Notas iniciais
Postei dois dias antes do prazo de um mês, ô que linda eu sou Musica: Hurricane - MS MR

Era horário de almoço, e o refeitório estava abarrotado de gente. Kirk não se lembrava da última vez que o havia visto tão cheio, parecia que todos os tripulantes haviam escolhido a mesma hora para deixar seus postos. A quantidade de indivíduos era tanta que havia fila para retirar a comida, mesmo com os 10 replicadores disponíveis no refeitório. Ainda havia três pessoas á frente do loiro, além de McCoy, que não parara de reclamar desde que entrara no recinto e avistara a fila.

– Não é possível essa demora, pelo amor de Deus. Tem algo errado com esses replicadores? Porque aposto que até a minha avó cozinhando seria mais rápida do que essas máquinas estúpidas. – Resmungava o médico, quase bufando. Kirk resistiu a um ímpeto de revirar os olhos; já havia perdido a conta da quantidade de vezes que o outro reclamara da fila somente naqueles 15 minutos em que haviam chegado.

Ouviu Spock respondê-lo cordialmente detrás de si. – Estou certo que os replicadores estão funcionando corretamente, Doutor. A equipe de reparos analisou-os há cinco dias, e não reportaram nenhum dano ou mal funcionamento. – Não precisava olhar para saber que ele nem ao menos desviara o olhar de seu PADD*, ao qual não se desgrudara a manhã inteira. McCoy apenas olhou-o por cima do ombro, murmurando algo ininteligível antes de voltar a reclamar.

– Só pode ser sacanagem, então. Meu estômago está quase se corroendo, andem logo. Se essa demora continuar vou marcar a cara de todo mundo, e vocês vão ver quando precisarem fazer alguma coisa na enfermaria. – Falou um pouco mais alto do que o habitual, e o tom de ameaça que usou fez Kirk rir.

– Deixa de ser mentiroso, Bones. Todo mundo sabe do seu coração mole. – O loiro disse, tentando entrar no clima ao usar seu melhor tom brincalhão.

– Cale a boca, homem! Quer me desmoralizar? Estou tentando adiantar nosso lado aqui. – O moreno se virou um pouco de lado, apenas o suficiente para dar uma cotovelada amigável no braço de seu capitão.

– Tá bom, como quiser. – Respondeu, erguendo as mãos até a altura de seus ombros, com as palmas viradas para o moreno. – Vou fingir que seu segredo está seguro comigo. – Finalizou com o comentário que lhe rendeu mais uma cotovelada.

Não soube ao certo se foi só um acaso ou se as ameaças de McCoy surtiram efeito, mas depois daquilo a fila parecia estar andando realmente mais rápido. Menos de 10 minutos haviam se passado quando chegou à vez de Kirk, e ele não fazia ideia do que escolher para comer. Ultimamente até a melhor das comidas parecia insossa e enjoativa, por mais que ele se esforçasse. Sabendo que no final não faria diferença, optou pelo prato padrão de bife com batatas fritas e um suco de laranja, encaminhando-se para a mesa onde seu amigo havia sentado.

McCoy estava tão entretido com seu prato de espaguete que nem pareceu notar quando Kirk se sentou a sua frente na mesa. Os olhos do moreno só deixaram seu prato alguns minutos depois, após dar um longo gole no que quer que estivesse bebendo, quando foram do loiro ao lugar vazio na outra ponta da mesa.

– Ué, cadê o duende de sangue verde? Achei que ele iria te seguir enquanto comia também, está o dia inteiro atrás de você com aquele PADD.

– Ah, pare de implicância, ele só está fazendo o trabalho dele. Logo chegaremos a Betazed IV**, a equipe de ciências tem que estar bem organizada. – Sem ao menos tomar consciência, os olhos azuis de Kirk sondaram rapidamente o refeitório, a procura da figura de seu primeiro oficial. Não demorou a avistar o cabelo brilhante e bem arrumado, destacando-se dos outros pela altura, a apenas algumas mesas depois da sua. Uhura estava ao seu lado, obviamente, mas toda a atenção do Vulcan estava voltada para o PADD em sua mão esquerda.

