Abril, 1912 - Brittana
6 Divisão
POV Santana
Todas, com exceção de minha mãe, foram bondosas e ficaram curiosas sobre o “homem” que salvou minha vida. Maribel olhava para Brittany como um inseto. Um inseto perigoso que deveria ser esmagado o quanto antes.
— Bom, Brittan... — Quinn começou. — Você parece o homem ideal para se ter por perto em uma situação difícil.
— Não é? — A senhora Holliday concordou com ela, sorrindo.
O trompete, que tocavam para sinalizar o jantar, soou algumas vezes, o que ocasionou a interrupção do diálogo.
— Ai, ai... Por que eles sempre insistem em anunciar o jantar como se fosse um ataque da cavalaria? — Mercedes satirizou, aos risos. — É cada uma.
Eu ri com as outras e olhei para Maribel.
— Mamãe, vamos nos vestir? — Ela concordou e eu fitei a Pierce, por um segundo, antes de continuar: — O vejo no jantar, Brittan.
Ela acenou para mim.
— Até...
Maribel se inclinou para cochichar algo a mim.
— Posso saber o que você e aquele rapaz estavam fazendo?
— O que estávamos fazendo? — Repeti a pergunta, como quem não tivesse saído da linha.
— Sim.
— Só... Olhando o oceano. — Menti e dei um sorriso superficial. — Vimos golfinhos lá, deveria tentar ver uma hora também.
Com desprezo, mamãe voltou a olhar para frente.
POV Brittany
Santana, sua mãe e duas loiras começaram a se afastar, sobrando só uma das mulheres na minha presença.
— Ei, garoto! — Percebi que a moça estava me chamando e parei de olhar para Santana, já longe. — Você tem alguma ideia do que está fazendo?
— Não muita...
— É, da para ver. — Ela me olhou de baixo à cima. — O que planeja vestir para o jantar?
Apontei para a roupa que estava usando no corpo e ela riu.
— Qual o problema? — Perguntei, procurando algum buraco no tecido. — Há algo de errado?
— Ora, você me perguntar isso já é um problema. Essas pessoas vão te devorar vivo, menino. Vamos... — Ela envolveu seu braço ao meu. — Vou te ajudar.
Ela era simpática. E, não parecia que eu tinha escolha. Então, fui.
— Obrigado...
— Não há de quê. — Ela sorriu. — A propósito, meu nome é Mercedes Jones.
— Mercedes Jones? — Arregalei os olhos, nunca vira uma foto dela, apenas o nome vagando dentro de jornais junto a imagens e textos referentes a seu marido. — É um prazer conhecê-la! Já li sua história nos jornais diversas vezes, é impressionante...
— Mesmo? — Assenti e ela riu. — E o que toda a minha história de vida te fez pensar, nas vezes em que leu?
— Esperança... Força de vontade... Talvez, um pouco de sorte também. Diga-me, você é diretamente responsável pelos tesouros achados, ou é só o seu marido mesmo?
— É, pode-se dizer que eu tive grande participação nisso.
— Eu sabia!
Mercedes riu.
— Gostei de você, Brittan.
(...)
— Oh, como eu imaginava! — Mercedes comemorou, quando me visualizou vestida com o paletó que ela me dera para experimentar. — Você tem as medidas quase idênticas do meu falecido irmão... Ficou perfeito.
Perder um irmão deveria ser doloroso demais, eu mal conseguia imaginar minha vida sem Sam.
— Sinto muito pelo seu irmão, Mercedes... De verdade.
— Está tudo bem, Brittan. Eu sei que Damian está em algum lugar das estrelas olhando para mim, e enquanto eu me lembrar dele, ele estará vivo... — Ela sorriu e ajeitou minha gravata. — Mas, enfim, agora sim, nos podemos ir ao jantar.
— Tem certeza que não há problemas em me emprestar essa roupa? Eu posso...
— Não há problema algum. Ela é sua agora. Fique tranquilo, eu e Arthur íamos doá-la quando chegássemos a América de qualquer forma. — Ela me analisou com os olhos cerrados, o que me preocupou um pouco. — Por curiosidade, seu irmão tem o mesmo tamanho que você?
— Creio que sim... Ao menos, quase.
— Ótimo, tenho outro paletó sobrando. — Abri a boca para dizer algo, mas ela me interrompeu. — Apenas aceite, por favor.
Sorri, e em seguida ela me trouxe a outra peça de roupa. Só precisava entregá-la a Sam e ir. Mercedes tinha um coração tão bom, não me admirava sua vida ter mudado tanto.
