Abstinência
19 Diferentes tipos de entorpecentes
Notas iniciais
Estou chorando no banco de trás do carro com dois seguranças – um ruivo e um moreno -, um de cada lado, me mantendo longe das portas. Meu peito dói muito devido a mistura de tristeza, raiva e impotência que me preenche por completo.
— Por que estão demorando tanto? – um deles pergunta para o outro, que dá de ombros. – Acho que vou passar um rádio para o Jackson. Ele e Aoi Lee estavam com Subaru quando viemos para cá.
Eu continuo em prantos enquanto os dois conversam calmamente e logo começo a me sentir invisível. Será que não existe ninguém que ligue para meu sofrimento? Meus pais não se importam, meu irmão me traiu, a única amiga que tive não hesitaria em se livrar de mim, o único amigo que já tive deve me odiar agora.
Estou sozinha... De novo.
— Jackson, o motorista está pronto para ir. Vocês estão com o senhor Subaru e o senhor Len? – o moreno pergunta com uma mão tapando o aparelho que usa no ouvido.
Ele aguarda a resposta e então entra em choque. Eu demoro a reagir, mas o ruivo é mais rápido:
— O que foi?
— Problemas. Precisamos ir pra lá. – avisa já agarrando a alavanca da porta ao seu lado. O ruivo passa o tronco do corpo por cima de mim, sem me tocar, e fecha a porta que estava sendo aberta.
— Você está maluco? Não podemos deixar a senhorita Rin sozinha. Ordens de Subaru.
O moreno me estuda com cuidado.
— Vamos trancar o carro. Ela não vai poder sair.
Fico irritada com o modo como estão falando de mim como se eu não estivesse presente, mas não interfiro. Estou desinteressada demais nas coisas ao meu redor para isso.
O ruivo não parece disposto a concordar, mas por fim cede.
— Senhorita Rin, tenho que pedir para ficar calma e dentro do carro até que voltemos com seu irmão e o seu empresário. – diz.
— Façam o que quiserem. – respondo cruzando os braços.
Então, os dois saem sincronizadamente do veículo e trancam todas as portas. Vejo, ainda, que se dirigiram ao motorista para dizer algo. Provavelmente advertindo-o para que não me deixe fugir.
Reviro os olhos inchados e tento limpá-los. Minha visão chega a estar turva de tanto que chorei. Foco em me controlar para que a respiração volte ao normal, pois se continuar soluçando como estou, o resultado será uma dor de cabeça horrível.
Mal se passa um minuto, ouço uma batida forte na janela de trás. Com um pulo, viro a cabeça e não encontro ninguém. O motorista também ouviu e prontamente sai de seu posto para verificar a traseira do carro. Estou acompanhando seus movimentos quando vejo outra pessoa ocupar o lugar atrás do volante. Devido à divisória, não consigo enxergar quem está do outro lado e isso me deixa com muito medo.
— Ei! – o motorista percebe que fora enganado e tenta correr para a porta da frente a tempo de impedir o roubo, mas foi em vão. Tão rápido quanto se esgueirou para dentro, o ladrão acelerou o carro.
Enquanto nos movemos em alta velocidade em direção à saída da emissora, agarro-me ao couro do assento para não cair durante as curvas. Passamos arrebentando a catraca perto do posto oficial e tenho de abafar um grito de susto. O impacto poderia ter feito o carro capotar! O que esse maluco está pensando?
Respiro fundo ao recuperar-me do choque.
Talvez o ladrão não saiba que eu estou aqui. Se eu ficar quieta, posso sair de fininho assim que ele estacionar seja lá onde.
Por outro lado, quais são as chances de um carro ser roubado dentro do estacionamento de uma empresa privada? Seria menos perigoso pegar qualquer carro nas ruas. É muito mais provável que a pessoa esteja interessada em mim.
Olho por cima do ombro, para a janela de trás e uma faísca de esperança acende dentro de mim quando vejo que há viaturas atrás de nós.
Resolvo abrir a janela lateral e gritar por ajuda, mas quando já estava com o vidro quase todo baixado, o motorista descontrolado utilizou seus comandos do painel para fechá-la novamente. Engulo em seco. Agora é oficial: ele sabe que estou aqui. Isso não é um roubo. É um sequestro!
