Abusivo: A história que ninguém conta
24 Capítulo 23
Adormeci pensando em tudo o que eu e o Jean havíamos combinado: Mudaríamos para São Paulo, eu procuraria uma faculdade para continuar com os meus estudos ainda esse ano, já que eu só havia perdido as primeiras provas do semestre. Entre essa busca, organizaria o nosso casamento que ainda estamos em dúvida se faríamos em Campo Grande ou em São Paulo. Depois, compraríamos um apartamento maior em São Paulo, assim que recebesse uma resposta positiva do trabalho sobre a sua efetivação. Então quando ele tivesse uma cadeira no conselho do hospital e fosse chefe de seu departamento, teríamos uma casa.
Acordei com risadas que invadiam o quarto e eu tentava descobrir de onde vinham. Levanto, visto uma camiseta e o samba canção do Jean, então sigo as vozes que continuam bem animadas até encontrar seus respectivos donos sentados na sala de estar: Jean e sua mãe.
— Bom dia, leãozinho — fala Jean fazendo com que eu automaticamente arrume os meus cabelos desgrenhados.
— Bom dia, amor. Seja bem-vinda Senhora Vasconcelos. – Digo sorrindo para ela.
Ela olha para mim dos pés à cabeça com uma certa hostilidade, depois olha ao redor com desprezo e volta o olhar para Jean sorrindo e tocando em seu rosto.
—Amor... Eu estava pensando em você aceitar a ajuda da minha mãe. Estávamos conversando sobre o fato de você ainda não ter ligado para ela e marcado algo.
— Cronologicamente, vocês já estão muito atrasados. — Reforça minha sogra.
— Eu não queria incomodá-la — Minto. Não me sentia à vontade em falar com a mãe de Jean por conta da última vez que nos falamos. — Além disso, não esqueça que fui eu quem organizei a sua festa de formatura.
— Que bom que se sente orgulhosa pela organização da festa do meu filho — comenta Senhora Vasconcelos — Porém, um casamento para os nossos 500 convidados é bem diferente de uma celebração de formatura… as pessoas geralmente não publicam festas universitárias.
Fico surpresa ao ouvir ela dizer que seriam 500 pessoas convidadas para meu casamento. Lembro das poucas vezes que eu e minha mãe já fomos a um casamento era no máximo 100 pessoas, isso quando era um evento de uma grande família da minha cidade.
— Bom, eu não sei se consigo preencher 250 convidados… — Digo, assustada.
— Oh não, querida, 500 convidados são apenas nossos — corrige a minha sogra segurando na mão do Jean.
— Eu não sabia que a família de vocês era tão grande assim. — Digo me aproximando de Jean e o abraçando pela cintura.
— Não temos, mas eu e mamãe fizemos um breve levantamento de todas as pessoas que devemos convidar e até o momento deu esse número, mas sempre pode mudar…
— Eu não queria algo grande… Eu sempre sonhei em fazer um casamento mais intimista com alguns amigos e familiares.
— Ainda bem que é apenas um sonho, Catarina. Você precisa entender que um casamento é um evento social muito importante e nós fazemos parte da elite de nossa cidade, logo nós chamaremos pessoas importantes, influentes e que com certeza ajudarão na carreira do Jean. — Explica minha sogra enquanto se ajeita no sofá cruzando as pernas. — Foi-se o tempo em que casamento era para reunir familiares ou amigos que só sabem desfrutar do luxo e ainda sair criticando.
— Amor… Eu sei que você não está acostumada, mas a minha mãe tem razão. Por favor, escute suas dicas, pois ela sabe o que está fazendo. Além de estar pensando no que é melhor para gente. — Ele segura meu rosto pelo queixo e o aperta suavemente.
Eu olho para os dois e apenas concordo com a cabeça e forço um sorriso. Ele tinha razão sobre isso, afinal o nível social deles era diferente do meu e eu ainda não compreendia o mundo deles, era diferente e tudo novo para mim ainda.
— E por falar no que é melhor para vocês… Está na hora de contratar uma secretária do lar, meu filho. Esse lugar precisa de uma boa limpeza. — Comenta minha sogra passando a mão no sofá que para ela estava empoeirado.
— Eu já penso diferente — respondo, ofendida — Eu mesma tenho prazer de cuidar do nosso lar e não vejo necessidade para ter alguém limpando o apartamento que não é tão grande.
