Abstinência
14 No fim do túnel há outro ainda mais escuro
Notas iniciais
Saí do banho quando ainda não eram nem nove horas. Observei o quarto pelo buraco da fechadura e prestei atenção aos sons, mas não havia nada do outro lado da porta.
— Len ainda não voltou. – suspiro ao girar a maçaneta. Sento-me em minha cama para pôr o pijama e penteio os cabelos usando apenas a ponta dos dedos (uma vantagem para quem tem cabelos mais curtos). Olho para a escuridão que está o céu esta noite e pergunto-me onde estariam as estrelas. – Talvez queiram ficar sozinhas por hoje. Talvez eu também queira. – concluo traindo a mim mesma, pois antes do banho aceitei a missão de trocar verdades com meu irmão.
Ainda passando os dedos pelos fios loiros, percebo que não. Não quero ficar sozinha. Quero respostas.
Saio do quarto fechando a porta com força e vou caminhando até os elevadores do Season Akita. Dessa vez, pus na cabeça que minha determinação para descobrir o que está acontecendo com Len não pode ser desviada nem nossa conversa adiada.
Já no saguão, vejo Len e Neru conversando próximos demais, como se sussurrassem. Minha calma vai pelos ares e acelero o passo colocando um pouco da minha raiva em cada pisada. A loira se assusta quando me vê primeiro, mas não lhe dou explicações e puxo meu irmão desavisado pelo braço.
— Rin? – ele pergunta como se não acreditasse que eu pudesse entrar dessa forma ignorante e mal educada na conversinha deles.
— Len, você vai me responder algumas coisas agora mesmo!
— Eu disse que conversaríamos quando eu voltasse. – responde um pouco desesperado – Me larga!
— Não! Agora! Não aguento mais tanta mentira entre nós!
O garoto não responde e nós ficamos nos encarando em silêncio. Ambos com o conhecido olhar raivoso Kagamine. Nenhum dos dois iria ceder, mas Neru nos fez perceber que não estávamos sozinhos:
— Bem... Acho que vou indo.
— Não, Neru. Espera aí. – ele tenta, mas eu o interrompo.
— É uma ótima ideia.
Len volta a me olhar com indignação devido a minhas reações pra lá de exageradas e eu retribuo com o mais puro desprezo. Dentro de mim, sinto que dessa vez não deixarei ele dar a volta no assunto e fico mais confiante ainda.
Algumas pessoas nos observam de longe, mas não parecem particularmente interessados na briga de irmãos. Neru se retira rapidamente e finalmente Len se deixa ser guiado até uma área mais isolada do saguão.
— OK, Rin. O que foi aquilo? – mal ele pergunta, eu caio em prantos.
Droga! Odeio ser tão volátil! Onde está a confiança de segundos atrás? Por que sinto vergonha do que acabei de fazer? Como posso sentir que estou errada nessa história toda? Será devido as minhas mentiras?
— Ei, ei, acalme-se. – ele desmonta toda a armadura emotiva para passar os braços ao meu redor e seus olhos ficam gentis – O que houve?
Tenho de afastá-lo para não ser enfeitiçada por essa sensação de falsa calmaria e acabar esquecendo-me de minha missão.
— Quando foi que começamos a esconder coisas um do outro? – pergunto ainda aos soluços.
— Me diga você. Não sei do que está falando. – ele diz sem um pingo de arrependimento nos olhos por estar mentindo. Como ousa?!
— Está insinuando que não está omitindo nada de mim? É isso? – questiono limpando as lágrimas para permitir a raiva que está voltando a aflorar. Ele assente e é nesse momento que eu explodo de vez – Então quer dizer, Len, que não há nenhum motivo para ter sumido por dois dias? Que a Neru não sabe de nada que eu também não saiba? Que sua passagem pelo hospital foi à passeio? Diga, Len! Pode olhar nos meus olhos e concordar com tudo isso?
Silêncio é tudo que recebo em resposta.
Finalmente solto seus braços e sinto o chão me faltar, mas agarro-me à parede ao nosso lado e continuo encarando-o.
— Senhorita Rin? – um dos seguranças novos (talvez George) aparece – Algo errado?
Antes que possamos responder, é a vez de Subaru surgir do nada.
— O que há com vocês dois? Os outros hóspedes estão assustados. Vão para o quarto de vocês para resolver o que quer que seja. – ordena.
— O que há com a gente? – devolvo a pergunta sem baixar o tom de voz – Há que Len é um enorme mentiroso e um traidor.
Sem se defender ou olhar para mim, meu irmão sai de lá indo em direção aos elevadores e eu nem tento impedi-lo. Estou decepcionada demais.
Quando ele já está distante o bastante, Subaru põe uma mão em meu ombro e suspira.
— Rin, querida... Tem algo que você precisa saber. — diz ao mesmo tempo em que dispensa George. – Não queria ter de ser eu a contar e confesso que o plano era não te contar até tudo estar resolvido, mas agora percebo que as coisas só vão piorar se ele não tiver a sua ajuda.
— Ele não quer minha ajuda. Ele quer ficar se esgueirando por aí. Não ligo mais e quero que ele morra! – grito voltando a chorar. Meu olhos ardem.
Subaru aperta os dedos sob meu ombro e pede para que o acompanhe até seu quarto. Percebo que não tenho para onde ir e acabo cedendo, mas imediatamente um pensamento pequenino e quase imperceptível surge: aposto que se eu fosse para a casa de Kaito, ele me receberia.
O pensamento vai ganhando força e forma. Estou quase bolando um plano de fuga quando o empresário passa seu cartão-chave na fechadura e entramos no quarto que é menos que o nosso, mas não menos confortável.