Já me preparava para surtar quando a divisória começou a baixar e uma cabeça azulada se revelou.
— Kaito?!
O motorista vira o rosto apenas uns 30° e sinto-me gelar com seu olhar frio.
— Não faça nada idiota. – adverte com um tom de voz que não é dele. Assim que vê que não vou responder, volta a olhar para frente.
Ele não torna a subir a divisória, então posso observá-lo por mais tempo: ele ainda está vestido com o uniforme que roubara e parece completamente relaxado em relação ao seu modo imprudente de dirigir e ao fato de estar protagonizando uma perseguição.
— K-Kaito... – chamo um pouco insegura. Dessa vez ele não se dá ao trabalho de olhar para mim — ...O que está fazendo?
Ele acelera mais ainda e meu corpo afunda nas almofadas até se acostumar à inércia.
— No momento estou despistando aqueles policiais. – responde seco – Depois, vou estar livre para perguntar que porra foi aquela no estúdio! – berra ao fazer uma curva fechada. Os pneus cantam e eu prendo a respiração afundando ainda mais as unhas recém-feitas no estofado.
— Kaito, me perdoe! É tudo culpa minha! – acabo gritando também por causa da adrenalina.
— Isso eu deduzi sozinho! O que eu quero saber é por que você achou que seria uma boa ideia cantar minha música em rede nacional! – agora sua voz carrega algo mais triste. Fecho os olhos sentindo mais uma vez o peso da confusão que criei.
— Não fui eu que cantei! – esclareço o óbvio – Meu irmão... Ele é um idiota! Eu não sei mais o que pensar sobre ele...
— Não importa! Por que ele cantou, Rin? Como ele teve acesso a minha letra? – Kaito bate no volante com violência. Nossa velocidade não diminui em nenhum momento.
— Eu-
— Por que ele disse que foi você quem compôs?
— Kait-
— E por que fez isso sabendo da minha história?
Estou respirando com dificuldade, pois tudo o que mais quero é chorar. As sirenes atrás de nós parecem mais distantes, mas ainda posso ouvi-las.
— Kaito, – enfim ele não me interrompe – me perdoe! Eu jamais faria isso com você! Eu não sabia que Len havia musicado sua letra, eu não sabia que ele plavejava cantá-la no programa. Eu juro!
Seus olhos azuis encontram com os meus pelo espelho retrovisor apenas por um segundo.
— Como ele teve acesso a Prisioner, Rin?
Pisco várias vezes ao ponderar sobre minhas poucas opções de resposta. Eu poderia a) dizer que fui descuidada e deixei o papelzinho que me deu dentro de um casaco jogado no chão ou b) mentir mais uma vez e continuar essa odisséia sem fim da Rin duas caras.
Suspiro profundamente.
— Eu a esqueci dentro do casaco e ele acabou encontrando. Deduziu que fosse uma espécie de poema ou sei lá de algum cara para mim e ficou muito puto. Quando eu descobri, tive de dizer que era minha para que ele não surtasse. Depois, voltei atrás e disse a verdade sobre você. Infelizmente, acho que nosso encontro de hoje o deixou zangado e ele resolveu se vingar.
— Mas por que ele surtaria por causa disso? – Kaito parece levemente mais calmo, mas nenhum de nós está livre da adrenalina da corrida de carro.
— Ciúmes, Kaito! Ciúmes! – grito por fim.
— Eu sei que muitos irmãos são ciumentos com suas irmãs, mas isso é demais, não acha?
Viro o rosto para desviar meus olhos da cabeleira azul enquanto penso comigo mesma, mas acabo verbalizando o que se passa em minha mente:
— Ah, mas não é algo de irmãos...
Assim que me dou conta do que disse, tapo a boca com as duas mãos e arregalo os olhos. Kaito está me encarando pelo retrovisor.
— Rin, por favor, não me diga que vocês... – ele não consegue terminar a frase, mas minha reação é o bastante para confirmar qualquer suspeita. – Meu Deus!
