Abstrato
9 Mentiras
Notas iniciais
Primeiro foi sua nuca. Tão delicada como toda a sua figura, mas talvez um pouco pálida demais, mentalmente anotei que quando voltasse a fazer mais sol eu o levaria para fazer algo ao ar livre — e okay, talvez eu o faça só para o tirar de perto dos seus games estúpidos o que, claro, não tem nada a ver com ciúme por objetos inanimados. De forma alguma. E então, meus olhos desceram até sua cintura, fina demais mesmo que estivesse comendo melhor e que, por mais que não fosse feminina ainda me parecia delicada demais, quase quebrável em mãos descuidadas.
Ultimamente, tudo em Mail Jeevas era em demasia.
A forma como seus olhos brilhavam demais, como sorria o tempo todo, como passava tempo demais em frente a espelhos quando antes fugia deles — parecia que pela primeira vez na vida ele realmente via seu reflexo — como estava fazendo agora.
Tinha as sobrancelhas ligeiramente franzidas, e acho que estava mordendo o lábio inferior. Parecia muito concentrado em algo, o que o deixava fofo demais.
Eu poderia atrapalhar um pouco sua concentração... Por que não?
Terminei de calçar meus coturnos e me levantei da cama, onde o observava até então. Cheguei por trás e ele tão distraído estava que não me percebeu até que eu envolvi sua cintura com meus braços e beijei sua terna nuca. Seu corpo se estremeceu, uma reação bem satisfatória, eu diria.
“Bom dia.” disse, minha boca muito próxima da sua e não resisti em tomar seus lábios num brevemente, nada mais do que um toque.
“Bom dia.” sorriu e se virou para me olhar nos olhos, um lindo tom de rosa adornando suas bochechas.
“Seu cabelo cresceu bastante…” observei, pegando um de suas vermelhas madeixas, sentindo o cheiro suave do shampoo.
“Está na hora de cortar…” murmurou meio nervoso quando desci minha mão por suas costas propositalmente, a descansando em seu lombar. Nossos corpos estavam colados o bastante para que eu sentisse fracamente como sua palpitação acelerava de forma desregulada.
“Não, eu gosto assim... Te deixa ainda mais parecido com uma garota.” sorri malicioso e rapidamente sai dali quando ele fez menção de jogar um sabonete em mim, que facilmente desviei.
“Agora eu definitivamente vou cortar, idiota!” escutei o barulho da porta se fechando, e imaginei o quão vermelho o rosto dele deveria estar.
Eu sabia que ele não iria cortar, não por um tempo, pelo menos.
Peguei minha jaqueta e desci para o refeitório esperá-lo. Fiz, como havia ganhado o costume, duas bandejas de café da manhã. A minha cheia de coisas em que chocolate era o principal ingrediente, e a sua com coisas leves, mas saudáveis porque ele realmente precisava dos nutrientes.
Sentei e comecei a bebericar meu achocolatado enquanto esperava Mail, quem não demorou muito, porém mal percebi sua chegada, tão distraído estava.
Sentado a duas mesas de distância, estava Near. Sua pele leitosa tinha um tom meio rosado, o que seria estranho para qualquer um que observasse o fato dele nunca estar no sol. Ou isso os outros pensam, eu bem sabia que ele gostava de deitar num canto da sala de brinquedos onde a janela deixava a luz solar entrar. Às vezes ele até dormia lá.
Sua boca era pequena, mas tinha lábios cheios na medida certa, como se fossem de uma boneca de porcelana. Tínhamos praticamente a mesma idade, mas seu rosto era um pouco fofo, como o de um bebê. Aliás, ele inteiro era um pouco infante, sua pele era aveludada como pêssego, e seu corpo era cheio de dobrinhas por debaixo da roupa.
O cabelo, esponjoso e macio, eu estava certo de que ele ainda usava shampoo infantil. Tudo nele emitia pureza, mas também uma frieza quase cruel. A mesma com que ele me encarava de volta com seus grandes olhos – quase desproporcionais — cheios de cílios quase translúcidos por seus genes albinos.
Às vezes eu gostaria de socar aquela coisa branca até a morte. Ver suas roupas claras se manchando com o seu próprio sangue. Gostaria de ver ele implorar para que eu parasse, só pelo prazer de ver toda sua arrogância vir ao chão.
Muitos acham que meu ódio por Near é por eu estar em segundo lugar na linha de sucessão. Isso é besteira, eu já estive em primeiro lugar, Matty já esteve também em questão de notas – e confesso que se não fosse sua sociofobia, ele poderia facilmente permanecer lá – os três primeiros lugares não são tão fixos assim, e não é como numa escola qualquer em que se coloca uma lista de honra num muro do pátio. No fim das contas, creio que só quando o momento chegar saberemos quem está em primeiro.
Eu odeio ele como ser humano. Imagino que esse pedaço de beschissen não saiba o que é amor. Me pergunto se ele tem um mínimo que seja de admiração ou respeito por L.
Desviei o olhar por um momento, só para tornar a encara-lo e ver que falava algo. Murmurou algo sem som e bem pausadamente, que apenas entendi pela minha facilidade em leitura labial.
“Você. Está. Olhando. A. Pessoa. Errada.”
Irritante. Tão, tão irritante.
“Da hast du dich aber anscheißen lassen, Mello.” falei entre dentes, tão baixo que duvido que Matt tenha escutado.
Beschissen!
. . .
Eu estava sentado num canto da quadra coberta da Wammy’s, tentava recuperar o fôlego e secava o suor com minha própria camiseta, que eu havia tirado. Estava jogando queimada com as crianças menores, e tenho que dizer, estou ficando velho. Ao menos para quantidade de energia desses pirralhos. Imagino que todos devem se entupir ao máximo de açúcar depois de verem como L faz isso.
Eu admiro muito o maior detetive do mundo, mas tenho que dizer, será que ele não lembra que um bando de criança se espelha nele? Suspirei e me levantei, acenando para os menores. Eu precisava de uma ducha. Escutei o som do jatinho particular de L e vi pela janela como ele se distanciava. Lembrei que na última conversa que tive com ele, Watari havia comentado que logo iriam para o Japão, por causa da estranha cadeia de mortes por infarto inexplicáveis de assassinos, políticos corruptos e bandidos em geral. Essas mortes vinham acontecendo no mundo inteiro, porém por algum motivo L acreditava que começou lá.
“Itterasshai.” desejei baixinho em japonês.
Quando voltei para meu quarto, Matt estava lendo meio deitado de lado na cama, apenas com a luz do abajur. Desviou o olhar e deu um belo sorriso cheio de dentes para mim, o que trouxe um sorriso aos meus próprios lábios. Me agachei na e apoiei meu queixo na cama, na altura de seus olhos, apenas me perdendo nas duas grandes e cristalinas esmeraldas que eu tanto amava.
Ficamos um tempo assim, até que ele quebrasse o silêncio com uma risadinha.
“Mello…” chamou entre risinhos que chegavam a ser até meio femininos e infantis, porém adoráveis.
“Sim?” sorri.
“Você precisa de um banho!” soltei uma gargalhada e me levantei.
“Sim, sim…” falei e dei dois tapas fracos em sua parte traseira, vendo por último seu rosto corado enquanto apenas conseguia me questionar uma coisa.
“O que eu fiz para merecer você?”
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