Quando passei para o andar da terceira classe, os outros passageiros abriram espaço para mim, uns até faziam reverência pelo caminho. Não gostava disso, tratamento especial por vestes. Abri a porta do quarto em que repousava e encontrei Sam de pé, usando um de nossos trapos.
— Está pronto?
— Britt?! — Ele veio até mim. — Uau! O que você fez? Roubou algum rico?
— Claro que não... — Eu ri e entreguei o outro paletó a ele. — Esse é seu, vista.
— Onde conseguiu isso? — Ele olhou para a roupa surpreso, esperando alguma resposta sair de minha boca.
— Mercedes Jones nos deu.
— Mercedes Jones? — Sam me encarou. — Sério? Conseguiu achá-la aqui?
— Sim. — Confirmei, suspirando. — Ela é uma pessoa incrível, pena que os jornais a deixam em fragmentos...
— Pois é.
(...)
Com um sorriso, um porteiro nos esperava, do outro lado da vidraça, para abrir a porta do salão de jantar da primeira classe para nós. Com aquelas vestes, eu e Sam nos misturaríamos facilmente com o resto do pessoal. Mercedes sabia disso.
— Boa noite, senhores.
Sorri sem graça para o sujeito e Sam apenas me imitou. Aquele lugar se parecia com um castelo. Como era possível tanto espaço dentro de um navio só? Não era à toa que o Titanic era único. A cada lugar por qual passava, parecia com um planeta diferente.
Descemos algumas escadas, olhando ao entorno admirados. Conforme parei no saguão, comecei a notar que os senhores ali se portavam de uma maneira específica. Tentei imitá-los conforme o tempo, e dei um toque ao meu irmão.
POV Santana
— Ele é uma graça, San.
— É... — Eu ri suavemente, reflexiva. — Sei disso, Quinn.
Graça... Pode ser... Parando para pensar, Brittany realmente tinha um sorriso encantador.
— Ei, que olhar é esse? — Lucy questionou-me, preocupada, chegando perto do espelho. — Não está tento sonhos inapropriados com Brittan, está?
Parei de retocar a maquiagem e franzi as sobrancelhas. Quê? Ela estava pirando.
— Não diga besteiras, por favor. — Pedi, incomodada.
— Não faça isso, é a pior coisa que pode fazer, você vai se casar...
— Não estou fazendo nada Quinnie, é impressão sua.
— Assim espero.
Terminamos de nos arrumar e nos encontramos com os outros, fora do quarto. Sebastian e Maribel, como de costume, andavam à minha frente, conversando sobre futilidades, ao passo que íamos para o salão. Se fossem os dois os noivos, seria tão melhor. Justo. Ninguém poderia contestar. Eles se amavam.
E gostavam das mesmas coisas. Como um par perfeito.
Enquanto eu os odiava e vice-versa.
Se Maribel fosse um pouco mais jovem...
Tanta ironia.
Quinn se situava ao meu lado, livre pela primeira vez, já que Biff pegara um resfriado e estava indisposto a comparecer ao jantar. Sorte dela.
E minha.
Nas escadas do salão de jantar, consegui visualizar Brittany e um rapaz parecido com ela. Fiquei maravilhada como a Pierce estava bonita usando aquele paletó. Tão diferente de seus trajes comuns, não que isso significasse algo.
Sebastian e mamãe passaram pelos irmãos, como se ambos fossem invisíveis. Talvez, não tivessem reconhecido a Brittany, por sua aparência. Eu não consegui tirar os olhos dela. Quando olhei para o lado, vi que Quinn observava o garoto que Brittany trazia consigo, assim como eu olhava para ela.
— Senhoras... Esse é meu irmão, Samuel Pierce. — Brittany apresentou-o, sorridente.
— É um prazer conhecê-las. — O loiro disse, fazendo uma reverência.
— Igualmente. — Eu e Quinn respondemos.
Brittany pegou minha mão, beijando-a sobre a luva.
— Vi isso em um filme e sempre quis fazer. — Ela sussurrou, divertida.
— Quanto cavalheirismo... Acho que se saiu muito bem, para uma primeira vez.
— Obrigado, mas o crédito é todo seu.
Ri, desviando o olhar.
— Posso?
Ela me deu o braço e eu voltei a encará-la, aceitando-a como acompanhante.
— C-claro...
Samuel fez o mesmo com Quinn, e estranhamente, era como se eles já se conhecessem. Caminhamos até onde Sebastian e Maribel estavam, e nos encaixamos no círculo. Cutuquei o braço do Smythe.
