Academia Dark Hill-Interativa
4 Tédio
Notas iniciais
Meus pés prenderam ao chão quando avistei o único alimento do cardápio, o cheiro ferroso e a viscosidade do líquido fazia meu estômago revoltar-se ao mesmo tempo em que ele precisava urgentemente digerir algum conteúdo. Meu dia estava começando perfeitamente bem, meu pai tinha me abandonado no meio de um bando de adolescentes estranhos e com cara de psicopatas para que eu pudesse socializar com minha nova realidade, eu só precisava fugir dali.
–Acho que você está na fila errada.- Comentou uma morena de olhos castanhos, ela, como todos os outros da fila, apanhava um cálice enchido até a boca com sangue .-Sangue fresco é bem melhor do que as malditas pílulas, elas são como soro fisiológico para os humanos, uma porcaria, é sempre melhor sentir o morno líquido deslizar pela garganta.- Reclama concentrada na taça em sua mão direita e no balanço do líquido quando ela mexe-a.
–Wow, um monologo bem ...sanguento, Edgar Allan Poe se sentiria orgulhoso de você, licença.- Larguei minha bandeja vazia e sentei-me sozinha no banco, isso era incomum para mim, sempre estive rodeada de pessoas independente se eu queria ou não, elas sempre estavam por perto, agora aqui estava eu sentada em um extenso banco de madeira sozinha e sem café da manhã, se eu soubesse que minha vida tomaria esse rumo nunca teria ido aquela maldita festa...A lembrança da situação que me trouxe até aqui fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. Isso de lembrar não ajuda muito agora.
–"Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto."- Uma maçã vermelha e suculenta foi jogada sobre a mesa plana, rolando até meu encontro, virei meu corpo repentinamente em direção ao corpo que se sentava ao meu lado, a mesma garota da fila segurava seu cálice com leveza enquanto me olhava com um sorriso ladino nos lábios.- É Edgar Allan Poe, sempre que pensam em romancistas meio góticos citam ele, mas existe uma leva enorme de outros autores do mesmo nível do gênero, tipo o meu preferido, Dostoyevsky, ele é russo e meu conterrâneo ,já leu alguma obra dele?-Ela perguntou entusiasmada a espera de uma resposta.
–Hum, eu realmente não tava afim de iniciar uma discussão literária aqui.- Apanhei a maçã que ela havia oferecido e dei uma bela mordida, saciando o monstrinho no meu estômago. A morena lançou sua mão direita em minha direção sem cerimônias.
–Arshad Ivashcov–Se apresentou, apertei sua mão e disse:
–Sophia Miller.-Balançamos um pouco nossas mãos unidas e voltamos a nos alimentar.- Tá, por que todo mundo aqui mesmo sendo de lugares diferentes falam inglês fluentemente?-Perguntei curiosa. Era impossível todas aquelas pessoas fossem fluentes em inglês.
–Tem um feitiço sobre a instituição que obriga todos os residentes a se comunicarem nessa língua, é universal e tal, mas só aqui dentro.- Ela respondeu bebendo mais um gole de sangue e limpando o “bigodinho” com as costas da mão.- É nova nesse mundo?-Me questionou.
–Uhum, sou uma fada, mas não sabia até...hum, eu fazer uma coisa errada e vir para cá.-Arshad soltou uma risada sem graça e revirou os olhos.
–Não sinta-se especial por ter um segredo, na verdade, acho que ter esqueletos no armário é um requisito para entrar em Dark Hill.-Uma onda de desânimo fluiu do corpo de Arshad alcançando-me , seu rosto inexpressivo provavelmente é fruto do seu pensamento longe e fixado em momentos de seu passado.
–Ai que droga, esse lugar me deixa altamente entediada, será que terá alguma festa aqui, um baile de primavera, tipicamente americano?-Me pronunciei tentando quebrar aquele ar pesado sobre nós, as pessoas daqui eram muito difíceis de se conquistar, todas tinham olhas confusos ou desconfiados demais as áureas delas era bastante incompatível com a minha. Incrível esse lugar estava oprimindo até minhas habilidades de socialização.
Arshad me deu um cutucão com o cotovelo, fazendo-me soltar um “ai” meio esganiçado e acariciar aquele local.
