Abstrato
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ivan lhe olhava fixamente, bem como a mão que segurava a arma não tremia de forma alguma, pois aqueles eram os frutos de seu trabalho como militar. Em contrapartida, Gilbert estava pálido com a sucessão de acontecimentos. Tentou sorrir da forma mais arrogante que conseguiu. Contudo, o que conseguiu foi uma versão bem mais fraca de seu eu de ontem, um que não se preocupava com ninguém além de si mesmo, seu país e família.
Falou meia palavra e uma bala perfurou sua perna com a pontaria certa do russo. Ivan não estava para conversa, e a ajuda não viria cedo, se é que tinha intenção de aparecer. Feliz ou infelizmente, naquele instante em que fora ferido tinha sido o bastante para sacar a própria arma e desferir um ataque similar no ombro de seu inimigo. Seu sorriso habitual voltou a sua face e ele reganhou o controle de si mesmo.
Aquela era a guerra a qual havia sido treinado para enfrentar, e não deviam lhe importar as circunstâncias, mas sim a vitória. Ivan segurou o ombro ferido e mirou sua cabeça. Gilbert se jogou sobre o corpo dele, e desviou o curso do projétil. Ivan lhe chutou com força no estômago. Todavia, Gilbert segurou a perna dele com ambas as mãos, antes que ficasse fora de alcance, e puxou Ivan com toda a força para trás, trazendo-o junto para a queda que lhe esperava.
A cabeça de Ivan bateu contra o concreto, então, a palidez voltou ao rosto de Gilbert quando viu sangue sair de um ferimento mais antigo da cabeça do outro, aprofundando o que já deveria ser sério. A sorte tinha virado ao seu favor, uma vez que tinha provocado a baixa de um dos cabeças do time rival. Entretanto, a mão que segurava o telefone tremia enquanto noticiava aos seus aliados aquela vitória, e não era por causa da fraqueza causada pela perda de sangue.
A voz animada de Gilbert durou o tempo em que fez a ligação, então, foi substituída apenas pela respiração calculada. Não deveria fazer o esforço de se locomover para perto do outro, todavia, tratou de rasgar um pedaço do tecido do uniforme para parar seu sangramento na perna, e se aproximou como conseguiu. Ivan não poderia morrer, portanto, ele não deveria agir de forma tão patética. Repreender-se-ia em outro momento, quando sua racionalidade falasse mais alto.
A equipe médica chegou em dado momento, e Gilbert pediu algo que não poderiam lhe atender. Ivan era um inimigo que faria falta a poucos, portanto, ele foi mantido tal qual como foi encontrado. Gilbert teve de se convencer para que pudesse deixa-lo à mercê daquele frio. Ivan não poderia morrer, porque nenhum deles poderia merecer isso enquanto houvesse trabalho a ser feito e isso ainda estava longe de acabar.
Era difícil mostrar qualquer tipo de afeição em meio à guerra, e desde que se identificava como um ser vivente Gilbert via a humanidade e a guerra como irmãs, senão a mesma entidade. Possuir como meta a paz mundial parecia uma piada de mal gosto. Podia ter amigos, família, um país a proteger. Contudo, ele via que no fim tudo se trataria de seus interesses, isso se procurava sobreviver ao mundo hostil de forma a continuar a ser ele mesmo.
Todavia, se tinha passado um tempo em que essa perspectiva tinha cedido parte de seu mérito.
— Desde quando você e aquele comunista são tão próximos, hein? Fiquei surpreso. Se tivesse me avisado, eu teria chamado outra representação para cuidar do forte, tipo eu. — Alfred disse, e terminou de comer os hambúrgueres que tinha consigo.
— Era só você que não sabia, Al, mas não é como se eu estivesse surpreso. — Arthur disse e bebeu a cerveja do copo.
— Ei! Eu melhorei bastante na minha leitura de atmosfera! — Alfred disse, inflando as bochechas. — Mas, enfim, você ‘tá legal? O Ivan ainda não acordou, não é?
Gilbert girava o copo entre as mãos. Não era como se Alfred tivesse previsto o que aconteceria. Na verdade, nem ele nem Ivan iriam para a vanguarda, no entanto, foram convocados de última hora, porque o combate estava se estendendo demais para ambos os lados, do mesmo modo que os sacrifícios.
O ocidente e o oriente mais Rússia nunca antes tinham discordado tanto em assuntos globais a ponto de que tivessem criado mais uma guerra fria. O palco dessa vez era o Brasil, uma fonte de recursos inestimável para todos. Portanto, antes daquela batalha Gilbert e Ivan já estavam esgotados física e mentalmente, assim como seus amigos, então, seria injusto atribuir culpa a alguém àquela altura.