— Querido, certamente se lembra do Sr. Pierce. Não?
— Pierce? — Ele parecia surpreso, só faltava cair para trás. — Wow... Incrível! Quase poderia se passar por um cavalheiro de verdade.
Brittany o olhou da mesma forma, sarcástica.
— Quase.
— Extraordinário...
— Ah, esse é seu irmão, Samuel Pierce. — Apresentei-o, antes que ele passasse batido.
— Oh, claro, bem-vindo, Sr. Pierce II. — Ele deu as costas e voltou a envolver o braço ao da minha mãe. — Vamos.
(...)
Eu e Brittany nos separamos de Quinn e Samuel, e ao longo de nossa caminhada, contei um pouco sobre o que sabia dos passageiros da primeira classe para ela.
— Aquela senhora ali, também é chamada de “recém-rica” por conta da origem de seu dinheiro...
— Que termo mais segregador. — A loira comentou.
— Concordo, plenamente. Minha mãe adora usá-lo, é estressante. Falando nisso, tenho uma pergunta para você, Pierce...
Ela olhou para mim.
— Diga.
— Como conseguiu essa roupa? Quer dizer, pensei que fosse da terceira classe...
— Mas, eu sou.
— E então?
— Mercedes doou a mim e a Sam paletós de seu falecido irmão... Ela tem um ótimo coração.
— Ah, sim... Tá explicado. É... Ela tem mesmo.
Subitamente, Mercedes apareceu.
— Santana, Brittan... Acabei de esbarrar com Quinn e seu irmão. Eles têm conversa de sobra, huh? Enfim, há espaço aqui para mais uma dama ser levada à mesa de jantar?
— Claro que há, Cedes... — Eu respondi.
— Com certeza. — A Pierce completou.
Brittany deu o outro braço a Mercedes. E assim, prosseguimos nosso caminho. A Jones ria e acenava para as pessoas, amigavelmente.
— Não tem nada demais, viu Brittan? — Comentou. — Lembre-se: eles amam dinheiro...
— Como amam. — Concordei.
— Para entrar no clube, é fácil. Esclareça para ele, Santana...
— Bom, é só fingir que tem uma mina de ouro na sua cabeça.
— Isso mesmo. — Nós rimos e ela viu alguém. — Ei, Schue!
O homem se virou com o chamado, estava acompanhado de sua esposa e alguma bebida.
— Oh, olá Cedes, bom te ver... Santana.
— Will, Emma, gostaria que conhecessem Brittan Pierce. — Eu disse, sem soltá-la.
Brittany deu um aperto de mão neles.
— Você é um dos Pierces de Massachusetts?
— Não, na verdade, dos Pierces de Wisconsin.
— Ah, sim.
Provavelmente, Brittany estava nervosa. Mas, manteve a pose muito bem ao longo das apresentações que fizemos antes de chegar à mesa. Todos estavam achando que ela era uma de nós. Pierce, “o herdeiro” da fortuna de uma ferrovia qualquer, talvez. Bom, “recém-rico” logicamente, mas ainda sim, um membro da alta sociedade. Como Mercedes. O problema era minha mãe, claro, sempre a denunciando quando podia.
Maribel não cansava de ser chata.
Aliás...
Quinn e Samuel não estavam em lugar algum, me perguntava onde haviam parado.
POV Brittany
No meu devido lugar à mesa, observei a quantidade de talheres a minha frente. Grande parte eu nem sabia da existência até então. Aquilo tudo era exagero. Digo, ao extremo. Os Evans não usavam diversos talheres. Talvez, eles tivessem preguiça.
— Conte-nos como são as acomodações da terceira classe, Sr. Pierce. — Ouvi a mãe de Santana falar, em tom ameaçador. — Dizem que é muito boa, nesse navio. Estamos curiosos para ouvir. Não se acanhe.
Fitei-a, com um sorriso nos lábios.
— São as melhores que já vi na vida, senhora. As camas são confortáveis e... Quase não há ratos.
Todas na mesa gargalharam.
— O Sr. Pierce está se juntando a nós, vindo da terceira classe... — Sebastian deixou claro, tomando um gole de bebida de sua taça. — Ele salvou minha noiva ontem à noite.
— Oh, que bela ação. — Uma mulher disse, sorridente.
— Descobri que o Sr. Pierce é um ótimo artista. — Santana comentou. — Ele foi muito gentil em me mostrar alguns de seus trabalhos hoje.
