Notas iniciais
Particularmente, eu fiquei nervosa durante todo o tempo em que eu digitava esse capítulo, mesmo já sabendo o final.

Nós caminhamos de volta para a escola, tentando evitar qualquer professores, monitores, ou até mesmo algum aluno do primeiro ano.

Frank estava perto de mim, olhando vez ou outra para trás para ver se alguém estava nos seguindo. Suas mãos estavam suando como se ele estivesse ansioso por algo.

- Já matou aula antes? – Perguntei, olhando para ele de lado.

- Já... Poucas vezes, na escola que eu estudava. Mas eu prometi para meu pai que eu não faria de novo – Ele respondeu enquanto olhava pela última vez por cima do ombro antes de corrermos para o andar de baixo.

- Hm, bem, eu odeio constar o óbvio, mas você está matando aula agora... – Eu disse.

- Eu sei. Mas se eu ficar eu vou ter que me acostumar a ser o Saco-de-Pancadas-Humano pelo resto do dia.

Eu não sabia o que responder. Acho que eu ainda estava me acostumando a não ser estúpido com ele. Era como se fosse outra pessoa quando eu estava com ele, talvez eu fosse mais “eu mesmo”, quem sabe.

- Você está bem? – Frank perguntou olhando para mim estranhamente, me fazendo perceber que eu estive em transe – Você não tem falado nada a cinco minutos.

- To, eu só estava pensando sobre… Coisas – Respondi, rolando os olhos pela estupidez das minhas palavras.

- Tá bem, nós estamos quase lá – Ele disse apontando para uma pequena casa na esquina.


Quando chegamos na porta da frente, ele colocou as mãos nos bolsos procurando as chaves, girou a maçaneta e a porta se abriu. Eu o segui e olhei em volta de onde estávamos, reparando nas fotos emolduradas na parede.

- Hm, espera aqui, eu já volto – Ele disse me lançando um olhar meio preocupado que me confundiu.

- Tá bem – Eu disse e o observei desaparecer pela cozinha.


Eu aproveitei a oportunidade para estudar as fotos na parede com mais calma. Uma em particular chamou minha atenção, era Frank e uma mulher, presume que fosse a mãe dele. Ele devia ter apenas cinco anos ou algo assim, eles estavam brincando com tijolos de madeira e Frank tinha um sorriso enorme no rosto. Eu me peguei sorrindo e fui para a próxima moldura. Frank parecia mais velho nessa, talvez doze ou alguma coisa assim. O sorriso foi substituído por uma expressão vazia. Tinha um homem na foto, junto com Frank e sua mãe. Mas não era uma imagem muito alegre, alguma coisa nela me deu náuseas.

Frank voltou me parecendo estressado, mas, de qualquer forma, me pediu para o seguir até o andar de cima. Eu quase desejei que eu não tivesse olhado para as fotos. Agora, mais que nunca, eu me senti envolvido na vida dele.

- Desculpa pela bacunça – Frank disse, afastando algumas pilhas de caixas e pegando algumas, normalmente com roupas e CDs, as deixando na mesa.

- Não é pior que o meu – Eu disse, admirando os posters que ele tinha nas paredes – A quanto tempo você está aqui?

- Hm, um mês, acho. Eu continuo pedindo para pintarem o quarto, mas eles... Eu não estou “permitido”.

- Porquê?

- Meu padrasto acha que é uma perda de dinheiro ou coisa assim.

- Seus pais são divorciados também? – Perguntei, surpreso que havia algo mais que tínhamos em comum.

- Meu pai morreu – Ele disse em voz baixa, pegando uma meia no chão e jogando-a na pilha com o resto das roupas.

- Oh, meus pêsames, eu não, eu... Mikey nunca disse.

- É porque Mikey não sabe. Olha, tá tudo bem, já faz tempo. Eu só tinha sete anos.

Frank sentou na borda da cama e olhou para a batente, onde eu estava nervosamente apoiado.