– Hm, esses Vulcans... Ele não larga o trabalho nem para comer, credo. – O médico havia se virado para seguir o olhar de kirk até o outro, e observado os mesmos fatos que ele. Voltou à atenção a sua comida logo depois. – Mas quanto à missão, como estamos? Ainda vai demorar muito para chegarmos? Ficar enfiado naquela enfermaria o dia todo me deixa desinformado. – O médico perguntou, enquanto girava o garfo em meio aos fios do macarrão.

– Como desinformado? Pedi que Chekov fizesse um relatório em canal aberto para toda a nave no início desse turno, onde você estava que não ouviu? – Uma das sobrancelhas de Kirk se ergueu em estranhamento, antes de levar um pedaço de bife à boca.

– Ok, eu lembro de ter ouvido vagamente a voz dele pelos transmissores, mas não prestei muita atenção. Estava ocupado com uma tripulante da engenharia que teve queimaduras de quase terceiro grau com algum fluido de motor. – Interrompeu-se por um momento para apreciar uma garfada de sua comida, voltando a falar após terminar de mastigar. – Ela chegou com quase todo o braço queimado, me deu bastante trabalho.

– Poupe-me dos detalhes, Bones. Ainda pretendo terminar de comer. O loiro adiantou-se antes que o outro se empolgasse com o assunto e alguns detalhes sórdidos escapassem. – Não costumava se importar muito com esse tipo de assunto, mas dado seu estado atual qualquer coisa era motivo para que perdesse o apetite. – Mas ficou tudo bem, certo? Com a tripulante.

– Ah, ficou, não se preocupe. Dei dispensa médica a ela pelo resto do turno, mas no próximo já poderá voltar a suas atividades. Coloquei isso no meu relatório, você vai ver quando for lê-lo. – Kirk concordou com a cabeça, apoiando o cotovelo esquerdo sobre a mesa. Apoiou o rosto sobre a mão e seus olhos pousaram sobre seu prato, onde movia distraidamente algumas fritas de um lado para o outro.

– Sobre a missão, Sulu confirmou que chegaremos a Betazed IV depois de amanhã. É uma missão simples de exploração, você sabe. Spock está selecionando uma pequena equipe para descer a superfície, estudar alguns espécimes, recolher amostras de solo, água, talvez algum tipo de componente da flora, esse tipo de coisa. A maior parte do grupo será da equipe de ciências, mas eu estava pensando em levar um médico também, para o caso de algum imprevisto acontecer. – Deu de ombros, ainda com a atenção voltada para o prato de comida. Pouco menos de metade do bife ainda estava lá, e as batatas quase não haviam sido tocadas.

– Entendo, é bom prevenir. Mando uma indicação junto com meu relatório, se quiser. Você vai descer também?

– Vou. Talvez não tenha necessidade, por ser apenas uma missão exploratória, mas é a primeira desde que deixamos a terra, e isso é um acontecimen... – A voz de Jim morreu quando um grito irrompeu pelo refeitório, sobrepujando o volume das conversas despreocupadas dos tripulantes. Vários pares de olhos procuravam por toda a sala pela origem do som, quando McCoy percebeu, no fundo da sala, um grupo de novos recrutas se agitava.

Os olhos escuros do médico se estreitaram em direção ao grupo. Dois dos garotos (ele preferia chamar de garotos, pois era provável que eles apenas um ou dois anos mais velhos que Chekov) estavam sentados no banco da mesa, rindo. Um deles tentava se conter, mas o outro deixava que suas gargalhadas quase histéricas fluírem livremente. Ao lado deles, uma menina, com aparentemente a mesma idade, estava de pé, e tentava nervosamente alcançar algo nas costas de seu vestido do uniforme. Com alguma dificuldade, ela conseguiu chegar ao que procurava, e tirou de dentro do vestido algo que, a distância, parecia ser uma pedra de gelo. Ela olhou em volta, e, reparando que a atenção de metade do refeitório estava voltada a ela, sentou-se rapidamente na mesa, com o rosto completamente vermelho. McCoy chegou a vê-la dar um tapa no ombro de um dos meninos sentados à mesa, e não conseguiu conter uma risada.