— Mamãe, a Catarina se esforça para cuidar bem da casa — defende Jean sorrindo para mim. Ele se afasta dos meus braços e senta ao lado de sua mãe — Porém, admito que este apartamento não me satisfaz mais.
— Que ótimo ter admitido isso, agora precisamos começar o preparo mais rápido possível e acho melhor vendermos esse apartamento para comprar um outro maior, filho. Um maior é mais adequado a um jovem casal recém-casado e também para seu novo cargo. — Diz minha sogra já contando que o Jean conseguiu a efetivação.
Eles falavam com uma certa animação, enquanto eu me sentia deslocada e minha opinião não estava servindo de nada. Sentia que eu era invisível para eles e por um momento até insignificante.
— O que acha Catarina? Você concorda? — Pergunta minha sogra me despertando.
— Desculpe… sobre o que?
— Morar com a minha mãe enquanto estamos procurando o apartamento novo e seria mais fácil vocês ficarem juntas para decidir tudo sobre o casamento. — Revela Jean.
— O que? — Grito surpresa — Desculpa, mas como fomos de vender o apartamento a eu morar com sua mãe?
— Oras, é bem simples: se vamos vender o apartamento, onde pensa que ficará? — Questiona a Senhora Vasconcelos erguendo a sobrancelha.
— Em São Paulo… como tínhamos combinado. — Respondo encarando Jean.
— Bom, se tivesse prestado atenção na conversa teria notado que eu preciso mais de você aqui para organizar a nossa mudança, a venda do apartamento e planejar o casamento que eu e mamãe achamos melhor que seja aqui. — Diz Jean segurando a minha mão e fazendo um carinho.
— Eu achei que sua mãe fosse nos ajudar com todos esses outros tópicos. — Comento sentindo minha mão sendo levemente pressionada pela do meu noivo — Não me entendam mal, não quero atrapalhar a rotina de ninguém, imagino que a senhora deve estar ocupada e cheia de coisa para fazer...
— Exatamente, minha agenda já está repleta de outras atividades, mas eu estou me sacrificando para dar o meu melhor para que meu filho tenha um casamento memorável em poucas semanas.
— Sim, eu percebi isso. Porém, tínhamos combinado que eu iria com você para que eu pudesse ver a faculdade, lembra? — Questiono Jean. — Concordamos que eu conseguiria resolver as coisas de lá.
— Sobre a sua faculdade, eu estava pensando… — começa Jean — Acho melhor começar no outro ano, sem ser o ano que vem … que tal? Assim terá tempo mais do que suficiente para agilizar tudo o que precisamos.
— Como, Jean? — Quando tento responder ele me interrompe e continua.
— Para pra pensar, estaremos recém-casados, em busca do nosso novo lar, se adaptando a uma nova cidade… Você não vai dar conta de tudo ao mesmo tempo. E você não quer que aconteça o mesmo desse ano, não é? Eu sei que não quer, o melhor é você tirar um ano sabático e depois começar a faculdade do zero.
— Eu acho que essas são as decisões mais sensatas — comenta minha sogra torcendo os lábios — A menos que a mocinha queira que eu tome a frente de tudo.
Respiro fundo encarando os dois enquanto minha mente processa todas aquelas novidades em um curtíssimo espaço de tempo.
— Então? — Pergunta Jean, impaciente.
— Eu não sei… posso pensar? — Peço causando surpresa em minha sogra e vejo Jean ficar sério.
— Pensar? Catarina… Vem aqui comigo. — Ordena Jean se levantando e caminhando para o quarto e eu o acompanho.
Quando entramos no quarto, ele fecha a porta e se aproxima de mim fazendo com que eu me encoste na parede.
— A minha mãe vem até aqui para nos ajudar, enquanto você ficou o tempo todo aérea na sala ignorando as suas sugestões e agora você quer pensar se você aceita ou não a ajuda dela?
— Jean, eu não sei se tudo isso é uma boa ideia. Já parou para pensar que vocês chegaram ao ponto de me fazer morar com os seus pais? Eu mal os conheço e agora vou invadir a privacidade deles!
—E eu volto a repetir: Se você tivesse prestado a porra da atenção na conversa teria visto que foi ideia da minha mãe que não se sentiu nenhum pouco incomodada com sua presença! São apenas três semanas com eles. A única pessoa que está sendo contrária a essa ideia que ajudaria a economizar nos gastos que teremos daqui para frente é você! — Grita Jean colocando sua mão na parede bem próxima do meu rosto — Estou agora me perguntando o motivo pelo qual você está recusando a ideia...
