Academia Lótus
2 Como tudo começou...
Notas iniciais
Era um dia normal, e põe normal nisso. Estava sentado em meu lugar, na primeira cadeira da segunda fileira. Sempre sentei nesse lugar, desde o primário. Nunca fui muito de ter amigos, não que eu seja chato e tudo, mas digamos que eu sou um pouco diferente.
A aula de física se arrastava pelo tempo, era a decima vez que eu olhava para o relógio que ficava na parede acima do quadro. Meus pensamentos voavam, e o fone no meu ouvido estava bastante alto. Nunca prestei a devida atenção nesta aula, o professor de física era baixo e com os cabelos brancos espetados na cabeça, sempre que o via me lembrava de Einstein. Minha paciência estava no limite, e o tedio já havia ultrapassado o limite. Puxei o capuz de meu moletom ate a cabeça e deitei na mesa. Minha musica preferida tocava agora. “93 Million Milles”, Jason Marz. Meus pés se moviam no ritmo da musica quando senti um cutucão no ombro. Levantei os olhos e tirei os fones do ouvido. Era o professor de física, me olhando com aquela cara de “te peguei”. Droga; pensei.
O professor limpou a garganta, fazendo um barulho nojento e me fez uma pergunta, que nem em um milhão de anos eu saberia responder.
– Sr. Blake, como eu faria para responder aquela questão, na qual você não estava prestando atenção. – Essa era a parte ruim de se sentar na frente em uma sala de aula, todos na sala estavam conversando e o culpado era eu.
– É... Não sei. – respondi. Todos na sala agora estavam calados, prestando atenção na minha vergonha alheia. Droga; pensei novamente. Agora seria o centro das atenções, e isso era o que eu menos queria.
– Se continuar assim, Sr. Blake, tenho certeza que sua mãe gostaria de visitar a escola. – o professor disse e se voltou ao quadro.
Os meus “colegas” de classe caíram na gargalhada. Todos riam e alguns até gritavam. Idiotas. “Neném da mamãe”, “Bebezinho”, “A mamãe vai vim trocar a fralda do bebê”. Essas eram as lindas frases que eu ouvia no momento. O rubor em minha bochecha já era visível.
– Professor. Acho que o senhor deveria fazer mais algumas perguntas. – falei. O professor se virou e me encarou por um momento, e depois viu que ninguém prestava a atenção nele.
– Que bagunça é essa? – o professor gritou.
– Deve ser o neném querendo mamar. – Agora foi à vez de Cristhian, um garoto idiota que sempre pegou no meu pé. E para variar, era quarterbeck do time de futebol da escola.
– Cala a boca Christian, seu idiota... – levantei exasperado do meu lugar, e me virei para encarar Cristhian. Ele era alguns centímetros maiores do que eu. Tá bom, eu admito, ele era muitos centímetros maiores do que eu. Me arrependi de ter levantado, assim que o encarei. Nunca tinha me metido em uma briga, e não queria ter a primeira experiência com Cristhian Nolah. E novamente o silencio reinou na sala. Fudeu.
– Olha o bebê quer brincar. É melhor se sentar Blake, antes que se machuque. Princesinha da mamãe. – Cristhian se levantou também. A sala explodiu em gargalhadas, e todos cantavam em coro “Princesinha da mamãe”.
Esse era o motivo de eu não ter muitos amigos, todos achavam que eu era gay. Até eu achava isso, mas ainda não tinha uma certeza convicta. Nunca tinha ficado com um garoto, e muito menos com uma garota. É isso mesmo, nunca beijei na boca. Estava com raiva, vergonha, medo. Tudo se misturava, e virava um sentimento que nunca havia sentido antes. Queria chorar, as lagrimas lutavam para sair, mas segurei. Não podia dar esse gostinho a Cristhian. Ao invés de chorar, eu fiz uma coisa que achei que nunca faria. Soquei Cristhian, no rosto e corri.
