Abstinência

4 O demônio da recepção


Notas iniciais
Oi, gente fina, bonita e gostosa! Tudo bem? Tô postando tudo rapidinho mesmo pq me empolguei com a reescritura hehe. Por enquanto a história ainda está seguindo os mesmos passos da original, então acho que vão gostar! Hoe~

Depois de Len me abandonar no quarto, decidi que o melhor a fazer seria tomar um banho e ir ao encontro de todos no saguão. Em menos de uma hora, já estava sentada a mesa principal de refeições do hotel – esta estava sempre reservada a nós por sermos os hóspedes mais importantes – lendo sobre minhas tarefas.

Hoje eu teria duas sessões de relaxamento vocal e mais uma checagem geral no álbum novo da Yollow-K que seria lançado em abril. Normalmente os artistas novatos não se envolvem nessa burocracia e mal tem conhecimento sobre o que acontece no processo final de lançamento de um CD, mas Len brigou tanto por esses direitos que agora somos consultados antes de toda e qualquer alteração ou decisão. Eu detestava ter esse trabalho todo, mas se Len considera isso algo importante, eu também considero.

Sem ânimo, levantei da cadeira e fui começar o dia. A calça jeans roçava nos machucados, mas fingi não notar.

★★★

Oito horas depois, lá estava eu novamente na mesa de refeições, mas dessa vez não estava sozinha: Subaru falava ao telefone do meu lado. Ele balançava os braços gordos enquanto conversava e às vezes sua voz soltava agudos irritantes.

Pergunto-me se ele é casado já que raros são os dias em que ele nos deixa em paz e vai fazer alguma coisa relacionada à sua vida pessoal. Desde que me vejo como cantora profissional, Subaru está conosco. Foi ele, junto de sua gravadora, a Golden Records, que nos descobriu em nossa pequena cidade natal há três anos e desde então tem sido como um pai.

OK, um pai bem estranho, mas ninguém nunca disse que famílias são perfeitas.

Olhei para o relógio rústico na parede do outro lado do restaurante: já era quase dezoito horas e eu não tinha trocado uma única palavra com Len desde o café da manhã.

Bufei e joguei a cabeça para trás. Sabia que ele estava me evitando, mas como nunca fui do tipo que respeita sua privacidade, queria respostas e queria logo. Ele não disse hoje mesmo que daria uma chance para nós dois? E quanto a todo aquele papo sobre ser impossível negar nossos desejos?

Como não o encontrei no hotel mais cedo, conclui que estivesse ensaiando com a banda, mas que depois o veria quando fossemos dar os toques finais no álbum. Isso não aconteceu.

Volto a encarar o empresário balofo. Gostaria de perguntar-lhe sobre as tarefas de Len e saber onde esteve durante todo esse tempo, no entanto ele ainda estava com o celular na orelha.

– Ah, sim. Claro, claro! – gritou lançando-me um olhar alegre levantando o polegar em sinal de aprovação. – Eles estarão lá! – declarou e então desligou.

– O que aconteceu? — perguntei tentando parecer mais interessada no que ele teria a dizer do que na pergunta que faria sobre meu irmão.

Ele sorriu.

– Acabei de conseguir uma entrevista naquele programa novo que está bombando! — ele ajeitou o casaco. Parecia orgulhoso de si. — Já faz tempo que vocês não vão ao ar e não posso deixar que sumam da mídia!

Olhei feio para ele.

– Subaru, você sabe que não gostamos de entrevistas. – briguei — E tem mais: Voltamos de uma turnê faz menos de um mês e fizemos um show pocket há duas noites. Acredite, ainda não caímos no esquecimento.

– Eu não disse que foram esquecidos, Rin, querida. Seus fãs são fanáticos demais para isso. — ele riu — E correção: Você não gosta de entrevistas — ele me olhou com seriedade levantando uma das sobrancelhas bagunçadas.

Abri a boca para contra-argumentar, mas seu telefone tocou e ele atendeu fazendo sinal para que eu esperasse.

Calei-me e respirei fundo. Mais uma entrevista? Que saco! Por que ele nunca escuta quando eu digo que não me sinto confortável com essa situação?

Cantar na frente de milhares de pessoas? Por mim tudo bem.

Responder perguntas pessoais e invasivas? Não, senhor!

– O quê?! Jones, seu idiota! Você devia estar sempre alerta para isso! — Subaru berrou ao telefone e literalmente saltou de sua cadeira. Eu fiz o mesmo por susto e esperei uma explicação. – E onde ele está? — o tom dele indicava preocupação e raiva — Não o vê desde o almoço? E por que não me contatou antes?! Quer saber, esqueça! Avise todos os seguranças e me avise se houver novidades! — desligou.

Aquilo fez meu coração parar.

"Onde ele está?"

