Abstinência
13 Almas não podem ser limpas com água
Notas iniciais
Passamos a tarde inteira no hospital. Por diversas vezes, os seguranças e policiais municipais tiveram de conter a multidão de pessoas que se aglomeravam nos arredores do prédio.
Fãs confusos, jornalistas inconvenientes e pessoas curiosas super-desocupados tumultuavam as entradas e atrapalhavam completamente o funcionamento da ala de emergência. Todo o tumulto de dentro da sala de espera e do lado de fora estavam me deixando com os nervos a flor da pele. Isso para não falar do estresse de ter seu irmão inconsciente em uma maca.
Apoio os cotovelos nas cochas ignorando a existência dos machucados, e então faço de minhas mãos um suporte para a cabeça.
– Meu Deus, quando ele vai sair de lá? – Yuhi pergunta para as paredes e eu observo a preocupação em seu rosto. Não somos amigos, pois sei bem que ambos Blanca e ele são bem mais velhos (25 anos, talvez?) e nos vêem apenas como parceiros de estúdio para o qual trabalham. Nossa relação com os dois é apenas profissional, mas fico feliz de saber que, quando algo assim acontece, estão do nosso lado.
– Eu só queria saber o que aconteceu... – Blanca murmura ao meu lado.
– Eu já disse que não sei. – respondo de forma rude, mas não era a intenção. Tento suavizar – Estávamos conversando e então... – minha voz foi sumindo como em todas as vezes que contei e recontei a história para os enfermeiros, para os seguranças, para Subaru e para quem mais perguntasse. Tudo parecia um enorme borrão — Não sei o que aconteceu...
Ela assente sem dizer nada e suspira ao levantar-se. Observo enquanto caminha até a máquina de refrigerante e ouço minha barriga resmungar.
Não como desde o café da manhã, mas não estou preocupada com isso. Apesar de o meu corpo reagir à falta de energia, minha mente quer focar em uma coisa: Len. Não consigo para de remoer aqueles segundos antes de ele desmaiar. Desmembro cada quadro daquela cena, examino cada fala, cada reação.
Meu irmão parecia nervoso um pouco antes de perder os sentidos. E se foi um ataque cardíaco? Pessoas tremem daquele jeito quando estão tendo ataques cardíacos?
– Senhor Subaru. – uma voz grave e desconhecida invade o ambiente. Todos voltamos nossas atenções para o homem que trajava um jaleco e tinha uma prancheta em mãos. Deduzi que fosse o médico de Len, então levantei imediatamente.
Nosso empresário fez sinal para que eu esperasse, mantendo-me atrás de seu braço, e foi em direção ao doutor — tive de respirar fundo para não arrancar aquele braço gordo com os dentes – e os dois entraram na sala de emergência. Esperei o máximo que pude até que voltassem, mas isso não aconteceu.
– Por que ele vai vê-lo primeiro? – questiono indignada ao sentar-me novamente.
– O doutor deve querer discutir algo com Subaru primeiro. – a morena de olhos esverdeados volta para a posição inicial ao meu lado e me oferece sua lata de refrigerante. Nego ainda olhando apreensiva para a porta fechada.
– Sobre o que acha que é? Será que ele está com alguma doença grave?
– Não pense nessas coisas, Rin. – Yuhi adverte. – Tenho certeza que logo teremos boas notícias.
Não contra-argumentei. Queria acreditar nisso.
Poucos minutos depois, os dois voltaram. Dessa vez, com uma cadeira de rodas ocupada por ninguém menos que Len. Acordado, sem tubos, sem roupas de hospital. Estava perfeito!
– Len! – grito ao correr em sua direção. Uma enfermeira olha feio para mim, mas não podia ligar menos para ela naquele momento. Agarro o loiro que ficou de pé para me receber e percebo que estou chorando quando ele me afasta depois de um tempo. – Len, o que aconteceu com você? Como está se sentindo?
– Eu estou bem, Rin. Não chore. – seu sorriso cansado é o bastante para aquecer meu coração. Sinto seus dedos percorrerem meu rosto atrás das lágrimas para secá-las.
– Vamos para casa. – o tom frio de Subaru faz minha espinha arrepiar.
– É claro. Vamos. – meu irmão concorda sem olhar na direção do empresário. Este segue até a saída que liga o prédio ao estacionamento com toda a trupe de guarda-costas a nossa volta. Somos surpreendidos por flashes de câmeras profissionais e de celulares assim que entramos em contato com o ar puro do lado de fora.
Todos os seguranças se aproximam de nós dois na intenção de tornar-nos invisíveis atrás da barreira de ternos. Olho para baixo enquanto caminhamos a passos largos, mas sei que Len está com os braços a minha volta e isso faz parecer que o momento foi menos tenso do que de fato foi.
