cATARINA, VOLTE JÁ AQUI!- ordena Jean andando atrás de mim ao mesmo tempo que eu subo as escadas chorando.

Não consigo acreditar que ele foi capaz de me bater e também sinto medo dele continuar a me bater. Entro no quarto e vou direto ao closet, pego a minha mala e deixou aberta no meio do closet, não queria nem organizar as minhas coisas dentro dela, eu só queria pegar tudo que eu tenho e ir embora o mais rápido daquela casa.

— O que pensa que está fazendo? — Berrava Jean para mim.

Peguei as roupas mais simples que eu tinha,,não queria levar as roupas mais chiques para não lembrar dele, eu queria esquecer ele, esquecer tudo, apagar aqueles meses da minha vida.

— Me responde ! O que acha que você tá fazendo? — Jean pega meu braço com força me fazendo parar e olhar para ele. — Tá achando que vai aonde?

— Eu vou embora Jean, eu to cansada disso tudo. — Digo puxando meu braço de sua mão. — Você está me machucando, me solta!

Jean me solta e anda de um lado para o outro, ele estava extremamente irritado e bufava para mim.

— Isso tudo por conta de um vestido? Vai jogar fora o nosso futuro por uma coisa estúpida dessas? É só um vestido.

— Não é por conta do vestido apenas Jean, é tudo que está acontecendo e como está acontecendo. — Termino de arrumar minha mala e começo a fechar.

— Você está sendo burra Catarina! Não tem onde cair morta e você precisa de mim.

— Eu não preciso de você e muito menos da sua mãe!

Pego a minha mala e continuo andando, percebo que Jean fica no quarto, mas logo seus passos pesados me seguem, ele puxa a minha mala de minha mão quase me fazendo cair.

— Você não vai a lugar algum. — Diz Jean que segura a minha mala enquanto eu a seguro e puxo para as mãos deles.

— Chega Jean! Eu vou embora e acabou!.

Para minha surpresa, ele começa a chorar, eu nunca tinha visto ele chorar, eu olho para escada que tenho que descer e olho para ele que solta a minha mala enquanto chora como uma criança.

— Catarina… Por favor não vá… eu preciso de você meu amor.— Jean dizia quase soluçando e seu choro estava se tornando compulsivo.

— Desculpa Jean mas não está dando para mim desse jeito.

Quando eu continuo andar devagar para a escada, Jean se joga em minhas pernas e as abraça forte, enquanto seu choro era alto.

— Eu faço tudo que você quiser meu amor, mas não me deixe por favor, eu te imploro Catarina, fica comigo por favor. — Jean estava jogado em minhas pernas olhando para mim e suas lágrimas não paravam de rolar por seu rosto. — A minha vida não faz mais sentido sem você, eu aprendi o que era felicidade ao seu lado, com você o meu mundo ganhou vida e se você for… meu coração vai se despedaçar em mil pedaços que eu não sei se sou capaz de reconstruir ele, na verdade não sei se vou conseguir viver a isso.

— Jean… — Digo tentando conter minhas lágrimas.

Ele se levanta e me abraça forte enquanto ele ainda chora.

— Catarina… Eu não sou capaz de viver sem você, eu sou capaz de tudo por você, eu te amo tanto meu amor que se você sair por aquela porta, eu sou capaz de me matar… eu não quero viver em uma vida que não tenha você nela. Eu quero acordar todos os dias da minha vida e ver meu leãozinho acordando. — Jean me solta de seu abraço e olha para mim fazendo carinho em meu rosto. — Você tem um olhar tão lindo que me deixa sem ar as vezes e um sorriso que faz meu coração bater rápido e forte dentro do meu peito.

Jean encosta sua testa na minha, nossas respirações se sincronizam, ele limpa as minhas lágrimas que haviam rolado por meu rosto sem eu perceber, ele passa as mãos por meus braços, me faz soltar a mala no chão e segura as minhas mãos trazendo até seu peito.

— Por favor Catarina… Fica comigo. — Sussurra Jean.

Eu respiro fundo, a minha boca se abre para responder mas não consigo dizer nada, Jean me toma os lábios em um beijo calmo, seu hálito fresco toma a minha boca enquanto sua língua explora por toda ela. Suas mãos que antes estavam sobre as minhas se deslizavam por meu corpo até chegar a minha cintura e me segura com força fazendo que meu corpo se aproxime dele, mas eu paro o beijo aos poucos, a minha cabeça ainda está confusa com tudo que estava acontecendo e eu me afasto de Jean.