– É, parece que teremos que ficar de olho nesses novatos. Eles vieram com a corda toda, heim, Jim? – Qualquer resquício de sorriso abandonou o rosto do médico quando seu olhar recaiu sobre a figura de seu capitão. Ele estava com os pulsos apoiados na mesa, as mãos fechadas em punho com tamanha força que era possível vê-las tremer. Os ombros estavam retraídos, a musculatura visivelmente tensionada. Não dava para ver o rosto do loiro por inteiro, pois ele o havia virado quase completamente para baixo, mas era possível notar os olhos apertados com força.

– Hey, Jim, o que aconteceu? Você está bem? – As sobrancelhas do médico estavam franzidas em nítida preocupação, e sua pergunta se respondeu sozinha quando o outro levantou um pouco rosto, dando uma visão melhor ao moreno. Jim tinha perdido toda e qualquer cor, a palidez de sua pele era quase cadavérica. O ritmo respiratório do loiro devia estar duas vezes mais acelerado do que o normal, seu peito subia e descia em inspirações descompassadas.

Ele queria abrir os olhos, mas não conseguia. A partir do segundo em que aquele grito penetrou seus tímpanos, uma descarga tão grande de adrenalina fora despejada em sua corrente sanguínea que ele quase não tinha mais controle sobre si mesmo. Sua mente fora bombardeada por imagens desconexas do momento em que a Enterprise estava caindo, e era como se tudo estivesse acontecendo de novo.

– E-Eu...Eu estou bem... Sua voz era um leve sussurro rouco que não queria deixar sua garganta, mas ele tentou continuar, mesmo assim. – Estou bem...Só preciso...Só... – Levou à mão esquerda a testa, pressionando as têmporas. Uma gota de suor surgia do limite entre sua testa e a raiz do cabelo, escorrendo pela lateral do rosto. A cabeça latejava violentamente, e seu coração parecia que iria estourar sua caixa torácica a qualquer minuto.

– Bem o inferno, vamos pra enfermaria agora. – Jim chegou a negar, mas McCoy não parecia disposto a ouvir. O médico levantou da sua cadeira, andou até o lado do loiro e tentou ajudá-lo a levantar, mas teve o gesto negado.

– Eu consigo levantar sozinho, Bones...Calma. – A última coisa que queria era chamar atenção, e sair carregado do refeitório, cheio como estava, não era uma boa forma de ser discreto.

Juntou todos os cacos de coragem que conseguiu encontrar para abrir os olhos. "A nave não está caindo, as pessoas não estão morrendo. Você não está morrendo. Está tudo bem. Relaxa..." Repetia as palavras como um mantra, na tentativa de acalmar a loucura que trasbordava por seu corpo.

O loiro apoiou a mão sobre a mesa e, dividindo o peso, levantou. Seu estômago se contorceu em uma ânsia devastadora quando se pôs de pé, mas conseguiu controlá-la. Olhou em volta, e quando teve certeza de que ninguém prestava atenção neles, olhou para McCoy. O médico o fitava com as sobrancelhas ainda ridiculamente franzidas, em uma carranca apreensiva, pronto para ampará-lo, se precisasse. O loiro fez um movimento com a cabeça, indicando a saída, e eles começaram a andar.

Kirk tentava fazer cada passo parecer mais natural quanto o anterior, e parecia estar tendo êxito. Porém, quando estava a míseros passos da saída algo ultrapassou o limite de sua consciência, e por um segundo ele estava no inferno novamente. Uma tontura o atingiu como um raio, ele temeu que suas pernas perdessem a força e ele fosse direto ao chão. Se McCoy não estive ali para ampará-lo, estava certo de que teria caído.

O loiro fechou os olhos com força, somente por meio segundo. O suficiente para suprimir uma onda de raiva por demonstrar tamanha fraqueza perante sua tripulação. Raiva, vergonha, impotência, medo, pânico...E lá estava o inferno de novo.

Voltou a caminhar, quase desesperado agora, com McCoy no seu encalço. Precisava sair daquele lugar, sair da vista das pessoas, precisava fugir dali o mais rápido possível, precisava de ar.

O que Kirk não percebeu era que um par de olhos o seguia fixamente desde que levantara de sua cadeira. Um par de olhos cor de chocolate, que sempre estudavam minuciosamente tudo que viam e nunca deixavam que um detalhe escapasse. E o dono desse par de olhos deixou pra trás seu acento, seu almoço e seu PADD apenas alguns minutos depois de seu capitão ter deixado o recinto.

