Abril, 1912 - Brittana
7 Libertação
POV Santana
Antes de deixar o salão de jantar, Brittany havia me deixado um papel misterioso nas mãos. Enquanto ela partia, quis descobrir do que se tratava. Desdobrei o bilhete discretamente, a fim de não despertar curiosidade das pessoas ao redor.
“Faça o dia valer a pena, encontre-me em frente ao relógio.”
O que ela queria? Despedi-me das outras mulheres à mesa e saí. Indo de encontro quase imediato a Pierce.
— Você veio. — Ela pareceu surpresa.
Eu sorri, simpaticamente.
— Claro que sim.
— E então, quer ver o que é uma festa de verdade? — Ela me perguntou, debochada. — Garanto que não irá se arrepender.
Assenti, perdendo-me no tom azul-acinzentado de seus olhos. A oferta era inegável. Ou parecia ser.
— Ótimo! — Ela apossou-se de minha mão. — Vamos.
Eu não deveria aceitar sair dali com ela assim, o problema é que eu queria muito.
— Onde estamos indo?
— Terceira classe.
(...)
Para minha surpresa, Quinn estava com Samuel no espaço festeiro da terceira classe há muito tempo, se divertindo, por isso não comparecera à mesa de jantar. Aquela música agitada que tocavam tinha um toque irlandês, eu diria. Brittany localizava-se dançando com uma menininha, perante a mesa em que eu estava acomodada.
Um homem estava falando comigo, mas em outra língua.
Não entendia.
E ele insistia.
— Eu não consigo te entender. — Confessei. — Desculpa...
Sorri, olhando ao redor quando ele saiu e alcancei meu copo, para dar outro gole naquela bebida ácida. À medida que assistia Brittany aos pulos, Quinn surgiu de algum canto e se pôs na cadeira à minha frente. Por uns segundos, ficou quieta.
— Que foi? — Eu ri. — Está muda?
— Não, é só que... O Sam é tão legal, Sant!
Era bom ver Quinn feliz outra vez, com uma animação genuína nos olhos.
— Sam, é? — Esbocei um sorriso indiscreto, pondo as mãos sobre a mesa. — Quanta intimidade, Lucy. E aquela história sobre sonhos inapropriados, hein? Não vale para você?
— O que?! Não Santana, você não entende...
— Entender o que?
— Olha... Eu... Eu...
— Você?
Ela desviou o olhar, emburrada.
— Apenas... Não comente com ninguém que eu estava por aqui, sim? Nem sobre Samuel... Ou nada.
— Eu nunca faria isso Quinnie, você sabe muito bem. Agora mesmo estamos em nossos quartos dormindo. Esqueceu?
— É... Eu sei que não faria... Mesmo assim, obrigada. — Ela levantou e correu para me dar um beijo na bochecha. — Tchau!
— Já? — Ri, vendo-a sair. — Tchau...
A melodia acabou e eu olhei para Brittany, e ela para mim, enquanto falava com a garotinha que dançava até então.
— Vou dançar com aquela moça agora, tudo bem?
A garota concordou e loira me chamou, articulando com uma mão.
— Vem! — Neguei e Brittany se aproximou, tocando seus dedos nos meus. — Vamos lá, por favor...
— Não, estou bem aqui. Assistindo. — Mas, ela insistiu e eu levantei-me, sendo guiada em direção à multidão. — Pierce... Pierce... Espere!
Nós paramos uma de frente para a outra.
— O que houve? — Ela quis saber.
— Eu não sei dançar isso.
Ela sorriu e deu um passo a frente.
— Bom... É fácil... Primeiro, nós temos que ficar um pouco mais perto que isso. — Uma de suas mãos puxou minha cintura e colou em seu físico, a outra segurou a minha. — Assim, vê?
— Certo...
Ela começou a pular e eu fui junto, um tanto confusa.
— Brittany... — Sussurrei nervosa, tentando compreender a “facilidade”. — Eu ainda não sei os passos.
— Nem eu, apenas se deixe levar.
— Se deixar levar?
— É! Não há regras Santana, não pense tanto. Apenas faça valer a pena.
— Ok... Tudo bem.
Brittany me levou mais um pouco pelo salão, aos pulos. Fechei os olhos e comecei a rir. Aquela sensação invadindo meu corpo era completamente estranha.
— Espere, Pierce! Espere! Rápido demais...
Estava temendo que caíssemos no chão daquela maneira, ela parecia não se importar. Isso era fazer o dia valer a pena. Repentinamente, Brittany olhou para as pessoas que, dançavam sobre um mini-palco e me levou para lá.
— Chegou sua hora de brilhar. — Riu, animada. — Pronta?
— Não seja ridícula...