Sai pela porta em disparada, e corri pelo corredor em uma velocidade que nunca imaginei que tinha. Sabia que Cristhian me daria o troco, mas agora um sorriso se espalhou pelo meu rosto enquanto corria. Cheguei ao pátio, e meu pulmão já ardia. Se eu sair dessa, sem Cristhian me arrebentar, eu prometo que irei fazer exercícios físicos todos os dias; fiz essa prese. Me sentei debaixo de uma arvore e descansei, ate que minha respiração se estabilizou. Tateei ao meu lado procurando por minha mochila, e descobri que na minha fuga havia a esquecido na sala. Bufei.
Fiquei sentado no pátio, ate que o sinal da ultima aula soou. Estava surpreso que Cristhian, ainda não estava atrás de mim. Com certeza, estava planejando minha morte, lenta e dolorosa. Poderia ter ido embora, mas eu nunca conseguiria pular o muro da escola, e meu celular ficou na sala, não teria como eu ligar para os meus pais.
Depois de alguns minutos, o pátio já estava cheio de alunos indo para a portaria. Levantei rapidamente e fui para trás da arvore. Meu plano era o seguinte, esperaria todos saírem, e voltaria à sala para recuperar minha mochila. Descobri que estava tremendo. Meu coração bateu mais forte quando escutei meu nome atrás de mim. Puta merda; é o Cristhian, ele me encontrou.
Tentei correr, mas seus amigos me interceptaram. Ótimo, já não bastava o Cristhian, agora o time inteiro estava atrás de mim. Um deles me empurrou, tropecei em uma pedra e cai de bunda. Os alunos da portaria se aproximaram excitados para presenciar uma briga das boas.
Cristhian se aproximou de onde eu estava caído, ele estava com minha mochila. Seu sorriso quase não cabia no seu rosto. Ele se ajoelhou ao meu lado e falou em uma voz afetada.
– Olá gayzinho. – senti seu hálito de chiclete barato.
Cristhian se levantou, e me empurrou para certificar que eu ficaria no chão. Ele abriu o zíper da minha mochila e despejou todos os meus pertences no chão ao meu lado. Livros, cadernos, celular, tudo agora estava no chão.
Cristhian pisou em cada um deles, rasgando meus livros e estragando meu celular. Meu ódio por ele acabou de chegar a cem por cento. As lagrimas desceram dessa vez. Como ele podia ser tão covarde?
– Que pena, suas coisas estragaram. – todos ao nosso redor deram gargalhadas. – Olha a “princesinha” esta chorando. Dá próxima vez que for socar alguém, olhe bem quem esta socando.
Seu punho acertou minha bochecha em cheio. A dor se alastrou rapidamente, e eu tombei para o lado. Rapidamente levei minhas mãos ao rosto, e senti meus lábios sangrando. Queria gritar, mas não fui capaz. Uma avalanche de socos e chutes me atingiu, eram os amigos de Cristhian sendo covardes iguais ao capitão.
Cada parte do meu corpo doía, como se um caminhão estivesse me atropelando. Coloquei minha cabeça no chão, ficando em posição fetal. Talvez doa menos; pensei. Eles não paravam, e eu sabia que não suportaria por muito tempo. Raiva agora me consumia, e rapidamente o medo se fora. Chorei novamente e gritei, não suportando mais a dor. E o inexplicável aconteceu.
Uma onda de calor saiu do meu corpo, como se fosse minha raiva canalizada, e atingiu todos os meus agressores, fazendo-os voar para trás. Os telespectadores da briga ficaram surpresos, alguns caíram de bunda com a força do impacto da minha salvação.
Levantei do chão, sangue pingava do meu rosto e minhas pernas tremiam, mal me sustentando em pé. As pessoas estavam assustadas, assim como eu. Queria respostas, mas precisava sair daqui, poderia achar as respostas em casa. E assim corri – ou melhor, tentei correr. – a segunda vez naquele dia.
Ouvia pessoas gritando e conversando, mas continuei me afastando. As lagrimas não cessavam, turvando minha vista. Cheguei ao estacionamento e destranquei o cadeado com as chaves em meu bolso. Montei em minha bicicleta e sai para a rua, com os ventos ricocheteando em meu rosto. Mamãe, por favor, esteja em casa.