— Eu já disse … — respondo tentando me afastar então ele me empurra de volta.
— Acho que já sei… Você não quer perder a vidinha de balada que tinha enquanto eu estava ralando na minha residência — acusa Jean — Não quer perder a liberdade de enfeitar minha cabeça com aqueles maconheiros desgraçados! Quer ficar fazendo suas orgias às minhas custas e sem ninguém saber, e eu sendo trouxa!
— Isso não é verdade! — Respondo ofendida com suas acusações.
—Não é? Então prova. — Rebate Jean aproximando seu dedo do meu rosto — Você vai morar com os meus pais.
— Mas Jean… — começo, mas logo paro enquanto sinto seus dedos se posicionarem do meu queixo até a bochecha, segurando firmemente.
— Catarina você não entendeu…Você precisa de ajuda e eu achei a sua ajuda, você poderia me agradecer ao menos uma vez pelas coisas que eu faço por você. – Diz Jean indo para o banheiro. — Não esqueça de voltar para sala e agradecê-la.
Fico um tempo parada na parede pensando se a mãe dele havia escutado nossa discussão. Coloco o melhor sorriso que consigo naquele momento e caminho de volta para sala onde a mãe do Jean permanece sentada analisando o apartamento com desprezo.
— O Jean entrou para o banho, mas eu não pude deixar de vir aqui agradecer a senhora por todo apoio que nos tem dado — começo receosa torcendo minhas mãos — Saiba que fico muito grata por me deixar ficar em sua casa, Sra. Vasconcelos…
— Please, me chame de Tereza. — Pede a mãe dele com um leve sorriso — Eu espero que nós duas sejamos grandes amigas. Conto com você para fazer isso acontecer.
— Eu também espero.
***
O Jean voltou para São Paulo no dia seguinte e o apartamento foi vendido uma semana depois. Então ali estava eu parada novamente na frente daquele lindo sobrado bege de telhas brancas e janelas de madeira não perdia em nada para aquelas casas de novela. As funcionárias vieram descarregar o carro conduzido pelo motorista da mãe do Jean, ou melhor da Tereza. Eu só pude carregar minha bolsa para dentro da casa onde ela me esperava no hall para me dar boas-vindas. Fico aliviada por ser apenas a mãe dele sem o pai a me recepcionar.
— O Carlos está viajando… Foi atender um dos seus ilustres pacientes em Santa Catarina — avisa Tereza tocando seu rosto contra o meu em cada lado, como se adivinhasse os meus pensamentos. Ela segura meus ombros e diz — Bem-vinda e não se preocupe, pois dificilmente vocês se encontrarão… A menos que queira.
Sorrio apenas e então ela começa a caminhar a minha frente apresentando todos os cômodos da casa: sala para 3 ambientes sendo elas Sala de TV, Sala de estar, Sala de visita, essa última foi onde nos conhecemos pela primeira vez. Fomos também até o escritório do pai do Jean, onde ela fez questão de frisar que devo evitar ao máximo.
A cozinha tinha tantos armários e pias que fiquei em dúvida se eu estava ainda na casa ou entrado em algum restaurante. Depois tínhamos a sala de refeições daquela fatídica noite, onde só agora pude notar que tinha um magnífico aquário embutido em uma das paredes com tantos peixes coloridos que me deixaram deslumbrada. Depois ela me mostrou o lavabo, a lavanderia e a despensa, mas rapidamente como se tivesse algo altamente infeccioso no ar.
— Não precisa ficar tão familiarizada com esses ambientes, pois tudo o que precisar os nossos funcionários se encarregam de providenciar e levar até você. — Comenta Tereza fechando a despensa na velocidade da luz.
Enquanto subíamos a escada, observo a parte dos fundos da casa onde tinham tantas árvores que formavam um pequeno bosque e claro uma piscina olímpica, ou pelo menos é o que parecia porque estavam em construção bem como várias partes do quintal.
— Estamos reformando a área Gourmet. — Informa Tereza sem nem ao menos se virar — Ainda mais agora que nosso filho irá se casar… Já estamos nos programando para os próximos eventos… como chá revelação.
— Chá revelação? — Questiono surpresa, mas de forma sussurrada para que ela não viesse a confirmar minhas suspeitas.
Então chegamos ao próximo andar como vários quadros pendurados e cinco grandes portas de madeira.