Ronald Jones era nosso guarda-costas e todos sabem que não nos era permitido deixar o hotel – fosse qual fosse — sem ele, mesmo com nossos 17 anos. Sua função nos três anos em que trabalhou conosco era uma apenas: ficar de olho em mim e no meu irmão.

Em outras palavras: se eu estou aqui, isso só podia significar...

– Cadê o Len?! — o empresário me encarava esperando pela resposta.

– Eu não sei! – gritei nervosa — Ele fugiu de novo?

Len tem o péssimo hábito de sumir de vez em quando, o que deixa a todos, principalmente nosso empresário, muito irritados. Como ele sempre volta em segurança poucas horas depois, acabei me acostumando. Subaru, é claro, não parecia conformado com a situação recorrente e dessa vez eu concordava com ele.

Se ninguém o vê desde o almoço, Len esteve fora por muito tempo e isso é, no mínimo, preocupante.

– Que merda! – berrou quando seu aparelho tocou novamente. Ele atendeu com rapidez — O que foi? Já mandei procurarem por ele! Eu sei! Mas se ele deixou o hotel sem ninguém perceber, com certeza teve ajuda de alguém de dentro!

Ao ouvir a acusação, levantei e saí correndo do restaurante, indo em direção ao hall de entrada.

As palavras de Subaru faziam todo o sentido. É claro que ele não fugiu sozinho. E eu sabia exatamente quem o havia ajudado: o pequeno empecilho, a única coisa que não é perfeita neste hotel...

Chegando lá, dei de cara com dois seguranças altos que me barraram.

– Onde pensa que vai, mocinha?

– Não vou sair do hotel! Só quero ir até a recepção. Deixem-me passar!

Os dois trocaram olhares e abriram passagem. Dei passos largos até meu destino e parei bruscamente no balcão, onde a atendente que mascava um chiclete despreocupadamente voltou-se para mim sem pressa.

– Rinzinha, o que aconteceu por aqui? Parece até uma convenção de seguranças – a dona da voz irritante tinha cabelos loiros compridos, presos num estranho rabo de cavalo lateral e olhos castanhos carregados de falsa ingenuidade.

– Não me chame assim, oxigenada. – cruzei os braços.

A garota sorriu de forma sarcástica e pude sentir a ira subindo à minha cabeça. Ela era filha do dono do hotel e por isso nos conhecíamos há anos. Como tínhamos a mesma idade, nos demos bem no início:

Lembro que ficávamos horas a fio conversando pelo hotel. Nós três é claro.

Mas o tempo foi passando, fomos crescendo, até que finalmente já quase não nos falávamos mais. Ela entrou para os negócios da família e eu e Len praticamente vínhamos ao hotel apenas para dormir durante algumas temporadas.

Essa separação teve suas consequências...

Quando Len começou a se culpar por nosso relacionamento fora da lei, não encontrou, além de mim, com quem conversar. Não temos amigos fora do meio musical, ou seja, quando não estamos um com o outro estamos sozinhos. E também, isso não é assunto para se discutir com qualquer um.

Sempre desconfiei de que seja por isso que foge para sabe-se lá onde: para esfriar a cabeça e, como eu disse antes, já me acostumei com isso. O problema, no entanto, veio quando descobri que, além das fugas, ele tinha o costume de sair do quarto tarde da noite para vir se encontrar com o empecilho de rabo de cavalo.

Quando questionado, Len se defendeu dizendo que ela era o mais próximo de um amigo que ele tinha, e que o segredo estaria seguro com a loira balconista.

Essa intimidade repentina me incomodou, mas mais que isso: a garota era claramente apaixonada pelo meu irmão e faria de tudo para conquistá-lo. O pior de tudo é saber que estou refém nessa situação, uma vez que ela sabe sobre a relação incestuosa. Eu jamais poderia atacá-la, mas ela, por outro lado, não media esforços para me irritar.

E é por esse motivo que tenho certeza de que quem o ajudou a escapar foi alguém que conhecia cada centímetro do prédio, alguém que tivesse acesso para desligar as câmeras de segurança por alguns minutinhos, alguém que faria tudo por ele. Sim, esse alguém é ninguém mais, ninguém menos que ela: Neru Akita!

– Não se faça de boba! Sabe muito bem o que aconteceu. – levantei o dedo indicador para pôr na frente de seu rosto — E eu quero saber por que tomou parte nessa rebeldia dele!

Primeiro ela me olhou com desdém, mas depois sorriu e apoiou-se no balcão aproximando o rosto do meu.

– Não faça escândalo, Rinzinha. — advertiu baixando o tom de voz — O Len gosta de dar uma escapada de vez em quando, mas hoje ele parecia particularmente estressado, sabe?