Ele freia de supetão e sou lançada para frente. Meu peito bate contra o banco da frente e eu fico sem ar por alguns instantes. Kaito sai do carro, abre a porta que dá acesso a mim e passa os braços ao meu redor para ajudar a descer. Sem que eu proteste, sou carregada para longe do veículo.
★★★
Olho ao redor e vejo que estamos num lugar deserto, mas nada parecido com a vila fantasma onde Kaito vive. Aqui o clima é mais hostil, mesmo com o Sol da tarde.
— Você se machucou? – ele pergunta ao finalmente me pôr no chão. Estamos numa calçada em frente a um edifício que parece ter sido abandonado ainda em construção.
— Não. – digo pondo, sem querer, uma das mãos na região atingida. Está dolorido, mas nada que importe no momento.
Kaito anda de um lado para o outro sem nunca dirigir o olhar para mim. Eu fico sentada onde me deixou, observando as pérolas em minhas botas até que vejo suas pernas pararem de se mover. Levanto a cabeça e sou apunhalada pela expressão que o rosto do azulado exibe. Parece uma mistura de dor com confusão. Indignação talvez?
— Vocês são realmente irmãos? – pergunta.
— Sim.
Ele cruza os braços e morde os lábios.
— Preciso ouvir da sua boca sobre a relação de vocês.
— Não precisa não. – devolvo sentindo-me a pior pessoa da Terra – Já não está claro o bastante?
— Caramba, Rin... – ele se senta ao meu lado, apoia a cabeça nos joelhos e junta as duas mãos – Como... Como isso aconteceu?
Observo a rua deserta. Pelo visto ele acredita que estamos seguros o bastante para bater um papo desagradável. Ajeito a franja que ficou toda bagunçada no caminho.
— Acho que sempre aconteceu. – explico – Mas deve fazer pouco mais de dois anos que começamos a realmente-
— Eu não quero saber disso! – grita e eu sinto-me corar por inteiro.
— Eu ia dizer "nos enxergar como namorados", seu... Seu tarado!
— Oh... – ele coça a cabeça. Vejo que também está vermelho.
Suspiro mais uma vez.
— Me desculpe pelo que aconteceu lá no estúdio. Eu realmente não sabia...
— Acredito em você, Princesa. Sinto muito por ter lhe sequestrado, aliás. Era a única maneira de falar com você antes de ser trancafiada naquele hotel outra vez. – ele dá um meio sorriso e só isso me faz explodir de alívio. Jogo-me contra seu corpo e o pego de surpresa.
Como pode esse homem que me conhece há tão pouco tempo ser tão bom amigo?
Ficamos abraçados em silêncio por algum tempo, até que o vento gelado da tarde começa a incomodar. Devo estar tremendo sem perceber, pois vejo Kaito movimentar-se a fim de tirar a parte de cima de seu uniforme para pôr em meus ombros.
Ele passa os braços a minha volta novamente e meu coração acelera. Estou com boa parte do tronco colado ao dele e a lateral do meu rosto está recostada contra seu peitoral, que agora está muito mais aparente com a fina regata branca que o cobre. É quase como se estivéssemos na mesma situação do dia em que tivemos de dormir juntos no sofá, quando apenas uma fina camada de pano nos separava, mas dessa vez a pessoa pouco vestida é Kaito.
Não que eu esteja achando ruim...
Balanço a cabeça para me livrar dos pensamentos estranhos.
— K-Kaito, como vou voltar para casa? – pergunto desesperada por um assunto.
— Eu posso te deixar de carro.
— Tenho certeza de que a polícia está atrás desse veículo. Não podemos voltar para ele. – explico ao tentar me distanciar um pouco dele.
Ele coça o queixo com uma mão, mas a outra continua firmemente agarrada a mim, impedindo que eu me afaste. Pergunto-me se ele tem noção disso.
— Acho que teremos de agir na surdina.
— Como assim? – indago.
— Vou te levar lá pra casa. – começa – Quando anoitecer, faremos o mesmo trajeto daquele dia em que te deixei no hotel a pé e você pode dizer a todos que se tratava de um fã doido e que conseguiu contornar a situação.
— Não é tão simples. – digo um pouco confusa com sua falta de preocupação – Eles farão perguntas. Vão querer descrições. Vão atrás de você com certeza.