— São cinco suítes sendo uma master que é a minha — avisa Tereza abrindo a segunda porta a direita — Porém, todas com acesso à sacada. Fique à vontade. Depois de se instalar, espero você na sala de refeições para almoçarmos, pois hoje temos muito o que fazer.
A suíte contava com uma sacada para os fundos da casa com vista para a área de lazer. Sua decoração alternava entre tons claros e escuros. No lado esquerdo tinha uma bancada preta com uma cadeira de escritório e o closet onde a funcionária terminava de guardar algumas coisas minhas. Ele dá acesso ao banheiro que era do tamanho da minha ex- kitnet com banheira e ducha instaladas. Sem contar as duas pias e o espelho que tomava conta de toda parede.
Assim que a funcionária terminou de arrumar minhas coisas, me joguei na enorme cama, tão macia quanto a minha imaginação foi capaz de deduzir. Uma sensação de paz tomou conta de mim e acabei adormecendo.
— Senhorita Freitas?
Abro meus olhos com dificuldade e então me espreguiço encontrando a governanta da casa me encarando, nervosa.
— Bom dia… — digo com toda preguiça.
— Boa tarde — responde a governanta — A Senhora Vasconcelos a aguarda na sala de estar.
— Achei que fosse na de refeições — recordo-me encarando a governanta.
— Isso foi há duas horas, agora ela a espera na sala de visitas para que possam resolver os assuntos pendentes do casamento.
— Certo… — responde me levantando da cama. Ajeito o meu cabelo para o lado e assim tento disfarçar que ele estava desgrenhado pela minha soneca, então arrumo minha roupa e caminho em direção a porta sendo interceptada pela governanta.
— Acho melhor a senhorita tomar um banho e trocar de roupa — explica com ar de pena — A Dona Tereza não gostaria de vê-la com a mesma roupa que chegou.
— Ah sim, claro … você tem razão — concordo sem graça.
— Eu avisarei a ela que você está terminando de se arrumar. — Finaliza a governanta saindo do quarto e me deixando com toda a minha vergonha.
***
Um bom tempo depois finalmente acredito estar digna de encontrar Tereza na sala de visita. Seguindo os conselhos de Stephanie escolhi um vestido verde midi com cintura ajustável e um tênis marrom de sola branca e os meus cabelos ainda molhados soltos. Porém, quando chego a sala dos sofás brancos sinto que cometi um grande erro. Lá estava Tereza conversando com uma mulher de cabelo Chanel preto e olhos verdes que penetraram minha alma quando notou minha presença, as duas estavam muito bem vestidas. Minha sogra me analisou dos pés à cabeça até eu me sentar ao seu lado, então continua falando:
— Enfim chegou à noiva. Pelo visto já praticando o atraso no dia do casamento — alfineta Tereza arrancando risos de sua convidada — Catarina, me deixe apresentar a Wedding Planner, Lígia Caldeira da Azevedo Decorações.
— É um prazer conhecê-la — responde Lígia estendendo sua mão em minha direção — Saiba que estamos felizes por escolher a Azevedo que é uma empresa especializada na concepção, gestão e organização de eventos de Prestígio há mais de 15 anos. Estou perfeitamente capacitada para trabalhar com elevados padrões de requinte e de alta qualidade, produzir cenários exclusivos e personalizados a sua escolha. Tudo sob medida. Todo ambiente será pensado de forma a não deixar ninguém indiferente, conquistando os olhares e os corações dos mais exigentes e perfeccionistas.
— Eu não sou muito exigente… — comento sem jeito diante daquela mulher.
— Acredito que você pôde notar, Lígia. — Reforça Tereza apontando para minhas roupas — Porém, eu sou. Espero contar com o seu profissionalismo para fazer desse casamento um marco e em tempo recorde.
— Esse é o meu trabalho. — Responde Lígia abrindo sua bolsa e retirando um tablet dela. — Bom, Catarina preciso que me fale, quando você pensa em seu casamento… como você o imagina?
— Como temos pouquíssimo tempo, eu visualizo entrando em uma igrejinha, sabe? Simples, de portas antigas, mas que transborda amor… algo bem intimista com seus bancos enfeitados com pequenos arranjos de flores… rosas brancas e rosas. A decoração do ambiente sem muitos detalhes… com a cor branca predominando em tudo. Móveis em linhas retas, jarros de vidro sobre as mesas e suportes transparentes. Ah, cordão de luzes, quero aqueles em formato de bolinhas. E também quero aqueles letreiros formando as palavras “amor”, “casei”, “Paz”... O bolo eu já penso em um branco de dois andares com duas flores desenhadas como se fosse um laço... e no topo… Gostaria que fosse feito com uma foto minha e outra do Jean quando criança, no lugar do noivinho e da noivinha. — Finalizo empolgada.
