Acabou
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Adentrei em casa devagar, colocando as chaves na mesinha central da sala, e em seguida olhando em volta. Vazia. Era assim que a casa se encontrava, da mesma maneira que minha vida. Meus dedos passaram pelo braço do sofá, e então me sentei respirando fundo aquela lembrança.
— Pequeno. – O albino disse alisando meu rosto, me dando um leve selinho.
Agora não me restava nada mais que lembranças. Fechei os olhos e aspirei bem o ar, logo o soltando enquanto minhas pálpebras se abriam de novo. Eu estava um pouco novo, mas sozinho.
Alexis e Yuukyo... Ah! Como eu sentia falta deles, como... Como eu faria tudo para tê-los de volta. Há dois anos Alexis adoeceu e não demorou a falecer. Meu esposo. Sempre tão belo, tão alegre. Mesmo estando com seus sessenta e oito anos não tinha perdido sua essência! O castanhado sempre soltava suas piadinhas, mas nem mesmo sua alegria o salvou da morte, e logo após Yuukyo, meu outro marido, também adoeceu, este segundo por depressão de ter perdido Alexis, seu conjugue tanto quanto meu.
Olhei para o telefone e apertei o botão do mesmo, para em seguida ouvir da secretária eletrônica que tinha uma mensagem. Apertei o botão para ouvir, e sorri ao ter a voz de minha filha chegando até meus ouvidos. “Mãe, te liguei o dia todo, mas não atendeu. Espero que esteja bem! Liz está mandando um beijo, e amanhã estaremos chegando na cidade para lhe ver. Beijo, te amo!”. Ah! A minha rainha. Anne e Liz, sua namoradinha da adolescência, haviam se casado há anos e viviam numa cidade não tão distante de onde morava. Me visitavam frequentemente, e apesar de já estar com trinta e oito anos ainda estava decidindo se teria filhos ou não, diferente de Minoru, meu filho mais novo. Com seus trinta e dois anos, Mi-chan não tinha se casado, mas morava com o primo Pierre, e ambos já tinham três filhos juntos.
Levantei-me e andei até meu quarto. Mais solitário do que nunca. Yuukyo morreu há duas semanas, e eu realmente não estava conseguindo conviver com isso. Lembro-me de quantas vezes o medo me assombrou. O medo de que meus esposos morressem antes de mim. Deitei-me na cama e agarrei o travesseiro do meio, cheirando e o apertando com força. As lágrimas começavam a rolar em meu rosto sem que eu percebesse. Eu estava sozinho, sem quem eu mais amava. Alexis, Yuukyo... Me salvem dessa solidão, me salvem dessa dor. A cama tão espaçosa me fazia sentir sozinho, mais do que realmente estava. Passei a mão pela colcha, e em seguida sorri com as lembranças de quando éramos mais novos, de quando éramos recém-casados, de quando éramos felizes. Agora o que eu tinha era tristeza, infelicidade de ver ambos sofrendo e não ter a capacidade para fazer nada, nem mesmo melhorar um pouco a sensação que eles poderiam ter antes da morte.
Existe paraíso? Yuukyo-san com certeza está lá, já Alexis deve estar em algum lugar com mais proezas a serem feitas, com mais travessuras. E eu estava aqui nessa terra, entre ambos, entre o destino de ambos. Ou talvez ambos estivessem esperando por mim. Não, isso era loucura.
Éramos muito mais que esposos, éramos muito mais que o casamento em três. Éramos amigos, amantes, namorados, confidentes. Passamos por tantas coisas juntos: boas e ruins. Tantas aventuras. Como eu poderia viver sem isso? Como eu poderia viver sem a energia que me mantinha vivo e feliz? Não, eu não posso viver assim. Eu não nasci para viver assim.
Levantei-me e me pus a andar até o banheiro que tinha no quarto. Olhei-me bem no espelho: olhos azuis fundos devido meus cinquenta anos, cabelos esbranquiçados, mas ainda longos até a cintura. Passei as mãos por meus braços, e lentamente me livrei da jaqueta que vestia, e em seguida da camisa. Eu fui feliz, e não tenho do que reclamar. Meus filhos são e sempre serão minha maior alegria, porém nunca serão capazes de suprir tudo o que sinto, a solidão que me atormenta, o desespero que me quebra, a infelicidade que me destrói. Acabe. Acabe com essa dor. Era o que dizia a mim mesmo, era o que eu queria.
Abri o armário e logo encontrei o que precisava. Com o pote cheio de pílulas em mãos eu poderia fazer o necessário, eu poderia fazer o certo, mesmo que isso significasse abandonar meus filhos. Anne, Minoru, me perdoem. Mamãe ama muito vocês. Eu precisava ir de encontro a ambos, a quem realmente dava sentido a minha vida, quem realmente me fazia bem e feliz.
Caído no chão após ter tomado todos aqueles remédios, olhava bem para a luz que iluminava o cômodo, e sorria. Meu coração estava ficando acelerado, mas tinha a sensação de que logo pararia. Logo eu estaria ao lado deles. Sem dor, sem sofrimento, apenas a felicidade de encontrá-los novamente. Apenas o desejo de ser feliz, de ter minha vida de volta, de ter tudo o que amo de volta. Se meus filhos irão sofrer? Tenho a certeza, mas eles compreenderão que isso fora o melhor para mim. Eu estava certo o tempo todo.
Meus olhos pesavam cada vez mais, e em pouco tempo terminaram de se fechar, assim como meu coração parou de bater. Acabou. Tudo estava acabado, todo o sofrimento, toda a solidão, toda a infelicidade, toda a dor. Eu não existia sem eles, e agora poderia dar a mão a ambos, e então seguir em frente, olhando apenas o horizonte, sem olhar para trás.
Yuukyo, Alexis, estaremos juntos para sempre, finalmente.
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