Era claro que Gilbert e Ivan não tinham se visto muito até ali, mesmo antes da notificação oficial da guerra, visto que os países que representavam estavam com as relações abaladas. Contudo, com a ajuda de litros de álcool no sangue e seu sorriso arrogante, Gilbert respondeu o amigo de maneira despreocupada. Passou-se algumas horas para que ficasse seguro de que não levantaria qualquer suspeita quando dissesse que iria embora, então, despediu-se dos colegas.
Quando se viu fora do estabelecimento fez uma ligação. Tentou guardar a ansiedade, assim como tentou não pegar a passagem aérea do bolso do casaco, que lhe permitiria ir à casa de Ivan no dia seguinte. Seu irmão quem atendeu o telefone e lhe disse para que viesse o mais rápido possível. Dos poucos detalhes que lhe foram ofertados lhe pareceram suficientes para se alarmar.
— O que... o que há de errado...? — Gilbert disse com falta de fôlego, em razão de ter percorrido parte do caminho de táxi e, quando viu que não chegaria cedo com o trânsito, parte por corrida.
Seu irmão Ludwig tinha uma expressão de culpa. Ivan acenava para Gilbert, da cama a qual estava acomodado, com um sorriso divertido. Foi quando viu que devia ter sido ideia de Ivan aquele falso alarme e, com isso, Gilbert quase seu deu um tapa, porque era mais simples seguir sua antiga perspectiva que atribuir qualquer mérito àquele abstratismo a qual mergulhou.
— Vamos, Gilbert-kun, não precisa ficar zangado. — Ivan ainda matinha um sorriso no rosto — Você devia saber que eu só posso desaparecer se meu país também desaparecer, e ainda tem muita gente para que isso aconteça, mas eu fico feliz pela sua preocupação.
— Você... — Gilbert balançou a cabeça algumas vezes antes de esboçar um sorriso cruel — Parece que minha próxima visita vai demorar. Vamos, Lud.
Ivan segurou sua mão antes que se afastasse muito. No momento, Gilbert só podia sentir o frio das mãos do outro sobre as suas. Avaliou o rapaz com uma expressão arrependida no rosto, e o teria beijado nos lábios se não fossem vistos por Ludwig. Mas, Gilbert ainda se permitiu encostar os lábios na testa do russo que se surpreendeu com o ato.
— Seja um bom menino que meu incrível eu pode pensar no assunto.
E deu uma gargalhada. Ivan inflou as bochechas descontente, e isso lhe recordou do americano, mais cedo. Entretanto, se fizesse alguma comparação entre os dois, a guerra iria realmente mudar de nível, portanto, ficou quieto quanto aquilo. Apenas não conseguiu omitir uma risadinha que os outros dois não entenderam.
Os tempos podiam continuar inalterados, assim como se alterarem de uma hora para outra em um turbilhão. Infelizmente era mais frequente a segunda opção para eles em tempos difíceis, e seria sempre uma mudança para pior. Se não fosse pela força que seu país exercia, a influência de Ludwig, Gilbert já teria tido o mesmo fim que sua amiga Elizaveta.
Mas talvez dessa forma ela seria mais feliz que eles, que tinham de continuar a viver no inferno terrestre que a cada ano, década, século se tornava mais intolerante, o que era irônico, pois a metas humanitárias ainda estavam ali, bem como aquele abstratismo que havia servindo há alguns anos, que mais lhe tirava o sossego que qualquer outra coisa.
Um exemplo disso era aquela manhã, em que Gilbert segurava a mão de Ivan com força, quase que quebrando alguns dedos pela força aplicada. Afrouxava o agarre quando via o que fazia, para então vislumbrar que Ivan mantinha seu sorriso, ainda que visse suas hesitações no olhar e nas ações.
Ivan nunca precisaria a extensão de sua dor e amor, assim como Gilbert não conseguiria medir a dele, no entanto, isso não os impediria de que tentassem se entender mais sempre que possível. Por isso, quando Ivan fez com que seu rosto se aproximasse ao dele e lhe disse que estava tudo bem dizer que o odiava, e que não quisesse mais vê-lo, ou qualquer outra coisa que passasse por sua cabeça, Gilbert considerou seriamente em puxar uma das bochechas dele.
O dia em que voltariam a ser inimigos sempre retornaria já que eles eram a representações de partes da humanidade, no entanto, aqueles eram seres que por algum milagre ainda podiam amar. Por isso, Gilbert via que ainda estaria tudo bem se continuassem a procurar pela resposta a qual haviam sido criados para descobrir, ainda que nem mesmo quando o fim deles chegasse isso fosse possível.
Fale com o autor