Abusada
2 Vadia...
Notas iniciais
Eu tremia... Tremia muito.
Calafrios passavam pelo meu corpo e eu me balançava para frente e para trás como um bebê assustado.
Depois do ocorrido ele simplesmente vestiu-se, destrancou a porta, sentou-se a mesa e continuou o seu trabalho... Eu fiquei parada e estática durante um longo tempo, mal acreditando no que havia acabado de acontecer... Ele ordenou que eu me vestisse e me sentasse na poltrona de frente para ele, por algum motivo, eu o fiz sem reclamar.
Depois de permanecer mais algum tempo trabalhando enquanto eu olhava pra baixo sem ao menos piscar (não consegui mais chorar depois que tudo terminou), ele ligou para a enfermaria e pediu que ligassem para minha mãe para avisar que eu não estava me sentindo bem e para que pedir que ela me buscasse mais cedo... Isso era pouco comparado ao que eu sentia.
Logo depois uma funcionária apareceu na porta da sala e com uma doce voz e um olhar maternal anunciou que a minha mãe havia chegado. O Diretor me deu um sorriso branco e bondoso e despediu-se de mim dizendo que esperava sinceramente que eu melhorasse... Acho que permaneci um tempo apenas olhando para a cara dele e não acreditando no que estava acontecendo... No que havia acontecido...
Eu fui para casa depois e nenhuma palavra foi trocada entre mim e minha mãe... Ela me deixou em casa aquela tarde junto com as três empregadas da casa: Josephine, Margrethe e Rosa... Elas também não ligaram para mim... Eu entrei no meu quarto e me escondi embaixo das cobertas, fazendo uma barreira de proteção ao meu redor...
Meus olhos ardiam quando eu piscava e havia traços de lágrimas nas minhas bochechas que já haviam secado... Meu ombro, meu peito e minha intimidade doíam muito... Eu enxergava tudo girando e às vezes me esquecia de respirar... Minha cabeça doía também e meus lábios estavam secos e rachando...
Olhei para o lado na direção do espelho que ficava na porta do armário que eu havia esquecido aberto quando acordei naquela mesma manhã... Aquela manhã... Quando as coisas eram normais e o mundo parecia fazer sentido... Aquela manhã quando eu não achava que o Diretor fosse nada mais que um funcionário da escola qualquer... Aquela manhã quando eu era... Virgem.
A garota que olhava para mim no espelho não era eu... Ela tinha o olhar assustado e o corpo encolhido, estava acuada como um animal em uma jaula e seu rosto denunciava pânico... Senti uma dor no coração como se alguém, mas precisamente Ele, estivesse apertando-o em seus dedos...
Eu nunca fui uma garota extrovertida, animada e risonha... Nunca fui segura de mim mesma nem arrogante ou irônica... Mas mesmo assim, nunca havia carregado aquele olhar de pânico completo que eu estava carregando agora, tinha meu orgulho e jamais me curvei ou cedi a palavra de ninguém... Apesar de não ser aventureira eu era rebelde e me recusa prontamente a seguir ordens... Eu não era a garota que me encarava no espelho...
Quando dei por mim já eram oito horas da noite... Ninguém havia vindo ao meu quarto me ver...
Minha irmã mais velha deveria estar com os amigos na rua à essa hora; minha mãe provavelmente havia acabado de chegar do trabalho e com certeza Josephine, Margrethe e Rosa já haviam se recolhido para seus quartos. Olhei para o meu celular abandonado na minha cômoda, ao lado da minha cama. Com as mãos trêmulas eu o peguei, o desbloqueei e encarei a página do whatsapp... Precisava contar para alguém... Tinha que contar para alguém...
Eliza.
Abri a conversa com ela:
“Oi.”
Eliza: Oi... Vc saiu mais cedo, aconteceu alguma coisa?
“Sim”
Vamos Emily... Escreva logo.
“Eu acabei passando mal”
Sua burra... É tão simples... Conta logo para ela...
Eliza: AAHH... Vc já ta melhor?
“Sim.”
Não
Eliza: Melhor. Q q o Charlie queria?
Charlie? Foi então que eu lembrei... Esse era o nome dele, pelo qual quase todos chamavam... Charlie... O que o Charlie queria? Responda logo...
“Nada, só elogiar as boas notas... Essas coisas.”
Idiota! Diga logo o que aconteceu!
“Preciso te contar uma coisa.”
Eliza: Uhhhh, adoro fofoca... Só um minuto q eu to muito ocupada.
“Com oq?”
Eliza: Conversando com a Jessica.
Jessica é outra amiga nossa, nós somos... Inseparáveis... Por que não posso participar de uma conversa com Jessica e Eliza? Contamos tudo uma para a outra, sem exceção.
“Sobre oq?”
Eliza: Nada muito importante... Depois eu te chamo ok?
“Ok.”
O que Eliza está conversando com Jessica que eu não posso saber? Bloqueei o celular de novo e coloquei-o na cômoda... Suspirei. Meu pescoço estalou quando eu o mexi... Meus ossos estão doendo e meus músculos estão travados... Algo molhou meu colo... Uma lagrima.
Estava chorando.
Meus olhos começaram a arder mais ainda e minha garganta parecia se fechar a cada inspiração... Continuava no meu casulo de cobertas... Acho que estou suada também.
Sem forças para fazer mais nada eu comecei a abaixar meu tronco na direção do colchão e por fim me deitei... Vou esperar Eliza me chamar... Preciso contar o que houve... Não posso ficar parada.
Já vi programas policias: Law and Order SVU, CSI, O Diabo à seu Lado... Em todos eles as vítimas, apesar da vergonha e do medo, se pronunciavam e denunciavam os acusados; elas eram fortes no final... Por que eu não posso ser assim? Eu tenho que contar para alguém... Fazer alguma coisa...
A porta foi aberta e minha mãe entrou, observou o quarto inteiro com seus olhos atentos e me encarou e disse:
–Fez o dever de casa?
–Sim.
Ok era uma mentira... Eu não deveria estar contando mentiras, eu não conto mentiras.
— Saiu o resultado da Grande Prova?
— Sim.
— Está na sua pasta?
— Sim.
Minha mãe entrou no quarto e foi na direção da escrivaninha onde estava a minha mochila, eu me virei na cama e fiquei encarando-a enquanto ela vasculhava a bolsa a procura da minha prova. Respirei fundo e decidi contar pra ela:
— Mãe-
— Parabéns pela nota. Você viu sua irmã hoje?
— Não.
Ela suspirou forte e disse:
— Sua irmã esta me saindo melhor que encomenda... Se continuar assim terei uma bela de uma conversa com ela e se a encontrar diga que eu preciso vê-la.
Ela se virou e começou a andar para fora do quarto, abriu a porta e eu repensei mais uma vez que deveria contar para ela. Sim, vou contar para ela... Ela precisa saber. Abri a boca, mas ela foi mais rápida que eu e disse:
— Faça-me o favor de não ser uma vadia sem escrúpulos como a sua irmã, tudo bem Em?
Droga... Vadia... Eu fui uma vadia.
Eu abri as pernas, eu gemi, eu não corri quando tudo terminou e eu passei um dia inteiro sem denunciá-lo... Eu fui uma vadia...
— Sim mamãe.
— Ótimo. Vá tomar um banho. Agora.
Ela fechou a porta do quarto e saiu. Eu desabei na cama e comecei a chorar mais uma vez sem sequer notar que eu já havia parado...
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