★★★
Subaru chegou ao hotel gritando conosco para que retomássemos as tarefas do dia e depois foi se trancar no próprio quarto. Achei muita insensibilidade de sua parte visto que Len acabara de sair do hospital, mas procurei encarar aquilo como um sinal de que tudo estava realmente bem com meu irmão.
Ainda na recepção, Neru aparece.
– Ah, me poupe... – murmuro.
– Len... – chama com a voz chorosa e falha.
– Agora não posso, Neru. – ele a corta e sinto meu coração soltando fogos de artifício. Se toca, oxigenada!
– Não, Len. – ela funga e limpa as bochechas para assumir uma postura mais séria – Precisamos conversar.
– Eu disse que agora não posso. – repetiu puxando-me pelo pulso até os elevadores.
A mulher de olhos castanhos fica plantada onde a abandonamos com uma face que traduz pura dor. Uma pontada no estômago me deixa desconfortável.
– Parecia ser importante... – me ouço verbalizar.
– Ela é louca. Nunca dê ouvidos a nada do que ela te disser.
Não respondo àquela acusação inesperada. Em vez disso, dou uma última checada em Neru, que também fitava meus olhos, e me assusto com as palavras não ditas naquela breve conexão que temos antes de as portas do elevador se fecharem. Não há erro. Tenho certeza de que clamava por ajuda.
Engulo em seco e volto a fitar Len que está distraído com os botões.
O que diabos acabou de acontecer aqui?
★★★
O dia termina comigo e os demais integrantes da Golden Records exaustos. Possivelmente devido à quantidade de trabalho feita em tão pouco tempo somado ao tempo que alguns de nós passamos sentados na sala de espera da emergência.
Meu irmão fez poucas tarefas junto de mim, pois ele participa de muitas reuniões durante a semana. Eu, por outro lado, passei boa parte do tempo assistindo às antigas entrevistas nossas e ouvindo do profissional de marketing e sua equipe dicas e broncas que supostamente melhorariam meu desempenho com o público e com a mídia.
Tive de contar para Subaru sobre meu celular destruído e, pouco antes da hora do jantar, já estava com um novo iphone em mãos. Estava mexendo nele e pensando em Neru enquanto esperava o banheiro da suíte ser liberado.
– Dia pesado, não? – Len me acorda de meus devaneios. Está com os cabelos molhados, pois acabou de sair do banho. Infelizmente, não está apenas de toalha. Uma calça e um casaco de moletom cobrem seu corpo.
– Acho que "pesado" é pouco para descrevê-lo.
– Vai tomar banho agora? – pergunta.
– Poderíamos ter tomado juntos, como sugeri antes. – flerto apesar do cansaço.
Ele me lança um sorriso breve que não chega aos seus olhos.
– Tenho algumas coisas pra resolver, então não se assuste caso eu não tenha voltado ainda quando for se deitar.
– Para onde vai? Queria conversar com você já que não tivemos muito tempo juntos...
– Eu volto logo. Não se preocupe.
– Me diga o que vai fazer pelo menos. – quase suplico – Vai falar com a Neru? O que ela queria mais cedo? Por que ela estava aqui quando eu voltei naquele dia?
– Está ouvindo a si mesma? – ri – Não acredito que está com ciúmes...
– Está ouvindo a si mesmo? – rebato – Não acredito que não respondeu a nenhuma de minhas perguntas desde o dia em que sumiu!
Agora ele entendeu o quão brava estou e engole em seco.
– Vamos conversar. – promete — Mas depois.
– Depois quando?
– Quando eu voltar. – conclui saindo do quarto sem me dar a chance de mais nada. No piloto automático, vou até o banheiro e começo a despir minhas roupas.
Eu devia segui-lo. Sinto-me ridícula por sequer pensar nisso, mas não me restam alternativas já que não vou obter resposta alguma daquele cabeça dura.
Cabeça duro mentiroso. Minha mente completa antes que eu perceba.
– Len... – sussurro – Você está mesmo mentindo para mim?
Olho meu reflexo no espelho e então uma risada horrível sai do fundo de meu peito assim que percebo a verdade:
– Hipócrita... – digo para o reflexo que anda sorri – Como se você não estivesse mentindo deslavadamente para ele também.
Sem mais demora, abro a torneira da banheira e a deixo enchendo enquanto uso o chuveiro. Algo me diz q ele vai demorar a voltar e quero aproveitar ao máximo esses últimos momentos de ignorância antes de contar-lhe a verdade sobre a música e sobre onde passei a noite em que desapareci.
Quando entro na água morna da banheira, ouço minha alma agradecer pelo fim de uma saga de incertezas e omissões. Assim que eu revelasse a verdade, ele teria de falar também. Eu o forçaria para tal, mesmo tendo certeza de que não estava pronta para o que estivesse por vir.
As coisas estavam prestes a ficar muito, muito feias...
...e eu não podia ansiar mais por isso.
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