As duas me encaram com seus olhos arregalados como se estivessem acabado de ouvir uma história de terror.
— Duas… fotos… espetadas… no…topo… do… bolo? — Questiona Lígia me encarando.
— Sim… — respondo envergonhada.
— Okay — fala a assessora antes de pigarrear — Mais alguma coisa?
— Sim — responde Tereza por mim — Apague tudo isso do seu tablet, ela com certeza está brincando conosco.
— Tudo bem — responde Lígia com um sorriso aliviado. — Vamos recomeçar?
***
O branco foi trocado por Marsala, que segundo as duas é uma cor que combina com uma variedade incrível de cores como o rosa, tons pastéis, verde, nude, dourado e inclusive azul turquesa. A paleta escolhida depois de nenhuma discussão entre nós foi Marsala, tons pastéis e verde. As minhas lindas rosas, também desapareceram no decorrer dos dias e foram substituídas por orquídeas e begônias, pois eram a tendência daquele ano e representavam toda feminilidade que elas argumentaram não ser muito a cara das minhas singelas rosas. Meu buquê ainda terá acréscimo de folhagens, frutas e sementes, algo bem assimétrico. Bem diferente do meu buquê pequeno e redondo. Além do fato que me casarei na fazenda da família, pois os salões já estavam com todos com suas vagas preenchidas. A decoração terá muito verde com plantas tomando as paredes, porcelanas, pérolas e rendas. Até o meu convite tinha detalhes de pérolas e rendas, além do brasão da família do Jean…
Eram nesses detalhes que eu estava pensando enquanto observava elas escolherem o buffet e claro, o bolo. As duas não conseguiam se decidir se o meu bolo teria sete andares, ou algo mais simples, como cinco andares sugeridos pela Lígia. Pelo menos dessa vez elas me encaravam esperando alguma opinião minha:
— Eu prefiro dois andares… — Começo tímida, já recebendo uma revirada de olhos da minha sogra — Porém, acho cinco andares um tamanho ideal.
— Sete andares, misturando flores, laços e estampas. Ah sim, quero a base rendada e o quarto andar com as iniciais dos noivos gravadas. — Determina Tereza.
— Vai levar alguma cor? — Pergunta Lígia.
— Não! — Digo eu.
— Sim! — Diz minha sogra ao mesmo tempo. — As flores em Marsala e a cor do bolo… em creme — finaliza me encarando como se estivesse me repreendendo.
— Perfeito! — Comenta Lígia marcando mais um dos tópicos em aberto do meu casamento — Agora precisamos determinar quando vocês estarão disponíveis para ir ao Ateliê do Júpiter… A senhora tem desmarcado muito com ele, Tereza. Se deixarmos muito para cima da hora não sei o que nos restará.
— Pois é, mas eu ando muito ocupada por esses dias. Não é só com o casamento, mas tenho minhas instituições de caridade, os eventos culturais...
— Ateliê? — Pergunto curiosa atravessando a conversa — Chegou o momento de escolher o meu vestido?
— Sim — responde Lígia sorrindo — Animada?
— Com certeza — respondo — Eu gostaria que você pudesse marcar quando a minha mãe estivesse aqui.
— Estou disponível amanhã — responde Tereza encarando seu telefone — Amanhã pela manhã.
— Tereza, você escutou o que eu disse? Eu gostaria que minha mãe estivesse aqui — repito, séria — Afinal, esse é o momento mais importante da vida de uma noiva. Um momento de cumplicidade dela com sua mãe.
— E você não escutou o que a Lígia disse? Que se deixarmos para a última hora é capaz de você subir no altar em trapos — rebate Tereza, nervosa. — Além disso, até onde eu sei vocês nem se falam mais.