~

McCoy guiou Jim até sua sala privada logo que entraram na enfermaria, sentou-o em sua cadeira e saiu, dizendo que iria pegar algumas coisas. O loiro se acomodou no acento, sentindo o estofado macio o acolher como num abraço, e, após fechar os olhos, tentou se concentrar apenas em respirar. O médico voltou em menos de dois minutos, mas Kirk não fez questão de abrir os olhos. Sentiu a aproximação dele, e pode ouvir, mesmo com aquele zumbindo insistente em seu tímpano, os sons incômodos que seu tricoder fazia ao checar seus sinais vitais.

– Por deuses, Jim. Seus batimentos estão duas vezes acima do normal e a sua pressão está 15 por 10, preciso te dar um sedativo. – O loiro abriu os olhos a tempo de vê-lo retirar um hypospray** da bolsa que havia trazido, acoplando uma ampola de alguma substância a ela.

– Não, você não vai aplicar nada em mim. Eu já estou melhorando, só me dê um tempo. Não posso dormir agora, tenho que voltar para a ponte, ainda estamos no meio do turno.

– É um sedativo leve, você não vai dormir, só vai ficar mais calmo. – Ele continuou quando viu Kirk o olhar desconfiado – Estou dizendo a verdade, droga. Anda, me deixe aplicar isso antes que seu coração exploda. – O capitão resmungou algo baixo, mas inclinou a cabeça um pouco para a direita, o suficiente para que o médico tivesse espaço suficiente para aplicar o sedativo diretamente em sua jugular. O loiro contraiu ligeiramente as sobrancelhas com o incômodo momentâneo, mas ele cessou tão logo a agulha fora retirada de sua pele.

McCoy olhou no relógio do computador da sala, depois se sentou na única cadeira vazia do cômodo. Era uma sala pequena, e quase não tinha móveis. Era apenas a poltrona onde Kirk estava sentado, uma mesa de computador, entre ela e outra cadeira, uma estante com alguns aparelhos e um vaso de plantas. O médico cruzou os braços, recostou-se no encosto da cadeira e apenas esperou, ainda observando atentamente seu capitão.

Kirk já começava a se sentir melhor, e agradecia mentalmente pelo efeito dessas injeções ser tão rápido. Podia sentir o ritmo das batidas de seu coração se acalmar, ao mesmo tempo em que seus músculos começavam a relaxar gradativamente. Alguns minutos depois já não era difícil respirar, e ele se permitiu fartar seus pulmões em um suspiro tão longo quanto aguentava.

O médico checou o horário no relógio mais uma vez, e quando viu que já dera tempo suficiente para o sedativo fazer efeito, pegou seu tricoder para conferir novamente os sinais vitais de Jim.

– Pronto, você está estabilizando agora. Já pode começar a me dizer o que foi que aconteceu. – McCoy guardou o aparelho na bolsa, e voltou a se sentar em frente a Jim, que não parecia nada confortável com o assunto. Não conseguia formular nenhuma explicação descente para o surto que tivera, sentia-se como um animal acuado. Foram longos minutos de um silêncio opressivo antes do loiro conseguir falar alguma coisa.

– Eu só...Só me assustei, só isso. Eu sei que foi uma reação muito exagerada, mas eu não estou numa boa semana. – Não ousou olhar para o médico, sabendo o tamanho do absurdo que falava. Sabia que não iria funcionar, e teve certeza quando ouviu a voz do moreno, que soava quase ofendido.

– Jim, nem mentir mais você consegue. – Ele chegou a abrir a boca para continuar falando, mas o som da porta o impediu. – Mas que droga, eu disse que não era pra me interromper. – Resmungou, irritado, enquanto se dirigia ao comunicador da porta. E quando apertou o botão para responder ao chamado, sua voz soava tão irritada quanto sua expressão.

– McCoy aqui, quem é? Estou ocupado agora.

– Dr. McCoy, tenho conhecimento de que o Capitão Kirk está com você, e tenho alguns assuntos a tratar com ele. Gostaria que autorizasse minha entrada. – Era voz de Spock do outro lado, e doutor não pode deixar de amaldiçoar suas enfermeiras que não conseguiam segurar a língua dentro da boca. Ele virou para Jim, como que perguntando o que faria, e o loiro balançou a cabeça nervosamente de um lado ao outro, em uma nítida negativa. McCoy suspirou.