— Tarde demais. Você disse que fez aulas de dança, sim? — Brittany lembrou-me. — Mostre-me o que sabe.
— Já faz muito tempo...
— E?
— A resposta é não.
— Oh, entendo... — Ela colocou as mãos no bolso, e suspirou olhando para o chão. — Estava meramente enfeitando seu histórico.
— Retire o que disse.
— Não... — Brittany sorriu e retornou a fitar-me. — A menos que me exponha o contrário.
Ri com sua provocação, e cedi.
— Como quiser. — Eu alcancei meus sapatos e os tirei, arremessando-os palco afora. — Vai pagar a língua, Pierce.
— Conto com isso.
Dei alguns rodopios, pulos, passos, sendo aplaudida por ela e outros, e tentei ficar nas pontas do pé, por fim.
— Ai! — Emiti, ao conseguir, perdendo um pouco do equilíbrio.
Brittany, aflita, segurou-me nos braços freneticamente.
— Tudo bem com você?
— Tudo... É só que... Eu não fazia isso há anos! — Respondi dando risadas, e em seguida, me afastei. — Isso foi doido! Nossa, eu nem acredito. Achei que tivesse esquecido.
— Foi incrível...
— Que bom que gostou... Vem, vamos continuar!
— Você quem manda!
Juntamos as mãos e giramos para um único sentido, enquanto o resto do pessoal dançava no ritmo. Absolutamente nada mais tinha foco, a não ser Brittany, foi quando fitei seus olhos azuis profundamente. Existia loucura em seus pensamentos, eu via.
— Pierce, não!
— Sim!
— Não!
Ela começou a nos girar mais rápido, com um enorme sorriso nos lábios. Fechei os olhos e gargalhei. Não aconteceria nada de ruim. Entreguei-me em suas mãos, para o que quer que fosse.
POV Brittany
Quando paramos de dançar, Santana e eu fomos atrás de mais bebida. No meio do caminho, existia uma mesa cheia de sujeitos que disputavam queda de braço. Após assistirmos um pouco, roubamos alguns copos dali mesmo e arrumamos um lugar mais afastado para sentarmos.
— Qual o sentido deles fazerem isso? — A morena comentou, em tom de desdém. — Cultuar força física?
— Não faço ideia.
— É tão... — Ela deu de ombros. — Sei lá.
— Besta? — Sugeri.
— Isso.
Nós rimos. E, sem seguida, Santana praticamente virou um copo todo em um único gole. Eu levantei e pus minha cadeira do seu lado.
— Ei... Vai com calma. — Pedi.
Ela assentiu e respirou fundo, pouco depois.
— Sobre aquilo que me perguntou mais cedo, Brittany... — Seus olhos castanhos acharam os meus. — A resposta é não.
— Ah, sim... Sobre o que mesmo?
Temia deduzir algo, era o que ela menos queria. Dessa maneira não o faria, preferia que ela me dissesse, embora pelo olhar, não havia dúvidas que se tratava de seu noivo. Santana riu.
— Sabia que esqueceria.
— A questão é que eu perguntei muitas coisas a você, então...
— Se eu amo o Sebastian. Não, eu não amo. E nem nunca vou amar.
— Certo... E por que o casamento?
— É complicado.
— O que não é complicado neste mundo?
Ficamos em silêncio.
— Venham dançar!
Sam passou do meu lado e me puxou para a corrente de pessoas que ele e Quinn criavam aos pulos, e Santana se juntou a mim. Giramos e giramos mais um pouco pelo salão na roda que se criava, como se não houvesse o amanhã. Em um círculo sem fim.
Pelo menos, enquanto durasse.
(...)
— Foi muito divertido Pierce, foi mesmo! — Santana disse feliz, à medida que caminhávamos pelo convés principal abaixo da lua crescente, no céu estrelado. — Realmente, uma festa de verdade, você bem disse...
— Que bom que gostou Santana, nós podemos repetir isso a qualquer hora, se quiser.
— Com certeza eu quero!
Sorri e ela me deu a mão, pulando sobre um banco, prontamente. Andamos caladas por mais alguns metros, até ela descer para o chão de novo. Eu não queria que nos separássemos, não queria o fim da noite.
Precisava arrumar uma forma de prolongar nosso tempo, mais do que já estávamos fazendo.
A atmosfera estava em meu favor.
— Você já viu as estrelas daqui? — Indaguei.
— Perdão?
— Do banco...
Ela olhou para o lado.
— Não.
Eu sorri.
— Ótimo, deite-se nele.
A morena cerrou os olhos e riu, aceitando.