Sebastian riu.
— Santana e eu temos uma opinião muito diferente do que é arte. Sem querer contestar seu trabalho, Sr. Pierce. Mas, sabe como é a visão das mulheres.
Levantei as mãos, fingindo não estar ofendida. Tão idiota. Santana começou a me enviar sinais com os olhos, enquanto serviam minha comida. Voltei a encarar aquele monte de talher e olhei para Mercedes.
— Todos eles são para eu usar, é? — Cochichei a ela, perdida.
— É só ir de dentro para fora, não tem erro.
— Ah, ok... Obrigado.
— Não precisa me agradecer sempre, estamos no mesmo barco, literalmente.
Eu ri.
— E onde exatamente mora, Sr. Pierce?
Voltei a encarar Maribel.
— No momento, em lugar nenhum. Meu lar está sendo o Titanic mesmo. Depois daqui, dependo da vontade de Deus.
— E como tem recursos para viajar, mesmo?
— Bom, eu ganhei minhas passagens para o Titanic em um torneio de xadrez... Tive muita, muita sorte no jogo. Não havia me preparado, foi uma surpresa... — Olhei para Santana e sorri. — Daquelas inexplicáveis.
— A vida toda é um jogo de sorte. — Um homem à mesa falou.
— Errado... — Sebastian negou, enviando-me um olhar. — Um homem de verdade faz a própria sorte, Noah. Trilha seus caminhos. Não estou certo, Pierce?
Balancei a cabeça. Que cara chato... E que jantar mais careta e sem graça. Será que ele duraria muito mais tempo? Torcia para que não. A comida nem era tão boa aparentemente, não era à toa que Sam tinha desaparecido de vista.
— Acha atraente esse tipo de vida sem raízes, Sr. Pierce? — Maribel questionou.
— Sim, senhora. Eu acho sim. Muito... — Afirmei, ajeitando-me na cadeira. — Minha vida é o aqui e o agora. Quero dizer, eu tenho tudo o que eu preciso bem aqui comigo. Tenho saúde, fé e algumas folhas em branco para desenhar e escrever pela frente. Aprendi que a vida é um presente valioso e sou muito grato por ela, então, desperto e tento fazer com que cada dia meu valha a pena, pois nunca se sabe o que esperar do amanhã.
— Falou bem, Brittan. — Mercedes elogiou.
Noah e Will concordaram.
— Para cada dia valer a pena. — Santana disse, erguendo sua taça para um brinde.
O resto da mesa a acompanhou. Trocamos alguns olhares e eu sorri, tomando um gole do champanhe. Sebastian não estava gostando muito, já eu, estava amando só por isso.
(...)
— Então, o Sr. Jones chegou e tropeçou nos nossos vasos... — Mercedes contava-nos, risonha. — E puff, estávamos sem vasos!
Todos riram, Santana se inclinou na mesa para poder me dizer algo.
— Em seguida, virá o conhaque na sala de fumo.
Um dos grã-finos ergueu-se.
— Cavalheiros, queiram se juntar a mim em um conhaque?
Santana continuou:
— É agora o momento em que eles se isolam e se parabenizam por serem os mestres do universo.
Quanto ego, cruz credo.
— Senhoras, obrigado pelo prazer da sua companhia.
— Santana, posso lhe acompanhar até seus aposentos? — Sebastian perguntou, querendo puxar-lhe a cadeira.
— Não, eu vou ficar. — Ela encarou-o, séria.
Olhei para baixo e terminei de escrever meu bilhete. Levantei e entreguei a caneta que havia pegado emprestado de Mercedes. Depois, olhei para Santana.
— Vem conosco, Pierce? — Alguém chamou, ao seguir a voz notei ser Noah. — Não quer ficar aqui com as mulheres, quer?
Ele riu.
— Não, obrigado. — Neguei, olhando para os lados. — Preciso ir.
— É uma pena.
— Provavelmente, é melhor. — Smythe afirmou, se pondo em minha frente. — Falaremos sobre negócios e política, você não entenderia uma vírgula.
Ele deu-me dois tapinhas no ombro e saiu.
— Pierce, você tem que ir agora? — Santana quis saber.
Aproximei-me dela, me pondo ao lado de sua cadeira.
— Infelizmente, é hora de eu ir remar com os outros escravos... — Santana sorriu, e eu peguei sua mão para beijar, deixando meu bilhete em sua posse, no processo em que fazia. — Boa noite, Santana.
Comecei a me afastar, não queria que fosse óbvio aos que sobraram à mesa.
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