Saio daquela sala de visita mais uma vez contrariada. Os últimos dias têm sido de pura pressão… Ao longe escuto Lígia falar algo sobre minha lista de convidados. Entro na suíte e já me deparo com o papel todo rabiscado que seria minha lista com todas as pessoas que eu gostaria que participassem desse momento importante. A minha lista tem exatamente 10 pessoas… As meninas da pensão, meu pai, minha tia de BH com os meus dois primos e a minha mãe. Se eu colocar os acompanhantes chegarei a incrível marca de 20 pessoas. Vinte pessoas contra 750 convidados dos Vasconcelos. Pensei até em convidar a Dona Ester para encher linguiça, mas ela não merece estar lá. Por questão de bom senso não convidei o Patrick e nem o pessoal do grupo, mas eu queria que eles estivessem lá. Claro que ainda tem mais dois problemas: minha mãe não me atende e meu pai eu não o vejo desde que vim para cá. Inclusive enviei todos os convites, exceto os deles, que tipo de filha eu seria se chamasse os meus pais por correspondência ao casamento da única filha deles? E eis que surge uma dúvida: como eu faria para chamá-los em um prazo tão curto?
***
Adiar…
Aquela palavra não sai da minha cabeça, mesmo a costureira apertando e espetando cada parte do meu corpo.
— Você quer que seja adiado? — Pergunta a costureira me observando pelo espelho.
— Oi? — Solto surpresa.
— Você quer que seja apertado? Estou falando das alças — repete a costureira tocando em meus ombros — Ou está bom assim?
Encaro minha imagem no espelho: vestido de noiva sereia, com alças, decote princesa, cauda fixa e o corpo bordado com pedrarias. Foi o primeiro que vesti e escolhido pela Lígia que disse que aquele era o modelo ideal e que combinava tanto com o meu corpo como com todo o resto. Um bonito vestido, mas não para mim.
— Vamos lá? — Fala a costureira abrindo a porta do provador.
Caminho segurando a saia em direção a sala de espera onde estão Tereza e Lígia saboreando o champanhe do ateliê. Elas me observam entrar e cada uma tem sua reação: Lígia estava satisfeita, mas minha sogra não parecia nada convencida de que esse era o meu vestido. Pelo menos nesse momento nós duas concordamos.
— E então, o que acharam? — Pergunta a atendente.
— O estilo é aceitável — começa Tereza analisando minuciosamente — Mas essas alças grossas e as pedrarias… Não acho que combinou muito. Sinceramente, deixou muito… simples.
— E você, o que achou? – Pergunta a atendente para mim.
— Gostaria de provar outro — respondo descendo da plataforma o mais rápido que aquele vestido me permitia.
— Que tal se nós procurarmos algo que seja o seu estilo? – Pergunta a atendente para mim.
— Perfeito! — Fala minha sogra se levantando e caminhando em direção as araras.
Cada uma vai para um lado. Eu sem dúvida fui atrás do meu vestido romântico, aquele com o qual sempre me imaginei vestida e entrando na igreja, mesmo que não vá mais me casar em uma. Reviro as araras com a esperança de encontrá-lo. Até que sorrio, satisfeita. Encontrei.
Tiro o vestido do cabide, empolgada. A costureira nem ao menos encontrou dificuldade ao me ajudar a vesti-lo e nem precisou fazer os ajustes, ele foi definitivamente feito pra mim. Encaro mais uma vez o espelho e então saio do provador confiante. Subo na plataforma e lá apresento o meu vestido de noiva rodado, decote princesa, cauda fixa, corpo de renda bordado com pedrarias, tela paetizada sob camada de tule com barrado de renda. Esse era o meu vestido de princesa, ou melhor de noiva perfeito. Óbvio que a minha sogra o desprezou no momento em que coloquei os meus pés na plataforma. Lígia estava com um leve sorriso, parecia estar ao meu lado.
— Okay, chega de palhaçada — fala minha sogra entregando o vestido que escolheu para a atendente. — Volte para dentro e prove este que ficará muito melhor do que esse vestidinho que milhares de mulheres já se casou.
— Você nem ao menos olhou para o vestido, Tereza. — Digo irritada.
Ela olha debaixo para cima até fixar os seus olhos nos meus demonstrando toda sua raiva.
— Odiei, satisfeita? — Pergunta Tereza antes de voltar a olhar o seu telefone — Agora vai lá dentro e experimente esse, tenho certeza que até você vai amá-lo.
Seguro a saia do meu vestido com certa relutância, a minha vontade era de enfiar a minha escolha goela abaixo nela, mas o que eu ouvi quando estava voltando ao provador foi o que me fez cair em mim:
— Eu não aguento mais ficar nessa guerrinha com essa garota. Afinal quem é que está pagando por tudo? — Questiona Tereza falando com a Lígia.
Entro no provador e visto o terceiro vestido sem ânimo algum. Não permito que a costureira o ajeite e muito menos encaro o espelho, saindo rapidamente de lá e subindo na plataforma com muita dificuldade.
