Academia Heróica

4 Here With Me


Alex

Guardei meu celular no bolso, esperando que nenhum de meus colegas visse. Escutei Doutor Lápide cantarolar de seu laboratório algo que me fez sentir um aperto no peito.

— Um dia vai chegar sua vez, a morte virá, não importa o freguês. — Realizou uma melhoria em um clone reserva de Golias utilizando uma agulha modificada para perfurá-lo, contendo sei lá que substância que o deixará mais resistente ou algo do tipo.

Isso me lembrou do estado atual do meu amigo Hope Maker, o encontrei outra vez na clínica e o doutor teve de fazer outra cirurgia de emergência nele, ou, o pior poderia ter acontecido, ele sangrava muito e a marca em seu estômago era gigantesca, seu pulmão mal lhe servia, fazendo-o lutar para respirar. Ao contrário dele, não sei como é se sacrificar por alguém e ser um exemplo, pelo contrário, sou a pior pessoa que alguém poderia ter como inspiração. Talvez agora isso mude. Utilizei a passagem secreta dos esgotos para chegar à cidade, em poucos minutos alcançando um beco escuro sem saída em meio aos prédios. Liberei uma forte rajada de ar de minhas botas com pequenos propulsores, alcançando o topo do edifício em que o loiro estava repousando. Talvez devesse passar na floricultura e comprar alguns girassóis, seus favoritos.

— Ray, você está bem pra receber visitas hoje? — Bati à porta do terraço, esperando não incomodá-lo.

Ele me viu da janela de vidro no andar de baixo, sorrindo ao me ver. Não pude evitar a formar um sorriso também, mesmo sabendo que isso pode dar errado, muito errado. Um herói e uma vilã amigos? Receita para um desastre. Eu até sinto meu coração amolecer quando o vejo, para meu próprio infortúnio. Ele é como um girassol para mim, me ajudando a olhar para o lado mais ensolarado das coisas.

— Entre! — Falou enquanto segura uma caneca de café, suas roupas largas quase se arrastavam pelo chão. — Estou muito feliz em te ver. Hoje eu planejei algo diferente, irei visitar a Academia Heróica e ver o progresso dos mais novos.

Isso me fez sentir que isso poderia acabar mal, mas, ninguém sabe como é meu rosto. Porém, o Power Man tem uma visão mais aguçada, e se ele me viu naquele dia? A expressão serena de Hope Maker sumiu, dando lugar a um olhar preocupado. Não quero estragar seu dia, então irei e seja o que quem quer que seja quiser.

— Não é nada, eu só estava pensando em como eu pude ter esquecido de escrever pra você esses dias. — Balancei a cabeça.

Ele se levantou para colocar a caneca na pia, de lá continuou a conversa.

— Não há problema nisso, eu também não te escrevi nenhuma carta. — Ele voltou para a sala, seus olhos azuis estavam mais brilhantes. — Agora me sinto animado para voltar.

Rosalie

Aquela mensagem não saiu da minha cabeça, atenção ao quê? Minha mãe esteve agindo de forma suspeita, mas talvez isso não passe de uma grande coincidência. Guardei o aparelho e desci para tomar café, mamãe dançava ao ritmo de uma música do rádio, enquanto preparava panquecas. Bocejei, então a cutuquei. Mamãe se virou para mim e me deu um beijo na bochecha.

— Bom dia, mãe! — A abracei, ela grunhiu de dor. Isso me deu uma sensação gélida em meu peito, mas ignorei. Peguei o prato cheio e me sentei à mesa, ela disse para eu não comer tanto ou teria de fazer ajustes em minhas roupas. Franzi o cenho, mas continuei comendo tudo sem uma pausa. — O que você cozinha é muito bom, não é minha culpa, heh.

