Abrigo
4 Indignação
Notas iniciais
— Só vocês dois hoje? -Hawthorne perguntou, recebendo olhares irritados de Dazai e Chuuya- Oh, é mesmo, vocês dois ainda têm duas semanas de punição. Eu havia me esquecido disso, que tolice minha.
— Tá, tá, vai dar a tarefa logo ou não? -Chuuya reclamou, lançando um olhar feroz na direção do professor. Mal sabia ele que, do ponto de vista do homem, parecia mais com um chihuahua do que um animal selvagem.
O professor sorriu, satisfeito com a frustração do aluno. Voltou um olhar na direção de Dazai, que, como sempre, encarava o pátio através da janela. Suspirou, caminhando até sua mesa e voltando com duas folhas de papel em branco.
— Vocês dois deveriam aproveitar esse tempo juntos para se conhecerem melhor. -O homem disse, pousando duas folhas de papel sobre cada mesa-Pode não parecer, mas vocês dois são bem semelhantes. Dariam bons amigos.
Recebeu dois olhares de nojo.
— Credo.
— Tá louco?
— Bem, a teimosia é igual. -Ele disse, suspirando- Eu quero que vocês escrevam o que acham do outro nesse papel. Não precisam se segurar, já que só eu irei ler o que está escrito. Xinguem o outro à vontade.
Com isso, Nathaniel caminhou até sua mesa, sentando-se e começando a corrigir as provas de sua classe. Chuuya ergueu uma sobrancelha, julgando as táticas “educacionais” do professor. Não conseguia ver como xingar um ao outro iria ajudá-los a se aproximar.
Olhou para Dazai com curiosidade, esperando julgamento nos olhos castanhos.
...
O moreno escrevia na folha com entusiasmo, já tendo preenchido metade da folha. Sentindo o olhar do outro, ergueu a face um pouco, sorrindo debochado para o outro.
Se olhares matassem, Chuuya já estaria desovando Osamu em algum mato.
Começou a escrever em sua folha, quase rasgando o papel com a força que escrevia. Não tinha vergonha em dizer que havia xingado o garoto com todos os palavrões existentes, e quando não havia mais nenhuma forma de xingá-lo, inventou novas palavras feias. Kouyou não estaria nada orgulhosa, mas, como só o professor iria ler...
Continuou escrevendo até o espaço em branco acabar.
— Professor, poderia me dar outra folha? -Osamu perguntou, erguendo um de seus braços. Chuuya o encarou, furioso.
— Hah? O que é que você está escrevendo aí? -Esticou o pescoço, tentando ver o que estava escrito no papel, mas Dazai o cobriu com os braços, olhando para o ruivo com malícia.
— Hmm? Não é da sua conta, sim? -Cantarolou, puxando a folha para mais perto de si.
— Se você está falando de mim, então é da minha conta sim! Passa isso pra cá! -Tentou puxar a folha, mas, novamente, Osamu a afastou.
— Professor! -Cantarolou novamente, uma falsa expressão de inocência em seu rosto- O Chuuya está me provocando de novo.
— Foi você que começou, seu palerma!
— Palerma, eu? Professor, olha isso.
O professor sequer levantou os olhos das provas que corrigia, simplesmente os ignorando. Depois de duas semanas servindo como ‘carcereiro” dos dois, já estava acostumado às brigas e provocações que as duas crianças trocavam entre si.
Osamu sorriu, vitorioso, e Chuuya se irritou mais ainda.
.
— Por que não vai brincar com eles, Ryuu? -Kouyou sugeriu, escondendo sua preocupação com um sorriso amável. O garoto apenas bufou, desviando o olhar para seu colo.
Um pouco mais à frente de onde os dois estavam sentados, Atsushi e uma garota de cabelos rosa, Lucy, estavam sentados, rabiscando em um livro de colorir e conversando aos sussurros. Vez ou outra, olhavam na direção de Kouyou e Ryuunosuke, o garoto com curiosidade, a garota com irritação. Entretanto, sempre que notavam o olhar e o sorriso de Ozaki, desviavam o olhar rapidamente, expressões nervosas em seus rostos.