— Não posso…

Pego minha mala novamente do chão, desço as escadas correndo praticamente e me deparo com a governanta na porta da casa.

— Tomei a liberdade de chamar um táxi para a senhorita.

Apenas sorrio para ela e passo pela porta. Entro no carro colocando a minha mala junto a mim, quando olho para a porta, Jean estava ali chorando, ele se ajoelha e sua mãe aparece atrás dele o abraçando tentando fazer com que ele se levante, o taxista começa a andar enquanto escuto de longe Jean gritar meu nome. Os gritos do Jean me davam um aperto no coração, ao mesmo tempo que me sentia aliviada de ter saído daquela casa, eu estava triste e chorava por deixar ele no estado que ele estava.

Pouco tempo depois cheguei na pensão, Betina me aguardava na entrada e me recebe com um abraço caloroso que me faz chorar mais ainda.

— Acabou… — digo com certa dificuldade — Acabou tudo…

— É melhor assim, Cat. Acredite. — garante Betina — Vamos, as meninas estão nos esperando… Até a Tiemi.

— Tiemi? — pergunto , assustada.

— Pois é, chegou hoje assim que você saiu. Disse que veio pra fazer a maior despedida de solteira que você já viu… Ela não está muito feliz.

Entramos no quarto da Betina e já nos deparamos com a Tiemi de braços cruzados no meio do quarto enquanto as outras estavam sentadas cochichando algo… devia ser sobre mim.

— Quer dizer que a bonita teve um ataque de pelanca e decidiu cancelar o casamento? — questiona Tiemi, séria.

— Eu e o Jean terminamos — revelo para a surpresa de todas.

— A cereja do bolo... — comenta Tiemi sentando na cama revoltada — Sério, o que deu em você?

— O que deu em mim? — questiono transtornada apontando contra meu peito — Tiemi… as coisas passaram de todos os limites… e ele… ele … me bateu…

— Ele o quê? — questiona Betina horrorizada.

— Okay, okay… — fala Cláudia se levantando — Conta essa história direito…

E eu contei… Contei a nossa discussão , contei de como ele reagiu quando decidi ir embora. Agora falando em voz alta e pelos olhares que recebi conforme fui narrando, me senti insegura da forma como agi com o Jean:

— Ele chorou mesmo e pediu perdão? — questiona Cláudia — Deve ter sido muito triste…

— Foi o melhor que você fez — comenta Betina — Ele passou de todos os limites.

— De todos os limites? Acho que não — discorda Tiemi — Poxa, a Catarina estava berrando na cara dele que não ia casar… o tapa foi tipo um “acalme-se”. Pelo menos eu vejo assim.

— Sério , Tiemi? — questiona Betina — Quer dizer então que toda vez em que você agir igual a uma maluca eu posso te bater?

— Claro que não , garota. Porém se fosse em uma situação onde todos, não só a Catarina está nervosa, as vezes um chega pra lá cai muito bem.

— Não acredito que estou ouvindo isso. — comenta Betina revirando os olhos.

— Eu dou razão a Catarina em partes. — fala Alissa — Eu também jamais permitiria o Lucas bater na minha cara . Porém, tem que ver isso aí que a Tiemi falou…

— Catarina, ele é o seu primeiro namorado, né? Pois então, deixa eu te falar uma coisa — começa Tiemi — O Jean pelo menos pediu desculpas pelo o que fez, chorou e tudo. Tem homem que bate na mulher por muito menos do que você fez e ainda se acha na razão. EU vejo que os dois estavam com os ânimos exaltados e chegaram ao extremo. Nada que ficarem uma noite separados não resolva.

— Olha, Cat, tenho de concordar com a Tiemi. E te digo mais, você precisa se controlar um pouco sabe, seu temperamento. Digo isso por experiência própria. — fala Jennifer me encarando — O Rogério é super explosivo, então eu aprendi nesses anos de namoro que preciso me controlar para ele não sair do controle. A gente brigava feio antes, mas hoje eu entendi que tudo depende de como eu lido com ele, falo as coisas pra ele. Nós mulheres temos a mania de provocar, debochar ou até mesmo perturbar e os homens são iguais a balões, de tanto você encher… uma hora ele explode.

— Uma mulher sábia edifica o homem e o seu lar. — diz Tiemi me encarando

— Ah tá, como se você soubesse o que é edificar um homem, Tiemi — debocha Betina.