– Sinto muito, Sr.Spock, mas nesse momento estamos em meio a uma reunião. O Capitão o procurará assim que terminarmos. – Não esperou que Spock engolisse de primeira, mas não custava tentar.

– Não fui informado que o capitão participaria de nenhuma reunião nesse horário, houve alguma emergência?

– Não, Sr. Spock, não houve nenhuma emergência. É uma reunião de caráter pessoal, e o capitão está em seu pleno direito, já que ainda estamos em horário de almoço. Seus assuntos são tão urgentes que não podem esperá-lo voltar para a ponte? Juro que o devolvo em no máximo meia hora. – O Vulcan ficou em silêncio do outro lado, e McCoy quase riu imaginando a expressão que seu amigo de sangue verde deveria estar fazendo naquele momento.

– Vou ignorar sua tentativa de humor humano, Dr.McCoy. Diga ao capitão que aguardo contato quando encerrar sua reunião. – E desligou.

– Mas ele realmente não te deixa em paz, heim? – O moreno lanço a frase no ar enquanto voltava a sentar à mesa, em frente a um Jim extremamente apreensivo.

– Não sei, ele geralmente não me persegue assim. Será que ele percebeu algo no refeitório?

– O que? O seu susto? Achei que não era nada de mais. – Seu tom tinha alguns resquícios de ironia, e Jim os captou com perícia. O loiro desviou os olhos, forçando a mandíbula.

– E não é. Só não quero ninguém preocupado comigo. – Sentiu o médico estreitar o olhar sobre si, e soube que não estava levando a conversa para um bom caminho.

– Se não é nada de mais, porque alguém ficaria preocupado com você?

– Que merda, Bones! Chega desse joguinho de palavras. – Uma onda de irritação fez com que o loiro falasse alto de mais, e McCoy arqueou as sobrancelhas, um tanto surpreso com o quão súbito foi aquilo. O outro balançou a cabeça, apertou os olhos e massageou as têmporas por alguns segundos, enquanto um ofego evadia por seus lábios. Quando voltou a olhar para o médico, ele o mirava com olhos repletos de preocupação.

– Desculpe, ok? Olha, agradeço pelo remédio, mas acho melhor eu ir. Depois nos falamos. – As palavras saíram atropeladas, enquanto Kirk já se levantava da mesa, encaminhando-se para porta quase como um animal em fuga. Mas antes que pudesse chegar a seu destino, McCoy estava na sua frente, as sobrancelhas franzida quase ao limite.

– Escute, Jim. Você não está nada bem, e não é de agora. Você acha que eu não percebo essas olheiras enormes embaixo dos seus olhos? Acha que percebo que você quase não tem comido nas refeições? Que tem tomado susto com qualquer coisa, vive irritado, e está se afundando cada vez mais no trabalho? O que esta acontecendo com você não é nada bobo, e pode piorar, você sabe disso. – Kirk não conseguiu manter o contato visual com o amigo enquanto despejava aquela avalanche de verdades em seus ombros, elas eram pesadas de mais. Eram uma carga que já estava ficando exausto de carregar, e ele sabia disso. Mas existia uma infinidade de porém que não permitiam que ele se desfizesse delas, e McCoy tocou em um deles quando voltou a falar. – Depois de tudo que você passou, ter problemas assim é normal. Deixe-me te ajudar. Posso contatar uma amiga minha que é especializada em casos como o seu, podemos te conseguir um afastamento provisório se precisar e...

– Não! Não preciso de nenhum afastamento, eu já disse que estou bem. – A irritação agora não vinha em uma onda, mas sim em um tsunami. Se não havia gritado antes, estava gritando agora. – Chega, não preciso da sua ajuda, nem da ajuda de ninguém. Não há nada de errado com a minha cabeça, e eu vou provar isso.

Mal terminara a última palavra e já estava fora sala, sem dar a mínima possibilidade de réplica a McCoy. Mesmo já estando longe da enfermaria, suas pernas não paravam de se mover rumo a qualquer lugar. Sua mente dava voltas e voltas, imersa em um misto de raiva e incerteza, de medo e necessidade.