...Será que era uma mulher tão assustadora assim? Crianças normalmente gostavam dela. Será que aqueles dois apenas sentiam repulsa a qualquer adulto?
Bem, Ryuunosuke não era nenhum adulto. E já sabia que o garotinho de Fukuzawa não sentia medo dele (algo raro!), apesar do incidente de semanas atrás. Então, não havia nada errado em ir brincar com ele, certo?
— Hein, Ryuu? -Insistiu, recebendo um olhar emburrado.
— Não enche. -Ele resmungou, cruzando os braços. -Eles me odeiam. Ele e aquela pirralha.
— Eu duvido que isso seja verdade- Kouyou disse, voltando o olhar na direção das duas crianças. Ambos estavam sorrindo, conversando sobre algo que duvidava que fosse conseguir ouvir mesmo se estivesse por perto- Aposto que os dois são boas crianças. E tenho certeza de que você e o Atsushi-kun conseguiriam ser bons amigos! O Chuuya até me disse que vocês dois já brincaram juntos...
— N-não brincamos! -Ele exclamou, indignado. Kouyou escondeu seu sorriso com a mão, achando adoráveis as bochechas coradas do garotinho. -Ele é tão inútil que não consegue nem montar um castelo de areia, então eu tive que ajudá-lo. E ele ainda o destruiu depois!
Kouyou riu, recebendo um olhar indignado de Akutagawa.
— Eu tenho certeza de que não foi proposital, Ryuu.
— Foi sim.
— Foi nada.
— Foi sim! -Ele insistiu, e Kouyou decidiu parar com suas provocações, percebendo que o garoto estava ficando frustrado demais. Desculpou-se, desistindo da discussão, e Ryuunosuke se acalmou um pouco.
Circulou-o com seu braço, puxando-o para perto e o abraçando de leve. O garoto ficou tenso, relaxando aos poucos e encostando sua cabeça contra o peito de Kouyou. Tinha uma expressão de cansaço e frustração, e a mulher entendia muito bem os sentimentos que a criança estava passando. Ao mesmo tempo que queria ir brincar com as duas crianças, sentia medo de ser rejeitado ou agredido por elas.
Se Kouyou pudesse, pegaria esses sentimentos, colocaria-os em uma caixa e os enviaria para o outro lado do mundo. Mas, como não conseguia fazer nem isso, a única coisa que podia fazer era consolar o garoto e tentar ajudá-lo a superar seus traumas.
Uma sombra caiu sobre os dois, e Kouyou ergueu a cabeça, arregalando os olhos.
— Tudo bem se eu me sentar com vocês? -Fukuzawa Yukichi perguntou, seu tom de voz calmo.
Assentiu, tentando esconder a surpresa. Estava tão preocupada com Akutagawa, que sequer notara a aproximação do homem.
Fukuzawa sentou-se ao lado de Ryuunosuke, que o fuzilou com o olhar. Se notou, o homem simplesmente escolheu ignorar o gesto, muito provavelmente já acostumado a crianças ariscas. Voltou seus olhos azuis na direção das outras duas crianças, sorrindo levemente ao ver que Atsushi não estava sozinho.
Desconfortável com o silêncio, e também curiosa em saber que tipo de homem Fukuzawa era (afinal, ouvira falar dele apenas através de Natsume-sensei e de Ougai), Kouyou começou a falar.
— Ele parece melhor desde a última vez que o vi. -Comentou, acariciando o braço de Ryuunosuke calmamente- Parece menos assustado.
Yukichi concordou, voltando o olhar para Kouyou.
— Ele está progredindo lentamente, mas, sim, está bem melhor.
— Ele veio do norte do país, não é mesmo? Eu lembro de o Natsume-sensei comentar sobre... — Começou, vendo a expressão do diretor se tornar uma menos amigável. A própria expressão de Kouyou se tornou uma menos alegre- Que horror. Eu não entendo como conseguiram fazer aquilo com aquele garotinho...
— Existe muita gente ruim nesse mundo. -Fukuzawa disse, encarando Atsushi com olhos tristes.
— Do que estão falando? -Ryuunosuke perguntou, olhando os dois adultos com curiosidade. Quando os dois olharam para ele, encolheu-se, encostando-se contra Kouyou.