— Pelo menos eu estou dando conselho do que eu entendo e consumo. — rebate Tiemi — Agora não vai dar uma de boazona porque todo mundo desse quarto sabe o motivo de você estar torcendo pela separação deles…

— Cala a boca, Tiemi — fala Betina, nervosa.

— MENINAS…Agora não. — chama Jennifer — Catarina , acho que todas nós concordamos que talvez o seu ato tenha sido muito… impulsivo.

— Pois é, ainda mais depois de tudo o que passaram e o que ele fez por você… — comenta Cláudia

— Exatamente, Catarina você está em outro nível… Olhe para você, totalmente diferente , mais bonita e elegante… — reforça Tiemi.

— Eu estou do seu lado, mas saiba que não iremos te julgar caso queira voltar atrás. Afinal quem nunca tomou uma decisão precipitada e se arrependeu?

— O que está feito, está feito. — fala Betina me encarando — Qual é o seu próximo passo?

***

As meninas já dormiam , mas eu não conseguia. Não sei se era o colchão, ou o fato do meu telefone estar recebendo notificações que me deixavam cada vez mais ansiosa. Eu sei que são dele e sei que não devo ler. Repito a mim mesma várias vezes para ignorar, mas de repente me pego com o celular na mão:

“Eu preciso te dizer que ainda te quero… que preciso e que te espero. Não consigo nem dormir, pois a cada sonho eu sinto sua volta… Ouço a até a porta bater e vou correndo te encontrar”

Então chegou outra mensagem:

“Eu preciso te dizer de tudo um pouco. Do ciúme, do sufoco e da solidão em mim…”

“ Eu sou muito louco por você, volta pra mim Leãozinho.”

Meu celular começa a tocar, o nome do Jean surge clareando o ambiente e eu atendo:

— Só te liguei porque não estou suportando a saudade… Não sei mais dormir sozinho… Catarina, eu sou totalmente dependente de você. Por favor, volte pra casa , meu amor.

Eu desligo o telefone e as lágrimas caem na tela, enquanto a dúvida me consome: Será que me precipitei igual as meninas disseram?

***

Qual é o seu próximo passo?

Olho meu rosto no espelho, levemente inchado onde tomei o tapa, mas nada que venha a chamar atenção para as pessoas, exceto para mim que ainda doía. Porém a dor era dentro de mim, a dor de não saber o que fazer ou se a decisão foi muito impulsiva. Abaixo minha cabeça e começo me arrumar, pois o táxi chegaria em breve e irei realizar uma ideia que veio em minha mente durante o sonho.

— Levantou cedo. — Comenta Betina me observando pelo espelho — Está se produzindo tanto que estou curiosa: Vai pra onde?

— Rodoviária. — Respondo terminando de passar o blush observando o olhar surpreso de Betina — Vou comprar uma passagem para Belo Horizonte.

— Uau — exclama Betina — É o melhor que você faz… ir embora daqui e recomeçar.

—Eu não sei se estou indo embora… — respondo cautelosa. Viro em direção a Betina — A única coisa que eu sei é que preciso falar com a minha mãe . Agora se ficarei lá ou não…

— Catarina, o que te prende aqui? — pergunta Betina, séria. — Deixa que eu respondo essa por você: Nada! Sua faculdade já era , você não tem onde morar e não tem mais nem alguém que te prenda aqui. Se eu fosse você, comprava uma passagem só de ida.

— Não é tão simples… — digo segurando o choro.

— Então facilite, pois não há nada pra você aqui — fala Betina se afastando. — Coloque isso na sua cabeça.

— A Betina já está enchendo sua cabeça de caraminholas — comenta Tiemi entrando — Uau, vai onde? Deixa eu adivinhar: pegar o gato de volta.

— Não, ela está indo para rodoviária comprar uma passagem pra ir embora daqui de vez — responde Betina por mim.

— Por que? — questiona Tiemi — Catarina, amiga , você não escutou nada do que conversamos ontem?

— Escutei, por isso disse para Betina que não sei o que fazer — digo sendo sincera — Cada uma me aconselhou de um jeito…

— Vou facilitar pra você — começa Tiemi — Você vai escutar uma pessoa que já cometeu o mesmo erro que você e agora fica procurando em todos os caras um pouco do homem que deixou sair da sua vida por conta de uma briga tola… Ou vai escutar uma pessoa que está claramente apaixonada por você e por isso faz de tudo para que seu relacionamento vá para o brejo?

— Tiemi! — grita Betina — Isso não é verdade!

— Não? Então porque você ainda não contou para a Catarina que é lésbica?