– Neru, — igualei meu tom ao dela, o que fez com que estivéssemos as duas sussurrando ameaçadoramente — Eles sabem que alguém de dentro do hotel foi o responsável pela fuga do meu irmão. — dei ênfase à palavra "meu" — Mais cedo ou mais tarde vão te descobrir.

Por uma fração de segundo pensei ter visto algo passando por seus olhos -seria medo? – Por fim, fingiu enxugar uma lágrima enquanto distanciava-se de mim.

– Que cruel, Rinzinha... Pensei que fôssemos amigas. – então sua expressão mudou e ela me encarou de uma forma estranha — Mas se bem que o que você diz é verdade. Segredos sempre são descobertos. Mais cedo... – ela umedeceu os lábios — Ou mais tarde.

Senti minha garganta apertar.

– Sabe que pode ir presa no fim disso tudo, não é? – perguntei.

– Ah, e nós devemos aceitar as consequências de nossos atos, não é mesmo? – ela parecia nervosa e ao mesmo tempo convencida. Como alguém que está perdendo uma batalha, mas que ainda tem uma carta escondida na manga.

E tenho de admitir... É uma carta poderosa.

Olhei ao redor. Ninguém parecia estar particularmente interessado no que acontecia no balcão de recepção. Estavam ocupados demais para notar o clima pesado que se estabelecia ali.

– O que você quer? – perguntei rezando para que minha voz saísse firme.

– Não seja idiota. Nada que venha de você me interessa. — Neru respondeu com um pouco de raiva, porém mantendo a voz passiva — Agora me dê licença. Eu tenho que trabalhar — e com isso, deu as costas para sair de trás da mesa. Com os olhos, acompanhei seus passos. Minha cabeça começou a latejar, mas me permiti baixar a guarda e entrar em desespero apenas quando sua cabeleira sumiu atrás da porta que dizia "Apenas funcionários".

Como ele podia confiar nela mais do que em mim?

Como ele podia lhe dizer para onde ia enquanto que eu ficava no quarto esperando sua volta como uma imbecil?!

–Você está se sentindo bem? – uma voz distante se dirigia a mim e foi quando notei que estava sentada no chão frio e com as mãos na cabeça. Uma multidão se formava a minha volta.

– Preciso... Do Len...

– Vamos, Rin — uma mulher vestida com o uniforme de segurança agachou para me levantar e passou os braços a minha cintura para dar apoio — Nós vamos encontrá-lo, está bem? Agora você tem que descansar um pouco.

– Não... Eu tenho que... — as lágrimas começaram a escorrer e eu comecei a chorar baixinho. – Traidor... – murmurei.

A mulher não disse mais nada e continuou me guiando até o elevador.

Quando chegamos ao quarto ela pegou uma camiseta e um short de seda que se encontravam perfeitamente dobrados em cima dos cobertores e jogou-os para mim. Não me lembro de ter me despido ou posto o pijama, mas quando me liguei, já estava deitada.

– Ele gosta muito de você, Rin. Não iria embora para sempre. – confortou — Quando acordar, ele estará aqui. Tenho certeza. – e então me cobriu antes de sair do quarto trancando a porta e me deixando no escuro.

Com os olhos ainda úmidos, olhei para a janela que foi deixada de cortinas abertas.

– Len... – disse antes de adormecer sem forças.

★★★

No meu sonho, uma borboleta vermelha voava livremente por uma pequena sala branca. Observei com mais atenção e pude ver que ele estava lá!

Bem no canto e imóvel, Len apenas encarava o vazio.

Tentei chamar seu nome, mas a voz não saia. A borboleta começou a rondá-lo e cada vez mais se assemelhava a fogo. Antes que pudesse reagir, Len estava em chamas.

Gritei com todas as forças, mas nenhum som saiu de minha boca, então corri em sua direção.

Quando cheguei a um metro das chamas, ele virou-se para mim e sorriu. Arfando, notei que o fogo que parecia engoli-lo, estava apenas acariciando-o gentilmente.

– Rin, você é mais importante que qualquer outra pessoa.

– Mentiroso! — consegui finalmente dizer entre lágrimas. – Você fugiu de mim outra vez!

Ele me lançou um olhar triste antes de desaparecer junto com as chamas.

– Len! – chamei sentando-me na cama. Fios de cabelo sem encontravam grudados na testa devido ao suor e minha respiração estava acelerada.

Olhei pela janela e percebi que ainda estava escuro lá fora. Voltei a atenção para a cama ao meu lado: Vazia.

Levantei e fui sem demora até o closet trocar de roupa.

– Se ele não vai voltar, eu mesma irei trazê-lo de volta.

Notas finais
Se estiverem gostando, não deixem de me dizer! Se estiverem gostando mais ainda, deem aquela favoritada marota que me ajuda a beça :3 Bjss