Cheguei em casa cinco minutos mais tarde, do que em um dia normal. Minhas pernas doíam, por isso não consegui pedalar tão rápido. Desci da bicicleta, deixando-a cair no quintal, e corri para a entrada. A porta estava aberta. Graças a Deus. Entrei em casa.
– Mae? – gritei.
Estava encostado na porta de entrada, já iria gritar novamente, quando minha mãe apareceu no batente da porta da cozinha, com um avental amarrado na cintura. Ela estava preparando o almoço.
Ela correu ao meu encontro, e me olhou nos olhos. Preocupação era visível em seu rosto.
– O que aconteceu? – ela perguntou exasperada.
– Eu... – solucei. – Eu não... sei. – Então, minha mãe me abraçou.
Me aconcheguei em seus braços, e deixei o medo do dia se dissolver naquele abraço. Ao longe escutei sirenes do carro de policia, meu medo retornou.
– Eles estão atrás de mim. – corri para a janela e fechei as cortinas.
– Math, o que aconteceu? Me diga agora. – Seu olhar estava duro, mas eu podia sentir a preocupação.
– Na escola hoje... Eu fiz... Eu fiz uma coisa estranha. Os meninos me bateram...
– Os meninos o quê? – ela me interrompeu. As sirenes estavam mais altas.
– Mãe, me escuta. – corri para seu lado novamente. – Eu me meti em uma briga, e aconteceu algo estranho. Saiu algum tipo... Algum tipo de poder de mim. – falei. Falar isso em voz alta era pior do que ver. Minha mãe me olhou profundamente, seus olhos fixos no meu, seu olhar continha admiração e quase felicidade.
– Venha, precisamos fugir. A policia está se aproximando. – ele pegou minha mão e corremos para a porta dos fundos.
– O que? Fugir? Mas pra onde? E o papai e o Sammy? – perguntei incrédulo.
– Cala a boca e me segui, Math. Seu pai e o Sammy estão bem. Anda garoto. – ela me puxou mais rápido, enquanto digitava uma mensagem rápida em seu celular.
Saímos pelos fundos, e minha mãe abriu uma porta no quintal que dava para a floresta. Engoli em seco. Escutei a policia arrombar a porta da frente e entrar em casa. Atravessamos a porta e chegamos à floresta. Minha mãe me soltou e com um movimento de suas mãos as arvores ao redor fizeram uma muralha de galhos, troncos e folhas.
– Puta merda. – escapuliu da minha boca.
– Olha a boca, Math. – Minha mãe se virou e correu floresta adentro.
Corri atrás, novamente. Queria deitar, dormi três dias seguidos, e quando acordar isso tudo não passar de um sonho. Depois de corrermos alguns minutos, tanto eu quanto a minha mãe estávamos arfando. Meu pulmão ardia, e minha força se exauriu completamente.
– Mae. Não dou mais nenhum passo. O que esta acontecendo? – perguntei. Pus minha mão em meus joelhos, dobrando meu corpo.
– Só mais um pouco, eles estão atrás de nós. – ela disse se virando para mim, seu peito subia e descia em um ritmo acelerado.
– Não, eles já ficaram para trás há muito tempo. Que droga, aquele escudo de arvore está nos protegendo. E como a senhora fez aquilo? – Estávamos em um clareira, o sol já estava se pondo, e o pôr do sol lançava luzes alaranjada no céu. Minha mãe respirou fundo, e se aproximou de mim.
– Preciso que você seja compreensível. – ele pôs as mãos em meus ombros. – Você, eu, seu pai e seu irmão nós somos diferentes. – Quis rir, mas me segurei. Eles eram diferentes? Não, eu sou o diferente.
– Eu sei que é estranho e tudo, mas você é um mestiço. – Minha testa se enrugou, já havia visto essa palavra em algum lugar. – Sim, isso mesmo. Você é meio vampiro e meio bruxo.
Fale com o autor