Abusada ll - Sequestrada
26 Ciclo...
Notas iniciais
Ouvi Charlie suspirar alto, ele ficou em silêncio durante longos minutos e depois se levantou e caminhou até a varanda, se apoiando na mureta e olhando para fora. Eu achei que ele não ia me responder quando disse:
— Vai ser uma longa história.
— Bom... Você mesmo disse que eu ficaria aqui para sempre...
Ele suspirou mais uma vez. Inclinei-me um pouco para o lado e percebi que Charlie apertava a madeira da mureta com força, os nós de seus dedos estavam brancos...
Mesmo assim, ele começou:
— Quando meu avô morreu, ele deixou no testamento que a empresa da família Ross pertenceria ao filho mais velho, no caso, meu tio Richard... Mas meu pai sempre quis essa empresa... Mais do que tudo na vida. Inclusive, esse foi um dos motivos para que ele se casasse com minha mãe, uma economista de sucesso que era extremamente chegada ao meu avó...
“De qualquer forma, meu pai ficou desolado e Richard percebeu isso... Quer dizer, todos na família sabiam da obsessão do meu pai, inclusive meu avô... Porém, não acho que ele tenha se importado muito com isso.”
Charlie veio na minha direção e se sentou ao meu lado no sofá, continuando a história:
— Alguns dias depois, Richard apareceu aqui em casa. Eu fiquei no meu quarto como sempre fazia com visitas, eu era um garoto recluso. Porem, anos depois, eu descobri sobre o que conversaram... Acontece que meu tio Richard e minha tia Alexandra tinham... — ele pigarreou e olhou para baixo — Gostos peculiares... Eles queriam... Queriam... Um menino.
— Como assim?
— Meus tios queriam uma criança para... Bom, para... Para poderem praticar suas... Vontades... E eles até conseguiriam uma no mercado negro, mas não queriam se meter em nada ilegal... O que é irônico considerando o que queriam fazer comigo...
“O que interessa é que, meu tio sempre teve uma... Queda por mim... Então, ele conversou com meu pai e disse que passaria a empresa, a casa e todos os bens que o avô tinha dado se concordasse em me entregar aos cuidados dele para sempre... E meu pai aceitou...”
— O que você quis dizer com “gostos peculiares”... O que fizeram com você?
Mais um longo suspiro e Charlie desviou seus olhos do próprio colo para o horizonte mais uma vez. Ele disse:
— Acho que eu nem tinham sete anos ainda quando minha tia apareceu aqui em casa e mandou que eu fosse com ela... Meu pai havia dito que eu deveria obedecê-la e que estava passando minha guarda para eles... Eu não entendi o porquê no início e... Assim que cheguei a casa deles... — Charlie abaixou os olhos e eu comecei a ouvir suspiros e gemidos vindos dele — Eles me... Me... Eles abusaram de mim... Depois, me arrastaram até o porão e tinha... Tinha uma coleira lá... E uma jaula para cachorro... E eles me largaram lá por dias... E vinham até mim o tempo todo. O tempo todo...
— C-Charlie, eu-...
— Richard era o mais violento. Ele gostava de me causar dor... Ele me batia com todo tipo de coisa, me cortava, me aplicava choques, me afogava... Tudo o que você pode imaginar... Alexandra gostava mais de me humilhar... Eu ficava o dia inteiro com ela na casa fazendo suas tarefas domésticas... Ela também me batia, mas se divertia mais fazendo joguinhos e terror psicológico comigo... E ela me estuprava... Muito e todos os dias... Das piores maneiras possíveis...
Lágrimas escorriam pelo rosto de meu agressor. Ele chorava muito... Parecia uma pequena criança de colo abandonada... E, no fundo, era isso mesmo que ele era...
Eu não sabia como me comportar naquela situação... Eu conhecia Charlie há anos... Mas essa era a primeira vez que eu parecia estar vendo ele de verdade...
Aquilo deve ter sido horrível... Eu sei disso. Eu vivo isso... É tão estranho... Eu me lembro de quando ele contou sobre como matou os tios. Deve ter conseguido fugir deles em algum momento e decidiu se vingar... Mas me lembro também que ele mencionou um bebê que teria matado sufocado... Seria um primo?
Lentamente, eu perguntei:
— Charlie... E quanto ao bebê?... Ele era seu primo?
Ele secou algumas lágrimas e riu baixinho. Charlie resmungou:
— Era meu filho.
Meus olhos se arregalaram... Charlie havia tido um filho... Com sua tia... Fruto dos múltiplos abusos que sofria nas mãos dela...
Ele continuou:
— Ela queria um filho e Richard era infértil, então decidiu me usar já que era mais barato e proveitoso que fertilização in vitro...
— Eu...
— Não acredita em mim? Não é novidade.
— Não era isso que eu ia dizer... Seu pai sabia disso?
Ele riu um pouco mais alto dessa vez e fungou, passando a mão pelo rosto e secando-o. Depois, falou:
— No início eu achei que não. Passei anos dizendo a eles que meu pai iria encontrá-los e faria com que eles pagassem por tudo... Eles sempre riam na minha cara... Com o tempo, perdi a conta dos anos... Mas me lembro que, um dia, meu pai apareceu na casa, aparentemente uma visia social... E Alexandra... Resolveu brincar um pouco... Ela me obrigou a servir eles, como um empregado... Ela me espancou e me humilhou e... Tudo isso na frente dele — Charlie recomeçou a chorar — Foi quando eu quis morrer de verdade... Mas eu não consegui.
Ele se levantou e se afastou de mim, indo para o outro lado da varanda... Eu não estava reconhecendo aquele homem na minha frente. Mesmo longe, ainda consegui ouvir sua voz quando continuou:
— Quando eu os matei, liguei para ele e disse o que havia feito... A primeira coisa em que ele se preocupou foi... Se eu ia contar para alguém...
Eu ouvia pelos suspiros e resmungos que ele continuava chorando... Aquela história... Céus... Eu não consegui processá-la direito na minha cabeça... Charlie quando criança, em sua adolescência... Ele também foi estuprado, privado da liberdade e sofreu todas as torturas que eu sofri... O mais estranho é que eu não consigo entender como uma criança que sofreu isso pode fazer a mesma coisa com outra pessoa quando adulto... É como um ciclo.
Foi quando eu pisquei os olhos e uma lágrima rolou pela minha bochecha que percebi que eu também estava chorando... Mas seria pelas dores de Charlie? Ou pelas minhas próprias? Pelo que ele passou? Ou pelo que eu estou passando?... Eu só sabia que chorava. E tal como ele, não conseguia parar.
Foi quando me levantei, caminhei até ele e o abracei por trás. Minhas lagrimas molhavam as costas de sua camisa e ele segurou minhas mãos a frente de seu corpo e eu sentia suas lágrimas caírem em minhas mãos... Creio que ambos chorávamos pela dor um do outro... Porque sabíamos que, de alguma forma, estávamos presos um no outro agora... E, sem ninguém ao redor buscaríamos conforto pelas desgraças de nossas vidas um no outro também... Era um ciclo vicioso... E aquilo nunca iria acabar.
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