— Não é nada, Ryuu. -O garoto lhe lançou um de seus famosos olhares de “acha que eu sou idiota”, mas Kouyou mudou de assunto, preferindo não expor à Ryuunosuke aquele tipo de história- Ei, Ryuu, por que você não convida o Atsushi-kun para ir lá no orfanato? Eu aposto que se vocês dois se conhecerem melhor, vão poder virar bons amigos!
— Não! -Ele protestou, franzindo as sobrancelhas. De repente, sua expressão mudou para uma tímida, abaixando o olhar- Só se o Dazai-san for também...
— Ora, eu não vejo problema! O que acha, Fukuzawa-san? -Olhou para o homem com um sorriso cúmplice, mas rapidamente fechou a cara ao ver a expressão do homem.
— Eu...Eu acho melhor não. -Ele disse, um pouco desconfortável em ter que negar o pedido da mulher e da criança- O Osamu ainda está se recuperando. Voltar à sua antiga casa tão cedo não irá lhe fazer bem. -Kouyou concordou, lembrando-se das informações que recebera de Natsume-sensei e de Hirotsu ao ser designada para ajudar Mori em sua tarefa como diretor. Viu a expressão de Ryuunosuke se fechar, apertando seu abraço para consolá-lo. – Além do mais, não acho que o Osamu vá ficar muito feliz em deixar o Atsushi ir sozinho. Eles são bem chegados um ao outro...
— Haha, são como dois irmãos, sim? -Kouyou riu, e Yukichi concordou com um sorrisinho no rosto.
— Que besteira...- Ryuunosuke resmungou, transbordando de ciúmes.
Kouyou desviou o olhar, escondendo seu sorriso com a mão para que o garotinho não notasse que o motivo da graça era ele mesmo. Fukuzawa olhou na direção dele, pensativo, e Ryuunosuke iniciou uma competição com o homem para ver quem piscava primeiro. Infelizmente, ele foi o derrotado.
— Ryuunosuke, certo? -Ele disse, finalmente, e Kouyou assentiu no lugar do garoto, que ainda estava emburrado. -Que tal se fizermos o contrário? Você visitar a nossa residência? O que acha?
Akutagawa o olhou com surpresa, seus olhinhos brilhando. Kouyou sentiu seu peito aquecer, feliz em ver aquela expressão rara no rosto do garotinho. Ryuunosuke permaneceu quieto, e Fukuzawa continuou.
— Hoje, a amiga de Atsushi vai ir brincar lá em casa. É uma ótima oportunidade para que vocês três possam se conhecer melhor- Akutagawa fez biquinho, pensativo, e Yukichi continuou- E o Osamu vai estar lá.
Não tinha nem o que dizer. O argumento de que o “ídolo” de Akutagawa estaria lá o havia vencido completamente. Agora, só faltava...
— Hm, Fukuzawa-san? -Chamou-lhe a atenção, continuando com calma- O Chuuya poderia ir também? Para ser sincera, eu estou um pouco desesperada com ele...Desde que se mudou para a escola, a única coisa que faz é se meter em problemas, e ele se recusa a sequer tentar fazer amigos! -Fukuzawa assentiu, incentivando a mulher a continuar falando- Eu sei que ele pode parecer agressivo, mas é um garoto muito bom. E ele se dá muito bem com crianças menores! O que eu estou querendo dizer é que...Eu estava pensando em tentar aproximar ele e o Dazai-kun. O que o senhor acha?
Os dois se encararam por um breve momento, Kouyou tentando adivinhar o que se passava na mente daquele homem de expressão intimidante. Por fim, Fukuzawa assentiu.
— Creio que é uma boa ideia. -Disse, voltando o olhar para Atsushi e Lucy, cuidando-os à distância- Osamu também está passando por dificuldades. Um amigo lhe faria bem.
Kouyou suspirou, escondendo a parte inferior de seu rosto com a manga do quimono. Ryuunosuke, ao seu lado, bufou. Yukichi continuou quieto, inexpressivo. Provavelmente era o trio mais aleatório de que Ozaki já fizera parte.