— Viu só, isso que é um vestido digno do casamento que terá — exclama Tereza até levantando do lugar. Ela fica atrás de mim enquanto descreve o vestido para todos — Olha esse corte sereia, com esse decote princesa e as manguinhas escondendo perfeitamente os seus ombros, a longa cauda, o cinto e claro, o que eu mais amei foram esses paetês bordados na saia… Maravilhoso!
Maravilhoso e completamente desconfortável, penso eu que sinto o vestido apertar minhas coxas ao máximo.
— Então esse é o vestido? — Pergunta a atendente para mim.
— Sem dúvida, pode embrulhar — fala Tereza para a atendente e depois com a Lígia. — Nem acredito que conseguimos terminar todos os itens do casamento faltando uma semana.
— Não – sussurro, me encarando no espelho.
— O que disse? — Pergunta a atendente.
— Eu disse que não — repito em voz alta para que todas pudessem escutar — Esse não é o meu vestido. Embrulhe o segundo, por favor.
— O terceiro que vai ser embrulhado e ponto final. — Determina Tereza acenando para a atendente.
— Eu estou cansada das suas ordens, Tereza. Esse casamento… Esse casamento está do jeito que você quer… Eu aceitei tudo de boca calada, sobre a decoração, buffet e até meu bolo. — Eu saio da plataforma andando em direção a Tereza que está sorrindo constrangida para as pessoas que assistem ao meu espetáculo. — Mas o meu vestido… O meu vestido será como eu quero e não como você quer.
— Mas quem está bancando isso tudo sou eu ou você acha que esse dinheiro caiu do céu, querida? — Questiona Tereza com um sorriso de canto de lábio para mim. — Você vai fazer o que eu quiser e vai vestir o que eu quiser, pois eu estou pagando por tudo!
— Então compre o vestido e case você com ele! Porque o céu vai desabar antes de eu dizer “sim” vestida com ele! — berro voltando para dentro.
Eu arranco o mais rápido possível aquele vestido. Coloco a minha roupa e saio andando do ateliê sem olhar para trás. Sem nem ao menos eu olhar quanto de dinheiro tenho na bolsa chamo um táxi que me leve para qualquer lugar bem longe dali.
***
— Olha, quem é vivo sempre aparece. — Comenta Cláudia abrindo o portão para mim. Minha amiga baixinha me abraça forte — Como você está?
Aquela pergunta me desarma e tudo o que faço é chorar, enquanto ela me leva para dentro do seu quarto onde estão Alissa, Jennifer e Betina.
— Conte-nos tudo e não esconda nada — pede Alissa.
Então eu conto… tudo. Desde o momento em que deixei a pensão até o momento em que entrei no táxi e elas escutaram tudo sem pestanejar.
— Agora eu não sei o que fazer… Ela deve estar uma fúria comigo. Sei lá, eu acho que não faz sentido continuar com esse casamento.
— Como é? — Questiona Jennifer, surpresa — Você está pensando em … cancelar o casamento?
— Não… Eu pensei em adiar o casamento. — Respondo enxugando minhas lágrimas.
— Se bem que cancelar não é errado — comenta Betina.
— Você tá maluca né? — Questiona Alissa para Beti. — Puxa, já parou para pensar em todo o gasto que ela já teve com tudo isso? E quanto a nós? Eu mesma mandei fazer o meu vestido.
— Ah claro, vamos pensar no umbigo da Alissa e desconsiderar os sentimentos da Catarina — debocha Betina.
— A Tiemi vai ficar maluca quando descobrir que veio do Canadá para um casamento que nem vai acontecer — comenta Cláudia.
— Isso é verdade — concorda Jennifer — Assim como meu namorado vai ficar um mês falando no meu ouvido porque o fiz gastar com o terno que nem vai usar.
— É sério isso meninas? — Pergunta Betina, revoltada.
— Desculpa por fazê-las tirar de onde não tinham… Eu não tive a intenção…
— Amiga, será que você não pode conversar com a sua sogra e chegarem a um consenso? — Pergunta Cláudia — Eu to super do seu lado, achei também que ela foi super autoritária, mas sei lá, às vezes ela também está se sentindo pressionada com tudo isso e por isso está agindo assim.
— Pois é, pode ser — concorda Jennifer — Poxa, queria eu ter uma sogra para pagar o meu casamento todo…
— E eu que queria ter alguém para escolher tudo por mim — afirma Alissa conversando com a Jennifer — Só entrar e casar, sem dramas.