Não era a McCoy, nem a ninguém, que tinha que provar que sua mente não estava entrando em colapso; era a si mesmo. Tentava se convencer disso todos os dias quando vestia sua máscara cotidiana, mas essa ideia enfraquecia com cada lembrança, cada pesadelo, cada suadouro ou aperto no peito. Ela era dilacerada todas as noites, e nas manhãs Kirk tentava debilmente juntar seus cacos, mas a cada dia era como se um pedaço se perdesse.

Mas o ser humano tende a ser portador da doença da persistência, mesmo na mentira. E foi em meio a um delírio causado por essa enfermidade que uma centelha de esperança se acendeu, na forma de uma ideia um tanto radical. Existiam riscos, mas a consciência do belo Capitão teimava em escondê-los debaixo de uma grossa camada de algo que poderia ser chamado de coragem; ou talvez ignorância fosse à palavra mais adequada.

Seu plano fora colocado em prática ainda naquele dia, ao final de seu turno. A engenharia era pouco movimentada naquele horário, o que era um fator a se considerar. Algo dizia a Kirk que se ele conseguisse enfrentar o local onde tudo aquilo começara, tudo voltaria a ser como era antes. Sua lógica era sólida, no final das contas.

Porém ele, mais do que todos, sabia que lógica não era tudo; principalmente quando falamos de seres humanos. E ele relembraria disso mais cedo do que pretendia.

Ainda estava longe do reator quando o desconforto começou. "É só uma tremedeira, vai passar. Eu vou conseguir". Logo a tremedeira já balançava todo seu corpo, o ar parecia denso de mais para adentrar suas narinas e as luzes nunca estiveram tão claras. A cada passo seu coração bombeava sangue com mais força, quase como se quisesse estourar de suas mais largas artérias até os menores vasos capilares.

Só faltava um corredor para chegar à sala do reator, só mais alguns passos. Contudo, suas pernas congelaram, enraizadas no metal tão fundo que nem a maior força do universo as tirariam do lugar. Os olhos se fecharam com firmeza quando a visão não conseguia mais focar corretamente, e ele temeu que quando os abrisse não soubesse mais distinguir a realidade das fantasias lúgubres de sua mente. E novamente, ele estava em pânico.

Um arrepio balançou todo seu corpo, e ele sentiu seus olhos queimarem com uma umidade incômoda enquanto aquele sentimento devastador contaminava até a última de suas células. O ar lhe faltava cada vez mais, e alguma coisa gritava que se ficasse mais um segundo ali, iria morrer.

A simples menção dessa palavra foi a gota dágua.

Quando deu por si, estava em seus aposentos. Seu corpo se imprensava no espaço entre sua cama e o chão, em posição fetal, tão apertado contra si mesmo que era como se quisesse se encolher até desaparecer completamente. Não sabia como havia chegado ali, e não queria ter que sair dali nunca mais.

E aquilo tudo era tão assustador, que quase se permitiu chorar. Quase se permitiu perder as esperanças, quase se permitiu desistir, quase se permitiu enlouquecer.

Quase.

Ainda existia um fio de autocontrole, e era esse quase. Pois se persistência fosse realmente um doença, James T. Kirk já não teria nenhuma célula sã em seu corpo.

Notas finais
* Personal Access Display Device. É praticamente um computador de mão, usado pra fazer registros e coisas assim. Um personagem que já apareceu usando um é o Scott, no Into Darkness, na cena em que ele deixa seu cargo na Enterprise por causa da discussão com Kirk sobre os torpedos. **Já existe um planeta chamado Betazed no universo de Star Trek, mas eu não queria inventar um nome qualquer e correr o risco de ficar ridículo(?), então só adicionei um IV pra diferenciá-lo do outro. *** Hyposprays (ou simplesmente Hypo) são os aplicadores de medicamentos no universo de Star Trek. São parecidos com seringas, mas não são descartáveis e a medicação é acoplada nele, e pode ser trocada facilmente. McCoy usa um deles em Star Trek 2009 quando aplica a vacina, a qual Kirk tem alergia, para que o amigo possa entrar na Enterprise. Não teve fanart nesse capítulo porque meu período na faculdade está acabando com a minha vida, mas nas férias vou fazer um esforço pra fazer várias lindas Ah, favor deixar aquele review esperto quando terminar de ler, juro que sua mão não vai cair, você vai fazer de mim uma autora mais feliz e, de quebra, ainda vai ser um lindo