Notas iniciais
A praia que percorre os limites da área da Academia Metsavennad é linda. Se os humanos pudessem ver a Valge.... Ela marca o território imenso de Metsavennad e, por um simples erro de cálculo antigo, o mago Koit acabou privando aquela visão. Era um mar com suas águas transparentes na beira escurecendo conforme ficava mais profundo. Talvez seja culpa das sereias, mas essa mudança de tons é incrível, ninguém pode negar. Muitos estudantes, nos primeiros anos que passavam ali, perguntavam o motivo do mar não ter ondas.
Kerli acreditava que era pela areia. Lá fora, era incomum mares serem contornados pela areia? Bem, mais ao fundo, dá para ver pedras. Pedras grandes, imensas, onde algumas vezes os professores levavam os alunos mais medrosos. Lá, eles os encorajavam a pular, e com isso o vampiro era testado em muitos sentidos. Se era facilmente manipulável, se era corajoso. Isso, é claro, não era realmente um teste, mas era quase a base da personalidade dos alunos. Antigamente.
Hoje em dia, Kerli não conseguiria fazer ninguém passar por medo ou humilhação apenas para seus superiores conhecerem seu modo de pensar. Talvez isso seja porque ela tinha aquele poder: o de entrar na mente das pessoas. Manipular, dominar. Claro que ela não fazia isso com seus alunos, apenas... era convidada a entrar. Não ultrapassa nenhuma barreira além do que precisa para ter os conceitos básicos de personalidade. No ano passado, muitos vampiros desordeiros foram reprovados por ela (além de também não passarem pela vista de Johanna).
Ela se sentou em um dos degraus da escada que se formava naturalmente com raízes de árvores, e que levava ao mar. Podia sentir cada grão de areia em contato com sua pele, enquanto, pela milionésima vez em Janeiro, observava o modo como a natureza se manifestava ali. Areia tão perto da floresta, com raízes formando escadas, e troncos e cavernas transformando-se em refúgios. Talvez fosse relacionado ao feitiço do mago, ou talvez simplesmente tenha sido a Mãe Natureza que resolveu sorrir àquele lugar. Isso explicaria os elfos, as ninfas e todos os outros seres que habitavam a floresta atrás do grande castelo. Era realmente um lugar lindo, para qualquer espécie.
Com um sorriso descansando entre os lábios, ela esperou por alguns instantes, antes de se levantar e ir até a beira da água. Um pouco mais distante, pôde ver uma silhueta familiar se aproximando. Então, Kerli correu até a passarela de madeira que estendia-se até o oceano, que especialmente naquela área era uma mistura do Atlântico com o Ártico, pela Noruega, a Suécia e a Finlândia darem caminho ao segundo para banhar a Estônia (um segredo que só os seres do mar sabem explicar). Ninguém nunca havia chegado ao final dela, e na verdade Kerli nem tinha curiosidade para o fazer. A mulher foi até o ponto correspondente da estrutura de madeira onde já não daria pé na água e chegou a tempo de ver a figura levantar seu corpo para fora do lago, cabeça, busto e um pouco da barriga. A pele laranja ouro parecia seca, uma característica comum das sereias. Os cabelos compridos e negros cobriam a frente do corpo, e logo, os olhos azuis da sereia encontraram o tom vinho dos olhos de Kerli. Ambas sorriram.
— Flavens! Aqui. Espero que os jovens de lá não se sintam esquecidos com a demora. — disse Kerli, enquanto sentava-se na passarela para ficar na mesma altura que a mulher.
Flavens pegou a carta entre dois dedos.
— Acredito que não, eles estão é empolgados. Para alguns, será a primeira vez que irão sair da água, então estão animados também com as pernas. Hoje eu passei por uma garota que me disse que quando ganhasse suas pernas para vir, iria dar seu coral para a deusa Úrsula. — a sereia sorriu, enquanto, com a mão livre, retirava de sua cabeça a coroa de conchas que dava seu status de imperatriz.
A senhorita Flavens Litus era a Imperatriz do reino dos dois oceanos, era a mais responsável por recrutar alunos. Kerli, por sorte, a conheceu antes de se tornar diretora e sua relação é extremamente boa. São amigas de longa data.
—Bem, eu não posso ficar. Preciso confirmar com a Nindë, se ela tem alguma exigência para os alunos que irão entrar, também.
A face da sereia escureceu minimamente. Ela não gostava muito de Nindë Nólatári.
—Eu nem sei pronunciar o nome dela. Sinceramente, que tipo de líder é ela?
—Huh, Flavens... Eu não posso ouvir isso agora. Preciso mesmo ir. Só... tente não fazer com que os filhos do mar peguem raiva dos elfos. — Kerli sorriu enquanto voltava a se levantar.
A senhorita Litus apenas deu um sorriso levemente maldoso enquanto voltava a colocar sua coroa, e sem responder ela mergulha, fazendo com que sua cauda esverdeada ficasse à mostra por poucos segundos.
Kerli deixou uma risada escapar. Agora, as sereias também foram chamadas, elas e todos os outros seres do mar. Não faltava mais ninguém.
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