— É, mas só que a Catarina não é uma vendida como vocês — rebate betina se aproximando — Sabe o que eu acho que você deveria fazer? Se impôr. Volte para aquela mansão e diga que ou esse casamento vai ser do seu jeito, ou você vai pular fora.
— Foi o que eu acabei de fazer… — respondo para Betina.
— E depois vai viajar. — Continua Betina — Vai ver a sua mae, se reconcilie com ela e eu tenho certeza que ela lhe dará o melhor conselho que precisa no momento. Mas por favor, Catarina, me prometa que você não vai se casar sem ter absoluta certeza disso, está bem?
— Certo… — concordo.
Encaro a Betina e nem parece que havíamos brigado antes, aliás nem consigo me lembrar o motivo pelo qual brigamos. Agora estávamos ali conversando como se isso nem ao menos tivesse acontecido.
— Se quiser dormir aqui para deixar a poeira baixar… — continua Betina — Tem um colchão no meu quarto disponível.
— Obrigada — agradeço — A última coisa que eu quero no momento é voltar para aquela casa.
— Sabe o que isso significa? — pergunta Cláudia chamando atenção de todas nós —Noite de filme!!!!
***
O sol já predominava por toda a pensão quando resolvi voltar para casa dos pais do Jean. Não tenho ideia do que falar quando encontrar Tereza, na verdade torço para que isso não aconteça. Pelo menos não agora de manhã. Preciso descansar mais um pouco, havia me esquecido como era dormir em um colchão no chão e já até sinto meu pescoço enrijecer.
O taxista entra pelos portões da casa e sinto um frio na barriga, rezo mais ainda para não encontrar ninguém, se possível nem os funcionários… Mas para minha surpresa a governanta já estava na porta me esperando.
Desço do táxi e caminho vagarosamente em direção a funcionária que me encara com um ar de satisfação.
— O Senhor Vasconcelos a aguarda na sala de refeições. — Avisa entrando em seguida.
Pronto, Tereza se queixou com o marido sobre o meu comportamento e agora serei expulsa da casa deles. Já imagino ele dizendo que fiz um show por conta de um mero vestido e que eu deveria me envergonhar. Abro a porta da sala de refeições e me deparo com Jean sentado à cabeceira da mesa acompanhado de sua mãe.
— O que faz aqui? — Pergunto parada na porta.
— Acho melhor deixar vocês conversarem. — fala Tereza quase teatral saindo do ambiente, não sem antes passar por mim com desprezo e então fecha porta atrás de mim.
O Jean se levanta da mesa enquanto limpa a boca com o guardanapo de pano e o joga na mesa.
— Você quer me explicar o que aconteceu com você? — Pergunta Jean que vem em minha direção e eu caminho para o lado oposto.
— Então sua mãe já te contou? Eu espero que ela também tenha falado como ela decidiu tudo e ignorou o meu desejo.
— Como você pode ser tão egoísta? Ela só queria te ajudar e você a tratou daquela maneira? Novamente você humilhando alguém. — Jean continuava a andar para minha direção e eu estava quase dando a volta na mesa.
— Eu egoísta? A sua mãe decide tudo como ela quer e eu sou egoísta? — Eu paro de andar e ele finalmente chega perto de mim me encarando furioso.
— Catarina, chega desse absurdo! Você vai agora pedir desculpas a ela e vai voltar para aquele ateliê e vai aceitar aquela merda de vestido! — Berra Jean.
— Eu não vou usar aquele vestido nem morta! — Agora eu quem berrava — Eu já disse que eu não me caso com aquele vestido! Não caso! Não caso!
Ele me dá um tapa forte no rosto fazendo meu rosto virar. Sinto meu rosto ferver, então me viro encarando Jean que parece surpreso com sua reação:
— Eu vim pensando em apenas em ver uma forma de adiar o casamento até que os ânimos se acalmassem. — Digo em um tom normal segurando meu rosto com as mãos ao mesmo tempo em que controlo o choro. — Mas agora… Está cancelado este casamento.
— O que você disse? — Questiona Jean, nervoso.
— Não vamos mais nos casar — digo colocando a aliança de casamento sobre a mesa.
Viro em direção a porta sem nem olhar para o Jean que caminha atrás de mim dizendo:
— Ah é, pois saiba que se você sair por essa porta acabou tudo entre nós, entendeu? Acabou!
Viro em direção a ele e então digo:
— Que assim seja.
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