–Não diga isso, o diretor adora aparecer do nada para tentar solucionar esse seu problema.- Sorri divertida vertendo ate a última gota do cálice e pousando-o na mesa.- Qual é sua primeira aula?
–Auto controle.
–Pois é Sophia, a gente se encontra nos caminhos labirínticos da nossa estadia.-Arshad abandonou a mesa a passos confiantes, com os longos cabelos castanhos balançando sobre suas costas em sincronia ao seu andar. Ao vê-la atravessar a porta dupla da cantina olhei ao meu redor, havia ainda um pequeno e silencioso contingente de pessoas, dispersas pelas enormes mesas.
–Ei fadinha?-Uma garota chega por trás de mim pousando sua mão sobre o braço da minha cadeira, ela tem cabelos rosas e traços orientais me olha de maneira atrevida com seus olhos brilhantes e estranhamente verdes.- Ainda está entediada? Por que eu e meus amigos fae’s temos coisas bem mais divertidas do que ficar fazendo “Om” de pernas cruzadas.- Atrás dela tinha um casal sorridente desafiando me com o olhar, ambos morenos, a garota era baixinha e o rapaz alto e com olhos verdes que piscavam em diversão. Me levantei da mesa e com os restos da minha maçã em mãos e fitei os jovens que me olhavam ansiosos e divertidos ante minha resposta.
–Eu ia acabar me perdendo no caminho mesmo.- Dei de ombros seguindo o grupo em direção a saída. Espero valer a pena.
* * *
“ Si Pereunt adducam in in error petalis dorso”
Escureci novamente a frase rabiscada no meu antebraço com uma caneta esferográfica escura, larguei-a sobre a minha cama e segui para a campina onde se iniciaria a aula de “Controle”, basicamente aula de yoga com velas levemente alucinógenas, para que pudéssemos entrar em contato com nossa “fera” interior e domá-la, mas eu a usaria apenas para um proposito.
–Heyy!-Madalena Gonzaléz, minha colega de quarto entrou a passos pesados, usava um vestido roxo e rodado com um avental branco por cima sujo de vermelho , os cabelos negros bagunçados no que antes era um coque arrochado no topo da cabeça ,vários fios escapavam se espalhando sobre seu rosto redondo com uma carranca de raiva.
–Oi.-Disse amarrando o cadarço do meu tênis que havia desatado, eu estava usando shorts de tecido leve um pouco acima das canelas azul petróleo e uma camiseta branca sem mangas, uniforme oferecido pela Dark Hill. Quando o corpo de Madalena tombou contra a sua cama o cheiro podre de vômito misturado com outras catingas me atingiu em cheio.
–Admita, eu estou fedendo pra cacete, né?-Questionou sem tirar os olhos do teto. Continuei calada observando-a. — Droga, é o segundo ano seguido que eu tenho que auxiliar a porca da Joanne na cozinha, ai eu ela me encarrega de cuidar dos cálices com sangue e BUM, litros daquela nojeira perdidos e um pouco de vômito, acredita que no caminho eu fui perseguida por dois vampiros pensando que eu era algum tipo de foodtruck de sangue?-Madalena disse com a voz indignada e esganiçada abruptamente se erguendo com o olhar aflito e a mão sobre o peito.
–Para eles terem pensado nisso você deveria ser um trailer coberto de sangue....Tá, desculpa -Me redimi pelo súbito pensamento idiota, mas Madalena aparentemente não se importou.
–Bom, pelo menos você não vai feder a cocô de cavalo todo dia depois de “auxiliar” no haras. Levantei e comecei a ir em direção a porta quando Madalena me chamou.
–Se for pra aula de yoga traz uma daquelas velas alucinógenas pra mim, tô precisando relaxar. -Ela pediu começando a massagear suas têmporas.