— Hm... Vou pensar em algo melhor no caminho para casa. – diz já se levantando e por fim me soltando.
— Parece que mais uma vez eu não tenho escolha, não é? – pergunto sorrindo ao me lembrar do que me disse em nosso primeiro encontro.
Ele parece recordar também, mas se limita a sorrir apenas.
★★★
O caminho até a vila fantasma foi longo. Não foram poucas as vezes em que Kaito se ofereceu para me carregar e eu não aceitei.
De frente para o portãozinho de entrada, olho para o céu e surpreendo-me com minha decepção por já estar escurecendo. Não é segredo que a companhia de Kaito me agrada. Gostaria de ficar mais tempo com ele...
O azulado entra primeiro e rapidamente acende dois focos de luz. Um a mais desde a última vez em que estive aqui.
— Agora está mais fácil de enxergar. – comento dando uma olhada geral no cômodo e reparo na mesa de jantar – Olha! Duas cadeiras!
— Desde aquele dia, tenho me concentrado em deixar o lugar mais apropriado para visitas. – ele esconde o rosto ao dizer isso. Parece envergonhado.
— Eu gostei. – sorrio com sinceridade. Kaito coça a garganta antes de se dirigir para o sofá.
— Mas ainda não tenho uma cama, então se quiser cochilar antes de irmos, vai ter que ser aqui.
— Não estou com sono. Só um pouco cansada. – assim que digo isso, ele faz sinal para que eu me sente também e é o que eu faço. Imediatamente sinto as pernas aliviarem.
— Nossa... Eu realmente precisava disso. – anuncio – Antes da minha vida virar de cabeça para baixo, eu costumava ir bastante ao spa do hotel. Era muito relaxante.
— Tadinha da menina rica. Tantos problemas pra resolver que nem tem tempo de receber uma massagem. – ele provoca e lhe dou um tapa de leve no ombro.
— Você também teve luxo na vida. Não me julgue. – faço careta e ele imita. Acabo rindo.
— Eu nem sei como não estou mais com raiva pelo que seu irmão fez.
— Podemos esquecer dele por agora? – proponho. Ele prontamente concorda com a cabeça.
É impressionante o quão a vontade eu posso ficar em sua presença. Hoje eu fui traída pela pessoa em quem mais confiava, dei uma de maluca para a equipe da emissora, fui sequestrada, revelei meu segredo mais íntimo e mesmo assim nada disso parece ser relevante agora.
Umas lágrimas fogem de meus olhos e eu tento limpá-las, mas não fui rápida o bastante.
— Está chorando? – Kaito segura meu queixo de forma delicada e levanta meu rosto. Ele parece preocupado.
— Talvez... Mas é porque estou feliz.
Ele suspira e posso sentir seu hálito de menta.
— Menina maluca... – implica.
— Você me tranquiliza. – admito desviando o olhar. Minha voz não passa de um sussurro – No meio de tanto caos, é como se você fosse uma calmaria agradável.
Kaito é como uma droga.
Ele desvia o olhar também, mas não demora a voltar a me encarar. Seus dedos pálidos ainda seguram meu queixo e posso jurar tê-lo visto umedecendo os lábios. Meu coração acelera mais uma vez.
— Não me importo de assumir essa função. – ele fala de repente. Sua voz aveludada também parece sussurrar.
— Qual? – questiono. Nossos olhos com diferentes tons de azul estão colados um ao outro e, por isso, não o percebo se aproximando. Quando fala novamente, sua boca está a menos de dez centímetros da minha:
— Deixe-me sanar suas dores... Despeje em mim suas preocupações... – sua outra mão encontra minha cintura e seu toque me faz arrepiar – Quero livrá-la de tudo isso...
Minha respiração cessa por um segundo, mas não me dou tempo de reconsiderar a situação.
— Faça isso... – peço.
Meus olhos estão apenas entreabertos, meus braços dão a volta em seu pescoço e meu corpo cede à falta de apoio, caindo vagarosamente para trás enquanto Kaito me mantém firme junto de si.
Mal minha cabeça toca a almofada do sofá, sinto seus lábios macios contra os meus.
(Cena continua no próximo capítulo)
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