Abstrato
16 Inferno pessoal
Notas iniciais
Se Mello fosse parte de um livro, este livro seria a própria bíblia. Não consigo pensar em algo mais apropriado, eu sempre o coloquei acima de mim, acima de qualquer ser humano. Eu o olhava com os olhos de um seguidor de uma religião decadente tanto quanto com a pureza amarga com que se olha seu primeiro amor.
Tem um ditado assim, não tem? “O primeiro amor nunca se concretiza”?
E, no entanto, aqui estou eu relendo as páginas de uma bíblia preenchida com uma religião que eu mesmo fundei, acreditando nas mesmas mentiras uma e outra vez. Cegado pelas promessas que nem ao menos foram ditas em voz alta... Não foram? Já não consigo lembrar... Apenas sei que nunca desviei o olhar dos parágrafos intermináveis de sandices.
Até agora.
Porque em minha estante, achei um livro perigoso, cheio de mistérios, sangue e mortes, um livro que estou tentado a ler mesmo que muito provavelmente não tenha um final feliz.
Eu estava me perdendo.
E eu quero me perder.
É cansativo demais manter a própria sanidade, e desde que Mello se foi é a única coisa que faço é viver na borda, sempre pronto para me jogar a qualquer momento.
Sem conseguir pregar os olhos de noite com medo do que eu poderia sonhar, e terminando por desmaiar pela exaustão quando o café e os remédios já não faziam efeito, me obrigando a comer quando meu corpo já estava no limite, nunca tomando banho numa banheira, onde eu poderia me afogar porque mais de uma vez eu perdi a consciência embaixo da água muito quente do chuveiro, tomando cuidado para não misturar os remédios e nunca deixando nada alcoólico em casa, por precaução. Máquinas de barbear, ao invés de lâminas, e por um tempo nem facas de cozinha eu tinha.
Mas o cigarros eu não pude evitar. A cada tragada, uma cicatriz.
Inspirar a fumaça e depois queimar. Então, de novo e de novo e de novo... As marcas aos poucos se enfileirando em linhas perfeitas em minhas coxas, cintura... Nos piores dias? No pulso.
Eu me queimava, o olhar fixo no nada, apenas sentindo a dor me consumir. Mais tarde, quando as bolhas se formavam, eu as coçava, nunca dando a oportunidade para que as cicatrizes fossem menores. Quando as cascas começavam a se formar, eu coçava mais ainda, e quando se curavam, eu me queimava outra vez.
Apenas mais um ciclo vicioso para minha vida, porque eu sou esse tipo de pessoa, que sempre precisa ter um vício, uma obsessão para me distrair dos meus medos, das minhas atitudes realmente auto-destrutivas. Porque as queimaduras não são nada. Dor física não é nada. Eu prefiro morder, arranhar e chutar a ter que sentir.
É como se eu fosse um lobo que por acidente caiu em uma armadilha para urso. Eu não tenho a força para me soltar, e mesmo que alguém queira ajudar, eu vou rosnar porque prefiro continuar sangrando a me deixar ser visto vulnerável, ainda que o sangue deixando meu corpo seja claramente a maior prova de minha vulnerabilidade.
E não passo disso. Um animal ferido. Mello é a armadilha, Near tenta me ajudar. Porém me deixo esvair sem tentar me soltar, mas negando que jamais caí nessa trapaça. Negando uma mão bondosa, mas pronto para me jogar ao caçador.
É mais fácil deixar que uma situação se resolva sozinha, mesmo que você seja o único que pode dar um jeito na bagunça. É mais fácil rezar, mais fácil temer a amar.
Um suspiro escapou por entre meus lábios secos, e uma sensação que eu já estava familiarizado a ter vinda bem do fundo, revirando meu estômago.
Ansiedade.
Às vezes, sem mais, eu sentia isso. Não que seja muito incomum para uma pessoa com depressão se sentir ansiosa, inclusive os antidepressivos são todos remédios para ansiedade apesar do nome. Mas era horrível, principalmente porque eu sempre me recuso a tomar os remédios e criar mais um tipo de dependência para minha vida, ainda mais uma tão inútil.
Primeiro, se torna difícil respirar, não como algo próximo à asma, mas como quando você prende a respiração esperando por algo que não vai acontecer e esquece que prendeu. Você não consegue ficar parado, mas tudo parece complicado demais para te distrair, você não tem cabeça principalmente para coisas que exige um pouco mais de você, como ler um livro, pois com certeza você vai reler o mesmo parágrafo pelo menos dez vezes até começar a entender o que acabou de ler.
E estou sentado, mas minha perna não para, e acho que machuquei mais minha boca prendendo ela entre meus dentes. Tiro meu celular do bolso em checo se tem alguma mensagem ou chamada perdida. Me certifico que tem internet e se não está em modo avião para receber ligação. Verifico se tem som e se está em um bom volume. O deslizo novamente para meu bolso e me levanto, o diabo está à espreita, e preciso desviar meu olhar para outro lado. Jogos.
Ligo o console e sou transportado para um mundo pós-apocaliptíco, onde tenho que me proteger. Morro de novo e de novo, ainda que tenha zerado esse jogo mais de uma vez. Ainda sinto olhos em mim, me tentando. Finalmente consigo me concentrar o bastante para passar de fase. Mello à espreita. Atiro até que nada possa me matar nessa realidade virtual. Sinto as garras arranhando minhas costas.
Ansiedade é exatamente isso. Um demônio brincando com você, fazendo você pensar no que não quer e te enforcando até você ceder às suas vontades. Uma coceira, e você vai coçar. Vai coçar até sangrar.
Algo vibrou em meu bolso, meu celular, minha garganta se apertou, e meu coração começou a bater tão forte que o sentia retumbar em meus ouvidos.
Pela primeira vez, eu sabia que teria um retorno. Eu sabia que era isso que eu estava esperando.
Peguei o aparato em ambas as mãos, um “N” no visor. Respirei fundo, deslizei o dedo na tela, e então o levei até o ouvido.
– Matt. – a voz sempre monótona de Near tinha um “quê” de diferente, e isso apertou o nó em meu estômago.
– Sim?
– Houve uma explosão.
Meu coração parou e eu perceberia mais tarde, tarde demais, que com Mello eu não tentava barganhar para entrar na terra prometida, mas sim, no inferno.
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