— Ok... — Ela fez o que solicitei, e eu, me sentei no chão ao lado, querendo presenciar suas expressões. — Sabe, o universo é tão vasto Brittany... Há tanta beleza, e ao mesmo tempo, tanta miséria... Às vezes me pergunto o que somos nós perante as estrelas e a todo o resto, ao nosso redor.
— Queria eu poder responder... — Sorri apreciando sua imagem, e esfreguei uma mão a outra para aquecer meus dedos gélidos. — Você gostou da vista?
— Não, não gostei... Eu amei.
Meu coração se amornou com sua resposta e eu olhei para o céu também.
— De vez em quando, me pego ansiando por chegar perto delas. — Admiti.
— No futuro você chegará...
De certa forma, Santana estava certa.
— Bom, só espero que demore muito até lá, preciso conhecer a América toda antes disso.
— Que assim seja...
Santana olhou para mim e passou a cantarolar uma das músicas tocadas na festa, e eu somente a acompanhei. Alegre, ela se colocou de pé e pegou em minha mão. Durante esse tempo, dançamos alguns passos simplórios pelo espaço, como há alguns minutos no salão, porém bem mais devagar.
— Viu só? Você dança muito bem... E não é só porque já fez aula de dança... Isso faz parte de você.
— Só hoje, Brittany. — A Lopez afirmou. — Nunca fui uma boa dançarina.
— Bobagem Santana, aposto que você sempre foi... — Nós paramos um momento, mas sua mão ainda estava envolvida a minha. — A diferença é que encontrou um par um pouco melhor hoje.
— Concordo... Nós temos certa harmonia.
Eu sorri e olhei para a mão dela entrelaçada a minha.
— Honestamente, você tem as mãos mais bonitas e macias que já vi.
— É mesmo? Está sendo sincero, Sr. Pierce? E quanto à meretriz do bordel? Já se esqueceu dela? Uau.
Rimos.
— Digamos que, você a superou...
— Tudo bem. Fico lisonjeada então, afinal estou diante de um nobre olhar de artista. Não é?
— Não, não é para tanto...
— Só estou dizendo a verdade. É o que vejo. Isso não vale?
— Vale. Claro que vale... Você venceu. — Retornei o contato aos olhos castanhos e nós duas ficamos em silêncio, meu coração não parava de palpitar, talvez ficar prolongando ainda mais o dia fosse pior e causasse problemas a ela. — Está tarde.
— É, está... — Ela deus dois passos e me abraçou. — Boa noite, Brittany.
Envolvi-a, sem demora.
— Boa noite. — Eu mal me lembrava do frio em contato com seu corpo, apesar de que nem eu, muito menos ela, tinha as roupas aquecidas com o vento gelado nos atingindo. O clima se tornara excepcional. Sua respiração pesada e as batidas de seu coração contra mim me tiravam de órbita, e era por isso que aquilo precisava parar. — Santana, eu acho melhor nós...
Inesperadamente, enquanto me distanciava, ela encostou seus lábios aos meus, quebrando minha fala. Cambaleando minhas pernas. Meus olhos fecharam-se sozinhos, e eu levantei minhas mãos e alcancei seu rosto como um reflexo. Tomei coragem quase que imediata para aprofundar o beijo, e virei à cabeça com calma, achando sua língua.
Como chegamos até ali?
Só a gravidade poderia explicar.
Tirei minhas mãos de Santana e afastei-me, em certo momento, temendo abrir os olhos. Poderia ser um sonho, ou um pesadelo. De volta à realidade, as palavras não chegavam de ambos os lados, porém uma coisa era certa, a morena já não conseguia mais manter contato visual, e seus punhos se apertavam.
— Desculpe...
— Não, eu...
Santana parou de falar.
— Está tudo bem?
Tentei aproximar-me e ela recuou.
— Vamos só esquecer isso, ok? — Pediu, trêmula. — A culpa foi toda minha... Sou comprometida e eu... Eu... Não posso mais te ver.
Ela deu-me as costas, apressada.
— Santana...
— Eu bebi demais e fiz uma enorme bobagem.
— Não diga isso...
— Pare de falar, Brittany. — Santana pronunciou, de relance. — Ainda sou muito grata por tudo que fez por mim, mas não podemos mais ter contato algum, então, adeus...
Peguei em sua mão.
— Espere... Por favor, não faça isso.
— Não me toque!
Ela puxou a mão para longe e me deu uma última olhadela, eu só enxergava raiva, vergonha, e medo ali. O silêncio de seus lábios assassinou-me. Assim, Santana se foi, me deixando sozinha. Estagnada sobre o assoalho de madeira. Junto à noite fria, como jamais nunca fora antes... Dentro do meu peito. Incerta, voltei para meu quarto. Tentando sentir o chão, abaixo de meus pés rastejantes.
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