Naquele momento, Osamu e Chuuya entraram no pátio, caminhando na direção do trio. Nakahara parecia prestes a esganar o outro, e Dazai o encarava como se fosse um pedaço de bosta. Bem, pelo menos era engraçado observar os dois, Kouyou pensou.
— E aí, Ane-san* -Chuuya cumprimentou, aproximando-se do trio. Bagunçou os cabelos de Akutagawa, que guinchou indignado- Pirralho.
— Imbecil.
— Chega! -Kouyou repreendeu-os, sentindo uma dor de cabeça se formar- Chuuya, cumprimente o Fukuzawa-san.
O ruivo encarou o homem com estranhamento, as sobrancelhas franzidas. Olhou-o de cima a baixo, como se analisasse se tal pessoa realmente merecia uma saudação. Como é possível que uma criança seja tão mal educada?
— Oi... -Murmurou, por fim.
Fukuzawa cumprimentou-o com um aceno de cabeça, curvando-se um pouco. Chuuya desviou o olhar, um pouco desconfortável com toda a educação do homem. Não estava acostumado a ser respeitado por adultos (com exceção de Kouyou, obviamente).
O homem poupou a criança do desconforto, voltando o olhar para as outras três crianças, que se aproximavam. Dazai estava de mãos dadas com Atsushi, e Lucy estava agarrada ao braço do amigo, encarando o quarteto (principalmente Ryuunosuke) com hostilidade.
Yukichi sorriu, erguendo-se do banco e se agachando em frente às crianças menores. Atsushi encarou-o com surpresa, mas não se encolheu, o que já era um grande progresso. Lucy, no entanto, escondeu-se atrás do amigo, desconfiada.
— Olá, crianças. -Cumprimentou-os, afagando de leve os cabelos brancos de Atsushi- Estão prontos para ir?
Atsushi assentiu, silencioso. Osamu concordou, ignorando a existência do outro grupo, que os observavam discretamente. Lucy continuou quieta, tentando decidir se o diretor era amigo ou inimigo.
Fukuzawa ergueu-se, pegando as mochilas de Atsushi e Lucy. Voltou a atenção para Kouyou, que também se ergueu.
— Vamos indo, então. -Disse, oferecendo sua mão para Atsushi, que a apertou de leve- A que horas eu devo levar os garotos de volta?
— Hm? Oh, de jeito nenhum, Fukuzawa-san! -Kouyou disse, rindo- O senhor já irá levá-los agora. Deixe que eu os busco mais tarde.
Chuuya e Osamu encararam os dois adultos, tentando entender o diálogo que se seguia.
— Eles têm alguma alergia? Algum remédio que precisam tomar?
— Não, nada. Está tudo bem se eu os buscar às 19 horas? Uma das outras crianças tem horário marcado no dentista hoje, então eu fiquei de levá-la...
— Sem problemas.
Hm? Hm? Como assim?
Os dois garotos trocaram olhares, desconfiados.
— Certo!
Kouyou exclamou, juntando as palmas das mãos. Abraçou Ryuunosuke com força, dando um beijo molhado em sua bochecha. O garoto se afastou rapidamente, vermelho de vergonha e de raiva. Chuuya achou graça da situação, até que ele teve de passar pelo mesmo. Ser tratado igual um bebê na frente de outras crianças era humilhante.
— Vocês dois se comportem, viu. Não causem problemas para o Fukuzawa-san. E nada de brigar com as outras crianças!
Como assim, porra?!
Dazai lançou um olhar desesperado na direção de seu responsável, implorando por uma explicação.
Kouyou e Yukichi trocaram olhares, achando graça da situação.
— Chuuya e Ryuunosuke irão passar a tarde lá em casa. -Disse, lançando um olhar na direção das duas crianças. Chuuya estava de olhos arregalados e queixo caído, e Ryuunosuke alternava entre olhar para Dazai com expectativa e olhar para Atsushi e Lucy com hostilidade. -Por isso, façam o seu melhor para recebê-los bem, sim?
— O quê?! – Todas as crianças, com exceção de Akutagawa e Atsushi, exclamaram, indignadas.
Kouyou e Yukichi apenas suspiraram, ignorando os protestos infantis.
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