— Porque isso é problema meu! — reage Betina que me encara nervosa — Catarina, isso não muda nada sobre o que eu penso do assunto…

— Ela está apaixonada por você, Cat. — afirma Tiemi.

Olhos as duas sem reação, não sei o que pensar naquele momento. Não que a orientação sexual de Betina fosse me fazer gostar mais ou menos dela, mas será que ela realmente estava boicotando meu relacionamento? Então escuto a buzina vir do lado de fora do portão: meu táxi chegou.

— Eu vou indo — respondo — Na volta eu converso com a Betina, a sós.

Saio do quarto e caminho em direção ao portão que abro e dou de cara com um enorme ramalhete de margaridas coloridas. Atrás dele surge um rosto familiar: Jean.

— Oi amor — fala com um sorriso fraco — Catarina eu não aguento mais ficar longe de você…

— Jean, agora não... — digo me desvencilhando do buquê e caminhando em direção a calçada.

— Por favor, Catarina. — pede Jean segurando meu braço, mas logo solta. — Você é o meu sonho e eu venho tentando ser o melhor que eu posso, sendo o mais calmo possível com você. Só que de repente, o que não era para acontecer, acabou acontecendo.

— Você me bateu, Jean, foi isso que aconteceu. — respondo olhando para ele.

— Eu agi impulsivamente, meu amor. Eu não queria e não quero machucar você. Catarina você sempre esteve ao meu lado e é o lado bom da minha vida. Se você sair dela, não terei mais motivo pra viver...

— Não é pra tanto. — Rebato observando meu táxi chegar. — Não precisa exagerar assim.

— Por favor, meu amor, eu sei que você é capaz de me entender, assim como eu também serei capaz de melhorar e mudar. Aliás, eu vou mudar e tentar não cometer mais esse erro com você. Está bem?

— Jean…

— Leãozinho ... — continua Jean segurando minha mão — Você é a responsável por eu acreditar que a felicidade está por perto, e por isso quero oferecer tudo o que tenho: o meu amor e minha alma…

— Ei, moça — chama o taxista — A corrida tá rolando…

— Eu preciso ir , Jean — digo tirando minha mão da sua.

— Eu não queria que tudo acabasse por algo tão fútil e que me arrependo de ter feito. Pelo menos aceite as flores que estão carregadas de desculpas — finaliza Jean me entregando o ramalhete.

— Está bem — digo segurando as margaridas. Entro no táxi sendo observada por Jean e então digo ao taxista — Rodoviária, por favor…

A última coisa que vejo antes de sairmos é o olhar transtornado de Jean que passa as mãos pelos cabelos ao escutar o meu destino.

***

Volto para a república com a minha passagem comprada e com receio de encontrar o Jean de vigia no portão. O que para minha surpresa não aconteceu, entro pelo portão e vou direto ao quarto de Betina que roía as unhas, devia estar aflita para termos a nossa conversa, mal entro e ela já começa a falar:

— Olha só, não leve em consideração nada do que a Tiemi disse, ela é doida.

— Precisamos conversar — digo sentando na cama. — Você tem algum interesse por mim? É por isso que é tão contrária ao Jean.

— Eu sou contra o Jean porque ele é um macho escroto, Catarina — responde Betina sentando em minha frente — Ele não te merece.

— Então você tem interesse por mim… — Concluo pensativa.

— Eu estou namorando, Cat. — revela Betina — Não vou mentir, eu gostei de você sim lá no começo. Porém, quando eu vi que não tinha a menor chance decidi que não valia a pena nutrir esse sentimento e sabe… eu gosto de ser sua amiga.

— Eu também gosto de ser sua amiga e… Sabe, quando a Tiemi falou a única coisa em que fiquei pensando é quanto isso poderia nos afastar, pois eu não poderia ser sua amiga sabendo que você nutria um sentimento por mim que não seria recíproco. — Explico. — Você é como uma irmã pra mim.

— Hoje você também é como uma irmã pra mim. — Responde Betina — E o zelo que eu tenho hoje por você é justamente por te considerar assim.

— Eu sei… tanto que comprei uma passagem. — Respondo mostrando a passagem para Betina — Só ida.

— Vou sentir sua falta. — Fala Betina.

Ficamos nos olhando com lágrimas escorrendo pelos nossos rostos e então nos abraçamos. Ficamos um tempo em silêncio e então meu telefone toca aparecendo um número desconhecido:

— Alô? — digo atendendo.

— Você matou o meu filho! Assassina!