Saio do escuro estado de sono, incomodado pela luz que entra pela janela e não é detida pela fina cortina branca que voa com o vento que passa por ela. A luz que me incomoda é a mesma que me honra com uma imagem graciosa com os cabelos soltos, pousada em meu travesseiro. Passo a mão delicadamente por aqueles cabelos, sentindo sua maciez e textura, capturando o cheiro deles em minhas mãos. Sua dona se move de uma forma tão deusa, mas não abandona seu sensual estado de sono.

Por ciúmes resolvo tê-la pra mim, tirando-a disso, aspirando o cheiro de seus sedosos cabelos, tão calmamente a ponto de salvá-lo na memória. Desço mais, passando lentamente meu rosto pela lateral do seu, a fim de sugar toda a informação de suas curvas faciais e o viciante cheiro de sua pele, que estava sendo passado pra mim. Meus pensamentos dançam com todos os pedaços dela, que insisto em captar, me enlouquecem.

Distribuo-lhe sensíveis beijos, permitindo aos meus lábios, a pequena pressão de pressionar pedaços de sua pele e experimentar seu suave e doce gosto. Delicio-me com a posição do seu corpo ante mim, me encaixo em suas costas, sentindo as curvas, esplendorosas como as cores do quadro da Tarsila, sinto-as como a brisa da praia, elas como as ondas do mar de uma calma tarde. O cheiro da pele tentadora, tão dela quanto ela era do cheiro, perturbava-me a sanidade, eu era um dependente, então volto com meu rosto para a parte nua de seu ombro.

Surge assim o som do seu sorriso, que faz o meu, aparecer em resposta, mais um aliado na busca, meu sorriso em sua pele e minha mão em suas coxas.

Magneticamente, seu corpo começa a virar-se à procura do meu, se pondo de frente. É irresistível não selar um beijo naquele sorriso matinal sem palavras. Após o beijo, tão seco quanto o vinho da noite anterior, ela me apresenta um espetáculo particular, sua silhueta nua contra a luz da mesma janela que me acordara, meu blusão cai-lhe lentamente sob o corpo. Tão quieta, tão linda, tão sensual... ela some das minhas vistas.

Procuro meu senso encaminhando-me à cozinha, as músicas, as imagens e as sensações da noite anterior trilhando caminho até lá, com a paz de quem fez amor, eu tenho que fazer o café. Então, seu corpo surge atrás do meu, se escorando e encaixando suas curvas nas minhas. Suas mãos pequenas e macias procuram a geometria do meu tórax, nosso ritual pele-a-pele continuava, só que dessa vez com papéis invertidos, isso deliciosamente continua até...

Café pronto! Ela em uma falsa inocência para suas carícias e senta-se como se nada tivesse acontecido, eu a acompanho. Com ares de indecência, enche sua xícara com café, lança-me um olhar devorador por cima da xícara, a desce até a altura de seu queixo e desenhando as palavras com os lábios e voz rouca, surge: “Bom Dia”.



Notas finais
Música do capitulo: Samba e Amor - Chico Buarque http://www.youtube.com/watch?v=mOdcBOJVy9c http://www.youtube.com/watch?v=BFFkc7LjdYQ