Star, que aguardava, ofegante, mais golpes.

–Será que você…. poderia soltar meu Shokunin? Você o está machucando. Kiddo-kun é um bom Shinigami. Ele nunca quis mandar em você.

A garota observou Patty com atenção e cautela. — Quem é você? — ela indagou.

–Eu sou Patty Thompson! — a irmã mais nova fez uma mesura engraçada.

Por fim, a expressão de Rainbow Star se aliviou. Ela sorriu. — Você parece me entender. Eu sou a grande Rainbow Star, irmã de Black Star, o homem que superará Kamisama!

Ela fez um movimento com os dedos. As correntes, que me apertavam com tanta força que eu queria vomitar, se desenrolaram de volta de mim. Retomei o oxigênio, inspirando com força, e desabei de joelhos.

–Ahn… gomen-nasai — disse Rainbow Star, sorrindo amigavelmente. — Eu não queria ter machucado você! — ela pulou em cima de mim com tanta força que, se eu não fosse filho do Shinigami, já estaria morto. — Desculpe, está bem? Acho que eu fiquei animada demais com a batalha! Bem, deixe-me ajudar a se levantar. É que… eu não gosto de receber ordens de ninguém.

Minha boca formou um O de êxtase. Ela era exatamente o que eu queria ser — independente, perigosa quando desejava e carinhosa quando valia a pena. Ela era livre, e eu não.

–Chamando Death the Kid para a Death Room — ressoou a voz do doutor Stein nos altos falantes. — Acompanhantes também podem vir. Temos uma notícia, e temo que não seja muito boa.

Convidei Black Star, Tsubaki, Rainbow Star e sua arma para virem conosco.

–E esse seria… o professor STEIN! — e, bem, a primeira coisa que Rainbow fez foi saltar sobre Stein e o derrubar da cadeira idiota. Talvez ela achasse que as pessoas gostariam mais dela depois disso, mas creio que o efeito era exatamente o oposto. Sorri ao ver a garota caída de costas, as pernas para o alto, envolta numa maçaroca de cabelo ruivo, com um professor Stein nada satisfeito ao seu lado. — Eu sou Rainbow Star…. é um prazer conhecer você!

–Você me interessa, garota — a voz de Stein ressoou desanimada. — Poderia dissecá-la, de tanto interesse.

Rainbow Star ficou calada pelo resto do caminho, até a Death Room.

Meu pai tem, mesmo, uma sala bonita. Ela é cheia de guilhotinas vermelhas pelo corredor todo, e, no fim, há um grande pedestal e um “espelhofone”. Papai já me aguardava, fitando a tela.

–Kiddo — a voz dele era engraçada. O Shinigami-sama acenou para mim através do espelhofone e eu sorri de leve.

Era bom ver meu pai. Mais agradável do que ficar trancado em casa o dia inteiro. Fora isso, eu precisava treinar meu olhar de "isso-tudo-é-muito-agradável-e-eu-não-sou-uma-falha-de-Shinigami".

–O que houve, pai? — indaguei, curioso. Me lembrei de que havia uma notícia ruim. — Quais são as novidades?

–Bem, Kiddo — respondeu ele, solene. — Parece que temos uma bruxa rondando a escola.

Notas finais
Kiddo: Vergonha, vergonha, vergonha, vergonha.... mas que vergonha.... não deveríamos ter postado um capítulo com meu Ponto de Vista... eu sou muito detalhista... droga. E por que colocar minhas citações de músicas? São inúteis! Por quê? Rainbow*Star: Mas, Kiddo, veja pelo lado bom.... finalmente nos conhecemos! Kiddo: É, pode ser. Aquele ataque... tão simétrico! Foi sensacional! Maka: Os dois vão ficar de namoro aí do lado ou vão nos deixar falar? Kiddo: G-g-g-gomene..... Black*Star: Você foi incrível, Rainbow! Soul: Pela primeira vez na vida, Black Star tem razão. Leo: E então? O que acharam desse novo capítulo? Espero que tenham gostado! Rainbow*Star: Aguardem o próximo! Capítulo 808 de Academia Shibusen para Fracassados: Experimento inseparável! Somos mesmo uma falha de mutação?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.