- Você não tem que ficar – Ele disse – Eu sei que você não gosta de mim...


- Eu nunca disse que não gostava de você, porquê não acredita em mim?

Ele deu os ombros e olhou para o carpete azul.

- Acho que eu só não costume confiar nas pessoas facilmente.

- Olha, eu sei que eu não estava sendo exatamente gentil quando eu te conheci, mas eu quero te conhecer.

Ele me olhou e franziu o cenho.

- Porquê?


Eu não esperava que ele me perguntasse isso então eu simplesmente pisquei e disse:

- Como assim “porquê”? Eu só quero ser seu amigo, é difícil de aceitar?

Ele mordeu o lábio e me examinou, provavelmente procurando sinais de mentira ou sarcasmo. Sua expressão ficou mais leve e ele balançou a cabeça.

- Desculpa. É que eu não estou acostumado com isso. Na minha escola antiga... Ninguém nunca tentava vir falar comigo, me deixavam sozinho, ninguém queria ser meu amigo.

- Bom, eu quero – Eu disse firme e me sentei do lado dele, deixando ele saber que eu não iria desistir. Ele sorriu e olhou pela janela do quarto dele, para a rua.

Eu vi sua expressão mudar, seus olhos ficaram enormes por alguma coisa que estava acontecendo lá fora e eu quase me levantei para ver o que era tão interessante. Mas eu não tive a chance. Frank se levantou rapidamente e correu para a janela, segurando a borda do parapeito com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

- Merda – Ele sussurrou. Ele correu para a porta jogando sua bolsa nos ombros – Temos que ir – Ele disse apressadamente abrindo a porta me esperando sair.

- O quê? Porquê? – Eu perguntei assustado.

O corpo de Frank congelou quando ele ouviu a porta do carro fechar lá fora. Ele correu até mim, pegou minha mão e me puxou.

- Vamos! – Ele disse, me arrastando até a porta.

- Frank, o que tá acontecendo?

Nós chegamos às escadas, mas Frank parou rudemente, me fazendo trombar nele. A porta da frente se abriu e ele me puxou de volta até que estivéssemos em seu quarto de novo. Eu desisti de perguntar qual era o problema e, em vez disso, o observei fechar a porta tão silenciosamente que nem mesmo pude ouvir o estalo da fechadura. Ele se apoiou contra ela e ofegou em busca de ar.

Eu pude ouvir vozes do andar de baixo, mas nada que eu pudesse entender. Frank estava escutando tudo com o ouvido colado na porta. Não muito depois, passos estavam vindo pela escada e Frank disparou pelo quarto e me empurrou, me fazendo cair sentado em sua cama.

Ele pegou um livro qualquer em sua bolsa e me entregou.

- Finja que está lendo – Ele disse desesperado e sentou do meu lado com um outro livro.


- Eu não entendi, o quê…

A porta do quarto se abriu e eu olhei para cima assustado. Um homem estava parado na porta, o padrasto de Frank, imaginei, ele também pareceu bem surpreso em me ver.

- Eu não sabia que você tinha companhia, Frankie – O homem sorriu vindo até mim e estendendo a mão. Eu a apertei nervosamente e sorri em resposta.

- Eu sou o pai do Frankie – Ele disse, soltando minha mão – E você é…?

- Gerard – Eu disse lançando um olhar para Frank que estava olhando para o livro em seu colo.


- Como foi a escola, Frankie? – Seu pai perguntou virando-se para Frank e bagunçando seu cabelo – Vejo que tem feito amigos.

- Que bom – Frank murmurou sem levantar os olhos.


- De qualquer forma, eu vou deixar vocês continuarem seus estudos – Seu pai disse finalmente e saiu do quarto fechando a porta silenciosamente atrás dele.

Eu não havia percebido até então, mas Frank estava visivelmente tremendo. Ele jogou o livro no chão e enterrou a cabeça em suas mãos.