Então subi e vesti meu uniforme, meu pai almoçou conosco e voou de volta para seu trabalho. Desci para pegar o ônibus, desta vez, o assento vago era perto de uma garota parecida com Sora. Ela se virou ao me ver, percebi desde o primeiro dia que não tinha ido com a minha cara. Dei de ombros, então peguei da bolsa uma revistinha de "Hi, Kitty", a peguei no flagra olhando de relance. Quando Kurami apareceu, ela ficou observando ainda mais, senti vontade de rir um pouco da situação, mas me contive. A viagem acabou, senti alguém me cutucar ao sair do ônibus, mas quando me virei, não tinha ninguém. Brincadeira de mal gosto do Ethan, talvez?

Frente à grande estátua, estava pela primeira vez o herói por trás dela. E ao seu lado, a vilã de antes. Então é por ele. Me aproximei com minha turma, ele respondia perguntas feitas pelos meus colegas. Six e Zero não pareciam nada impressionados por sua presença, então eles ficaram num canto perto da árvore de braços cruzados.

— Rosie! — Hector apareceu de súbito, quase tive um ataque cardíaco. — Você viu? Esse é o cara em pessoa!

Ele sorriu e fez um sinal de joia ao nos ver, sinto que esse cara é mesmo diferente de Power Man, mas não posso ter certeza ainda. Decidi fazer uma pergunta.

— Por que você luta? Por que salva as pessoas e combate vilões? Qual é o seu combustível? — Questionei esperando uma resposta qualquer.

Ele ergueu sua cabeça.

— Quero que todos tenham um sorriso no rosto, mesmo em tempos difíceis. Estou aqui para resgatar a esperança nos corações daqueles que salvo, sem deixar que a escuridão leve o fogo de nossos corações embora. Quero que se sintam seguros, em paz. Por isso estou aqui.

Seu olhar e tom de voz era genuíno, algo que eliminou minha pulga atrás da orelha, mas ao mesmo tempo, me intrigou de uma forma que não pude entender. Um herói que quer de verdade apenas a felicidade dos outros? Não é por marketing? Não é para mostrar ao mundo o quanto é uma boa pessoa? Não é pra ser o número um? Isso é novo. A direrora Reed nos avisou que uma prova se aproxima, ela decidirá a equipe mais promissora para atuar junto com os heróis profissionais. Meus colegas se animaram ao poder serem companheiros de Hope Maker, ou melhor dizendo, Sr. Raymond, enquanto eu me perguntava como ele parecia bem com todas as notícias sobre ter sumido e seu estado de saúde ser crítico. O dia acabou, sem vilões, sem problemas. Me esparramei em minha cama e pensei em como irei fazer para passar pelo menos em segundo.

Alex

Guiei Ray até seu quarto, ele vomitava e tossia sangue sem parar. Liguei para o médico, embora o loiro me dissesse que está tudo bem. Não está e eu sei disso, senti meu corpo tremer de forma sutil, o doutor atendeu. Marcou outra consulta de emergência, passei a noite vigiando ele caso precisasse de mim. É um exagero? Talvez, mas sinto que não posso deixá-lo definhar e ficar de braços cruzados.

— Eu irei ver os meninos amanhã de novo. Quero estar presente para guiá-los em suas decisões. — Ele melhorou por um instante, até ter outro vômito. Em alguns minutos, Hope Maker foi atendido e medicamentos melhores lhe foram receitados. Antes de voltar pra aquele covil fúnebre, o ouvi se despedir. — Se eu ainda estiver aqui hoje mais tarde, gostaria da sua companhia. Tenha uma boa noite, Alex.

Imagina quando eu contar ao Botas sobre o dia de hoje, ele irá dar vários miadinhos de torcida para... Ah, eu não devo sonhar. Como ele mesmo disse, caso ele esteja aqui. Nunca saberei qual será a última vez que o verei, mas tenho esperança. Depois de muitos anos, eu sinto uma faísca de alegria voltar ao meu coração. Coloquei a água e ração do meu gatinho e fui dormir tranquila, esperando pelo melhor.

Notas finais
Curiosiade: o personagem Raymond "Hope Maker" foi inspirado no All Might de Boku no Hero.