Ele faz menção para que eu me sente e eu obedeço. Não estou interessada em ouvi-lo e concentro-me nos detalhes de meu plano aparentemente impossível de driblar dez seguranças. No entanto, assim que ele começa a falar, sou sugada para a realidade de forma brusca e fico sem ar. Sem nenhum uso de eufemismo ou preocupação com meu estado emocional, Subaru começa a conversa com uma frase chocante. Kaito volta para o subconsciente e não tenho mais o controle de minha mandíbula, que está caída em reação ao que acabo de ouvir.
Ele não diz mais nada pelo que pareceu um longo período de tempo. Talvez para dar-me a oportunidade de assimilar a nova informação, e é o que estou fazendo sem parar.
As suas palavras ficam rodando a minha volta e sou obrigada a repetir mentalmente mil vezes o que disse para que faça sentido:
"Len está fazendo uso de drogas pesadas há meses."
"Len está fazendo uso de drogas pesadas há meses."
"Len está fazendo uso de drogas pesadas há meses."
"Len está fazendo uso de drogas pesadas há meses."
— O quê?! – grito sem saber ao certo se algum som de fato saiu da minha garganta.
— Não faça alarde. Estou cuidando de tudo. – ele balança os braços à frente do corpo – Na verdade ainda não estou. – suspira – É o seguinte: eu também estou tão chocado quanto você porque só descobri quando o doutor Gomez fez seu diagnóstico. Len está com uma elevação da frequência cardíaca e respiratória, da pressão arterial e da temperatura corporal além de vasoconstrição periférica*.
— I-isso não quer dizer nada... – tentei, mas Subaru fechou os olhos e continuou com a voz firme:
— Enquanto esteve sob cuidados do médico, Len apresentou espasmos musculares. Com todas essas dicas e com a inspeção geral, a famosa perfuração do septo nasal foi identificada.
Agora seus olhos cansados e pequenos transmitem tristeza. Não, mais que isso: pena. Desvio deles.
— Subaru, o que isso quer dizer? – pergunto surpreendendo-me com minha própria força de vontade. A verdade é que não conheço todos os termos médicos citados, mas tenho certeza de que não são sinal de boa saúde. – Digo, ele está usando drogas medicinais? Len... Está doente e por isso precisa de remédios tarja preta? Essas drogas são remédios de tarja preta, Subaru?
Sinto-me uma criança desolada enquanto continuo prolongando as perguntas. O empresário nada diz e o olhar penoso apenas se intensifica. Não sou capaz de parar de falar, pois sei o que está implícito: não são remédios, são entorpecentes. No entanto, a capacidade humana de entregar-se à uma mentira é forte e nesse momento, tudo que mais quero é acreditar que não, meu irmão não é um drogado.
Por fim, sou derrotada pela realidade quando Subaru acaricia meus cabelos e verbaliza o que nós dois já sabemos:
— Cocaína, Rin. A sina de muitos artistas ao longo dos anos. – não reajo. Fico cabisbaixa sem nem mesmo chorar. Tudo é torpor, não sinto nada. – Já conversamos a sós e ele me prometeu que está tentando parar sozinho. Obviamente eu aumentei a escolta de guarda-costas por um motivo que foi não deixar vocês sumirem de vista. Agora que sabemos do problema, ter o Len sob vigia é extremamente vital. Consegue compreender isso, não é?
Assinto.
— Pois bem. – ele continua ainda de pé e a uma certa distância de mim – Ele pode estar querendo se desintoxicar sozinho e isso é ótimo, mas em todos os meus anos no ramo da música, sei como o uso de cocaína é o início do fim de qualquer carreira, então não posso deixá-lo vacilar.
— Aonde quer chegar?
O homem coça a nuca e abaixa-se para ficar com a cabeça no mesmo nível da minha.
— Eu vou cancelar todos os eventos da Yollow-K até o fim do ano. Quero internar o Len o mais rápido possível e eu tenho esse poder, já que vocês dois são emancipados. No entanto, gostaria da sua ajuda para convencê-lo da ideia.
— Quer que eu ajude a prendê-lo numa reabilitação. – concluo indignada. Como ele tem coragem de me pedir uma coisa dessas?!
— Não é meu plano forçá-lo a nada. – ele se defende. – Mas pense em tudo o que te disse sobre a carreira de vocês estarem em jogo, fora a saúde do Len. Sei que você jamais deixaria passar a oportunidade de vê-lo melhor.
Sinto o tom de chantagem emocional e sinto raiva.
— É obvio que não. – respondo entre dentes.
— Foi bom termos essa conversa, querida. – ele toca meus ombros mais uma vez e então caminha em direção a sua porta para abri-la. Percebo que é minha deixa para sair, então é o que faço.
A porta se fecha atrás de mim e fico sozinha no corredor silencioso. Sem um destino em mente, vou descendo de andar em andar usando as escadas. Estou um caos e mal sei o que sentir ou pensar.
Antes que eu perceba, desci sete andares e só a falta de ar me convence a pegar um elevador. Aperto o botão que me levará de volta para cima, para o penúltimo andar, e depois de alguns segundos já estou há poucos metros do meu quarto.
Passo o cartão-chave na fechadura, mas demoro a girar a maçaneta.
"Não vou dar detalhes sobre esse período porque prefiro esquecer que sequer aconteceu."
A voz de Kaito falando sobre seu tempo na clínica de reabilitação para drogas surgiu e ficou ecoando em minha mente. Ele não disse o que sofreu por lá, mas ficou explicito o quanto foi traumatizante. Não posso simplesmente jogar meu irmão para o mesmo destino, independentemente de ele de fato precisar de ajuda, o que não era o caso de Kaito na época.
Suspiro fortemente antes de entrar. Ainda não sei o que dizer quando o vir, mas talvez começar com um "oi" não seja má escolha.
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