–Acho que precisará de duas .Vou indo.- Segui pelos longos corredores da instituição trombando com alguns alunos distraídos ou apressados para suas aulas, cada aluno tinha recebido sua própria agenda de aulas,um garoto moreno e baixinho acabou esbarrando comigo e boa parte da água que tinha em seu aquário molhou meu braço esquerdo, praguejei baixinho mas ao ver o rosto escarlate e os olhos arregalados com culpa do garoto mostrei meu melhor sorriso e agradeci quando ele me ofereceu alguns lenços de papel que eu usei para limpar meu braço. Rapidamente alcancei a campina onde um pequeno grupo em fileiras estava reunido seguindo as instruções de uma mulher morena, alta, de pele bronzeada e cabelos curtos. Alguns estavam realmente se esforçando para alcançar pelo menos 10 por cento da elasticidade da professora enquanto alguns relaxados a olhavam embasbacados,homens, em sua maioria.
–Quer se juntar a nós, senhorita Wald?-A voz serena da professora fez com que todos os olhares antes fixados nela virassem pra mim. Como ela sabia meu nome?-Não se assuste, Marise sabe nome de todos , agora sente-se ao lado de Nicholas Black.- Ela apontou o seu dedo delgado em direção a um espaço vazio ao lado de um garoto de moreno, com cabelos curtos e um topete espetado, eles estava sentado sobre a grama verdinha com os cotovelos apoiados nos joelhos, seus olhos castanhos claros fixados em mim, me sentei ao seu lado e endireitei as costas, a professora havia pedido que ele me desse algumas instruções sobre o alongamento.
–Okay, Wald, primeiro precisa tira o tênis. -Fiz o que ele mandou e comecei a me alongar seguindo suas coordenadas. Ao terminarmos a professora pediu que nos sentássemos com as pernas cruzadas e respirássemos de maneira rítmica inspirando e relaxando ao sentir o ar empesteado com o cheiro das velas especiais, uma maneira bem prática de se praticar yoga, se drogando.
–Relaxem, respirem e concentrem-se na sua fera interior, toda a frustração, a raiva, a magoa, o ser que permeia suas mentes... junte tudo isso e os enfrentem.-Marise ordenava com a voz concentrada mas ainda calma demais. Olhei ao redor, analisando os rostos de cada um, todos estavam de olhos fechados, alguns aparentemente relaxados, outros sorrindo e um levemente atormentado...Nicholas Black, parecia entediado, com a boca retorcida em desaprovação, nunca vi uma careta tão expressiva em minha vida, podia até ver seus olhos castanhos revirarem com toda aquela situação. Aproveitei que todos estavam com os olhos fechados para iniciar meu feitiço. “Uma lembrança por outra”, é o que veremos. Levantei meu pulso direito e arregalei os olhos com o que vi. O feitiço que havia escrito estava todo borrado.
–Droga.- Praguejei um pouco alto demais, virei meu rosto novamente para fitar Nicholas que tinha as sobrancelhas franzidas em confusão. Inspirei e expirei de maneira violenta, sentindo todo aquele cheiro agradável invadir meus pulmões e gradativamente deixar-me mais leve. Tentei me lembrar das palavras do feitiço, sussurrando algumas coisas para mim mesma.
– Ostendit ....petalis...Porcaria, não tá acontecendo nada!-Suspirei frustrada.
–Ei, não é pra acontecer nada, espera, é?-Nicholas perguntou sussurrando confuso já com os olhos abertos .
–Esquece, desculpa atrapalhar sua concentração.- Respondi.
–Na verdade, você está me ajudando a não dormir. Então não se desculpe. -Piscou pra mim de maneira amigável.- Pode voltar a resmungar consigo mesma. -Nicholas disse com um sorriso esperto nos lábios voltando a fechar os olhos. Inspirei profundamente ate sentir algumas palavras deslizarem naturalmente pela minha língua.
–Ostendit quod perierat petalis.-Uma coisa sobre feitiçaria que até os mais leigos sabem, as palavras tem poder, não de uma forma metafórica e sim física e espiritual, elas são capazes de ativar toda sua força quando bem recitadas, você sente uma queimação no peito e uma euforia domina-lo e então, é como se toda sua força mágica deslizasse pelas suas veias indo em direção a ponta de seus dedos e o pico de suas orelhas, mas as vezes os sentimentos são mais dolorosos do que libertador, e é isso que está acontecendo comigo, eu estou sendo aprisionada em algo que desconheço mas machuca muito, a última coisa que posso ouvir do mundo físico é uma voz preocupada ecoar.
“-Wald?”
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